terça-feira, 30 de março de 2010

Canto-te



Canto-te para que tu definitivamente existas
Canto o teu nome porque só as coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva

Como os animais pequenos bebem nos regatos depois
das grandes feras
Canto-te
e tu definitivamente existes nos meus olhos
sempre abertos e os meus olhos
são os olhos da criança que nós somos sempre
diante da imensidão do teu espaço
Canto-te
e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
instante pendente de eu te interrogar
e interrogo as coisas em seu ser noctumo
em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
obscura
E como é sempre
meus olhos abertos perscrutam-te
símbolo de tudo o que me foge
como apertar o ar dentro da mão
e querer agarrar-te
oh substância
Canto-te
Para que tu existas
E eu não veja mais nada além de ti

Ana Hatherly

Dorme, meu amor


Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

Legião Urbana - Eu Sei



Sexo verbal não faz meu estilo
Palavras são erros e os erros são seus
Não quero lembrar que eu erro também

Um dia pretendo tentar descobrir
Porque é mais forte quem sabe mentir
Não quero lembrar que eu minto também

Eu sei

Feche a porta do seu quarto
Porque se toca o telefone pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas

A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
Mas não, não vá agora, quero honras e promessas
Lembranças e estórias

Somos pássaro novo longe do ninho

Eu sei

Composição: (Renato Russo)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Sinal de baton


Este sinal de batom
num guardanapo
pode bem ser de um beijo
mancha num trapo
pode querer dizer nada
ou então dizer
que eu te aguardo
a boca num pano mudo
papel que faço
desejo pano de fundo
que eu disfarço
dor que nem bem se escondeu
e ninguém vê
ou só eu
e alguma tarde
você

Alice Ruiz

A Canção

lena sotskova

Era a flor da morte
E era uma canção…


Tão linda que só se poderia ler dançando.
E que nada dizia
Em sua graça ingênua
Dos subterrâneos êxtases e horrores em que estavam mergulhadas as suas raízes…

Mas estava fragilmente pintada sobre o véu do silêncio
Onde a morte jazia com os seus cabelos esparsos
Com os seus dedos sem anéis
Com os seus lábios imóveis
E que talvez houvessem desaprendido para sempre até as sílabas com

que outrora pronunciavam meu nome…
Onde a morta jazia, na sua misteriosa ingratidão!
Era uma pobre canção,
Ingênua e frágil,
Que nada dizia…


Mario Quintana

Céu e Inferno


Não há progresso sem contrários.
Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio
são necessários à existência Humana.
Desses contrários emana o que o religioso denomina Bem & Mal.
Bem é o passivo que obedece à Razão.
Mal, o ativo emanando Energia.
Bem é Céu. Mal, Inferno.

William Blake

Caminhada

Steve Hanks

O que vale na Vida não é
o ponto de Partida e Sim
a Caminhada,
Caminhando e Semeando,
no Fim terás o que Colher.
Quero amar você...
assim como os pássaros amam
a liberdade de voar.
Quero amar você...
assim como os rios amam
seus mares.
Quero amar você...
assim como as estrelas amam
a imensidão do espaço.
Quero amar você...
assim como as ondas quebram
na praia em suaves espumas.
Quero amar você...
assim como as montanhas
amam seus campos.
Quero amar você...
com o mais simples e perfeito amor..

Cora Coralina

Canteiros


Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento

Pode ser até amanhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza

Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.

Cecília Meireles

sexta-feira, 26 de março de 2010

Dualidade


Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento,
quando estás junto a mim, quando te vejo.

É um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, (violento e terno)
em que a minha alma inteira se reparte,

- e a perceber em meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um demônio e um anjo em todo Amor!

J.G. de Araújo Jorge

Psicografia


Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não sou e digo


a palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

Ana Cristina César

Prometi-me possuí-la...

steve hanks

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a nas catástrofes, na aurora,
e na fonte e no muro onde sua face
entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitário nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.
Assim persigo-a lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos
das nuvens fogem, luminosos e ágeis.
Vocabulário e corpo - deuses frágeis -
eu colho a ausência que me queima as mãos.

Ferreira Gullar

Por que você


Por que você, tão jovem, está emprestando tanta tristeza a um poema onde não há tristeza?
Por que este tom de despedida onde só há encontro, esse tom fúnebre onde não há morte?

