domingo, 31 de janeiro de 2010

Na tua boca cantou subitamente uma voz



Na tua boca cantou subitamente uma voz
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte -
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras de um decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.



Maria do Rosário Pedreira

Brinde




Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.


 Stéphane Mallarmé

As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala
Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição
Ou então não:
matam
afogam
separam definitivamente
Amando muito muito
ficamos sem palavras

Ana Hatherly

Pássaro malandro



Observem o que esse pássaro foi capaz de fazer para conseguir puxar o cesto com algumas sementes que estavam no fundo do frasco!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Papoulas de julho



Papoulas pequeninas, pequeninas chamas do inferno,
Vocês não fazem nada de mal?

Bruxuleiam. Não posso pegá-las.
Ponho as mãos entre as chamas. Sem queimar.

E me exaure olhá-las
Bruxuleando, vermelho vivo e rugoso como mucosa de uma boca.

Uma boca em hemorragia.
Babados hemorrágicos!

Há fumaças impalpáveis para mim.
Onde os teus narcóticos, tuas nauseantes cápsulas?

Ai se eu sangrasse ou dormisse! —
Se minha boca desposasse uma ferida assim!

Ou seus extratos levigassem a mim nessa cápsula de vidro,
Entorpecendo e aquietando.

Mas sem cor. Sem cor.


Sylvia Plath

Enivrez-vous!


 Il faut être toujours ivre, tout est là ; c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie, ou de vertu à votre guise, mais enivrez-vous!
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge; à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est. Et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront, il est l'heure de s'enivrer ; pour ne pas être les esclaves martyrisés du temps, enivrez-vous, enivrez-vous sans cesse de vin, de poésie, de vertu, à votre guise.


Charles Baudelaire, Petits Poèmes en Prose


Embriagai-vos!

Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga , à estrela, à ave, ao relógio ,a tudo o que foge, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão :"são horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha!

Sobre o Amor


Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos,
e não tivesse o amor,
seria como o metal que soa ou como o sino que tange;
E ainda que tivesse o dom da profecia,
e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência
e ainda que eu tivesse toda a fé,
de modo a remover montanhas,
e não tivesse amor,
nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres,
e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado,
e não tivesse amor,
nada disso me aproveitaria.
O amor é sofredor, é benigno;
o amor não é invejoso;
o amor não trata com leviandade,
não se ensoberbece.
Não se porta com indecência,
não busca os seus interesses,
não se irrita,
não desconfia;
Não folga com a injustiça,
mas folga com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê,
tudo espera,
tudo suporta.
O amor nunca falha;
mas havendo profecias, serão aniquiladas;
havendo línguas, cessarão;
havendo ciência, desaparecerá.
Porque, em parte, conhecemos,
e em parte profetizamos;
Mas quando vier o que é perfeito,
então o que é em parte será aniquilado
Quando eu era menino, falava como menino,
sentia como menino,
discorria como menino,
mas, logo que cheguei a ser homem,
acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma,
mas então veremos face a face;
agora conheço em parte,
mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permaneça a fé,
a esperança
e o amor,
mas o maior destes é o amor.

[S. Paulo ,1ª Epístola aos Coríntios]

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O que é isto – filosofia?

