domingo, 30 de novembro de 2008

Lugar de animal NÃO É no circo

Ela não sabe ...




Ela não sabe que o homem chegou à Lua.
Que a vida é uma contagem regressiva.
Que Berlim já foi duas.
Que na idade média a igreja vendia lugar no céu.
Que homens e dinossauros nunca conviveram.
Que o voto do povo salvou Barrabás e condenou Jesus.
Que o computador foi criado para resolver problemas que não tínhamos.
Que o Sudeste alaga e o Nordeste seca.
Que sexo pode ser feito sem amor.
Que o cientista que inventou a bomba atômica recebeu um prêmio por isso.
Que somos divididos em primeiro e terceiro mundo.
Que você vai fazer de tudo para não repetir o erro dos seus pais.
Que Getúlio saiu da vida para entrar na História.
Que a esmola é o imposto informal da injustiça social.
Que somos julgados pela aparência e condenados pela cor da pele.
Que o homem ainda não decidiu se veio do macaco ou de Adão e Eva.
Que todo muçulmano deve ir à Meca pelo menos uma vez na vida.
Que quem faz aniversário no natal não é o Papai Noel.
Que o cinema já foi mudo.
Que existe Aids.

Quem vai explicar: você ou a vida?

sábado, 29 de novembro de 2008

Essa palavra e o olhar...



Essa palavra e o olhar desarmam minha cólera,
Fazendo retornar a cordial ternura
Que consegue apagar em mim toda negrura.
É coisa estranha amar, e que essas desleais
Tornem os homens só aos covardes iguais!
Todo mundo conhece a sua imperfeição:
Que é pura extravagância e pura indiscrição;
Têm o espírito mau e têm a alma tão flébil;
Nada é mais imbecil e nada é tão mais débil,
Nada é mais infiel; e nós, homens, contudo,
Por esse animais fazemos mais que um tudo.
Porém, agora, paz: desleal, mas querida,
Eu te perdoo e dou a ternura contida.
Podes imaginar o quão te quero bem,
E, vendo-me tão bom, adora-me também.

**
Ce mot, et ce  regard...

Ce mot, et ce regard, désarme ma colère,
Et produit un retour de tendresse de Coeur
Qui de son action m’efface la noirceur.
Chose étrange d’aimer, et que pour ces traîtresses
Les hommes soient sujets à de Telles faiblesses!
Tout Le monde connaît leur imperfection:
Ce  n’est qu’extravagance et qu’indiscrétion;
Leur espirit est méchant, Et leur âme fragile;
Il  n’est rien de plus faible et de plus imbécile,
Rien de plus infidele; et, malgré tout cela,
Dans le mond on fait tout pour ces animaux-là.
Hé bien! Faisons la paix; va, petite traîtresse,
Je te pardonne tout, et te  rends ma tendresse
Considère par  là l’amour que j’ai pour toi,
Et, me voyant si bom, em revanche aime-moi.


Molière (1622-1673)
Tradução: Renata Cordeiro

Fabricio Carpinejar

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Filmes proibidos

adolfo valente


"Deve haver alguma coisa errada numa moça que só tem roupa preta e cinza, a era da depressão, que desânimo. Que roupa é essa? Por que compro tanta coisa que detesto…Gastei tempo demais pensando num cara. Agora chega. Ele que fique com suas noites pesadas de Berlim, no bar Einstein, com alguma loura de Kreuszberg chamada Helga, atriz do Partido Verde, bebendo steinheger. Sou uma Alice da cidade, enclausurada num antro, misturando bio-degradáveis e glitter.O que está acontecendo comigo? Confissões íntimas a um vendedor de livros que mal conheço? Senti urgência em sair dalí. Pedi que embrulhasse A sombra do vulcão para o endereço de RW. Paguei no caixa e, finalmente na rua, apressei o passo até sentir taquicardia. Corpos, destroços, resíduos e ossos… detritos, dejetos funestos, o lixo dos restos… tudo apodrece, só o amor se conserva… nosso amor é a última reserva… Please, a spoon and kiss me quickly , disse ao garçom. Beije-me garçom. Beije-me e eu te conto histórias hilárias de cronópios e famas, essa noite especialmente me sinto tão perdida, tão especialmente perdida, please, beije-me."


Bruna Lombardi

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

[16] - O livro do desassossego


Devaneio entre Cascais e Lisboa. Fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril. Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstratas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação destas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho de visível. Lucrei estas páginas, por olvido e contradição. Não sei se isso é melhor ou pior do que o contrário, que também não sei o que é.

