terça-feira, 30 de dezembro de 2008

XXVIII - O guardador de rebanhos

Henry Guillaume Schlesinger

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A menina e moça

Jeune Beauté, detail, by Max Nonnenbruch (1857-1922).


Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem coisas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

Outras vezes valsando, e o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri.

Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.

Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!

Ah! se nesse momento alucinado, fores
Cair-lhes aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar dos teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!


Machado de Assis

sábado, 27 de dezembro de 2008

Monólogo de uma Sombra


Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras…
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.

Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
– Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma
– O metafisicismo de Abidarma —
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.

A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!
Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.
Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!
Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem.

E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!
E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mosrtrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!
Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!
E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
– Engrenagem de vísceras vulgares —
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares.

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!…
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável dos micróbios!
Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomita exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo…
Como que, em suas clélulas vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.
Brancas bacantes bêbadas o beijam.

Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazer domeretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.
No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta…
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.
Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!
Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candeeiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
– Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sangüinárias
Que ele tem praticado na família.
As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam…
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!
Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!
Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca…
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!
Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressãoda dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
– O homicídio nas vielas mais escuras,
– O ferido que a hostil gleba atra escarva,
– O último solilóquio dos suicidas —
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”
Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre daveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!
Era a elegia panteísta do Universo,
Na produção do sangue humano imenso,
Prostituído talvez, em suas bases…
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
até que minha efêmera cabeça,
Reverta à quietação datrava espessa
E à palidez das fotosferas mortas!


Augusto dos Anjos

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

"Hoje me sinto livre em relação ao meu passado e ao que perdi. Só quero esse aperto e esse espaço fechado — esse fervor lúcido e paciente. E como o pão quente que se aperta e que se reduz a nada, eu quero apenas ter minha vida nas mãos, como aqueles homens que souberam encerrar suas vidas entre flores e colunas. E ainda essas longas noites de trem nas quais se pode falar consigo mesmo e se preparar para viver, de si para si, e a paciência admirável de retomar ideias, apanhá-las em sua fuga, e ainda avançar.
Lamber a vida como um torrão doce, moldá-la, afiá-la, amá-la enfim, como se busca a palavra, a imagem, a frase definitiva, aquilo ou aquela que conclui, que detém, com o que se partirá e que fará dali em diante todo o colorido do nosso olhar. Eu bem que poderia parar aí, encontrar finalmente o termo de um ano de vida desenfreada e louca.
Essa presença de mim diante de mim mesmo — meu esforço é de levá-la até o limite, mantê-la diante de todas as faces de minha vida, mesmo ao preço da solidão, que eu sei agora o quanto é difícil suportar. Não ceder: tudo está aí. Não consentir, não trair. Toda minha violência me ajuda nisso e, no ponto em que ela me leva, meu amor me reencontra e, com ele, a furiosa paixão de viver que dá sentido aos meus dias.
Sempre que cedemos (que eu cedo) às próprias vaidades, sempre que pensamos e vivemos para 'parecer', nos traímos. Todas as vezes, sempre foi a desgraça de querer parecer que me diminuiu diante do verdadeiro. Não precisamos nos entregar aos outros, mas somente àqueles que amamos. Pois nesse caso não se trata mais de se entregar para parecer, mas somente para oferecer. Quando é necessário, um homem tem muito mais força do que parece. Ir até o limite é saber guardar seu segredo. Eu sofri por ser sozinho, mas, por ter guardado meu segredo, venci o sofrimento de ser sozinho. E hoje não conheço maior glória do que viver sozinho e ignorado.
Escrever, minha alegria profunda! Consentir ao mundo e ao prazer — mas somente no desnudamento. Eu não seria digno de amar a nudez das praias se não soubesse ficar nu diante de mim mesmo. Pela primeira vez, o sentido da palavra felicidade não me parece duvidoso. É um pouco o contrário do que se entende pelo banal 'eu sou feliz'.
Certa continuidade no desespero acaba por gerar a alegria. E os mesmos homens que, em San Francisco, vivem diante de flores vermelhas, têm em seu aposento o crânio que alimenta suas meditações, com Florença na janela e a morte sobre a mesa. Em minha opinião, se eu me sinto em um ponto decisivo de minha vida, não é por causa do que adquiri, mas do que perdi. Sinto que tenho uma extrema e profunda força. É graças a ela que devo viver, da maneira como desejo.
Se hoje me encontro tão distante de tudo, é porque não tenho outra capacidade além de amar e admirar. Vida com a aparência de lágrimas e sol, vida sem o sal e a pedra quente, vida como eu gosto e desejo, me parece que ao acariciá-la, todas as forças do desespero e do amor me conjugarão.
Hoje não é como uma hesitação entre sim e não. Mas hoje é sim e é não. Não à revolta diante de tudo o que não são lágrimas e sol. Sim para minha vida da qual sinto pela primeira vez a promessa por vir. Um ano fervilhante e desordenado que termina e a Itália; a incerteza do futuro, mas a liberdade absoluta diante de meu passado e de mim mesmo. Aí está minha pobreza e única riqueza.
É como se eu recomeçasse a partida; nem mais feliz nem mais infeliz. Mas com a consciência das minhas capacidades, o desprezo das minhas vaidades e essa febre, lúcida, que me lança diante do meu destino."


