sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Poeta

fabian perez

A vida do poeta tem um ritmo diferente 
É um contínuo de dor angustiante. 
O poeta é o destinado do sofrimento 
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza 
E a sua alma é uma parcela do infinito distante 
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende. 

Ele é o etemo errante dos caminhos 
Que vai, pisando a terra e olhando o céu 
Preso pelos extremos intangíveis 
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida. 
O poeta tem o coração claro das aves 
E a sensibilidade das crianças. 
O poeta chora. 
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes 
Olhando o espaço imenso da sua alma. 
O poeta sorri. 
Sorri à vida e à beleza e à amizade 
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam. 
O poeta é bom. 
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras 
Sua alma as compreende na luz e na lama 
Ele é cheio de amor para as coisas da vida 
E é cheio de respeito para as coisas da morte. 
O poeta não teme a morte. 
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa 
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério. 
A sua poesia é a razão da sua existência 
Ela o faz puro e grande e nobre 
E o consola da dor e o consola da angústia. 

A vida do poeta tem um ritmo diferente 
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu 
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.


Vinícius de Moraes 

A inquietude da roseira




A roseira em seu inquieto modo de florescer 
Vai queimando a seiva que alimenta seu ser. 
Prestai atenção nas rosas que caem no rosal: 
Tantas caem que a planta morrerá deste mal! 
Não é adulta a roseira e sua vida impaciente 
Se consome ao dar flores precipitadamente.


 Alfonsina Storni
lauri blank

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.
Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guia
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.
Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói 
nos cardos deste sol de morte viva.
Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva


José Gomes Ferreira

Christina Nguyen 


Chove?... Nenhuma chuva cai... 
Então onde é que eu sinto um dia 
Em que o ruído da chuva atrai 
A minha inútil agonia? 

Onde é que chove, que eu o ouço? 
Onde é que é triste, ó claro céu? 
Eu quero sorrir-te, e não posso, 
Ó céu azul, chamar-te meu... 

E o escuro ruído da chuva 
É constante em meu pensamento. 
Meu ser é a invisível curva 
Traçada pelo som do vento... 

E eis que ante o sol e o azul do dia, 
Como se a hora me estorvasse, 
Eu sofro... E a luz e a sua alegria 
Cai aos meus pés como um disfarce. 

Ah, na minha alma sempre chove. 
Há sempre escuro dentro em mim. 
Se escuto, alguém dentro em mim ouve 
A chuva, como a voz de um fim ... 

Quando é que eu serei da tua cor, 
Do teu plácido e azul encanto, 
Ó claro dia exterior, 
Ó céu mais útil que o meu pranto? 


Fernando Pessoa

In Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues, 1944 
Ed. Confluência, Lisboa (3.ª ed. Livros Horizonte, Lisboa, 1985)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Corpo


Belarmino Miranda
 
Corpo corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo


Al Berto, O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

A delicada majestade

Helene Beland

Um dia poderás chegar, tu que nunca chegas
porque não és um tu
ou porque chegas sempre em não chegares.
Subi um dia por uma escada silenciosa
e em torno era um pomar branco, tranquila maravilha
e eu senti, eu vi, adivinhei
a divindade amada, a soberana e delicada
majestade. Que suavidade de oriente,
que suave esplendor! Era o fulgor de um sono
límpido, entre olhos verdes, entre mãos verdes.
E num repouso de oiro adormecido era quase um rosto
Antiquíssimo e inicial. Contemplava
a quietude de um imenso nenúfar
e a fragrância era quase visível como um mar entreaberto.
Era um rio detido ou uma tersa nuca ou um braço estendido
que descansa entre ribeiros primaveris
ou era antes a serena felicidade
e era uma boca da terra que não cantava que não dizia
o silêncio ardente que no peito de espuma cintilava.


António Ramos Rosa, em "Acordes". Quetzal Editores, 2ª ed., 1990.

A origem

 
 Brita Seifert


O prazer proibido consumou-se.
Eles se erguem do leito e, sem falar-se,
vestem-se à pressa.
Saem da casa em separado, às escondidas; vão-se
um tanto inquietos pela rua, como se
temessem que algo neles revelasse
em que espécie de leito possuíram-se.

Mas, do artista, como a vida se enriquece!
Amanhã, no outro dia, anos depois, serão escritos
os versos que aqui têm sua origem.


Konstantinos Kaváfis 

"O tempo passa, Virgínia"




O tempo passa, Virgínia,
os dias e as noites
passam tão rapidamente
que só sentimos o voo.
Quando os anos marcam
nosso corpo,
com as dobras, as veias,
as rugas, o saber sobre as coisas enobrece.
Caminhos percorridos
às vezes adiados
nem sempre contados.
Memória do viver.