O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
O livro do desassossego

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Existe sempre uma coisa ausente

Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.

Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos á2o anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.

Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.

Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.

Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.

O Estado de S. Paulo, 3/4/1994


Caio Fernando Abreu

Uns sábados, Uns agostos


Eles vinham aos sábados, sem telefonar. Não lembro desde quando criou-se o hábito de virem aos sábados, sem telefonar — e de vez em quando isso me irritava, pensando que se quisesse sair para, por exemplo, passear pelo parque ou tomar uma dessas lanchas de turismo que fazem excursões pelas ilhas, não poderia porque eles bateriam com as caras na porta fechada e ficariam ofendidos (eles eram sensíveis) e talvez não voltassem nunca mais. E como, aos sábados, eu jamais faria coisas como ir ao parque ou andar nessas tais lanchas que fazem excursões pelas ilhas, era obrigado a esperá-los, trancado em casa. Certamente os odiava um pouco enquanto não chegavam: um ódio de ter meus sábados totalmente dependentes deles, que não eram eu, e que não viveriam a minha vida por mim — embora eu nunca tivesse conseguido aprender como se vive aos sábados, se é que existe uma maneira específica de atravessá-los.Disse-lhes isso, certa vez. Creio que se sentiram lisonjeados, como se debaixo daquilo que eu dizia friamente, como quem comunica, por exemplo, ter tomado um banho, nas entrelinhas eu dissesse, pudico e reservado, que simplesmente não saberia o que fazer de meus sábados, se não viessem sempre. Tremi quando cheguei a perceber o equívoco, pois era como uma declaração de amor velada e, de certa forma, criava entre nós um compromisso extremamente sério. Quase como se, mentalmente, assinássemos um contrato estabelecendo que: a) a partir daquele momento, eu me comprometia a jamais sair aos sábados; b) a partir daquele momento, eles se comprometiam a jamais deixar de me visitar aos sábados. Desde então, tudo ficou mais definido. Ou, melhor dizendo, mais oficializado. E afinal, chovesse ou fizesse sol, sagradamente lá estavam eles, aos sábados. Naturalmente chovesse-ou-fizesse-sol é apenas isso que se convencionou chamar força de expressão, já que há muito tempo não fazia sol, talvez por ser agosto — mas de certa forma é sempre agosto nesta cidade, principalmente aos sábados.

Não é que fossem chatos. Na verdade, eu nunca soube que critérios de julgamento se pode usar para julgar alguém definitivamente chato, irremediavelmente burro ou irrecuperavelmente desinteressante. Sempre tive uma dificuldade absurda para arrumar prateleiras. Acontece que não tínhamos nada em comum, não que isso tenha importância, mas nossas famflias não se conheciam, então não podíamos falar sobre os meus pais ou os avós deles, sobre os meus tios ou os seus sobrinhos ou qualquer outra dessas combinações genealógicas. Também não sabia que tipo de trabalho faziam, se é que faziam alguma coisa, nem sequer se liam, se estudavam, iam ao cinema, assistiam à televisão ou com que se ocupavam, enfim, além de me visitar aos sábados.

Então era natural que nossos encontros fossem um tanto estéreis. Assim, corria a fazer chá ou distribuir cinzeiros, abrir ou fechar janelas, colocar algum disco na vitrola e regular o volume de acordo com o gosto deles, tarefa essa em que gastava, no mínimo, uns trinta minutos. E ainda assim criavam-se furos em que os chás haviam acabado, e ninguém queria mais, as janelas estavam fechadas, e ninguém queria abri-las, os cinzeiros estavam vazios, mas ninguém queria fumar, o toca-discos em silêncio, mas ninguém queria ouvir música. Tudo assim como que perfeito, e não existe nada mais esterilizante do que a perfeição de não se querer nada além do que está à nossa volta. O furo se tornava tão espesso que, quando alguém falava, a voz soava áspera e brusca, como se tirasse uma lasca do silêncio. E atribuo a seu senso estético (ao meu também) o fato de, então, preferirmos ficar mesmo calados, por mais embaraçoso ou insuportável que fosse. Evidente que, quando eles saíam, os meus nervos estavam simplesmente aos pedaços, e acredito que também os deles não andassem em muito bom estado, embora sorrissem sempre e procurassem manter-se simpaticamente compreensivos para com a minha absoluta falta de habilidade em lidar com as pessoas.