Elisa Lucinda


(vídeo com  ligeiras alterações)


I have done it again.
One year in every ten
I manage it –

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify? –

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

Them unwrap me hand and foot –
The big strip tease.
Gentlemen, ladies

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut

As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I’ve a call.

It’s easy enough to do it in a cell.
It’s easy enough to do it and stay put.
It’s the theatrical

Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

‘A miracle!’
That knocks me out.
There is a charge

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart –
It really goes.

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

Ash, ash –
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there –

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.


Sylvia  Plath

1962 «Lady Lazarus»; ed. ut.: in Ariel. The restored edition, New York, HarperCollins, 2004, p. 14.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Escreve-me!



Escreve-me!
Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me!
Há tanto,há tanto tempo
Que te não vejo, amor!
Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca

Se eu te pudesse dizer

duffy sheridan


Tudo que faço ou medito
Fica sempre na metade
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúdica e rica,
E eu sou um mar de sargaço —

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.


Fernando Pessoa

De tudo, ficaram três coisas




De tudo, ficaram três coisas:
a certeza de que ele estava
sempre começando, a certeza
de que era preciso continuar
e a certeza de que seria
interrompido antes de terminar.
Fazer da interrupção um caminho
novo. Fazer da queda um passo
de dança, do medo uma escada,
do sono uma ponte,
da procura um encontro.


Fernando Sabino, 
in "O Encontro Marcado", Editora Record, 2005

Dei-lhe a minha música e a minha respiração


Dei-lhe a minha música e a minha respiração,
os meus pensamentos e o bater do meu coração,
tal como um caminhante pela manhã se entrega ao leve azul e ao claro brilho do prado,
sem perguntas e sem se perder a si próprio.
Ao mesmo tempo, o bem-estar e a crescente torrente de sons enchiam-me de uma felicidade espantosa,
e subitamente soube  o que era o amor.

Hermann Hessé

Vieste



Vieste na hora exata,
com ares de festa e luas de prata;
Vieste com encantos, vieste,
com beijos silvestres colhidos pra mim;
Vieste com a natureza,
com as mãos camponesas plantadas em mim;
Vieste com a cara e a coragem, com malas,
viagens pra dentro de mim, meu amor;
Vieste à hora e a tempo,
soltando meus barcos e velas ao vento;
Vieste me dando alento,
me olhando por dentro velando por mim;
Vieste de olhos fechados,
num dia marcado sagrado pra mim...

Ivan Lins

segunda-feira, 22 de março de 2010

A um passo do paraíso


paixão que leva
do nada a lugar algum

sonho que insiste
em fugir pela janela
antes da hora

aromas da infância
esquecidos na dobra do tempo

segredos
que os olhos da amada
escondem

feridas que se abrem
em noites de ausências

velas abertas
à espera de vento
para se lançar ao mar

desejo que resiste
sobre as cinzas da paixão

o que separa o poeta
do paraíso
é só um passo no escuro.

Ademir Antonio Bacca

Vício




Tu nunca bates no meu pensamento à hora de entrar.
Chegas de repente, invades tudo, e é impossível te expulsar
por que então já sou eu que te procuro.

Não escolhes momento.

É na hora séria ou na hora triste,
na hora romântica, ou na hora de tédio
por mais que me encontres fechado em mim mesmo
entras pelo pensamento, - clara fresta, vulnerável
às lembranças do teu desejo.

E quando chegas assim, estremeço até regiões ignoradas
me levanto, e saio, sonâmbulo, a te buscar
a caminhar a esmo...

Chegas - como uma crise a um asmático,
- e então preciso de ti
como preciso de ar,
e tenho a impressão de que se não te alcanço,
se não te encontro,
vou morrer, miserável,
como um transeunte nas ruas,
antes que o socorro chegue para salvá-lo...
alcançar-te é um suplício...

Teu amor para mim - é humilhante a confissão -
Depois que consegues atingir meu pensamento
tua posse é uma obsessão,
não é amor, é vicio...

