domingo, 30 de maio de 2010

Martha Medeiros, Divã

giovaniricciardi.com


O café terminou. Hora de ir embora, mas ela fica.O show começa agora.
Primeiro ela fala do meu senso de humor. Depois da minha inteligência. Depois do meu estilo de vida, dos livros que tenho, da educação que já não se vê hoje em dia, de como eu sou agradável, de como a acolhi quando nos conhecemos, em como ela era agradecida por minha bondade, por minhas palavras gentis, em como era importante para ela conhecer alguém que administrava tão bem o cotidiano, em como invejava o meu sucesso enquanto pessoa. A expressão é dela: o meu sucesso enquanto pessoa.
Ela ainda não havia terminado sua declaração de amor quando comecei a sentir ódio de mim. Quem era a mulher por quem ela dizer ter tanta admiração? Quem a havia acolhido, quem era gentil, quem era um sucesso enquanto pessoa? Quase abri a porta para conferir o número do apartamento: uma de nós estava no lugar errado.
Era repulsiva, para mim, a idéia de ter enganado tão bem outra pessoa, de ter vendido uma imagem que não correspondia à realidade. Nem para meus filhos eu era tão boa, nem para Mõnica eu era tão gentil, nem para Tati, amiga nova por quem eu começava a sentir afeto, eu andava sendo tão agradável. Como foi acontecer de essa senhora, por quem eu jamais mexi um dedo, a quem jamais tive intenção de cativar, surgir em minha casa para me enaltecer?
Marketing pessoal. De repente fui me dando conta de todos os truques sociais que eu havia utilizado , do bom comportamento que originou toda essa confusão. Ela comprou de mim uma amizade que eu não tinha para pronta-entrega. Iludi essa mulher com sorrisos mecânicos e um café passado na hora.
Não gosto de nada que é raso, de água pela canela,. Ou eu mergulho até encontrar o reino submerso de Atlântida, ou fico à margem, espiando de fora. Não consigo gostar mais ou menos das pessoas, e não quero essa condescendência comigo também. Pareço transparente e azul, mas é tudo anilina, sou uma praia de cartão-postal. Queria poder dizer a essa mulher de pernas cruzadas e costas eretas que se ela fosse mesmo minha amiga estaria estirada no sofá, com as pernas em cima da mesinha de centro e pedindo que eu colocasse um disco. Que se ela fizesse parte do meu mundo, não estaria usando essa echarpe rosa-bebê nem teria exagerado tanto no perfume, e muito menos falaria o português correto.”eu lhe admiro tanto, Mercedes.” Amigas não usam lhe.
Amigas morrem de rir, mesmo em velório. Amigas debocham, liberam, recordam, comentam, confessam, perdoam, comungam e exorcizam fantasmas com litros de vinho branco. Duas amigas e uma tarde livre é o paraíso. Não ficam olhando para o relógio como eu e essa estranha.
Ela se vai. Me abraça apertado, compartilha minha dor, eu que já nem lembrava que a visita era de condolência. Tento parecer mais triste do que realmente estou. Ela diz para eu não deixar de telefonar, que sempre que eu me sentir sozinha ela virá, que ela tem uma turma de biriba que é ótima, irão me adorar. Ela realmente me quer bem. Três beijinhos. “pra casar de novo.” Eu mereço.


Martha Medeiros, Divã

Where The Wild Roses Grow



Composição: Nick Cave
Onde As Rosas Selvagens Crescem

Eles me chamam de Rosa Selvagem
Mas meu nome era Elisa Day
Porque me chamam assim eu não sei
Pois meu nome era Elisa Day

No primeiro dia que eu a vi
Sabia que ela era aquela
Ela fixava o olhar em meus olhos e sorria
Pois seus lábios eram da cor das rosas
Que cresciam junto ao rio
Todo vermelho e selvagem

Quando ele bateu na minha porta
E entrou no quarto
Minha tremedeira parou em seu abraço seguro
Ele seria o meu primeiro homem
E com uma mão cuidadosa
Ele enxugou as lágrimas que corriam pelo meu rosto

No segundo dia eu comprei flores para ela
Ela era mais bonita
Que qualquer mulher que eu tenha visto
Eu disse
"Você sabe onde as rosas selvagens crescem
Tão docemente, vermelhas e livres?"