Sei que fica um-pouco-não-sei-como falar sobre tudo isso sem detalhar nada, falar deles assim, em termos tão gerais — mas eu ficava tão submerso na tarefa de me sentir sendo visitado que sobrava pouco tempo para fazer qualquer coisa além de abrir ou fechar janelas etc. etc. Mesmo assim, havia brechas inesperadas na minha capacidade de observação, e lembro que num dos últimos sábados fiquei profundamente espantado ao perceber que um deles usava sapatos de pano. Tentando situar na memória o exato momento em que se deu essa percepção: creio que consigo situá-lo num daqueles instantes de perfeição, quando inconscientemente eu procurava algo destoante, pois só poderia falar sobre algo assim. Mas seria tão indelicado referir-me a seus sapatos de pano como uma imperfeição dentro de um daqueles sábados, sobretudo depois daquele nosso contrato, que achei bem mais educado calar-me, e nem sequer tentar subir os olhos procurando encaixar aqueles sapatos num par de meias, calças ou talvez saias e, quem sabe, uma cabeça.

Para eliminar, portanto, essa desagradável impressão de generalidade, posso dizer a meu favor isto: que um deles usava — ou usou, certa vez, e disso estou absolutamente certo — um par de sapatos de pano, e mais exatamente, pano marrom, e é bem possível ainda que houvesse junto ao salto e ao bico algumas partículas de lama endurecida, já que chovia tanto naqueles agostos, e já que lembro também de, mais tarde, quase madrugada, ter apanhado uma vassoura para varrer do tapete alguns fios de linha, cinzas, pontas de cigarro e — justamente — uma placa de lama endurecida, que não poderiam ter vindo de outro lugar senão de sapatos, embora não necessariamente de pano, e menos necessariamente ainda de pano marrom.

Uma dessas outras lembranças indiscutíveis foram umas flores amarelas que me trouxeram certa vez, embora não possa dizer se foram exatamente para mim. Quero dizer: compradas ou colhidas com a intenção específica de dá-las justamente a mim, pois reconheço friamente que minha aparência não convida muito a dar flores, e creio que eles eram desses que dão às pessoas coisas que a aparência dessas pessoas dê margem a suposições do gênero: gostará mais de cravos ou de rosas? em se tratando de rosas, amarelas, brancas ou vermelhas? se forem vermelhas, com ou sem espinhos? Mas tudo isso é inútil, porque as flores que me trouxeram — ou, mais verdadeiramente, como estou tentando dizer, as flores com que entraram no meu quarto e que deixaram sobre a mesa ao sair —, essas flores não eram rosas. Também não consegui saber o que eram, apesar de amarelas e um tanto moles, quase gordas, com as pétalas manchadas por uma matéria escura que parecia, a princípio, cinza — mas que soprada permanecia perfeitamente imóvel, como se fizesse parte mesmo das pétalas, um pigmento ou qualquer dessas coisas científicas que os vegetais costumam ter.

Como durante vários dias me esqueci dessas flores, elas perderam lentamente as pétalas, que precisei juntar uma a uma para jogar no corredor, depois varrêlas e colocá-las no lixo. Mas sobre isso, creio que poderá informar melhor algum vizinho ou mesmo o lixeiro: nesses agostos não é comum ver flores amarelas, mesmo murchas, esquecidas pelas latas de lixo. E isso, quero dizer, o lixeiro ou algum vizinho, será no mínimo mais uma testemunha das visitas deles. Se é que a estas alturas alguém ainda tem dúvidas a respeito de sua existência. Eu nunca duvidei, parece que isso está bastante óbvio — contudo reconheço não ser a minha linguagem exatamente aquilo que se possa chamar de clara ou/e objetiva.

Não me peça para descrevê-los ou dizer pelo menos quantos eram, eu não saberia. Não saberia dizer também a partir de quando deixaram de vir. Certamente que, na primeira vez em que violaram nosso contrato, devo ter ficado ansioso, pois nada fazia aos sábados a não ser recebê-los, e certamente devo ter corrido várias vezes do relógio para a janela, como é de praxe nessas situações. Embora não os amasse, em absoluto, disso tenho a maior e talvez única certeza. Às vezes chego a pensar que nem sequer os suportava. Apenas, os sábados eram tão longos e aquele agosto não terminava nunca mais, havia sempre o frio e a chuva, e se eles não viessem provavelmente eu ficaria enrolado neste cobertor ainda mais tempo do que fico agora, ouvindo os velhos discos e de vez em quando espiando sobre o telhado que há embaixo da minha janela. Com as chuvas freqüentes, começaram a nascer algumas plantinhas sobre esse telhado, mas as crianças não brincam mais no quintal do edifício vizinho.