Albert Camus
 15 de setembro de 1937
Se se pusesse em um prato da balança o mal que os “puros” espalharam sobre o mundo e no outro o mal proveniente dos homens sem princípios e sem escrúpulos, é o primeiro prato que inclinaria a balança. No espírito que a propõe, toda fórmula de salvação erige uma guilhotina... Os desastres das épocas corrompidas têm menos gravidade do que os flagelos causados pelas épocas ardentes; a lama é mais agradável que o sangue; há mais suavidade no vício que na virtude, mais humanidade na depravação que no rigorismo. O homem que reina e não crê em nada, eis o modelo de um paraíso da decadência, de uma soberana solução da história. Os oportunistas contemporâneos, não da Revolução e de Bonaparte, mas de Fouché e de Talleyrand: faltou à versatilidade destes apenas um suplemento de tristeza para que nos sugerissem com seus atos uma Arte de viver. Às épocas dissolutas cabe o mérito de haver desnudado a essência da vida, de nos haver revelado que tudo não passa de ‘farsa’ ou ‘amargura’, e que nenhum acontecimento merece ser embelezado, já que é necessariamente execrável. A mentira enfeitada das grandes épocas, de tal século, de tal rei, de tal papa... A “verdade” só é vislumbrada nos momentos em que os espíritos, esquecidos do delírio construtivo, deixam-se arrastar pela dissolução das morais, dos ideais e das crenças. Conhecer, é ‘ver’; não é nem esperar nem empreender. A estupidez que caracteriza os cumes da história só tem equivalente na inépcia de seus agentes. Se levam até o fim os atos e os pensamentos é por uma falta de finura. Um espírito liberado tem aversão à tragédia e à apoteose: as desgraças e as palmas o exasperam tanto quanto a banalidade. ‘Ir longe demais’ é dar seguramente uma prova de mau gosto. O esteta tem horror ao sangue, ao sublime e aos heróis... Só aprecia ainda os farsantes.

EMIL CIORAN ,‘Genealogia do Fanatismo’, in: “Breviário de Decomposição”

domingo, 21 de dezembro de 2008

Deus Abraâmico e Antropocentrismo


Estamos em época de festas religiosas. Aproxima-se o Natal, uma celebração de nascimento, vida, paz e amor que, contudo, se dá em meio a uma mesa farta em cadáveres. Nesta época também se dá também a peregrinação a Meca, um dos deveres dos muçulmanos, e dentre os ritos desta peregrinação, o sacrifício de animais como meio de reviver o auto-de-fé do patriarca Abraão que, prestes a sacrificar seu próprio filho em nome de Deus, teve este sacrifício impedido no último minuto pela “infinita bondade e misericórdia” divina e, no lugar do filho, sacrificou um cordeiro.