Os pensadores gregos, Platão e Aristóteles, chamaram a atenção para o fato de que a filosofia e o filosofar fazem parte de uma dimensão do homem, que designamos dis-posição (no sentido de uma tonalidade afetiva que os harmoniza e nos convoca um apelo).
Platão diz: "É verdadeiramente de um filósofo este páthos – o espanto; pois não há outra origem imperante da filosofia que este".
O espanto é, enquanto páthos, a arkhé da filosofia. Devemos compreender, em pleno sentido, a palavra grega arkhé. Designa aquilo de onde algo surge. Mas este "de onde" não é deixado para trás no surgir; antes, a arkhé torna-se aquilo que é expresso pelo verbo arhein, que impera. O páthos do espanto não está simplesmente no começo da filosofia, como, por exemplo, o lavar das mãos precede a operação do cirurgião. O espanto carrega a filosofia e impera em seu interior.
Aristóteles diz o mesmo: "Pelo espanto os homens chegam agora e chegaram antigamente à origem imperante do filosofar" (àquilo de onde nasce o filosofar e que constantemente determina sua marcha).
Seria muito superficial e, sobretudo, uma atitude mental pouco grega se quiséssemos pensar que Platão e Aristóteles apenas constatam que o espanto é a causa do filosofar. Se esta fosse a opinião deles, então diriam; um belo dia os homens se espantam, a saber, sobre o ente e sobre o fato de ele ser e de que ele seja. Impelidos por este espanto, começaram eles a filosofar. Tão logo a filosofia se pôs em marcha, tornou-se o espanto supérfluo como impulso, desaparecendo, por isso. Pôde desaparecer já que fora apenas um estímulo. Entretanto: o espanto é arkhé – ele perpassa qualquer passo da filosofia. O espanto é páthos. Traduzimos habitualmente páthos por paixão, turbilhão afetivo. Mas páthos remonta a páskhein, sofrer, aguentar, suportar, tolerar, deixar-se levar por, deixar-se con-vocar por. É ousado, como sempre em tais casos, traduir páthos por dis-posição, palavra com que procuramos expressar uma tonalidade de humor que nos harmoniza e nos con-voca por um apelo. Devemos, todavia, ousar esta tradução porqe só ela nos impede de representarmos páhots psicologicamente no sentido da modernidade. Somente se compreendermos páthos como dis-posição (dis-position) podemos também caracterizar melhor o thaumázen, o espanto. No espanto detemo-no (être em arrêt). É como se retrocedêssemos diante do ente pelo fato de ser e de ser assim e não de outra maneira. O espanto também não se esgota neste retroceder diante do ser do ente, mas o próprio ato de retroceder e manter-se em suspenso é ao mesmo tempo atraído e com o que fascinado por aquilo diante do que recua. Assim o espanto é dis-posição na qual e para a qual o ser do ente se abre. O espanto é a dis-posição em meio à qual estava garantida para os filósofos gregos a correspondência ao ser do ente.

(Heidegger, O que isto -  filosofia?)

Amora

imagem: jjosé ferreira


guardo em mim
o teu aroma mais doce
de uma noite de outono
que ainda não passou

gosto de fruta madura
a molhar meus lábios
nestas longas noites
de espera



Ademir Antonio Bacca

Rotina



Este é o meu número:
telefonem-me.
Este é o sítio
onde passo as tardes:
encontrem-me.
Ou não me telefonem
nem me encontrem
mas pensem em mim
enquanto estiverem a viver.


Pedro Mexia

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Tenho o nome de uma flor



Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.


Eugénio de Andrade

Vem ver-me antes que morra de amor



Vem ver-me antes que morra de amor – o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer – mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite –
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida a pulsar nessa palavra como o músculo tenso
escondido sob a pele – mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa –
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O Outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.



Maria do Rosário Pedreira

A sós

 




A sós
como duas gaivotas
na solidão do céu,
em pleno mar,
sonhando no ar...



A sós,
lado a lado, sem alarde,
como dois pássaros num alto ramo,
ao cair da tarde...



A sós
como duas mãos quando se procuram
e se encontram,
sem voz...

Como eu e tu
quando somos nós
a sós...





JG de Araújo Jorge

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Espelho

Alex Alemany


Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.



Sylvia Plath

Os dogmas




Os dogmas assustam como trovões
e que medo de errar a sequência dos ritos!
Em compensação,
deus é mais simples do que as religiões. 

Mário Quintana

Acerca da verdade e da mentira



Que é que o homem sabe a respeito de si mesmo? Animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e hipócrita da história mundial, mas foi apenas um minuto, quão desprovido de finalidade e arbitrário se apresenta o intelecto humano no interior da natureza. Eternidades houve em que ele não existia; quando ele tiver de novo desaparecido, nada terá alterado.
Neste jogo de dados dos conceitos, chama-se porém verdade o utilizar cada dado tal como é designado, o contar rigorosamente os seus pontos, formar rubricas corretas e nunca subverter a ordem das castas e a sequências das classes hierárquicas.
Toda a conformidade às leis, que tanto nos impressiona no movimento dos astros e nos processos químicos, coincide, no fundo, com aquelas qualidades que nós próprios atribuímos às coisas para nos impressionarmos a nós próprios"




Friedrich Nietzche in Acerca da verdade e da mentira

No tênue fio





no tênue fio


que me prende


a ti,


faço malabarismos mil


para não te perder


de vista



Ademir Antonio Bacca

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

No dia em que os peixes se aproximaram do meu bote



Somam-se os vícios. Associam-se as virtudes. 
As paixões, entretanto, se excluem. Uma substitui as outras. 
Um amor não existe ao lado de outro amor. 
Um proscreve os demais. 
Não há coração com duas idéias fixas. 
É inconcebível a convivência de duas obsessões.