JG de Araujo Jorge 

domingo, 21 de março de 2010

O que Me Dói não É

haleh_bryan


O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Escreve-me muitas vezes

Jon PAUL


Escreve-me muitas vezes
como os percursos ininterruptos das formigas
o ritmo dos girassóis devolvidos à condição de flor
e o reflexo das nuvens no lado interior dos rios
guardados nas minhas mãos
Escreve-me tantas vezes
quantos os nocturnos quase-vazios entre as estrelas
os quebrantos de mar aos pés prateados da lua
e as intuições anunciadas na respiração dos dedos dos amantes
Nunca deixes de me escrever
como se o tempo das palavras fosse o dos regressos
confirmado na existência e docilidade das pedras
Nunca deixes de me sentir

Sandra Costa

De todas que me beijaram,
de todas que me abraçaram,
já não me lembro, nem sei!
São tantas as que me amaram,
são tantas as que eu amei!
Mas tu - que rude contraste!
tu que jamais me beijaste,
tu - que jamais abracei,
só tu nesta alma ficaste de todas as que eu amei.

Paulo Setúbal

O meu mundo tem estado à tua espera



O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei

que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.

Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes

porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 19 de março de 2010



O veneno que mata as naturezas fracas é um fortificante para as fortes... e por isso nem lhe chama de veneno.
.....

Predestinada à tua órbita
Que te importa, estrela, o breu?
Atravesse, bem-aventurada, através do tempo!
Que a miséria te permaneça estranha!
A tua luz pertence ao mais estranho dos mundos:
A piedade lhe é um pecado!
Existe apenas uma lei para ti: sê pura!
.....

Tudo aquilo que me diz respeito, na natureza e na história, fala-me, louva-me, encoraja-me, consola-me: o resto eu não o escuto, ou esqueço-o imediatamente.

Friedrich Nietzshe

Especialidade me é impossível. Valho um sorriso. Você não é nem
poeta, nem filósofo, nem geômetra -
nem outra coisa. Você não aprofunda
nada. Com que direito você fala daquilo
a que não se consagrou com
exclusividade? Eu sou como o olho que vê o que vê.
Seu menor movimento muda o muro em nuvem
a nuvem em relógio; o relógio
em letras que falam. Talvez esteja aí
a minha especialidade.

Paul Valéry

Bilhete





O teu vulto ficou na lembrança guardado,
vivo, por muitas horas!... e em meus olhos baços
Fitei-te – como alguém que ansioso e torturado
Tentasse inutilmente reavivar teus traços...

Num relance te vi – depois, quase irritado
Fugi, - e reparei que ao marcar os meus passos
ia a dizer teu nome e a ver por todo lado
o teu vulto... o teu rosto... e o clarão dos teus braços!

Talvez eu faça mal em querer ser sincero,
censurarás – quem sabe? Essa minha ousadia,
e pensarás até que minto, e que exagero...

Ou dirás, que eu falar-te nesse tom, não devo,
que o que escrevo é infantil e absurdo, é fantasia,
e afinal tens razão... nem sei por que te escrevo!



J.G. de Araújo Jorge

Apago todas as mensagens. Menos as tuas. Guardo a tua voz em pequenas doses e, dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. Sinto-me demasiado incapaz para falar contigo o que quer que seja. Não sei onde estás. Não quero saber. Tenho medo de saber mais do que sei.
Uma dor de cada vez basta.

Pedro Paixão

quarta-feira, 17 de março de 2010

Me Encante



Me encante da maneira que você quiser, como você souber.

Me encante para que eu possa me dar.

Me encante nos mínimos detalhes.

Saiba me sorrir, aquele sorriso malicioso e gostoso, inocente e carente.

Me encante com suas mãos, gesticule quando for preciso, me toque, quero correr esse risco.

Me acarinhe se quiser, vou fingir que não entendo, que nem queria esse momento.

Me encante com seus olhos, me olhe profundo, mas só por um segundo, depois desvie o seu olhar, como se o meu olhar, não tivesse conseguido te encantar... e então, volte a me fitar, tão profundamente, que eu fique perdida sem saber o que falar.

Me encante com suas palavras, me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres, me conte segredos, sem medos... e depois me diga o quanto eu te encantei.

Me encante com serenidade, mas não se esqueça, também tem que ser com simplicidade, não pode haver maldade.

Me encante com uma certa calma, não tenha pressa, tente entender a minha alma.

Me encante como você fez com a primeira namorada, sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certezas.

Me encante na calada da madrugada, na luz do sol ou embaixo da chuva.