No segundo dia
Ele chegou com uma solitária rosa vermelha
Disse:
"Você vai me dar sua desgraça e sua tristeza?"
Eu balancei a cabeça, enquanto deitava na cama
Ele disse: "Se eu lhe mostrar as rosas, você seguirá?"

No terceiro dia ele me levou ao rio
Ele me mostrou as rosas e nos beijamos
E a última coisa que ouvi foi uma palavra sussurrada
Enquanto ele se ajoelhou (sorrindo) em mim
Com uma pedra em seu punho

No último dia
Eu a levei onde as rosas selvagens crescem
E ela se deitou à margem, o vento leve como um ladrão
E eu lhe dei um beijo de despedida,e disse:
"Toda beleza deve morrer"
E descendi e plantei uma rosa
Entre os seus dentes

Amor de Tarde


É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso 10 minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.


Mario Benedetti
Tradução de Julio Luís Gehlen

De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corri o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Maria do Rosário Pedreira

O primeiro movimento da manhã é a escolha do vento;
nada é indiferente ao corpo que acorda para mais uma descida pela vida;
no ritmo da cor, escolhe um tecido, e seu feitio presente.
Fica cingida a ele, desnuda a própria face.
A caneta interrompe a narrativa do diário em bruto. O quarto vibra em tumultuoso silêncio. Deste modo se levanta e caminha para a visão que lhe é preciosa, tanto quanto a palavra da sua língua, tanto quanto a companhia dos companheiros ausentes e presentes.
Escreve no registo para as compras do dia
grão,
batatas,
água.


Maria Gabriela Llansol

sábado, 29 de maio de 2010


O POETA

Ó musa, por que vieste
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?


A SAUDADE

De um puro amor a lânguida saudade
É doce como a lágrima perdida,
Que banha no cismar um rosto virgem:
Volta o rosto ao passado e chora a vida.


O POETA

Não sabes o quanto dói
Uma lembrança que rói
A fibra que adormeceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minh'alma viveu.


A SAUDADE

Pálidos sonhos do passado morto
É doce reviver mesmo chorando:
A alma refaz-se pura. Um vento aéreo
Parece que do amor nos vai roubando.


O POETA

Eu vejo ainda a janela
Onde, à tarde, junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d'enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair?


A SAUDADE

A casa está deserta. A parasita
Nas paredes estampa negra cor,
Os aposentos o ervaçal povoa,
A porta é franca... Entremos, trovador!


O POETA

Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me mais prantos, meu Deus!
Eu quero chorar aqui...
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.


A SAUDADE

Sonha, poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo — dos amores à cantiga.


O POETA

Minh'alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperança...
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali, amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi,
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios, onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!

Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver...
Tão doce, que em mim sentia
Que minh'alma se esvaía...
E eu pensava ali morrer!


A SAUDADE

É berço de mistério e d'harmonia
Seio mimoso de adorada amante:
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem;
E a vida foge ao peito... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E dela a voz é doce como um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do poeta
Doira a amante de nova formosura!


O POETA

Que gemer! não me enganava!
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas
E as venturas choradas
Que vibram meu coração?

É tarde, amores, é tarde:
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
Por ela tanto chorei,
Que mancebo morrerei...
Adeus, amores, adeus!


Álvares de Azevedo

Soneto a Katherine Mansfield


O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima! ... (Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.

Vinicius de Moraes

Ei mãe, viu onde coloquei minha felicidade?
Eu tinha colocado sobre a mesa junto com a saudade do meu amor.
- Não sei, meu filho, acho que sua avó tinha jogado no cesto!
Hoje é o dia de lavar a alma, não lembra?
- Pô, mãe!

No dia seguinte:
- Mãe, pode lavar a alma hoje de novo? Ou tem que esperar até o dia de pensar sobre a vida?
- Por que, meu filho? Sua avó não lavou sua alma ontem?
- Mas mãe, é ... porque hoje fui brincar no parque da realidade e fiquei sujo de mágoa,
enquanto corria, ralei meu coração com angústia e,
se não limpar logo, acho que vai ficar com mancha de tristeza.



Anderson Fernandes
Dima Dmitrie



É mais fácil encontrar
Um amigo que é sombra para os dias quentes,
Do que algum outro, caloroso,
Para as horas frias da mente.