Para leigos, teocentrismo e antropocentrismo são fenômenos distintos. Assim aprendemos na escola: que a Idade Média foi a era do teocentrismo, quando a vida girava em torno da religião, e esse teocentrismo foi abalado pela Renascença, que deu lugar para o humanismo e o antropocentrismo, tão bem resumido no monólogo de Shakespeare:

“Que obra-prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Como é infinito em faculdades! Em forma e movimentos, como é expressivo e admirável! Nas ações, como se parece com um anjo! Na inteligência, como se parece com um deus! A maravilha do mundo! O padrão de todos os animais! E contudo, para mim, o que é esta quintessência do pó?” (William Shakespeare, Hamlet, cerca de 1600).

Na verdade, a questão é muito mais complexa que isso. A fé monoteísta de judeus, cristãos e muçulmanos é, de fato, uma das maiores manifestações do antropocentrismo no pensamento humano, como a própria história de Abraão mencionada acima pode comprovar - esta como outras passagens do Antigo Testamento - e, também, uma breve análise de preceitos básicos do monoteísmo judaico, cristão e islâmico.

As passagens da Bíblia sobre a relação com os animais são às vezes contraditórias, e não sendo eu teólogo, não me atrevo a tentar fazer uma interpretação exaustiva e profunda. Basta constatar que a maioria esmagadora da humanidade tem da Bíblia o mesmo conhecimento limitado que eu. E a leitura que esses seres humanos leigos fazem da Bíblia tem levado à justificação do seu domínio sobre os demais animais.

Limitemo-nos, então, ao mais óbvio: a afirmação, no Gênesis (logo, base das três religiões abraâmicas) de que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Não importa se tomamos essa frase no sentido literal (como fizera Michelangelo em sua famosa representação de Deus da Capela Sistina) ou no sentido figurado, geralmente considerado o teologicamente mais correto, de que somos feitos à imagem de Deus porque espelhamos suas qualidades, sua bondade, sua sabedoria, seu amor (teria sido o pecado que teria afastado o homem de Deus e levado à sua natureza imperfeita).

Essa passagem reflete a idéia de que o ser humano é especial, distinto das demais “criaturas”, e portanto apto a reinar sobre elas - aqui também cabe destacar o poder de “reinar” ou “tutelar” os animais que o Gênesis atribui ao ser humano, também variando de acordo com as interpretação. De qualquer modo, se temos uma natureza divina (ao menos em parte), somos superiores aos demais seres, que sequer alma têm - apenas nós podemos aspirar à vida eterna. Ora, se Deus nos dá uma natureza especial, divina, e nos permite reinar sobre a natureza e os outros animais, fica nítido o conteúdo antropocêntrico do monoteísmo das três religiões abraâmicas.

O antropocentrismo religioso fica mais nítido ainda quando paramos para refletir quem é, afinal, o criador, e quem é a criatura. Não havendo qualquer indício, prova ou evidência lógica e racional da existência de Deus, é justo imaginar que o criador é, muito possivelmente, o ser humano. É o ser humano quem cria deuses à sua imagem e semelhança. Por isso os deuses são tão humanos: capazes de extrema bondade, mas também de atos cruéis e vingativos - e quem já leu o Antigo Testamento sabe que crueldade e vingança não são atributos específicos dos deuses pagãos. O ser humano cria deuses para afirmar sua própria natureza divina.