Me encante sem dizer nada ou até dizendo tudo, sorrindo ou chorando, triste ou alegre... mas me encante de verdade, com vontade... que depois, eu te confesso que me apaixonei e prometo te encantar todos os dias, do resto das nossas vidas!!!

 Silvana Duboc


...Diferente das outras noites, ela o convidou para entrar. Ele entrou. Tão áspero lá dentro, embora cinco estrelas, igual ao dele. Ele não sabia o que fazer, então ficou parado perto da porta enquanto ela abria a janela para que entrasse aquela brisa morna do mar. Ela parecia de repente muito segura. Ela apertou um botão e, de um gravador, começou a sair a voz de Nara Leão cantando These Foolishing Things: coisas-assim-me-lembram-você. Ela veio meio balançando ao som do violão e convidou-o para dançar, um pouco mais. Ele aceitou, só um pouquinho. Ele fechou os olhos, ela fechou os olhos. Ficaram rodando, olhos fechados. Muito tempo, rodando ali sem parar. Ele disse:
Eu não vou me esquecer de você. Ela disse:
Nem eu.

Caio Fernando Abreu

Quero



Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.


Carlos Drummond de Andrade

Em tudo quanto escrevo



Enquanto sinto em minha mão teu cheiro e gosto,
teu rosto pinto no papel com afago e pranto.
E meu espanto tão mais cresce ao ver disposto
o mosto ao meio destes versos que te canto.

Será encanto degustar mel do desgosto,
posto saber ser minha lira o meu quebranto?
Quanto me sou se está teu Ser a mim aposto?
(Nem Ariosto em mil oitavas diz o tanto...)

Assim caminham os meus poemas que te escrevo.
(Nem sei se eu devo assinar meu nome ao fim)
A mim já basta desenhar-te com enlevo,

mas com relevo escreverei teu nome sim!
Enfim és parte em tudo o quanto me atrevo
e me descrevo, ao descrever-te, Alma afim.
  
Antoniel Campos

terça-feira, 16 de março de 2010

Completas



A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.



E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.



Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.



Manuel António Pina
in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”.


A melhor palestra que você irá ouvir na vida

segunda-feira, 15 de março de 2010

O meu impossível



Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito.É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!…

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!…Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto…

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!…



Florbela Espanca


Mais uma noite, amor. Ao recordar-te
retomo os fins do mundo, a cinza, os dias
manchados de outras lágrimas. Sabias
como eu a cor das sombras, essa arte

que nos engana agora e se reparte
por esquinas e cafés. Já não me guias
os muitos passos vãos, as fantasias
da minha falsa vida. Vou deixar-te

fugindo-me. Na chuva, sem ninguém,
apenas alguns vultos, o que vem
«e dói não sei porquê» - este deserto

onde te vejo, imagem outra vez,
até de madrugada. O que me fez
sentir o muito longe aqui tão perto?



Fernando Pinto do Amaral

A Clarinha Rosa.

domingo, 14 de março de 2010

Hoje podes deitar-te na minha cama



Hoje podes deitar-te na minha cama
e contar-me mentiras - dizer, não sei,
que o amor tem a forma da minha mão
ou que os meus beijos são perguntas que
não queres que ninguém te faça senão
eu; que as flores bordadas na dobra do
meu lençol são de jardins perfeitos que
antes só existiam nos teus sonhos; e que
na curva dos meus braços as horas são
mais pequenas do que uma voz que no
escuro se apagasse. Hoje podes rasgar
cidades no mapa do meu corpo e
inventar que descobriste um continente
novo - uma pátria solar onde gostavas
de morrer e ter nascido. Eu não me
importo com nada do que me digas esta
noite: amo-te, e amar-te é reconhecer o
pólen excessivo das corolas, o seu vermelho
impossível. Mas amanhã, antes de partires,
não digas nada, não me beijes nas costas
do meu sono. Leva-me contigo para sempre
ou deixa-me dormir - eu não quero ser
apenas um nome deitado entre outros nomes.