Souza Neto, Linhas Paralelas

Nicolas Ségur, O Leito Conjugal



O ciúme! Este sentimento atenua-se, com o tempo, nos seres que refletem. Não mais causa dramas senão nos primitivos, nos impulsivos. Éramos ciumentos porque estávamos acostumados a considerar que a mulher, pelo fato de partilhar do nosso prazer, era coisa nossa, um objeto que nos pertencia e que não podíamos consentir em ceder a outrem. Quando a noção de que a mulher é livre ao mesmo título que nós, que é nossa igual, for adotada por todos – que digo! – quando se tornar evidente, em vez de ciúme, será dor que sentiremos perante o seu abandono. Já hoje a cólera dos maridos enganados não mais provém, na mor parte dos casos, senão do receio que têm da opinião pública, e não do seu amor lesado. Temos medo de sentirmo-nos em estado de inferioridade, de vermo-nos ridicularizados. Mas também por esse lado as convenções sociais modificam-se, perdem-se uma após outra. O ridículo ligado à pessoa do marido enganado escapa de mais em mais às novas gerações. O adultério cessará, por assim dizer, de chamar a atenção, pelo menos nas grandes cidades. O que perdurará será apenas o poder do sentimento, o invencível domínio do amor que aliena um coração.

 Nicolas Ségur, O Leito Conjugal

Canção a caminho do céu




Foram montanhas? foram mares?
foram os números...? - não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.
Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
- e o encantamento arrependido
do meu amor.

Cecília Meireles

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Por favor não me incomodem quando eu chorar.


Por favor não me calem quando eu chorar.
É atestado de ciso, é o mesmo que riso quando eu chorar.
Sou poeta e chorar é minha musculação,
Exercício.

Por favor não me incomodem quando eu chorar.
É o macaco feliz da mutação, é lavação de olho, é a costela de
Adão sentindo sem ninguém questionar.
É atestado de ciso, é o mesmo que riso quando eu chorar.
Sou poeta e chorar é minha musculação,
Exercício.

Por favor não me incomodem quando eu chorar.
É o macaco feliz da mutação, é lavação de olho, é a costela de
Adão sentindo sem ninguém questionar.
É Deus descansando em emoção no sétimo dia depois de delirar.

Elisa Lucinda

Enquanto te espero



enquanto te espero
derretem-se as horas
mulheres de maio tecem véus de viúva
vêm depois os pessegueiros
e tudo é violeta

ponho a mesa à sombra do sorriso
e começo a servir minutos de prata
vem o vinho maduro
colheita especial da saudade
vem a noite suculenta
regada de ervas de alma picada
e nada me prende

enquanto te espero
partem novos barcos

e eu sem leme sem ti para vencer este monstro
este quarto este ocidente isolado.


Isabel Mendes Ferreira

Sole Mio



Che bella cosa na jurnata 'e sole,
n'aria serena doppo na tempesta!
Pe' ll'aria fresca pare gia` na festa,
che bella cosa na jurnata 'e sole.
Ma n'atu sole cchiu` bello, oje ne', 'o sole mio, sta 'nfronte a te!
O sole, 'o sole mio, sta 'nfronte a te, sta 'nfronte a te!
Quanno fa notte e 'o sole se ne scenne,
me vene quase 'na malincunia.

Sotto 'a fenesta toia restarria,
quanno fa notte e 'o sole se ne scenne.
Ma n'atu sole cchiu` bello, oje ne', 'o sole mio, sta 'nfronte a te!
O sole, 'o sole mio, sta 'nfronte a te, sta 'nfronte a te!
Sole Mio