Creio que se eles voltassem outra vez, eu lhes falaria dessas coisas, como quem prepara um chá ou vira um disco. Mas não virão mais, e não sei se isso me alivia. Me pergunto às vezes se eu mesmo não os teria expulsado com palavras duras num sábado qualquer, especialmente monótono. Não que os odiasse, isto é, odiava-os sim, mas só às vezes: o que me desagradava neles era principalmente serem um atestado tão veemente da minha profunda falta de assunto, do meu absoluto não ter aonde ir aos sábados e em todos os outros dias. Mas era bom sentir a tarde dobrando o meio-dia e depois ouvir o portão batendo e o barulho de seus passos no cimento da entrada e logo após o som da campainha: então eu me interrompia no que não estava fazendo e me preparava para a visita, como quem espera que algo aconteça. Embora nada chegasse a acontecer realmente: eles pertenciam a essa raça simpática e um pouco amorfa que, por delicadeza, nunca provoca acontecimentos que poderiam degenerar em situações embaraçosas, na opinião deles, pois na minha nada podia haver de mais embaraçoso do que permanecer dentro de um daqueles furos. E, então, mesmo abrir a janela era uma lasca.

Mas desde que não vieram mais, meus sábados inteiros são feitos de duras lascas que vou arrancando com movimentos desajeitados pelas salas e escadas desta casa vazia, à espera de que um daqueles ruídos antigos e inúteis como o portão batendo ou os passos deles no cimento ou a campainha tocando me puxe do centro desse agosto que não acaba. Ainda que fosse para tirar mais lascas ou permanecer em silêncio. Fico pensando se, com o tempo, não acabaríamos por nos desinibir, e talvez então até me convidassem para passear no parque ou numa dessas lanchas de turismo que fazem excursões pelas ilhas. Nem era preciso tanto: bastava que eu me tornasse capaz de perceber detalhes mesmo insignificantes, como um anel no dedo de um deles, ou mesmo um botão, um sorriso ou ainda apenas uma face. Qualquer coisa como aqueles sapatos de pano marrom. Mas nem sequer tenho telefone para que possam me avisar de uma provável volta.


Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Escritor e o Mago


"A incrível história de Paulo Coelho, o menino que nasceu morto, flertou com o suicídio, sofreu em manicômios, mergulhou nas drogas, experimentou diversas formas de sexo, encontrou-se com o diabo, foi preso pela ditadura, ajudou a revolucionar o rock brasileiro, redescobriu a fé e se transformou em um dos escritores mais lidos do mundo. Fernando Morais, o autor que ajudou a fundar a biografia como gênero literário no Brasil, volta sua verve investigativa para o personagem brasileiro que se converteu no grande mito de nossa história recente”.

Parece propaganda de milagre em igreja evangélica, mas essa é a sinopse oficial do novo livro de Fernando Morais, o “mago” que escreveu as biografias de Assis Chateaubriand (Chatô - O Rei do Brasil, 1994) e Olga Benário (olga, 1985)e também o memorável Na Cova dos Leões (2005), sobre a maior agência publicitária e o maior publicitário do país. Eis que o desafio agora é falar de alguem vivo, alguém que ainda está em forma, uma unimidade que na unidade é controversa. O imortal mago Paulo Coelho.



O autor comentou em entrevista que esteve a cinco metros da praia e não colocou os pés na água por nenhuma vez. Foi dessa maneira que o jornalista Fernando Morais passou um ano para escrever a história de do escritor brasileiro mais lido no mundo. “Sofri conflitos de consciência”, disse Morais. “É muito ruim biografar uma pessoa viva”.

Segundo o autor, o fato de se narrar a vida de Paulo Coelho, tendo convivido com ele por quatro anos, foi o principal desafio para escrever a história. O jornalista mudou-se para a cidade do biografado por nove meses, entrevistou mais de cem pessoas e rodou países da Europa Oriental em busca de material para sua obra. Foi a Hamburgo, na Alemanha, receber prêmios com o escritor. “Você cria um elo afetivo”, conta. “O meu principal dilema era se não estava sendo ético com uma pessoa que foi tão generosa comigo”, afirmou.