Maria do Rosário Pedreira

14 - Ao que se chama Amor


Cupidez e amor: como estas duas palavras soam diferentemente aos nossos corações! Pode ser, no entanto, que exprimam ambas o mesmo instinto que receba dois nomes: A primeira perjurativamente, do ponto de vista daqueles que já possuem , que têm um instinto de posse levemente satisfeito e que receiam entretanto pelos seus “bens”; a segunda elogiosamente, do ponto de vista dos insatisfeitos e dos ávidos que acham “bom” este instinto. O nosso amor pelo próximo não será o desejo imperioso de uma nova propriedade? E não sucede o mesmo pelo nosso amor pela ciência , pelo saber, pela verdade? E igualmente com todos os desejos de novidade? Cansamo-nos, pouco a pouco do antigo, do que possuímos com certeza , temos ainda necessidade de estender as mãos ; mesmo a mais bela paisagem, quando vivemos diante dela por mais de três meses, deixa de nos poder agradar, qualquer margem distante nos atrai mais: geralmente uma posse reduz-se com o uso. O prazer que tiramos a nós próprios procura manter-se, transformando qualquer coisa nova em nós mesmos, é precisamente a isso que se chama possuir. Cansar-se de uma posse é cansar-se de si próprio (pode-se também sofrer como o excesso: à necessidade de jogar fora, de dar, pode-se assim atribuir o nome lisongeiro de “amor”). Quando vemos sofrer uma pessoa, aproveitamos com gosto essa ocasião que nos oferece de apoderarmos dela; é o que faz o homem caridoso, o indivíduo complacente; chama-se também "amor " a esse desejo de uma nova posse que despertou na sua alma e tem prazer nisso como diante de uma nova conquista iminente. Mas é o amor de sexual que se revela mais nitidamente como um desejo de posse: aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja, quer ter um poder absoluto tanto sobre a sua alma como sobre o seu corpo, quer ser amado unicamente, habitar e reinar na outra alma como o mais alto e o mais desejável. Se considerarmos que isso não significa outra coisa senão excluir o mundo inteiro do gozo de um bem, de uma felicidade preciosa; se pensarmos que aquele que ama visa empobrecer e privar todos os demais competidores, e tornar-se o dragão do seu tesouro, sendo o mais implacável “conquistador”, o explorador mais egoísta;se imaginarmos, por fim, que todo o resto do mundo lhe parece indiferente, desbotado, sem valor, e que se encontra disposto a efetuar qualquer sacrifício, a perturbar qualquer ordem estabelecida, a relegar para segundo plano qualquer interesse: então, espantamo-nos que esta cupidez bárbara, esta furiosa injustiça do amor sexual tenha sido a tal ponto glorificada, divinizada, em todos os períodos da história, que se tenha extraído desse amor a idéia de amor concebida como contrária do egoísmo, quando representa talvez a sua expressão mais direta. Esse uso lingüístico, evidentemente, deve ter sido criado por aqueles que não possuíam e desejavam possuir – talvez tenham provavelmente existido sempre em maior número. Aqueles que possuíram muito e que conheceram a sociedade, deixaram por vezes escapar uma palavra falando de “demônio furioso”, como Sófocles, o mais adorável e o mais amado dos atenienses; mas Eros sempre riu de semelhantes blasfemadores – eram os seus grandes favoritos. Existe realmente, aqui e além na terra, uma espécie de prolongamento do amor, no qual o desejo que dois seres experimentam um pelo outro dá lugar um novo desejo, uma nova cobiça, a uma sede superior comum, a de um ideal que os ultrapassa a ambos: mas quem é que conhece tal amor? Quem já o viveu? O seu verdadeiro nome é amizade.

Ser humano, Valores, Vegetariano.



por Eduardo Farah

Nasci comendo carne. Aprendi desde cedo que uma refeição sem carne era uma refeição incompleta e sem graça. E por que eu pensava assim? Porque fui educado desta forma. Meus pais me ensinaram isso, a partir do exemplo. Uma boa refeição era aquela que tinha várias opções de carne.

As famílias, em geral, aprendem que só não tem carne na mesa quando falta dinheiro para comprá-la. Além de tudo isso, compreendi que a comida tem um forte significado emocional, principalmente relacionada a avós, mães e tias. Eu, por exemplo, tenho uma tia que sempre preparou quibe cru para mim. Ao comer o quibe cru eu estava recebendo o amor dela. E isso fica fortemente arraigado.