O Meu Sol

Que bela coisa uma jornada de sol,
um ar sereno depois da tempestade.
Pelo ar fresco parece já uma festa,
Que bela coisa uma jornada de sol.
Mas um outro sol mais belo, oh garota, o meu sol, está na sua fronte...
O sol, o meu sol, está na sua fronte, está na sua fronte.
Quando desce a noite e o sol deita-se,
me pega quase uma melancolia.
Ficaria embaixo da sua janela,
quando desce a noite e o sol deita-se.
Mas um outro sol mais belo, oh garota, o meu sol, está na sua fronte...
O sol, o meu sol, está na sua fronte, está na sua fronte

domingo, 24 de janeiro de 2010

Corda Bamba




Corda bamba em que empenho minhas paixões inúteis de louca, trapezista, ou palhaço, levando no chapéu torto a flor da esperança de que tenham esquecido as redes. Não importa saber: abaixo dessa dança, no vazio que finges, sei que observas. Teu rosto de disfarçado amor espelha tudo o que sonho, escondo ou faço.

Lya Luft

Bestera



Cansei-me de leituras, conceitos e dados. De ser austera e triste como consequência. Cansei-me de ver frivolidades levadas a sério e crueldades inimagináveis tratadas com irrelevância, admiração ou absoluto desprezo. Sou velha e rica. Chamo-me Leocádia. Resolvi beber e berimbar antes de desaparecer na terra, ou no fogo ou na imundície ou no nada. Contratei uma secretária-acompanhante e disse-lhe o seguinte: és jovem e apetitosa. Quando os homens quiserem ter relações contigo diga-lhes que façam um esforço e deitem-se comigo. Pagarei muitíssimo bem a cada um deles e terás régias comissões a cada êxito. Ficou perplexa.Olhou-me a figura ainda esguia mas bastante deteriorada, pediu-me que levantasse a saia, levantei, olhou aturdida minhas coxas murchas. Senhora, retrucou, será bastante difícil convencê-los, mas portar-me-ei, desculpe a mesóclise... E saiu correndo em direção ao banheiro. Na volta explicou-me que havia sido professora e sempre tinha ligeiras náuseas quando usava a mesóclise, mas diante de um assunto tão repugnante (no seu entender) e acrescido de mesóclise, teve que vomitar mesmo. Estava vermelha e lacrimosa mas bastante altiva. Continuou: hei de portar-me indignamente para satisfazê-la, desde que meu salário seja compatível  com tamanha velhacaria. Disse-lhe a quantia. Ficou radiante. Chama-se Joyce (!). É mignon e deliciosa, peitinhos de adolescente, tem 30 mas dão-se-lhe 20 (eu não tenho medo da mesóclise), a boca de cantinhos levantados, os olhos claros entre o amarelo e o castanho, os cabelos quase ruivos, elegante no andar e na postura. Perguntou-me de chofre, ao anoitecer, diante do meu primeiro uísque (aprendi que qualquer bebida é menos fatal se se começa a beber a partir das seis da tarde) se eu conhecia Chesterton. Não acreditei no que eu ouvia. Seria algum Chesterton amiguinho dela? Um professor? Algum político? Não senhora, refiro-me a Gilbert Keith Chesterton, novelista ensaísta crítico e humorista inglês. Meu Deus! exclamei, eu que deixei de pensar para continuar a viver me vejo diante de alguém que leu Chesterton. Por favor, Joyce, previno-a, e previno-a com uma frase do citado: "se a tua cabeça te ofende, corta-afora". Foi o que aconteceu com a minha, porque para mim depois de todas as reflexões sobre a sordidez, a ignomínia, a canalhice da humanidade, prefiro esquecer que um Chesterton existiu.
Muito bem, madame, não falaremos mais nele. A senhora gostaria de deitar-se com um homem todos os dias?
Nem pensar, uma vez por semana está bem. Nos outros dias prefiro beber sozinha, traquear, bater caixeta e pensar em nigrinhagens.
Como?
Esqueça.
No meu quinto uísque ela já havia entendido quase tudo. Expliquei-lhe principalmente que o homem deveria ser jovem. Que ela se certificasse de sua potência. Que não me mandasse ninguém com bimbaou bilunga. Que estando comigo o homem ficasse mudo. Que eu já havia providenciado uma linda fronha com rendas francesas para enfiar a minha cabeça. Espantou-se. Esclareci: minhas rugas são bastante nítidas, não quero assustá-los.
Penso, senhora Leocádia, que está sendo demasiado cruel, cruel consigo mesma.
Isso não lhe interessa, sei tudo sobre crueldade. Conheço Deus.
Mostrei-lhe um lindo pijama de cetim azulado e perguntei se gostava. É lindo, senhora, pretende usá-lo na próxima semana? É para você, Joyce, quando o jovem estiver no ponto mande-o para mim.
 Perfeitamente, madame.
O bolo de dinheiro estará lá.
Onde?
No meu quarto, mande-o olhar para todos os lados. Descobrirá, o dinheiro cintila.