Não foram poucas as descobertas de Morais: casos de homosexualidade, satanismo, tentativa de suicídio, envolvimento com drogas, assim como com Raul Seixas e com o rock. “Era uma surpresa atrás da outra”, relata. E Paulo Coelho não fez nenhuma objeção para que o jornalista censurasse algum caso de sua vida.

O ponto mais alto na confiança entre ambos se deu quando Morais descobriu, ao ler o testamento do escritor, que ao morrer um baú com lembranças suas teria de ser incinerado. Para ter acesso ao verdadeiro “guarda-roupa”, que continha 190 cadernos e mais cem fitas cassete de diários dos 10 aos 50 anos da vida de Paulo Coelho, Morais teve de responder a uma pergunta do escritor: “Quem foi o militar que o torturou em agosto de 1969, no Paraná, em plena ditadura?” Seu nome: Índio do Brasil Lemes. Era a chave para o livre acesso ao material, que mudou completamente o livro. “Joguei 200 páginas fora”, afirmou Morais.

Críticas a Paulo Coelho

Um dos pontos que mais chama a atenção da matéria sobre o lançamento da obra, é onde o autor clama em defesa de seu biografado. Na entrevista, o Morais respondeu às críticas à obra de Paulo Coelho. “Esse olho torto para a obra do Paulo você só encontra no Brasil.” Para Morais, o motivo é o “sentimento rasteiro, baixo, de inveja”. O escritor mineiro espera que seu livro ajude a entender melhor o trabalho de Paulo Coelho.


Nada falou-se sobre a ascensão de Coelho ao circuito de elite dos escritores brasileiros, como sua cadeira na ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS ou sobre sua eterna busca por best-seller onde há, convenientemente, uma grande busca por público-leitor, mas isso são fatos que não serão revelados em entrevistas, mas sim apenas lendo a obra do escritor, que já é um dos grandes trabalhos literarios brasileiros dos últimos tempos.

Baseado na matéria publicada no portal Comunique-se.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Novos tempos



Eu blogo
Tu orkutas
Ele telefona
Nós passamos e-mails
Vos fazeis sites
Eles internetam
E a gente não se encontra mais


Oswaldo Montenegro

Adoro pau mole


Adoro pau mole.
Assim mesmo.
Não bebo mate
não gosto de água de coco
não ando de bicicleta
não vi ET
e a-d-o-r-o pau mole.

Adoro pau mole
pelo que ele expõe de vulnerável e pelo que encerra de possibilidade.

Adoro pau mole
porque tocar um pressupõe a existência de uma intimidade e uma liberdade
que eu prezo e quero, sempre.

Porque ele é ícone do pós-sexo
(que é intrínseca e automaticamente
- ainda que talvez um pouco antecipadamente)
sempre um pré-sexo também.

Um pau mole é uma promessa de felicidade sussurrada baixinho ao pé do ouvido.

É dentro dele,
em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar,
que mora o pau duro e firme com que meu homem me come



Maria Rezende

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Receita para lavar roupa suja



Mergulhar a palavra suja em água sanitária,
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza,
por exemplo a palavra vida.
Existem outras e a palavra amor é uma delas
que são muito encardidas e desgastadas pelo uso,
o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra,
depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que ainda permanecem sujas
depois de submetidas a esses cuidados
mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tiram as manchas mais difíceis e nada.
Todas as tentativas de lavar a piedade foram sempre em vão.
Mas nunca vi palavra tão suja
como a palavra perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas,
soltam um líquido corrosivo
—que atende pelo nome de amargura—
capaz de esvaziar o vigor da língua.
Nesse caso o aconselhado é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade.
Agora se o que você quer
é somente aliviar as palavras do uso diário,
pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo aqui é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras.
A culpa, por exemplo, mancha tudo que encontra
e deve ser sempre clareada sozinha.
Uma mistura pouco aconselhada é amizade e desejo,
já que desejo sendo uma palavra intensa, quase agressiva,
pode, o que não é inevitável,
esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana quando não é excessiva
produz uma oleosidade que conserva a cor
e a intensidade dos sons.
Muito valioso na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Para isso conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos
que passeie pelas expressões dos seus sentidos.
Á noite, permita que se deite,
não a seu lado, mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme
a palavra plantada em sua carne
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar a convivência
até não mais perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.