Voltado um tanto para o leste, o catavento
Põe em fuga as almas de musselina;
E se mais firmes são os corações de seda
Do que os feitos de organdi,

A quem culpar? Ao tecelão?
Ó os enganadores fios!
No paraíso, as alfombras
Têm urdidura invisível.


 Emily Dickinson



Quanto de ti amor. Me possui no abraço
Em que de penetrar-te me senti perdido
No ter-te para sempre
Quanto de Ter-te me possui em tudo
O que eu deseje ou veja não pensando em ti
No a braço a que me entrego
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
Sem olhos e sem boca, só expressão dorida
De quem é como a morte
Quanto de morte recebi de ti,
Na pura perda de possuir-te em vão
De amor que nos traiu
Quanta traição existe de possuir-se a gente
Sem conhecer que o corpo não conhece
Mais que o sentir-se noutro
Quanto sentir-te e me sentires não foi
Senão o encontro eterno que nenhuma imagem
Jamais separará
Quanto de separados viveremos noutros
Esse momento que nos mata para
Quem não nos seja e só
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
Como na ausência indestrutível que
Nos faz ser um no outro
Quanto de vida consumimos pura
No horror e na miséria de, possuindo, sermos
A terra que outros pisam
Oh meu amor, de ti,
por ti, e para ti,
Recebo gratamente como se recebe
Não a morte ou a vida, mas a descoberta
De nada haver onde um de nós não esteja


Jorge de Sena

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Salsa

Amo




Amo a terra! Amo o sol! Amo o céu! Amo o mar!
Amo a vida! Amo a luz! Amo as árvores! Amo
a poesia que escrevo e entusiasta declamo
aos que sentem como eu a alegria de amar!

Amo a noite! Amo a antiga polidez do luar!
A flor presa aos cabelos soltos de algum ramo!
Uma folha que caí! Um perfume pelo ar
onde um desejo extinto sem querer inflama!

Amo os rios! E a estranha solidão em festa,
dessa alma que possuo multiforme e inquieta
como a alma multiforme e inquieta da floresta!

Amo a cor que há nos sons! Amo os sons que há na cor!
E em mim mesmo, - amo a glória de sentir-me um Poeta
e amar imensamente o meu imenso amor!... 


J.G.de Araújo Jorge


Se alguém rir de seus sonhos, ria junto, pois saberá que está no caminho certo.
Se zombarem de seus mais nobres projetos, apiede-se dos desertores que abandonaram o próprio poder criativo conferido pela suprema força.
Se receber críticas destrutivas, lamente pelo tolo que espera levantar seu castelo empregando a dádiva de seu tempo e energia para destruir as bases do seu edifício, antes lhe seja grato, por provar a resistência de seus alicerces.
Porque só há um VERSO, e em todas as direções que seguir, esquerda - direita, horizontal-vertical, alto-baixo, externa - interna estará integrado ao senso positivo ou para todos os significados que interpretar só haverá UNI sentido o positivo...
Tudo é bem com variações e intensidade:
O incômodo nos convida a sair da acomodação.
A escuridão nos propele a busca ou ativação da luz.
O caos nos sugere a harmonia
O medo nos remete ao amor.
E de um extremo a outro o caminho o movimento evolutivo.