Bem, agora quero lhes contar do meu filho. Tem 40 anos. Casado. Sua mulher é tolinha, dessas que falam sem parar e sempre imbecilidades. Leu algum que discorreu sobre a importância de “agilizar o conceito fala”, de extravasar. Sua visita era um inferno. Eu colocava meu xale acastanhado e cantava baixinho só para ela uma canção muito engraçada dos meus tempos de faculdade: cume que é meu capim barba de bode/ faz tempo que nóis num mete/ faz tempo que nóis num fode... Ela se arrepiava inteira. Dizia para meu filho: Leocádio, sua mãe está louca, como é que você pode deixá-la aqui sozinha quando deveria estar naqueles belos lugares onde as velhinhas bordam, cantam canções de ninar, fritam bolinhos... você já viu as ferramentas que ela tem debaixo da cama?

que ferramentas?

ancinhos, pás, enxadas... e imagine! um emaranhado de terços!

Aí eu explicava com perfeita harmonia entre as palavras que o mais sensato era guardar as ferramentas ali porque a edícula que havia nos fundo poderia ser alvo de ladrões e aqui no meu quarto só entra o jardineiro e o monsenhor Ladeira.

entram no seu quarto? pra quê?

o jardineiro para pegar as ferramentas e o monsenhor para rezar.

e ele não tem o seu próprio terço?

tem. mas pode esquecê-lo. e aí tenho outro para rezarmos juntos.

Claro que tudo isso não era verdade. O monsenhor Ladeira foi um excelente amante mas sempre se esquecia do terço e a cada semana comprava um. Mandaram-no para Roma. Pena. As ferramentas eram o fetiche de um taurino. Amava tanto a terra que só conseguia o prazer se tivesse ancinhos pás enxadas ali ao pé da cama. Desgostoso com a vida foi ser jardineiro num convento. Um tipo Wittgenstein. Tinha um bom mondrongo. Mas meu filho pareceu contentar-se com aquelas explicações lá de cima e disse à cretina da minha nora: Leocádia está completamente lúcida. Depois de tê-los convencido da minha lucidez rodeei minha nora com pulinhos hostis e lançando-lhe perdigotos à cara repeti minha cançãozinha sem que o meu filho ouvisse. Graças a Deus, agora não me incomodam mais. Leocádio me telefona vez ou outra. Ah, como é delicioso e prático que as pessoas nos pensem estranhas... O conforto de não ser mais levado a sério, esse traquear de repente sorrir como se não fosse com você, poder acariciar um peixe morto na peixaria e chorar diante de um cão sarnento e faminto. É bom ser estranho e velho. Bem. Joyce tem sido muito hábil. Encontra-se com os jovens e explica-lhes tudo. O primeiro foi um sujeito muito franzino, o peito encovado mas uma esplêndida verga, olhou o dinheiro, acariciou-o, guardou-o e disse sorrindo: tô sempre às ordens, viu, dona? Quando ia saindo do quarto levantei um pouco a fronha e vi seus pentelhos chamuscados e perguntei o porquê.

é que fui fazer um virado de ovo e uma fornada de batata lá na pensão e o forno explodiu.

Ah...

quer dizer que a senhora fala, dona? e vê sem ver?

claro, não está vendo?

tem alguma coisa na cara pra esconder?

só velhice.

minha avó também é velha e eu gosto dela.

mas não fodes com ela, pois não?

ah, mas também ela não tem essa pataca!

compreendo.

Saiu do quarto. De repente gritou do outro lado da porta: tenho um amigo chamado Bestera que também é supimpa de caceta, posso indicá-lo à Joyce? pode sim, respondi. e por que ele se chama Bestera?

um cara quis dar o roxinho e muita grana pra ele, e ele respondeu: cu de mancebo só espio e não meto. todo o mundo achou uma bestera, porque com grana a gente mete em qualquer buraco.

claro. pode mandar o Bestera sim.

qué saber, dona? a senhora é uma veia muito sensuar!

