quarta-feira, 30 de junho de 2010

Diálogo


Minhas palavras são a metade de um diálogo obscuro
continuando através de séculos impossíveis.

Agora compreendo o sentido e a ressonância
que também trazes de tão longe em tua voz.

Nossas perguntas e respostas se reconhecem como os olhos dentro dos espelhos.
Olhos que choraram.

Conversamos dos dois extremos da noite,
como de praias opostas. Mas com uma voz que não se importa...

E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.

Cecília Meireles

Numa Concha


Pudesse eu ser a concha nacarada,
Que, entre os corais e as algas, a infinita
Mansão do oceano habita,
E dorme reclinada
No fofo leito das areias de ouro...
Fosse eu a concha e, ó pérola marinha!
Tu fosses o meu único tesouro,
Minha, somente minha!

Ah! com que amor, no ondeante
Regaço da água transparente e clara,
Com que volúpia, filha, com que anseio
Eu as valvas de nácar apertara,
Para guardar-te toda palpitante
No fundo de meu seio!

Olavo Bilac


Ela mede o fogo
pela alma

Faz uma trança de riso
Em vez de lágrima

Tece o amor que tem
até aos outros

Troca o espírito e a paz
pela coragem

Ela teima na esperança
e volta ainda

Retoma o fio de prumo
com que traça

A linha da vida
que assume

Dispondo do avesso
até à face

Ela põe e repõe
o seu destino

Vai mais longe
naquilo que disfarça

Ela ousa o coração
e reafirma

Bordando o arco-íris
do que é frágil

Maria Teresa Horta



Te amei e amei minha fantasia
Amei de novo e amei a nossa estréia
Amei meu próprio amor e amei a tua audácia
Te amei muito e pouco e comovidamente
Amei a tua história construída, os ritos e os porquês
Te amei no invisível e no inaudível
Amei no crível e no incrível
Amei ser dona e te amei freguês
Te amei e amei a farsa arquitetada
Amei o nosso caso e amei a nossa casa
Amei a mim, amei a ti, parti-me ao meio
Te amei no profundo, no raso e com atraso
Não era tua hora, não era minha vez.


Martha Medeiros

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

Ferreira Gullar

Souza Neto, Linhas Paralelas


...não escutavam sequer o ruído das rápidas passadas. Não se perguntavam o que os tangia aloucados. Iam. Iam juntos, porém somente Ana se unia por solidariedade, por profunda e misteriosa solidariedade. Conheceram-se quase meninos e Ana, que sempre estivera longe dele, posto que sob o mesmo teto, recusando os favos de seu coração, ia agora unida ele, não por amor, mas por um sentimento indenominável, audaz como o amor, leal como o amor, terrível como o amor.
[...]
O olhar de Tote!... arma bigúmea. Aquele olhar faiscava, ameaçava, apostrofava, intimidava o ódio, a inveja e a vingança. Raciocinava, distinguia o perigo, media o adversário, discernia os golpes, adivinhava as ciladas, perscrutava as intenções, avaliava a agressão, sugeria a defesa, circundava o espaço dos lanços e esgueiramentos. Aliava-se às grandes mãos de Tote, altipotentes, esmagadoras, abertas como nanoplas flexíveis, fechadas como tenazes de malhar. Manzorras, mãos pensantes e caritativas, que apagavam incêndios, que domavam potros, que abaionetavam caudais, que não batiam por crueza. Punhos férreos, incansáveis no trabalho, implacáveis nos combates. Mãos longas e humanas, mãos tristes, que não conheciam o amor nem o êxtase dos carinhos epidérmicos. Mãos de labor, só para o labor; mãos de bravo, só para a bravura. Mãos que não faziam romance, mas que faziam história.
[...]
Sua vida e a de Ana semelhavam duas estranhas linhas paralelas, paralelas que nunca estiveram na mesma direção, que não podiam correr no mesmo rumo, quase constituindo um singular paralelismo sem paralelas, uma espécie de paralelismo em que os traços, eqüidistantes, andavam em sentido oposto, um indo enquanto o outro vinha, aquele voltando quando este ia; em que, guardando a mesma distância, uma ponta passava pela outra como o sim passa pelo não, sem jamais se entenderem, uma sempre a esperar que, na passagem, no cruzamento, a outra a compreendesse e que, unidas, identificadas, o não transfeito em sim, nunca mais se separassem.

Souza Neto, Linhas Paralelas

terça-feira, 29 de junho de 2010

El Flamenco

Veganismo


* Veganismo é uma filosofia de vida motivada por convicções éticas com base nos direitos animais, que procura evitar exploração ou abuso dos mesmos, através do boicote a atividades e produtos considerados especistas.

Ideologia

Os veganos boicotam qualquer produto de origem animal (alimentar ou não), além de produtos que tenham sido testados em animais ou que incluam qualquer forma possível de exploração animal nos seus ingredientes ou processos de manufatura.

Para o vegano, animais não existem para os humanos, assim como o negro não existe para o branco nem a mulher para o homem. Cada animal é dono de sua própria vida, tendo assim o direito de não ser tratado como propriedade (enfeite, entretenimento, comida, cobaia, mercadoria, etc). Dessa forma veganos propõem uma analogia entre especismo, racismo, sexismo e outras formas de preconceito e discriminação.