Cícero Silva

W.Somerset Maugham, Servidão Humana


Philip refletiu um instante e volveu:
- Não vejo razão para que as coisas em que acreditamos presentemente não sejam tão errôneas como aquelas em que se acreditava no passado.
- Nem eu.
- Então como podes acreditar no que quer que seja?
- Não sei dizer.
Philip perguntou a Weeks o que achava da religião de Hayward.
- Os homens sempre imaginaram os deuses segundo sua própria imagem – disse Weeks – Hayward acredita no pitoresco.
Após pequena pausa, Philip observou:
- Afinal, não compreendo por que se deva acreditar em Deus.
Mal as palavras lhe haviam saído da boca, concluiu que não mais tinha fé. Perdeu o fôlego de repente, como se houvesse mergulhado em água fria. Voltou-se para Weeks, com olhos espantados, e de súbito teve medo. Na primeira oportunidade despediu-se do amigo. Queria estar sozinho. Era a coisa mais extraordinária que já lhe tinha acontecido. Tentou refletir: aquilo era emocionante, uma vez que o caso parecia interessar toda a sua vida (julgava que qualquer decisão nesse terreno alteraria profundamente o curso da sua existência) e um erro poderia conduzir à condenação eterna. Quanto mais refletia, porém, mais reforçava a sua convicção, e embora durante as semanas que se seguiram devorasse livros de tendências céticas, não o fez senão para confirmar aquilo que sentia instintivamente. O fato é que cessara de acreditar não por esta ou aquela razão, mas porque lhe faltava o temperamento religioso. A fé lhe fora incutida do exterior. Era uma questão de ambiente e exemplo. Novo ambiente e novo exemplo proporcionavam-lhe, agora, a oportunidade de encontrar-se a si próprio. Descartava-se facilmente da crença que alimentara em criança, como uma capa de que não mais necessitasse. A princípio a vida lhe pareceu estranha e solitária sem a fé que, embora nunca o tivesse percebido, representava um apoio infalível. Sentia-se como um homem que, acostumado a andar apoiado ao bastão, fosse de repente compelido a dispensá-lo. Parecia, realmente, que os dias eram mais frios e as noites mais tristonhas. A novidade da sensação animava-o entretanto, parecia transformar-lhe a vida numa aventura emocionante. Em pouco tempo o bastão que jogara longe e a capa que lhe caíra dos ombros assemelhavam-se a um fardo insuportável de que tivesse sido aliviado. As práticas religiosas que durante tantos anos lhe foram impostas afiguravam-se-lhe partes integrantes da própria religião. Lembrou-se das coletas e epístolas que fora obrigado a decorar, e dos prolongados ofícios na catedral, a que assistia sentado, com as pernas e os braços a ansiar por movimento. Lembrou das caminhadas à noite, através de estradas lamacentas, em demanda da matriz da Blackstable, austero e desolado edifício. Oh! Como aquilo tudo o enfastiava! Seu coração saltava de alegria ao ver que agora estava livre daquelas maçadas.
[...]
Certo dia subiu, sozinho, a um colina pra descortinar uma vida que, não sabia por que razão, sempre o inundava de emoções eufóricas. Era então outono, mas os dias ainda se apresentavam quase sempre sem nuvens e o céu parecia brilhar com mais esplendor. Dir-se ia que a natureza procurava aumentar a magnificência dos últimos dias de bom tempo. Olhou para a planície, lá embaixo, reverberando ao sol numa extensão infinita; à distância viam-se os telhados de Mannheim e muito além os contornos mal delineados de Worms. Aqui e ali o Reno cintilava num reflexo penetrante. Toda aquela vastidão estava impregnada de pura luz dourada. Com o coração a bater de alegria, Philip lembrou-se de como Satanás mostrara a Jesus, do alto de um monte, nos reinos da terra. Inebriado pela beleza do cenário, parecia-lhe que o mundo inteiro se estendia diante dele; estava ansioso por descer e desfrutá-lo. Sentia-se livre de temores degradantes, livre de preconceitos. Poderia seguir o seu caminho sem o insuportável medo aos fogos do inferno. De súbito verificou haver-se também descartado daquela responsabilidade que transformava todas as ações de sua vida em questões de premente importância. Respirava mais livremente numa atmosfera menos carregada. Só a si mesmo tinha que dar satisfação do que fizesse. Liberdade! Era, afinal, senhor de si próprio. Obedecendo ao velho hábito, agradeceu inconscientemente a Deus por não mais acreditar nele.

W.Somerset Maugham, Servidão Humana

"Assemelha-te de novo à árvore que amas, a árvore de grandes ramos: silenciosa e atenta, ela deixa-se pender sobre o mar."