O Bestera também é muito “sensuar”, pensei semanas depois, quando o conheci. Estou feliz. Até já tiro a fronha.



Hilda Hilst, Cartas de um Sedutor

sábado, 23 de janeiro de 2010




Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo,
e eles voltam-se profundamente dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construimos um lugar de silêncio.
De paixão.


Herberto Helder


Escrevo-me.
Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto.

E o que sinto é o que existo e o que sou.
Escrevo-me nas palavras mais ridículas:
amor, esperança, estrelas,
e nas palavras mais belas:
claridade, pureza, céu.
Transformo-me todo em palavras.


José Luis Peixoto

Poeta ao espelho


Deslizou um rio nos teus braços
e não percebeste
as margens da água estendidas.
E não viste a líquida pele
encostada à tua.

Brandiste a palavra,
lâmina contra o dia.
Teu olhar colado ao espelho
ignorou a flor sinuosa
oferecida a ti.

Não é impune o gesto
embaraçado na arrogância,
no amor a si próprio.
Não encontrarás palavras
na imagem virtual,
apenas eco.

Delineias teu destino:
absoluta solidão.
Sem lábios que te acolham.


Silvia Chueire

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste



Estavas sentado e havia uma paisagem agreste
nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,
os espinheiros agitados com a erosão das dunas,
um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -
era a força do vento contra o corpo do navio; uma
miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;
a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira
dos deuses com o mundo. quando te levantaste,

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio
a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)

Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias.


Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Via Láctea


Os significados da palavra vulgar
Estão no ar
Pega quem quer
Ele diz que não sabe o que quer uma mulher
E fala do desejo
Uma mulher é tão casta e tão profana
Ou é puro pecado ou quase que levita
Oscila entre satã e Jesus cristo
Um misto de Sodoma e civilização cristã.
Uma mulher caminha sobre as águas
Ou ameaça se matar
Se esconde às vezes atrás de algum discurso
Precisa urgentemente se posicionar.
A qualquer custo, sabe quanto lhe custa seu espaço
Traz sua história injusta e agita o braço com
Novas bandeiras, e tenta tudo
Se deixou cortar durante tanto tempo
E agora volta inteira
Tenta o orgasmo vaginal e sabe que a loucura
Mora ao lado e às vezes telefona.
Uma mulher nunca foi dona
E agora quer.

Bruna Lombardi

Quizá la más querida



Me diste la intemperie,
la leve sombra de tu mano
pasando por mi cara.
Me diste el frío, la distancia,
el amargo café de medianoche
entre mesas vacías.

Julio Cortázar

Ler-te


Ler-te
Mansamente. Amar-te mansamente. Inverter-te a química
Da intensidade e nela repousar o pensamento...
Lamber-te o fulgor em que
Me abismo


Maria Gabriela Llansol

Vontade de ficar sozinha


vontade de ficar sozinha
só para saber
se você ia
ou vinha


Alice Ruiz

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Veganismo/Vegetarianismo/Direito Animal

Fernando Pessoa - Reflexões Pessoais


Quando nasceu a geração a que pertenço, encontrou o mundo desprovido de apoios para quem tivesse cérebro, e ao mesmo tempo coração. O trabalho destrutivo das gerações anteriores fizera que o mundo, para o qual nascemos, não tivesse segurança que nos dar na ordem religiosa, esteio que nos dar na ordem moral, tranqüilidade que nos dar na ordem política. Nascemos já em plena angústia metafísica, em plena angústia moral, em pleno desassossego político.
(...) Uma sociedade assim indisciplinada nos seus fundamentos culturais não podia, evidentemente, ser senão vítima, na política, dessa indisciplina; e assim foi que acordamos para um mundo ávido de novidades sociais, e com alegria ia à conquista de uma liberdade que não sabia o que era, de um processo que nunca definira.
Mas o criticismo frustro dos nossos pais, se nos legou a impossibilidade de ser cristãos, não nos legou o contentamento com que a tivéssemos; se nos legou a descrença nas fórmulas morais estabelecidas, não nos legou à indiferença à moral e às regras de viver humanamente; se deixou incerto o problema político, não deixou indiferente o nosso espírito a como esse problema se resolvesse. Nossos pais destruíram contentemente porque viviam em uma época que tinha ainda reflexos da solidez do passado. Era aquilo mesmo que eles destruíam, que dava força à sociedade, para que pudessem destruir sem sentir o edifício rachar-se. Nós herdamos a destruição e os seus resultados.
Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos, por que se conquista o internamento num manicômio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação.
(...)Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuimo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma idéia do futuro, também não temos uma idéia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.