Viviane Mosé

segunda-feira, 17 de novembro de 2008


"A psicanálise nos mostrou que as atitudes emocionais dos indivíduos para com outras pessoas que são de tão extrema importância para seu comportamento posterior, já estão estabelecidas numa idade surpreendentemente precoce. A natureza e a qualidade das relações da criança com as pessoas do seu próprio sexo e do sexo oposto, já foi firmada nos primeiros seis anos de sua vida. Ela pode posteriormente desenvolvê-las e transformá-las em certas direções mas não pode mais livrar-se delas. As pessoas a quem se acha assim ligada são os pais e irmãos e irmãs. Todos que vem a conhecer mais tarde tornam-se figuras substitutas desses primeiros objetos de seus sentimentos. (Deveríamos talvez acrescentar aos pais algumas outras pessoas como babás, que dela cuidaram na infância.) Essas figuras substitutas podem classificar-se, do ponto de vista da criança, segundo provenham do que chamamos as ‘imagos’, do pai, da mãe, dos irmãos e das irmãs, e assim por diante. Seus relacionamentos posteriores são assim obrigados a arcar com uma espécie de herança emocional, defrontam-se com simpatias e antipatias para cuja produção esses próprios relacionamentos pouco contribuíram. Todas as escolhas posteriores de amizade e amor seguem a base das lembranças deixadas por esses primeiros protótipos."

Sigmund Freud, "Algumas Reflexões sobre a Psicologia Escolar"

domingo, 16 de novembro de 2008

A poesia de Katia Chiari



A poeta Katia Chiari participando de uma sessão magna da BIENAL INTERNACIONAL DE POESIA DE BRASILIA.


Rumbo a tu pecho
un molusco en mi boca
se metió.

Se sacudía
por siete mares.

...y de pronto
todo un mar
me regaló.



Rumo ao teu peito
um molusco em minha boca
se meteu.

Se sacudia
por sete mares.

… e de repente
todo um mar
me ofereceu.

(De “Lagartijas y Estrellas”)


Katia Chiari

Petardo



Escrevi aquela estória escura sim.
Soltei meu grito crioulo sem medo
pra você saber:
Faço questão de ser negra nessa cidade descolorida,
doa a quem doer.
Faço questão de empinar meu cabelo cheio de poder.
Encresparei sempre,
em meio a esta noite embriagada de trejeitos brancos e fúteis.

Escrevi aquele conto negro bem sóbria,
para você perceber de uma vez por todas
que entre a minha pele e o papel que embrulha os seus cadernos,
não há comparação parda cabível,
há um oceano,
o mesmo mar cemitério que abriga os meus
antepassados assassinados,
por essa mesma escravidão que ainda nos oprime.

Escrevi
Escrevo
Escreverei
Com letras garrafais vermelho-vivo,
pra você lembrar que jorrou muito sangue.


Cristiane Sobral
(Poema extraído da obra O NEGRO EM VERSOS)

domingo, 9 de novembro de 2008

In...pulsos


Hildebrando Menezes, ou simplesmente Hilde, na foto - 01.05.2008, no Feitiço Mineiro, em Brasília, declamando alguns poemas num sarau poético, em comemoração ao seu aniversário.



Labirinto ... pressinto
Morto ... faminto
Antevejo nos desejos
Abraços ... beijos.
Da bela e da fera
Noites de espera
Sensual quimera
Vestem se despem
Corpos se aquecem
Peles sobre a pele
Amor maior da fúria
Agreste ... selvagem!
Fonte pura ... imagem
Sem censura na captura!
Meio doçura
Meio amargura
Rompe na tortura
Invade! domina! Possue!
Força uníssona do macho
da fêmea!
Do caçador e da presa
Imenso barulho do silêncio
Só se ouve: tum! tum! tm!
Lá dos batuques dos corações
Impregnados de emoções
Peito no peito
Roçam trejeitos
Se esfregam sôfregos
Com jeito!
Nas narinas salientes
Ofegantes
Movimentam
Delírios impulsivos
De amantes em transe
Ovulam ... copulam
Forte cheiro no ar
de prazer
Nos lencóis ... colchas e coxas
Nos ventres ... pêlos
Sexos intensos ... ferozes
Perfume fervilha
Hormônios
Suores irrigam
As mentes piram
e aspiram
O enlace e o encaixe ... o elo!
Consolam-se os sentidos
Acoplam-se! Unem-se!
Adormecem os instintos
Já são dois seres plenos.


Hildebrando Menezes

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Os cinco sentidos


Kim Fujiwara

São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será: mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: a minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos
É só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos,
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E, quando venha a morte,
Será morrer por ti.


Almeida Garrett