Vera Casa Nova:
"Versos". In: Restos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

Os sentimentos vastos não têm nome



 Os sentimentos vastos não têm nome. Perdas, deslumbramentos, catástrofes do espírito, pesadelos da carne, os sentimentos vastos não têm boca, fundo de soturnez, mudo desvario, escuros enigmas habitados de vida mas sem sons, assim eu neste instante diante do teu corpo morto. Inventar palavras, quebrá-las, recompô-las, ajustar-me digno diante de tanta ferida, teria sido preciso, Lucas meu amor, meus 35 anos de vida colados a um indescritível verdugo, alguém Humano, e há tantos indescritíveis Humanos feito de fúria e desesperança, existindo apenas para nos fazer conhecer o nome da torpeza e da agonia. Mas indigno e desesperado me atiro sobre o vidro que recobre a tua cara, e várias mãos, de amigos? de minha filha adolescente? de meu pai? ou quem sabe as mãos de teus jovens amigos repuxam meu imundo blusão e eu colo a minha boca na direção da tua boca e um molhado de espuma embaça aquela cintilância que foi a tua cara. Grito. Gritos finos de marfim de uma cadela abandonada tentando enfiar a cabeça na axila de Deus. De uma cadela sim. Porque as fêmeas conhecem tudo da dor, fendem-se ou são desventradas para dar à luz e eu Lucius Kod neste agora me sei mais uma esquálida cadela, a morte e não a vida escoando de mim, musgos finos pendendo dos abismos, estou caindo e ao meu redor as caras pétreas, quem são? amigos? minha filha adolescente? meu pai? teus jovens amigos? Caras graníticas, ódio mudo e vergonha, palavras que vêm de longe, evanescentes mas tão nítidas como fulgentes estiletes, palavras de supostos éticos Humanos:

 Constrangedor  Louco   Demente
 Absurdo        Intolerável

Ducente Deo começo estes escritos deveria ter dito. Tendo Deus como guia, começo estes escritos deveria ter dito.


 Hilda Hilst in: Rútilo Nada

Via satélite


O aço do seu braço era inox
Dulcíssimo seu whisky on the rocks
E eu te amava assim
Por puro carmesin, dizia ai de mim
Quem somos nós?

Na cama a doce entrega do relax
Nós nos beijamos da cabeça aos pés
Somos essas pessoas desiguais
Querendo sempre mais coisas e tais
Tentando desatar todos os nós

Sua voz me chega através da TV
Te vejo e você não é você
Há entre nós o vidro da notícia
A transmissão transforma sub-reptícia, subfiltragem
Pessoa em personagem
E te reflete mas você não é.

Somos famosos e absolutamente estranhos
E sempre que pensamos que nos damos
Há em nós os que pensam que somos
A estética da reportagem, presídio
Da imagem, ótica do vídeo
Espécie da miragem.

E nós que mal nos conhecemos e gostamos
Pensamos na delícia de uma viagem.


Bruna Lombardi
O perigo do dragão, Rio de janeiro, Record, 1984, p. 41


"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. Trata-se de jogos; é preciso primeiro responder. E se é verdade, como quer Nietzsche, que um filósofo, para ser estimado, deve pregar com o seu exemplo, percebe-se a importância dessa reposta, porque ela vai anteceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso ir mais fundo até torná-las claras para o espírito. Se eu me pergunto por que julgo que tal questão é mais premente que tal outra, respondo que é pelas ações a que ela se compromete. Nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico. Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranqüilidade assim que viu sua vida em perigo. Em certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia o risco da fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente."

*
"Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. 'Acho que tudo está bem', diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe".


Albert Camus, in: O Mito de Sísifo.


Adeus às armas



Não concordo com o que dizem por aí. O que fizemos neste verão não foi inútil.
Calei-me. Eu sempre me embaraçava com as palavras sagrado, glorioso, sacrifício e inútil. Nós as
tínhamos escutado muitas vezes, de longe, debaixo da chuva, quando só as palavras mais gritadas
eram ouvidas, e as tínhamos lido em proclamas pregados nas paredes, sobre outros proclamas. Mas
não víamos nada sagrado em torno, e as coisas gloriosas não mostravam glória nenhuma. Os
sacrifícios seriam como os dos matadouros de Chicago, só que lá fazem outra coisa com a carne que,
aqui, enterramos. Havia muitas palavras que já não suportávamos — e por fim só os nomes dos
lugares tinham dignidade. Certos números, nomes e datas eram tudo o que poderíamos pronunciar
com alguma significação. Palavras abstratas, como glória, honra, coragem, sagrado, eram obscenas,
ao lado dos nomes concretos das cidades e rios, dos números dos regimentos e das datas.


Ernest Hemingway, Adeus às armas

Livro do desassossego [31]




O relógio que está lá para trás, na casa deserta, porque todos dormem, deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é noite. Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue, jazo na sombra, que o luar vago dos candeeiros da rua torna ainda mais desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho.

Nem sei pensar, do sono que tenho; nem sei sentir, do sono que não consigo ter.
Tudo em meu torno é o universo nu, abstrato, feito de negações noturnas. Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafísico do mistério das coisas.

Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida quotidiana boiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir. Outras vezes, acordo de dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espetáculo sem ruídos. Não tenho os olhos inteiramente cerrados. Orla-me a vista frouxa uma luz que vem de longe; são os candeeiros públicos acesos lá em baixo, nos confins abandonados da rua.

Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse!… Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar vasto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse!… Cessar, ser incógnito e externo, movimento de ramos em áleas afastadas, tênue cair de folhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva!… Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeixa de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do caminho… O absurdo, a confusão, o apagamento — tudo que não fosse a vida… E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o reflexo longínquo dos candeeiros mudos da rua.

Durmo e desdurmo.

Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Ouço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contato de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece — não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!
Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.
Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto.
Posso deixar-me à vida, posso dormir, posso ignorar-me… E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras, que canta segunda vez.


Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
Livro do desassossego