Há mais de 10 anos comecei a me questionar, graças a um irmão biólogo. Tinha fortes dores de cabeça e ele me disse que eu deveria parar de comer carne. “Fisicamente” fiz um estudo sobre o impacto dos alimentos no meu corpo e vi a relação direta existente. Iniciei um trabalho de auto-conhecimento, psicológico e espiritual, e fui descobrindo, aos poucos, toda a crueldade, presente em mim, relacionada à matança dos animais. Estudei sobre ética e valores humanos e facilmente pude ver toda a lógica (ou falta dela) por detrás desta escolha. Entrei no campo da sustentabilidade e novamente vi o estrago que esta escolha “humana” gera ao meio ambiente.

Recebi dois ensinamentos de um ser especial que me ajudam no entendimento deste tema. O primeiro diz que nos tornamos seres humanos somente quando praticamos verdadeiramente os valores humanos. O segundo mostra que a paz não chegará plenamente à terra enquanto ainda houver crueldade contra os animais.

De campos diferentes (saúde, científico, psicológico, espiritual, ético, sustentabilidade etc.) vem o conhecimento sobre ser íntegro, manifestando os valores humanos e respeitando os animais. Uma atitude concreta para isso é, entre outras coisas, ser vegetariano.

Aprendi também que esta é uma questão delicada, pois, embora tenha direta conseqüência em todos, é também pessoal e eu não devo julgar o outro pelas suas escolhas. Agredi-lo não é o caminho. Posso ajudá-lo, caso ele queira, a ampliar sua consciência, além de torcer por ele. Sei também que para eu me tornar realmente um ser humano não basta ser vegetariano. Mas isso ajuda.

E-mail: edu@annaprem.com.br

sexta-feira, 12 de março de 2010

Martha Medeiros, Divã

by Pino


Espelho, espelho meu, existe alguém mais egoísta do que eu? Tô sabendo, Lopes: sou apenas um reflexo desse mundo individualista, onde todos estão voltados para o próprio umbigo.

Meus filhos, meu marido, meu lar, minha profissão, minha agenda, minha cabeça, meu coração, tudo meu, meu, meu. O que acontece com os outros que possa vir a me interessar? A experiência deles, talvez, mas nunca um fato que seja alheio à minha pessoa, que não me comova ou me alimente. O inferno não são os outros. O inferno são os outros sem atrativos para mim.

Megera, assumo. Meu egoísmo não é material, não é financeiro: gosto de dinheiro mas não sou escravizada por ele, distribuo o pouco que ganho sem pesar. Meu egoísmo é o de não conseguir repartir emoções. Não tenho conseguido dar nem receber. Só atento para o que nasce em mim e em mim se desfaz, morre, é consumido.

Meu egoísmo é revelar só um pedaço do que sou, só a parte boa, a mocinha da história. Tenho, dentro de mim, um elenco de coadjuvantes que não deixo que brilhem, que não dão autógrafos nem saem nas capas de revista. Egoísta. Poupando o mundo do meu lado sórdido, que costuma ser o mais interessante.

São meus os meus sonhos eróticos, meus os momentos de isolamento, são meus os devaneios, minhas as omissões. Os disfarces são meus, a boa mãe que sou em termos, a esposa perfeita que mais ou menos, a amiga leal que nem tanto. Não faço maldades, não prejudico ninguém, mas não me dou inteira.

Egoísta! Bradarão os anjos ao me receberem para o Juízo Final. Não sei se me deixarão entrar, não sei se confesso agora o meu desdém pela opinião alheia ou se corro o risco de ser deportada do paraíso. Egoísta! Bradarão em coro aqueles a quem não me revelei.

Nunca roubei, nem matei, nem enganei no troco. Não me lembro de ter deixado um telefonema sem resposta, uma amiga esperando por mim. Nunca cheguei atrasada, nunca faltei com o respeito, nunca neguei carinho, abraço e mesada, nunca pisei em alguém, nunca difamei, nem forcei passagem. Ultrapassei os limites de volocidade, às vezes, mas não atropelei pedestre algum, não violei a lei, não blefei. Pecar, pequei.

Não acreditar em Deus foi o caminho mais fácil pra não me torturar, para não me penitenciar por não ter seguido os mandamentos todos. Não sei de cor quais são, nem quantos. Sei que não poderia obedecê-los, seja por implicância ou contravenção. Ninguém mantém-se integralmente puro sem enlouquecer.