VOCAÇÃO DE POETA

Ainda outro dia, na sonolência
De escuras árvores, eu, sozinho,
Ouvi batendo, como em cadência,
Um tique, um taque, bem de mansinho...
Fiquei zangado, fechei a cara -
Mas afinal me deixei levar
E igual a um poeta, que nem repara,
Em tique-taque me ouvi falar

E vendo o verso cair, cadente,
Sílabas, upa, saltando fora,
Tive que rir, rir, de repente,
E ri por um bom quarto de hora.
Tu, um poeta? Tu, um poeta?
Tua cabeça está assim tão mal?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Por quem espero aqui nesta moita?
A quem espreito como um ladrão?
Um dito? Imagem? Mas, psiu! Afoita
Salta à garupa rima, e refrão.
Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta
Em verso o poeta, justo e por igual.
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Rimas, penso eu, serão como dardos?
Que rebuliços, saltos e sustos
Se o dardo agudo vai acertar dos
Pobres lagartos os pontos justos.
Ai, que ele morre à ponta da seta
Ou cambaleia, o ébrio animal!
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Vesgo versinho, tão apressado,
Bêbada corre cada palavrinha!
Até que tudo, tiquetaqueado,
Cai na corrente, linha após linha.
Existe laia tão cruel e abjeta
Que isto ainda - alegra? O poeta - é mau?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Tu zombas, ave? Queres brincar?
Se está tão mal minha cabeça
Meu coração pior há de estar?
Ai de ti, que minha raiva cresça!
Mas trança rimas, sempre - o poeta,
Na raiva mesmo sempre certo e mau.
- Sim, meu senhor sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.


DO ALTO DOS MONTES


Oh! Meio dia da vida! Época solene!
Oh! jardim de estio!
Beatitude inquieta da ansiedade na espera:
espero meus amigos, noite e dia,
onde estais, amigos meus?
Vinde! É tempo, é tempo!

Nã0 é por vós que o gelo cinzento
hoje se adorna com rosas?
A vós procura o rio,
Suspensos nos céus ventos e nuvens se alevantam
para observar vossa chegada
competindo com o mais sublime vôo dos pássaros.

No meu santuário coloquei a mesa:
Quem vive mais próximo das estrelas
e das horríveis profundezas do abismo?
Que reino mais extenso que o meu?
E do mel, daquele que é meu, que sentiu seu fino aroma?

Aqui estais, finalmente, meus amigos!
Ai! não é a mim que procurais?
Hesitais, mostrais surpresa?
Insultai-me é melhor! Eu não sou mais eu?
Mudei de mão, de rosto, de andar?
O que eu era, amigos, acaso não mais sou?

Tornei-me, talvez, outro?
Estranho a mim mesmo? De mim mesmo, fugido?
Lutador que muitas vezes venceu a si mesmo?
Que muitas vezes lutou contra a própria força,
ferido, paralisado pelas vitórias contra si mesmo?

Porventura não procurei os mais ásperos ventos
e aprendi a viver onde ninguém habita,
nos desertos onde impera o urso polar?
Não esqueci a Deus e ao homem, blasfêmias e orações?
Tornei-me um fantasma das geleiras.

Oh! meus velhos amigos, vossos rostos
empalidecem de imediato,
transtornados de ternura e espanto!
Andai, sem rancor! Não podeis demorar aqui!
Não é para vós este pais de geleiras e rochas!
Aqui é preciso ser caçador e antílope!

Converti-me em caçador cruel. Vede meu arco:
a tensão de sua corda!
Apenas o mais forte poderá arremessar tal dardo.
Mas não há nenhuma seta mortal como esta.
Afastai-vos, se tendes amor à vossa vida!

Fugis de mim!? Oh, coração, quanto sofreste!
E entretanto, tua esperança ainda se mantém firme!
Abre tuas portas a novos amigos,
renuncia aos antigos e às lembranças!
Fostes jovem? - Pois agora és mais e com mais brio.

Quem pode decifrar os signos apagados,
do laço que une com ua mesma esperança?
Signos que em outros tempos escreveu o amor,
que luzem como velho pergaminho queimado
que se teme tocar, como ele. Queimado e enegrecido!

Basta de amigos! Como chamá-los?
Fantasmas de amigos! Que de noite,
tentam ainda meu coração e minha janela
e me olham sussurrando:
Somos nós!
Oh! Ressequidas palavras, um dia fragrantes como rosas!

Sonhos juvenis tão cheios de ilusão,
aos quais buscava no impulso de minhalma,
agora os vejo envelhecidos!
Apenas os que sabem mudar são os de minha linhagem.

Oh! Meio dia da vida! Oh! segunda juventude!
Oh! jardim de estio!
Beatitude inquieta na ansiedade da espera!
Os amigos esperam, dia e noite, os novos amigos.
Vinde! É tempo! É tempo!