Fernando Pessoa

THE ENCOUNTER


All the while they were talking the new morality
Her eyes explored me.
And when I arose to go
Her fingers were like the tissue
Of a Japanese paper napkin


Ezra Pound


O ENCONTRO

Enquanto conversavam sobre o novo moralismo
Os olhos dela me exploravam.
E quando levantei para partir
Seus dedos eram como a textura
De um guardanapo de papel japonês

Tradução: Virna Teixeira

EL CORAZON DE LO QUE EXISTE


no me entregues, 
tristísima medianoche, 
al impuro mediodía blanco

Alejandra Pizarnik

não me entregues,
 tristíssima meia-noite,
ao impuro meio-dia branco

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Intocáveis


Escorrego nas palavras,
na densidade com que elas me provocam
e calo (com medo da imensidade).

Falo das palavras que me escondem.
Falo dos sonhos e dos segredos
intocáveis. Falo do refúgio úmido

onde te anseio. Do meu lado selvagem.
Falo da poesia da tua voz ao meu ouvido
e escorrego nas palavras. Falo de ti.


Jade Dantas

Ninguém me canta como você

Rob Hefferan 

ninguém me canta
como você
ninguém me encanta
como você
nem me vê
do jeito
que só você

de que adianta
ter olhos
e não saber ver
ter voz
mas não ter o que dizer
digam o que disserem

façam o que quiserem
ninguém diz
ninguém vê
ninguém faz
como você

ninguém me canta
ninguém me encanta
como você



Alice Ruiz

Como é ficar sem casa? Pergunte para os ursos polares.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Aonde?



Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde…aonde…aonde?…
O eco ao pé de mim segreda…desgraçada…
E só a voz do eco, irônica, responde!

Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantante como um rio banhado de luar!

Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde…

Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde… aonde… aonde?…


Florbela Espanca

Maldita entre as mulheres




Maldita eu sou - bem sei - entre todas as mulheres,
Que a ti só trazem sonhos e alegrias,
Que tantas cores levam aos teus dias,
Que sempre são do jeito que tu queres.

Maldita eu sou na hora em que me feres,
E não aceito flores nem poesias,
E não me engano com tuas fantasias,
Nem me escravizo à vida que preferes.

Não perderei um fio dos meus cabelos,
Por sufocar-me com ciúmes ou zelos
Por esperar-te em vão quando te chamo.

Bem diferente eu sou dessas mulheres
Que sempre fazem tudo que tu queres
Mas que não amam tanto quanto eu amo

Silvia Schmidt

Os trabalhos e os dias



Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.

Jorge de Sena, Coroa da Terra

Dogma e Ceticismo

Dogma  - é ponto fundamental e indiscutível de uma doutrina religiosa e, de qualquer outra doutrina ou sistema. Na religião cristã, por exemplo, há o dogma da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), a qual não deve ser confundida com a existência de três deuses, pois se trata de apenas um. Deus é uno e trino. Não importa se a razão não consegue entender, já que é um princípio aceito pela fé e o seu fundamento é a revelação divina.
Quando transpomos esta idéia de dogma para áreas estranhas à religião, ela passa a ser prejudicial ao homem, que, uma vez de posse de uma verdade, fixa-se nela e abdica de continuar a busca. O mundo muda, os acontecimentos se sucedem e o homem dogmático permanece petrificado nos conhecimentos dados de uma vez por todas. Refratário ao diálogo, teme o novo e não raro se torna intransigente e prepotente. Disse Nietzsche que “as convicções são prisões”. Quando o dogmático resolve agir, o fanatismo é inevitável. Em nome do dogma da raça ariana, Hitler cometeu o genocídio dos judeus nos campos de concentração.

Ceticismo - enquanto o dogmático se apega à certeza de uma doutrina, o cético conclui pela impossibilidade de toda certeza, e, nesse sentido, considera inútil esta busca infrutífera que não leva a lugar nenhum.

