domingo, 31 de agosto de 2008

Vista Cansada


Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê


Otto Lara Resende

(Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008




Autora: Clarice Lispector
Intérprete: Maria Bethânia
Esse vídeo foi editado e retirado do programa Panorama da TV Cultura tendo Gastão Moreira como apresentador.

E eis...
...que em breve nos separaremos
E a verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia
Eu agora sei, eu sou só
Eu e minha liberdade que não sei usar
Mas, eu assumo a minha solidão
Sou só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa
Guardo teu nome em segredo
Preciso de segredos para viver
E eis que depois de uma tarde de quem sou eu
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero
Eis que as três horas da madrugada, acordei e me encontrei
Fui ao encontro de mim, calma, alegre, plenitude sem fulminação
Simplesmente eu sou eu, e você é você
É lindo, é vasto, vai durar
Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida
Mas, por enquanto, olha pra mim e me ama
Não, tu olhas pra ti e te amas
É o que está certo
Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca
E tudo isso ganhei ao deixar de te amar
Escuta! Eu te deixo ser... Deixa-me ser!

sábado, 23 de agosto de 2008



Yet, no, not words, for they
But half can tell love's feeling;
Sweet flowers alone can say
What passion fears revealing.

Thomas Moore

What is this thing called love?


Depois de ter ignorado o assunto por muito tempo, deixando-o nas mãos de poetas e músicos, a ciência resolveu pesquisar o amor. E - pasmem! - as descobertas científicas levam a crer que o amor está ligado à química ...
O que é o amor? Quais os sintomas de uma paixão? Existe mesmo a tal química entre os apaixonados?

"Love is ecstasy and torment, freedom and slavery." Poets and songwriters would be in a fine mess without it. Plus, it makes the world go round.
However, until recently scientists wanted no part of it. Why? "Love is mushy; science is hard."
Anger and fear, feetings that have been considerably researched, can be quantified through measurements: pulse and breathing rates, muscle contractions and other involuntary responses. Love may not be registered as definitively on the instruments, it leaves a blurred fingerprint that could be mistaken for anything from indigestion to a manic attack.
Only recently have scientists had a change of heart about love. Explanations for this change vary. Some cite the spreading thread of AIDS - casual sex carrying mortal risks makes it important to know more about a force that binds couples together. Others point to the growing number of female scientists (more willing to take love seriously than their male colleagues).
And what are the symptoms of love?
Lovers are literally flooded by chemicals. A meeting of eyes, a touch of hands, a whiff of scent sets off a flood that starts in the brain and races along the nerves and through blood. The results are familiar: flushed skin, sweaty palms, heavy breathing.
There is also the euphoria of falling in love. This is because the body is stimulated to produce chemicals cousins to amphetamines.
Chemicals may help explain the feeling of passion. But why do people tend to fall in love with one partner than a myriad of others?
Like the universe, the more we learn about love, the more mysterious it is likely to appear.

(adapted from time)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Psicoterapia Oriental & Ocidental - Alan Wilson Watts


Alan Wilson Watts - teólogo e filósofo, estudou sistematicamente o budismo, o vedanta, o taoísmo, principalmente como técnicas de libertação do homem da tirania do ego, que, segundo ele, age de fora, como instituição social que é.
Compara os caminhos orientais com as disciplinas ocidentais da psicologia, mais específicamente com a psicoterapia.
Para watts "o homem é importante na medida em que ele é coletividade. A sociedade é mais importante que o indivíduo, na medida em que o indivíuo toma consciência de que a sociedade precisa tanto dele como ele precisa da sociedade."
Uma das causas mais frequentes de angústia, segundo watts, situa-se no velho dilema da imagem que cada um faz de si, quando os outros, captam de nós várias outras imagens, antagônicas e contraditórias, e o que é mais grave é que a própria imagem nossa está influenciada pelas várias que os outros fazem de nós.
Watts sugere a libertação da humanidade de uma noção de bem e mal, que, se por um lado, contribui para manter o chamado equilíbrio social, é causa precípua de quase toda sorte de desequilíbrios a que está exposto o indivíduo. As religiões, por sua dogmática inibidora e por sua autoridade repressora, estariam sendo menos proveitosas do que danosas ao homem e que, muitas vezes, a idéia de dar ao homem uma nova concepção de vida desagrada ao próprio homem. Ele é escravo da tradição e se insurge com intolerância à simples insinuação de ter de modificar os hábitos, independentemente da classe a que pertença.
Da ecologia, ciência, às formas de discrimaçao que isolam os homens nos planos econômico, ideológico, racial e religioso, Watts sugere-nos o suporte necessário à longa viagem que leva aos caminhos da libertação.
Um livro um pouco complexo, mas inteligível.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Desilusão em banda larga


O mundo todo se conectou,
e ninguém inventou computador que saiba amar.
Download de apreço, download de amor...
O mundo todo se adicionou,
criou comunidade,
e ninguém inventou download da verdade.
Inventaram spam, pornografia,
cruel sabedoria, disconexão total!