Egoísta. Guardo para mim as palavras que não me atrevi a pronunciar, os planos descartados e os fetos de mim mesma que abortei. Poupei os outros do meu lado mais cruel e impactante, o meu lado mais insano e fascinante. Tenho tudo o que quis, tenho mais do que planejei, e mesmo assim – egoísta! – mal vejo a hora de recomeçar. Não sei se nasci para desempenhar o papel que me foi reservado. Tenho um bom currículo e alguns bens, mas o que é mais meu, minha maior propriedade, nunca foi declarada, minha loucura ninguém sabe onde mora, minha fé nem eu mesma sei onde se esconde.

Deus? Pergunta difícil a sua. Já tem sido deveras estafante acreditar em mim mesma. Mas de uma coisa você pode estar certo, não creio numa onipresença a serviço do bem, numa generosidade cósmica a nos zelar. Deus é o quê? Fé. Acreditar na existência de uma força suprema que segure as rédeas para nós de vez em quando. Deus é uma área de repouso, é umas férias que a gente se concede em meio a tantas decisões a tomar. Deus assume como interino enquanto a gente descansa da gente mesmo.

Lopes, que bom seria se existisse mesmo um sábio velhinho que jogasse os dados por nós: avance duas casas, dobre à direita, avance mais uma, espere sua vez de jogar, agora volte três casas, bravo, amém.

Não me lembro quem me ensinou a rezar. Fiz a primeira comunhão no colégio como se estivesse fazendo um trabalho de grupo, sem consciência do rito de passagem. Melhor assim. Não queria ser abduzida para aquele mundo de pecados e culpas, de votos de pobreza e castração. Procurei selecionar dos sermões aquilo que poderia me servir, e me serviu a idéia de que é possível que exista algo muito maior do que nós, muito mais forte do que nossas vontade, muito mais poderoso do que nosso pensamento. São inúmeros os fiéis neste planeta, algo deve haver por trás de tanta devoção. Em todo caso, não optei pela obediência nem me deixei seduzir pela liderança: minha única vaidade religiosa é me reconhecer humilde.

Mais do que isso seria pedir demais de mim. Eu uso com regularidade expressões como “graças a Deus”, “pelo amor de Deus”, “que Deus te ouça”, mas Deus é o apelido que dou à sorte. Em sorte eu acredito.

[...]

Tenho a sorte da consciência desperta, dessa consciência atrapalhada, que ora se revela transparente, ora obscura, mais ainda assim provocativa, uma consciência que se dilata e se contrai mas que está em movimento, sem ela eu estaria tão motivada pra vida quanto este tapete.

Religião é apenas o que nos distrai desta consciência vigorosa de tudo. [...] Religião para mim? Pintar. Eu gosto de ler também...

[...] sofrer, seja lá por qual razão, me parece uma estupidez [...] Isso é inconsciência? Então estou mais espiritualizada do que nunca, deixando os acontecimentos fluírem conforme a vontade divina.


Martha Medeiros,  Divã


Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.
É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.
É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.
O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.
Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exactamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.
Se, do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.

Jorge de Sena

Enfrentar-se a Si Próprio


 Ódio da introspecção ativa. Explicações da nossa alma, tais como: ontem eu estava assim e assado, por esta ou por aquela razão; hoje estou assim e assado, por qualquer outra razão. Não é verdade, nem por esta razão nem por aquela razão, e por isso também nem assim nem assado.
Enfrentar-se a si próprio calmamente, sem precipitações, viver como se tem de viver, não andar à caça do próprio rabo como o cão.
Adormeci nos arbustos. Um barulho acordou-me. Encontrei um livro nas minhas mãos, que tinha estado a ler. Deitei-o fora e levantei-me de um salto. Passava pouco do meio-dia; em frente da colina em que eu estava estendia-se uma grande planura com aldeias e lagos e sebes todas iguais, altas, que pareciam feitas de junco. Pus as mãos nas ancas, examinei tudo com o olhar, e ao mesmo tempo escutei o barulho.

Franz Kafka, in 'Diário (09 Dez 1913)'

quinta-feira, 11 de março de 2010

Beautiful places!

Kilimanjaro, Tanzania - Africa

Konitsa old bridge, Epirus, Greece

Lake baikal - Russia
Lake Como, Lombardy, Italy

Lake Sauris, Friuli, Italy

Las Ramblas in Barcelona, Spain

Lauca National Park, Chile

Lights of Venice by ~GreeGW

Lune River Valley, Lancaster, UK


Machu Picchu , Peru

Madagascar