Nem todas as religiões são tão marcadamente antropocêntricas. As religiões politeístas têm, muitas delas, deuses com aparência de animais não-humanos. Isso porque, em geral, estes animais espelham valores ou qualidades que os seres humanos vêem (ou gostariam de ver) em si mesmos. A crença de religiões orientais na reencarnação, comum, por exemplo, ao hinduísmo, o taoísmo, o budismo e o jainismo, afirma uma integração cósmica em que nenhum ser pode ser considerado superior a outro. Não surpreendentemente, estas religiões estendem aos demais animais os preceitos de não-violência, quando não defendem explicitamente o vegetarianismo. Claro, essa questão não pode ser vista de forma reducionista. Essas divindades e crenças ainda são criaturas humanas e, portanto, antropocêntricas em grande medida. A não-violência preconizada pelas religiões originadas na Índia, por exemplo, é defendida porque almas humanas podem habitar o corpo de animais não-humanos, os quais ainda são vistos como formas de vida menos evoluídas. Não obstante, trata-se de um antropocentrismo menos “radical” que resulta em alguma forma de reconhecimento e respeito pelas outras formas de vida.

O mesmo não pode ser dito das religiões abraâmicas. Nelas, o ser humano separa os demais animais da divindade e da espiritualidade. E não se torna surpreendente que são essas culturas as que mais desrespeitam, exploram, vilipendiam dos demais animais e da natureza como um todo. Particularmente o cristianismo, a única que não reconhece qualquer tipo de dever direto do ser humano sobre os demais animais - a compaixão por eles é vista como benéfica, mas não obrigatória - e apenas se observada moderadamente, pois excessiva preocupação com animais não-humanos sugere um desmerecimento ao ser humano, que deve ser a preocupação central do bom cristão; a crueldade com animais somente é condenada na medida em que indica um endurecimento do coração e a propensão do indivíduo a ser cruel com outros seres humanos.

O monoteísmo abraâmico - ao menos no cristianismo e no islamismo - optou por dividir a natureza humana em duas: a boa e a má, e as separou nas figuras de Deus e do Diabo (Satanás). As aspirações morais do ser humano se tornaram aspirações divinas e a violação das mesmas, atos pecaminosos. Muito freqüentemente os atos imorais são qualificados como bestiais, ou seja, típico das bestas, das feras, dos animais não-humanos. Assim, ao mesmo tempo atribuem nossa moralidade a uma entidade externa - Deus - e nossos desvios morais às “feras” a quem Deus e sua “moralidade” é inalcançável e até oposta. Desse modo, nós acabamos afirmando não apenas nossa superioridade sobre os animais, mas também nos separando totalmente desses. Os animais têm “instintos”, nós “razão” e “sentimento”, os quais vêm de Deus, e só tangível a nós, que temos alma e fomos criados à sua imagem e semelhança. Isso é não apenas uma negação da nossa própria condição de animais, mas igualmente a negação aos animais não-humanos da posse de qualquer atributo tido como humano, o que mostra que as religiões abraâmicas, além de antropocêntricas, são especistas. Especismo que foi estendido às ciências (cuja origem não está apartada da fé), sob o mito dos animais como seres “autômatos”, “irracionais” e puramente instintivos, que embora já refutada pelos próprios critérios da ciência, continuam fortes no subconsciente coletivo ocidental.

O Deus abraâmico é um Deus antropocêntrico e especista, especialmente na sua versão popular expressa pela maioria esmagadora daqueles que nele crêem. Por isso, nesta época, os cristãos celebram o Natal, data símbolo da paz, do amor, do nascimento do Messias, matando animais em massa e comendo suas carcaças, sem qualquer indício ou resquício do amor e compaixão que é a pedra fundamental de sua fé.


http://vista-se.com.br/site/

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Al Saralis 


o seio como parte da boca
o toque como parte do olhar
o respirar como parte do ar
o  dançarino como parte da dança
a língua como parte do dente
o desejo como parte do gozo
o poema como parte do todo
a vagina como parte do pênis