De que me vale a banda larga se eu largo a banda no final?
De que adianta seu orkut se a gente nem se curte?
De que adianta ICQ se a gente nem se vê?
Pra quê webcam se a gente nem “pã” ?
MSN é uma ova, eu quero é prova real.
Seu papo virtual só me chateia, o chat me entedia,
você me tratou tão bem no outro dia e agora age feito conexão discada...

Sabe qual é da parada?
Cansei e vou te bloquear!
Não dá mais pra ficar nesta insana distância,
não quero mais teclar!
Disconecta de mim,
vê se me larga!
A banda larga,
a fila anda,
o tempo acaba.


David Lima

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Vai


 Quer ir? Vai. Eu não vou segurar. Uma coisa que não dá certo é segurar uma pessoa contra a vontade, apelar pro lado emocional. De um jeito ou de outro isso vira contra a gente mais tarde: não fui porque você não deixou, ou: não fui porque você chorou. Sabe, existem umas harmonias em que é bom a gente não mexer. Estraga a música. Tem a hora dos violinos e tem a hora dos tambores.
Eu compreendo, compreendo perfeitamente. Olha, e até admito: você muda pra melhor. Fora de brincadeira, acho mesmo. Eu sei das minhas limitações, pensei muito nisso quando tava tentando te entender. É, é um defeito meu, considerar as pessoas em primeiro lugar. Concordo. Mas não tem mais jeito, eu sou assim. Paciência.
Sabe por que eu digo que você muda pra melhor? Ele faz tanta coisa melhor do que eu! Verdade. Tanta coisa que eu não aprendi por falta de tempo, de oportunidade - ora, pra que ficar me justificando? Não aprendi por falta de jeito, de talento, essa é que é a verdade. Eu sei ver as qualidades de uma pessoa, mesmo quando é um homem que vai roubar minha namorada. Roubar não: ganhar.
Compara. Ele dança muito bem, até chama a atenção. Campeão de natação, anda de bicicleta como um acrobata de circo, é bom de moto, sabe atirar, é fera no volante, caça e acha, monta a cavalo, mete o braço, pesca, veleja, mergulha... Não tem companhia melhor.
Eu danço mal, você sabe. Não consegui ultrapassar aquela fronteira larga entre a timidez e a ousadia, entre a discrição e o exibicionismo, que separa o mau e o bom bailarinos. Nunca fui muito além daquela fase em que uma amiga compadecida precisava sussurrar no meu ouvido: dois pra lá, dois pra cá.
Atravessar uma piscina eu atravesso, uma vez, duas talvez, mas três? Menino de cidade, e modesto, não tive córrego nem piscina. É com olhos invejosos que eu o vejo na água, afiado como se tivesse escamas. Moto? Meu Deus, quem sou eu. Pra ser bom nisso é preciso ter aquele ar de quem vai passar roncando na frente ou por cima de todo mundo - e esse ar ele tem.
O jeito como ele dirige um carro é humilhante. Já viajei com ele, encolhido e maravilhado. Você conhece o jeitão, essa coisa da velocidade. Não vou ter nunca aquela noção de tempo, a decisão, o domínio que ele tem. Cada um na sua. Eu troquei a volúpia de chegar rapidinho pelo prazer de estar a caminho. No amor também.
Aí é que eu tou perdido mesmo, no capítulo da coragem. Ele faz e acontece, já vi. Mas eu? Quantas vezes já levei desaforo pra casa. Levei e levo. Se um cachorro late pra mim na rua, vou lá e mordo ele? Eu não. Mudo de calçada.
Vai. Olha, não quero dizer que o que eu vou falar agora tenha importância pra você, que possa ter influído na sua decisão, mas ele tem mais dinheiro também, você sabe. Ele tem até, sabe?, aquele ar corajoso dos ricos, aquela confiança de entrar nos lugares. Eu não. Muito cristal me intimida. Os meus lugares são uns escondidos onde o garçom é amigo, o dono me confessa segredos, o cozinheiro acena lá do quadradinho e me reserva o melhor naco. É mais caloroso, mas não compensa o brilho, de jeito nenhum.
Ele é moderno, decidido. Num restaurante não te oferece primeiro a cadeira, não observa se você tá servida, não oferece mais vinho. Combina, não é?, com um tipo de feminismo. A mulher que se sente, peça o que quiser, sirva-se, chame o garçom quando precisar. Também não procura saber se você tá satisfeita. Eu sei que é assim que se usa agora. Até no amor. Já eu sou meio antigo, ultrapassado, gosto de umas cortesias.
Também não vou dizer que ele é melhor do que eu em tudo. Isso não. Eu sei por exemplo uns poemas de cor. Li alguns livros, sei fazer papagaio de papel, posso cozinhar uns dois ou três pratos com categoria, tenho certa paciência pra ouvir, sei uma ótima massagem pra dor nas costas, mastigo de boca fechada, levo jeito com crianças, conheço umas orquídeas, tenho facilidade pra descobrir onde colocar umas carícias, minhas camisas são lindas, sei umas coisas de cinema, não bato em mulher.
E não sou rancoroso. Leva a chave para o caso de querer voltar.


Ivan Ângelo