O hino antigo cessou de soar,
O doce grito do desejo expira em meus lábios.
Na hora fatídica apareceu um encantador,
o amigo do pleno meio-dia.
Não, não me pergunteis quem é;
ao meio-dia, o que era um,
dividiu-se em dois.

Friedrich Nietzsche

Incidências de luz


Esse quarto tem uma profunda magia.

Um ajuntamento de coisas que se combinam pela estranheza e mais ainda pela natureza que lhes diz respeito. Mais ainda em mim se integram em ação catalizadora, assimilada por tudo que se mexe, e se mistura dentro de mim, dentro de minha cabeça, antes que eu me esqueça, antes que eu me aborreça, antes que amoleça, antes que amanheça.., eu quero sair correndo em busca de outras matérias que não as minhas, outras incidências de luz, outros gases leves que não venenosos, e sinto uma saudade intensa da magia da infância. Do encontro bruto do diamante cor de rocha. Das limitações humildes em que minha imaginação voava.., e os encantos frios da noite que viam com seus olhos de eterno vigia.


esse quarto é assim:
um crescente § um mingüante
um mirante § um instante maestro
o resto é destro / é dentro / é bólido
gostando / trincando / bicho-gente
na hora de dormir
de comer
de beber
de deitar
de amar
aqui como lá for a
devemos lembrar...
muito mais que esquecer
escrevo e conto
marco cada respiração que vai para o ar
conto os fios que fabrico… os nós
ficam comigo e trazem
à qualquer hora vindo mais pedra
corro mais coelho
fico mais pernas
sonho mais árvores
fruto ave / como coisas
outras que alucinam
pela sua estranha ritualidade


caem pingos de todas as frutas
chovem sucos de sabores diversos
o ar recende a chicletes
e o mascado dos bois e das vacas
que se faz ouvir entre o pasto amarelo
onde as plantas dormiram
com o mofo das roupas abafadas
falta de respiração
angústia e sono / estado de catalepsia
capital das sensações brancas
claras como a clara
como a gema / como o negro
como o poder adormecido do povo


as realidades sensoriais
as percepções
as diversas dimensões
as projeções mentais
as ondas
as sintonias
o mar


os reflexos que lanço na mesa
representam minha geração
são do prisma do filtro solar
são da fonte da renutrição
minha fome se abate num beijo
meu desejo de ser canibal
carnaval que só dura três dias
letargias do povo sangrar


vão chegar minha mãe, meus parentes,
novamente vão iluminar
lampiões em ruelas antigas
uma música solta no ar


me entregar só for na tocaia
baleado de costas e tal
mas o mal que se afasta num rio
desafia nosso carnaval
prá você que não é perseguido
pelo horizonte de uma prisão
visão de barras / barras de opressão
visão de aço / barras do coração
arquitete sua fuga na noite
pelo canto-olho da imaginação


mantenha sua mão
desestremeça... não desanime
olhe a reta que à sua frente
caminhe por ela contorça e drible
faça do gol uma ponte
faça da ponte a passagem
passe para o lado do cisne
cisme com a face das águas
fique onde não haja mágoas


O tango como desespero. É a paixão dos submundos. As luzes de neón triste e a letargia dos pares, a beleza sensual e extraordinária da decadência. Aqueles dias antigos que serão sempre e agora, o mesmo nó do sufoco... que aperta de hora em hora


até que a linda dama chegue
na carruagem de sonhos delirantes
aqueles temporais de carne
que tudo arrancaram e tudo arrastaram
com olhos de sampaco e temor
vermelhos cortados de veias
procuram... procuram... distantes
a brecha longa da fuga
a faca fresta da noite
até que os donos do mundo
removam a sombra dos olhos
e a maquiagem derreta
no coração dos metais
vamos tecendo essa teia
dormindo soltos no chão
sem precisar do novelo
dos labirintos-pensão
que alugam quartos senhoras
com muito rigor e acato
a moços de fino trato
rapazes de muito orgulho


cansam-se as coisas subterrâneas
os que ainda vivem debaixo da grama
das ervas / da cama
da copa das árvores / da copa do baralho
das ervas daninhas
dos que choram por telegrama
as delícias do seu sucessor
e você professor
que ensina aos meninos do mundo
as certezas de cada segundo
que passam por essa história
por essa memória / por oratória
um confessionário que ilude
as estantes e os instantes
os esforços todos úteis
não conseguem aliviar
as dores que voltam e voam
como aves ferozes
de dentes afladíssimos
no céu todas as bocas
que só desejam cantar
e embora queiram sempre se renovar
não há maneiras de se apagar
aquelas sombras negras dos tiranos
que sucumbiram tantos semelhantes
com a lugubrez da ansiedade
dos que acabaram pendurados
na agonia de suas forcas