e o teu espanto
como parte do medo


        Nicolas Behr

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Quero desculpar-me junto ao leitor por ter ousado dizer, em tão poucas páginas, tantas coisas novas e de compreensão difícil. Estou pronto a receber sua crítica, porque considero que a todo aquele que, afastando-se do caminho comum, se dispuser a abrir trilhas próprias, tem o dever de comunicar à sociedade tudo quanto encontrou em suas viagens de exploração: se foi água fresca para alívio dos sedentos ou apenas os desertos de areia do equívoco estéril. O primeiro serve para ajudar, o segundo para prevenir. Mas não é a crítica particular de cada um dos contemporâneos, mas os tempos vindouros que vão decidir, se é verdade ou não, tudo isso que acaba de ser descoberto. Existem coisas que ainda não são verdade, ou que hoje ainda não podem ser aceitas como verdade, mas amanhã talvez possam sê-lo. Quem for assim conduzido pelo destino terá que trilhar esses caminhos próprios, apenas apoiado pela esperança e pelo olhar atento daquele que está consciente do seu isolamento e dos abismos que o ameaçam. O que singulariza o caminho aqui descrito é em grande parte a certeza de não podermos continuar recorrendo unicamente ao ponto de vista científico-intelectual, mas de que o nosso compromisso também compreende todo o lado do sentimento, isto é, a totalidade das realidades contidas na alma — já que lidamos com uma psicologia fundada na vida real e que age sobre a vida real. Nesta psicologia prática, não se trata da alma humana universal, mas de homens e mulheres individualizados, cada qual com uma variedade de problemas que os aflige diretamente. Uma psicologia que satisfaz somente ao intelecto por si só nunca será capaz de abranger a totalidade da alma. Quer queiramos, quer não, mais cedo ou mais tarde o fator cosmovisão terá que ser levado em conta, porque a alma está em busca de sua totalidade.


Carl Gustav Jung, Psicologia do Inconsciente

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Último Poema

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Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Manuel Bandeira

Le soleil

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Le long du vieux faubourg, où pendent aux masures
Les persiennes, abri des sécrètes luxures,
Quand le soleil cruel frappe à traits redoublés
Sur la ville et les champs, sur les toits et les blés,
Je vais m'exercer seul à ma fantasque escrime,
Flairant dans tous les coins les hasards de la rime,
Trébuchant sur les mots comme sur les pavés
Heurtant parfois des vers depuis longtemps rêvés.
Ce père nourricier, ennemi des chloroses,
Éveille dans les champs les vers comme les roses;
II fait s'évaporer les soucis vers le ciel,
Et remplit les cerveaux et les ruches le miel.
C'est lui qui rajeunit les porteurs de béquilles
Et les rend gais et doux comme des jeunes filles,
Et commande aux moissons de croître et de mûrir
Dans le coeur immortel qui toujours veut fleurir!

Quand, ainsi qu'un poète, il descend dans les villes,
II ennoblit le sort des choses les plus viles,
Et s'introduit en roi, sans bruit et sans valets,
Dans tous les hôpitaux et dans tous les palais.

***

O Sol

Pela velha ruela onde, sob os tetos,
Persianas abrigam prazeres secretos,
Quando o sol tão cruel lança raios iguais
Sobre cidade e campo, casas e trigais,
Vou só, a praticar minha excêntrica esgrima,
Em tudo farejando os acasos da rima,
Tropeçando em palavras e no lajeado,
Achando o verso há tanto tempo sonhado.

Este pai que alimenta, inimigo do alvor,
Desperta no jardim o verme e a flor,
Faz com que se evaporem as tristes idéias,
Enche de mel os cérebros e as colméias;
Remoça os que sofrem de doenças antigas,
Tornando-os alegres como raparigas,
E manda a plantação crescer e produzir
No imortal coração que sempre quer florir!

Quando, igual ao poeta, ele desce à cidade,
Até às coisas vis ele dá majestade,
E entra como um rei, sem pompa ou serviçal,
Em cada palácio e em cada hospital.