Comparando essas duas posições antagônicas, podemos ver que elas têm algo em comum, ou seja, a visão imobilista do mundo: o dogmático atingiu uma certeza e nela permanece; o cético anseia pela certeza e decide que ela é inalcançável. Mas a filosofia é movimento, pois o mundo é movimento. A certeza e a sua negação são apenas dois momentos (a tese e a antítese) que serão superados pela síntese, a qual, por sua vez, será nova tese, e assim por diante. A filosofia é a procura da verdade, não a sua posse, como disse Jaspers, filósofo alemão, concluindo que “fazer filosofia é estar a caminho"; as perguntas em filosofia são mais essenciais que as resposta e cada resposta transforma-se numa nova pergunta.

O escritor



“O escritor é um sujeito que não se conforma com o mundo
do jeito que ele é, por isso, inventa outro.”


ARIANO SUASSUNA

domingo, 17 de janeiro de 2010

Aforismo 9 - Nossas Erupções



Há uma infinidade de coisas que a humanidade adquiriu no decurso de estágios anteriores, mas de maneira tão frágil e tão embrionária que ninguém pode perceber essa aquisição, e vêm à luz, repentinamente, muito mais tarde, decorridos séculos à vezes: ganharam força neste intervalo, amadureceram. Parece que alguns períodos, como alguns homens, faltam este ou aquele talento, esta ou aquela virtude; mas esperemos, no caso de se dispor de tempo, os netos e os bisnetos: eles trazem para a luz do dia a alma dos seus avós, esse interior do qual os próprios avós nada sabiam. Frequentemente o filho já revela o pai: este compreende a si próprio muito melhor depois que tem este filho. Todos possuímos as nossas plantações e os nossos jardins ocultos em nós; para empregar um outra metáfora, somos todos vulcões em atividade que terão sua hora de erupção: quando? Cedo? Tarde? Todos evidentemente ignoram, até mesmo Deus.

Friedrich Nietzsche

Lunar



As casas cerraram seus milhares de pálpebras.
As ruas pouco a pouco deixaram de andar.
Só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças.
Tudo está sob a encantação lunar...

E que importa se uns nossos artefactos
lá conseguiram afinal chegar?
Fiquem armando os sábios seus bodoques:
a própria lua tem sua usina de luar...

E mesmo o cão que está ladrando agora
é mais humano do que todas as máquinas.
Sinto-me artificial com esta esferográfica.

Não tanto... Alguém me há de ler com um meio sorriso
cúmplice... Deixo pena e papel... E, num feitiço antigo,
à luz da lua inteiramente me luarizo...


Mário Quintana

Se terminar este poema, partirás




Se terminar este poema, partirás. Depois da

mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo

este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido

está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.


Maria do Rosário Pedreira

sábado, 16 de janeiro de 2010

Amor



todos os poemas de amor já foram
escritos
apagados
alumbrados
proscritos
eternizados

negados perante uma tribuna de deuses sem sexo
suportados em nome dos lugares que não se conseguem pronunciar
violentados nas entranhas à hora das madrugadas virgens
premiados com perguntas estúpidas como cenas dos próximos capítulos
enterrados como mártires de mais uma religião

todos os poemas de amor já (te) foram
entregues

Sandra Costa


Não digas que conheces minhas dores
Deixas-me com meus desamparos
Não sabes do estio dos meus lábios
E das marcas que abraçam minha solidão
Pedaços de ti que arranham meu corpo

Não penses que é melhor assim
Nem pressuponhas que a saudade finda
Como se o teu silêncio e deserção
Apagassem o perfume do desejo
Ou a inquietude de sentir-te em mim

Não me obrigues a entender a crueldade
Prefiro ignorar esta estrada que dizes destino
Não quero dar-te ao esquecimento dos sentidos
Nada sei destas trilhas em que sucumbes
Soterrado pelos passos que te negas

Não me convides às tuas renúncias
Nem me batizes nestas águas
Que sangram e definham teu peito
Tenho ardores de vida que me cingem
Férteis à espera que te resgates de ti

Não me amputes de mim, dos meus sonhos
Nem me indiques tuas confortáveis saídas
Prefiro o rasgar de entranhas, a febre do sentir
Ao discurso patético do conformismo
Lanço à fogueira, a impotência, o desistir

Sim, hoje estou em carne viva
Palavras à flor da pele, despindo-se
Ainda que seja este um grito confinado
Ao subterrâneo do meu mundo
Este que já não te alcança.


Fernanda Guimarães