Somos tantos e tantos ainda por vir, que eu me assombro. Ante os que ainda virão depois que todos chegarem. O oceano tremeu de raiva e desespero por não poder nos dizer. E esperneou. Rugiu a noite inteira enquanto o homem... chorava.

Zé Ramalho

quinta-feira, 27 de maio de 2010


"Lotado! O Brasil inteiro está aqui dentro."



Sou Brasileira! Com muito orgulho!

Boa sorte seleção!

Hair

Irvin D. Yalom, Quando Nietzsche Chorou


Notas de Friedrich Nietzsche sobre o doutor Breuer
- De 16 de dezembro de 1882

Um passeio que começou à luz do sol e terminou no escuro. Talvez penetrássemos longe demais no cemitério. Deveríamos ter voltado mais cedo? Forneci a ele um pensamento poderoso demais? O eterno retorno é um martelo potente. Quebrará quem ainda não está preparado para ele.
Não! Um psicólogo, um decifrador de almas, precisa de dureza mais do que qualquer outro. Senão, inchará de piedade. E seu aluno se afogará em águas rasas.
Contudo, no final de nosso passeio, Josef parecia terrivelmente oprimido, mal conseguindo conversar. Alguns não nasceram rijos. Um verdadeiro psicólogo, à semelhança do artista, deve amar sua palheta. Talvez mais gentileza, mais paciência fosse necessária. Estarei desnudando antes de ensinar a tecer novas roupas? Ter-lhe-ei ensinado a “liberdade de” sem ensinar a “liberdade para”?
Não, um guia deve ser uma amurada na torrente, nas não deve ser uma muleta. O guia deve desvendar as trilhas que se estendem diante do discípulo. Mas não deve escolher o caminho.
“Torna-te meu mestre” – ele suplica. “Ajuda-me a superar o desespero.” Devo esconder minha sabedoria? E a responsabilidade do discípulo? Ele tem que se calejar para o frio, seus dedos devem agarrar a amurada, ele deve se perder muitas vezes por sendas erradas antes de achar a correta.
Nas montanhas, sozinho, percorro a nota mais curta – de um pico para o outro. Mas os discípulos se perdem quando caminho muito na frente. Preciso aprender a diminuir meu passo. Hoje, talvez viajamos rapidamente demais. Deslindei um sonho, separei uma Bertha da outra, reenterrei os mortos e ensinei a morrer na hora certa. E tudo isso não passou de prelúdio para o poderoso tema do retorno.
Tê-lo-ei empurrado fundo demais para dentro da lição? Muitas vezes, ele parece perturbado demais para me ouvir. Entretanto, o que desafiei? O que destrui? Tão-somente valores vazios e crenças oscilantes! Aquilo que é oscilante deve ser empurrado!
Hoje entendi que o melhor mestre é aquele que aprende com seu discípulo. Talvez ele esteja certo sobre meu pai. Quão diferente seria minha vida se eu não o tivesse perdido! Será verdade que martelo com tanta força porquanto o o odeio por ter morrido? E martelo tão alto porque ainda anseio por um público?
Preocupa-me seu silêncio final. Seus olhos estavam abertos, mas ele parecia não enxergar. Ele mal respirava.
Todavia, sei que o orvalho cai mais abundantemente quando a noite é mais silente.

 Irvin D. Yalom, Quando Nietzsche Chorou



Uma grande mulher, ele me diz.

Ele me olha com olhos de ver
e lê em mim o que de tão lá dentro
acaba sempre ficando de fora,
entrelinha sutil demais
pra percepção apressada que o mundo tem de mim.

Ele me lê e me sente, me capta e me cria também:
me abre em versos
me soa em rimas
me dá palavras novas
me toca como música em meus ouvidos.