Charles Baudelaire

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A poesia de Marly de Oliveira

Foto de casamento de Marly de Oliveira, tendo como padrinhos Clarice Lispector e Manuel Bandeira

"O enfoque dado por Marly de Oliveira ao mito do Narciso, difere dos enfoques de poetas anteriores, como Ovidio, Valléry e Mallarmé, mais presos à versão tradicional da mitologia, ou seja, Narciso um dia se vendo refletido no espelho das águas, apaixona-se por si mesmo, e afoga-se na fonte, à beira da qual nasce a flor com seu nome.
Para Marly, Narciso ao se mirar no espelho das águas se vê para além da sua imagem: seria o Eterno, a Beleza? E a isso, diz o poeta, ninguém subsiste. Em uma visão religiosa, Deus é o Transcendente, o Para lá desta ordem de coisas. Segundo a frase da Bíblia, não se pode ver a Deus sem morrer" (Lauro Moreira)

ALGUNS POEMAS DE EXPLICAÇÃO DE NARCISO:

1. Que outros continuem vendo
teu esgarçado sorriso
sobre tuas próprias ondas
feitas fonte e paraíso.
Dizem que o cristal das águas
era teu rosto prateado,
e julgam que teu segredo
já foi todo desvendado.
Mas eu sei que outros desígnios
te dobraram sobre ti,
e obedeceste a uma lei
que não tem princípio ou fim.
Para além de tua imagem
E de ti mesmo, te viste.
Eras o eterno, a beleza?
E a isso ninguém subsiste.

2. Eu pastava meus rebanhos
Pelas campinas sem fim.
Mas me chamaram Narciso,
teria que ser assim.
Por mais que houvesse caminhos,
todos trariam a mim.
A fonte de águas veladas,
o cerco e assombro do dia,
e as águas me refletindo
no seu dorso cristalino,
mesmo que não existissem
não fugira ao meu destino.
E mesmo que não pastasse
pelos campos minha grei.
Mesmo que fosse adivinho,
profeta, mendigo ou rei,

pois aprouve aos deuses que eu
no nome trouxesse a Lei.

3. Diante de mim, nestas águas
quem sou, que não me preciso?
Ai, que sonho tão temível
assim me turva o sorriso?
Que amor, que presságio cingem
a cabeça de Narciso?
A que secretos poderes
se confia minha sorte,
se o que frágil vejo na água,
em mim se torna mais forte,
e onde sei que está a vida
encontram todos a morte?
Entre mistérios tão vastos
que breve instante que somos!
De repente descobrimos
que estamos. Mas onde? e como?
Por mais que nós nos dobremos
sobre nós e o que já fomos,
à inútil pergunta nossa
somente o eco responde.
E diante outra vez de nós
estamos. Há quem nos sonde?
E de que espaço ou que tempo
nosso eco responde? de onde?

9. Os duendes luminosos e feridos
chegaram levemente com seu jeito
de renas silenciosas cor da tarde
que morre pouco a pouco no meu peito.
E tudo tudo se confina e diz-me
que estou só como nunca assim brilhante
em uníssona voz que mudo escuto
à margem dessa morte e desse instante.
Eu me busquei essa aventura triste
de estar comigo e com meu pensamento,
essa forma de amor que vai matando
o mundo para mim e em mim o tempo.
De ser como o coral ou como o mármore
que se faz de esperança e eternamente,
e de deixar que o coração se vare
por uma luz safírica de duendes.

10. Quem soube das estepes gloriosas
ou dos campos vazios que sofreu
em seu silêncio e seu martírio o amor,
esse ouropel, esse húmus, essa morte? Eu.
Há quem enfrente um céu flechado e mudo
como um trevo, uma palma que se dá
à miragem deserta e solitária
das heras e dos muros e crepúsculos? Há.
És a ninfa tardia das moradas
onde por sempre a sombra começou
e o silêncio jogou raízes de água
no coração das pedras e dos musgos? Sou.
Companheira noturna destas grutas
onde o sumo do tempo se fez jade,
nas luzes que o futuro vai forjando
há de ter fim as sombras destas tardes? Há-de?