Com seus olhos e boca me deu lugar no mundo dos sentidos com que sempre sonhei.
Com suas palavras me fez poeta,
presente melhor que já ganhei,
presente que recebo e repasso a cada dia
desse ofício de escrever a vida em versos
e dar-lhes voz, palavra dita.

É ele quem me alarga e me expande,
quem me vê grande
e gosta
e pede mais.

Eu sou uma mulher do tamanho que ele me faz.

Maria Resende

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem gostaria de chamar-me outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida

Maria do Rosário Pedreira

A Luz


Ela veio...( E a minha alma tinha a porta
aberta, e ela entrou...Casa vazia
e estranha, esta que em plena luz do dia
lembrava a tumba de uma noite morta...)

Que ela havia chegado, eu nem sabia...
Mas, pouco a pouco, e a data não importa,
minha alma, por encanto, se conforta,
e há risos pela casa...E há alegria...

Quem abrira as janelas? Quem levara
o fantasma da dor sempre ao meu lado?
Os antigos retratos, quem rasgara?

E acabei por fazer a descoberta:
- ela espantara as sombras do passado
e a luz entrara pela porta aberta!

J.G.de Araújo Jorge.

Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento
desabam no abismo
que sabes tu do fim?
Se temes que o teu mistério seja uma noite,
enche-a de estrelas.
Conserva a ilusão de que o teu vôo te leva
sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro,
as canções que tens na garganta.
Canta, canta para conservar uma ilusão
de festa e vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste,
não és mais que um vôo no tempo.
Rumo aos céus? O que importa a rota?
Voa e canta,
enquanto resistirem as tuas asas.

Menotti Del Picchia

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Deixa-me respirar


DEIXA-ME RESPIRAR longamente, longamente, o perfume dos teus cabelos, neles mergulhar todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir recordações pelo ar.

Se pudesses imaginar tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja no perfume como a alma dos outros homens viaja na música.

Teus cabelos encerram todo um sonho, povoado de velas e de mastros; encerram grandes mares, cujas monções me conduzem a maravilhosos climas, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera se impregna do perfume dos frutos, das folhas e da pele humana.

No oceano da tua cabeleira entrevejo um porto formigante de canções melancólicas, de homens vigorosos de todas as nações, e de navios de todas as forças, cujas arquiteturas finas e complicadas se recortam num céu imenso onde se espreguiça o eterno calor.

Nas carícias da tua cabeleira reencontro os langores das longas horas passadas sobre um divã, no camarote de um belo navio, acalentadas pelo imperceptível balouçar do porto, entre as jarras de flores e as bilhas refrigerantes.

Na lareira ardente da tua cabeleira respiro o odor do fumo de mistura com o ópio e o açúcar; na noite da tua cabeleira vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas margens penugentas da tua cabeleira embriago-me com os aromas combinados do alcatrão, do almíscar e do óleo de coco.

Deixa-me morder longamente as tuas negras e pesadas tranças. Quando me ponho a mordiscar os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que estou comendo recordações.

Charles Baudelaire

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

Canção das mulheres


Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida.
Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ”Olha que estou tendo muita paciência com você!”
Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa – uma mulher.

 Lya Luft

Ouvia-se o barulho do mar à noite.
Talvez não estivesse ninguém na praia (que
poderia alguém estar a fazer, numa praia,
à noite?) - mas
era como se o barulho do mar tivesse, por trás,
as vozes de alguém que contasse uma história
de viagens e de ventos.

Onde se estava bem, no entanto,
era dentro de casa, onde o barulho do mar
parecia trazer as conversas de alguém,
na praia, com o vento. É verdade
que a janela estava aberta e, por trás
do muro de pedra e das árvores,
a luz de um candeeiro chegava até à praia
onde não devia estar ninguém, nessa noite
de ondas e de vento.

Podia ser o tempo das férias com efeito,
era o tempo em que se tinha férias
sem se saber bem qual a distinção entre o tempo de férias
e o outro tempo. O que se sabia, por outro lado, era
se estava alguém na praia ou não e, de noite,
ninguém devia estar na praia, embora o vento trouxesse
um ruído de conversas que se confundia com o barulho
do vento.

Nuno Júdice

Santo e Senha


Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada
Deixem, que vai apenas
Beber água de sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Miguel Torga