19. Consomem-se os lauréis da minha vida
em quatro dias, quatro eternidades
memoráveis de esperas e de lutas
contra mim mesmo e o tempo que me cabe
com seu noturno archote e muda flama,
e este silêncio, que é de amor ainda,
rastejando seus males e o infortúnio
contra um redor de festas e vindimas.
Um céu pressago sobre mim desaba
seu manto esquivo azul com mãos tão frias
que o coração e tudo em mim naufraga
avaramente, e logo se aniquila,
como a sombra que em sombra se desata.
E estou tão só que a solidão cintila.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008


Flama soberba essa, era a vontade visível. O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homem há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências piscam o olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão dos pensamentos tímidos.
Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: _ Perseverança. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso é Colombo, no segundo caso é Jesus. Insensata é a cruz, vem daí a sua gloria. Não deixar discutir a consciência nem desarmar a vontade, é assim que se obtêm o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não inclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes.
Perecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. Podeis dar a Estevão todas as boas razões para que ele não se faça apedrejar. O desdém das objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama o martírio.

Victor Hugo
Trecho do livro “Os trabalhadores do mar”

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Universo é o Sonho de um Sonhador Infinito


1. Não conhecemos senão as nossas sensações. O universo é pois um simples conceito nosso.
2. O universo porém - ao contrário de e em contraste com, as nossas fantasias e os nossos sonhos - revela, ao ser examinado, que tem uma ordem, que é regido por regras sem excepção a que chamamos leis.
3. À parte isso, o universo, ou grande parte dele, é um «conceito» comum a todos os que são constituídos como nós: isto é, é um conceito do espírito humano.
4. O universo é considerado objetivo, real - por isso e pela própria constituição dos nossos sentidos.
5. Como objetivo, o universo é pois o conceito de um espírito infinito, único que pode sonhar de modo a criar. O universo é o sonho de um sonhador infinito e omnipotente.
6. Como cada um de nós, ao vê-lo, ouvi-lo, etc., cria o universo, esse espírito infinito existe em todos nós.
7. Como cada um de nós é parte do universo, esse espírito infinito, ao mesmo tempo que existe em nós, cria-nos a nós. Somos distintos e indistintos dele.
8. A «Causa imanente», como é definida, tem que, ao criar, criar infinitamente. Em si mesma é infinita como uma, extra-numericamente; nos seres é infinita como inúmera, numericamente. Num caso é o indivisível, no outro infinitamente divisível. As almas são pois em número infinito.
9. Tudo o que é criado é infinito, pois a Causa Infinita não pode criar senão infinito. Por isso tudo material, se tudo de natureza oposta à Causa Infinita, é infinitamente divisível e multiplicável (eternidade do tempo, infinidade do espaço). Só pode criar finitos em número infinito. Por isso tudo espiritual, isto é, não-espacial, como é da natureza da Causa, é indivisível. É portanto imortal.


Fernando Pessoa, ' Textos Filosóficos'

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Manuel Bandeira



Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar

Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"

Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.


Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Quando o circo perde a graça


No picadeiro, leões e tigres pulam com destreza uma argola em chamas. Um chimpanzé anda na bicicleta, e um elefante equilibra-se com agilidade sobre o banquinho. As crianças riem e os pais ficam satisfeitos com o espetáculo. O que essas pessoas não sabem, contudo, é que o tigre e o leão tiveram suas garras e presas arrancadas, para se tornar menos perigosos, passam fome e contraíram aids felina depois de ser alimentados com carne de gatos de rua. Que o macaco foi totalmente castrado, teve os dentes arrancados e os olhos cegados para se submeter ao treinador. E que o elefante, para aprender a equilibrar-se no banco, foi espancado, agredido com uma lança e passou dias amarrado pelas patas, sem poder se mexer. As cenas descritas são comuns em muitos circos do Brasil e do mundo e despertam a preocupação de ambientalistas, que mobilizaram a população e o poder público para aprovar uma lei federal que proíba o uso de bichos nos espetáculos.