Preferem usar os termos "animais não-humanos" ou "seres sencientes", em vez de "irracionais".

Muito importante distanciar a ideologia vegana da dieta vegetariana. Veganismo não é dieta, mas sim uma ideologia baseada nos direitos animais, e que luta pela inclusão destes na sociedade.


Artigos em peles, couro, lã, seda, camurça ou outros materiais de origem animal (como adornos de pérolas, plumas, penas, ossos, pêlos, marfim, etc) são preteridos, pois implicam a morte e/ou exploração dos animais que lhes deram origem. Sendo assim, um vegano se veste de tecidos de origem vegetal (algodão, linho, etc) ou sintéticos (poliéster, etc).


São vegetarianos estritos, ou seja, excluem da sua dieta carnes, gelatina, laticínios, ovos, mel e quaisquer alimentos de origem animal. Consomem basicamente cereais, frutas, legumes, vegetais, hortaliças, algas, cogumelos e qualquer produto, industrializado ou não, desde que não contenha nenhum ingrediente de origem animal.


Evitam o uso de medicamentos, cosméticos e produtos de higiene e limpeza que tenham sido testados em animais. Não tomam vacinas ou soros, mas podem violar os princípios veganos quando alternativas não estiverem disponíveis, ou em caso de emergência ou urgência. Alguns optam pela fitoterapia, homeopatia ou qualquer tratamento alternativo.

O vegano defende o surgimento de alternativas para experiências laboratoriais, como testes in vitro, cultura de tecidos e modelos computacionais.

São divulgadas entre a comunidade vegana extensas listas de marcas e empresas de cosméticos e produtos de limpeza e higiene pessoal não testados em animais.


Circos com animais, rodeios, vaquejadas, touradas e jardins zoológicos, também são boicotados pois implicam escravidão, posse, deslocamento do animal de seu habitat natural, privação de seus costumes e comunidades, adestramento forçoso e sofrimento.

Não caçam, não promovem nenhum tipo de pesca, e boicotam qualquer "esporte" que envolva animais não-humanos.

fonte: wikipédia

André Malraux, A condição humana

- Quer que eu cante?
- Agora não.
Olhava o corpo dela, ao mesmo tempo indicado e oculto pela túnica de seda lilás com estava vestida. Sabia que estava estupefata: não é costume deitar-se alguém com uma cortesã, sem que ela tenha cantado, conversado, servido à mesa ou preparado cachimbos. Por que, se assim não era, não se dirigira às prostitutas?
- Também não quer fumar?
- Não. Despe-te.
Ele negava a dignidade dela, e sabia-o. Teve vontade de exigir que ela se pusesse toda nua, mas ela teria recusado. Só tinha deixado aceso um candeeirinho de mesa de cabeceira. “O erotismo”, pensou, “é a humilhação em si ou noutrem, nos dois talvez. Uma idéia, muito evidentemente...” Aliás. Ela era mais excitante assim, com a camisa chinesa justa; mas estava pouco excitado, ou talvez só o estivesse pela submissão desse corpo que o esperava, ao passo que ele nem se movia. O seu prazer brotava de que se punha no lugar da outra, era claro: da outra, forçada, constrangida por ele. Em suma, nunca se deitava senão consigo próprio, mas só podia chegar a isso na condição de não estar só. Compreendia agora o que Gisors só adivinhara: sim, a sua vontade de poderio nunca atingia o seu objetivo, vivia só de o renovar; mas, ainda que na sua vida não houvesse possuído uma única mulher, possuía e possuiria, através daquela chinesa que o esperava, a única coisa de que era ávido: ele próprio. Eram-lhe precisos os olhos dos outros para se ver, os sentidos de uma outra para se sentir. Olhou a pintura tibetana, posta ali sem que se soubesse muito bem por quê: num mundo desbotado, sem cor, onde erravam viajantes, dois esqueletos exatamente análogos abraçavam-se em transe.
Aproximou-se da mulher.

André Malraux, A condição humana

Eis-me

 
Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
em que não moras
E o teu encontro
São planícies e silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen

♫ ♫ ♫

QUALQUER MÚSICA, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!

Fernando Pessoa


Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se pões o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se isto ou aquilo.

Cecília Meireles

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Rebirth

Pintura  - Renso Castaneda

Renascer

Refrescante brisa de um dia de verão
Ouvindo ecos de seu coração
Aprendendo a recompor as palavras
Deixo o tempo voar

Alegres gaivotas vagam nas margens
Não soará uma só nota
Ergo minha cabeça após enxugar meu rosto
Deixo o tempo voar
Relembrando, recuando
Retornando, recordando
Uma conversa fiada da qual sente falta
Mais sagaz porém mais velho

Um líder, um aprendiz
Um leal iniciante
Um locatário de insensatez
Tão lúcido numa selva
Um ajudante, um pecador
O sorriso agonizante de um espantalho

Oh! minutos giram e giram
Em minha cabeça
Oh! meu peito explodirá
Caindo em pedaços
A chuva chega ao solo - sangue!

Um minuto para sempre
Um pecador se arrependendo
Termina minha vulgar desgraça

(e eu) vou pelos ventos de um dia novo em folha
Alto aonde as montanhas alcançam
Reencontrei minha esperança e orgulho
Renascimento de um homem

Hora de voar...

Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt

Victor Hugo, Os trabalhadores do mar

Palavra escrita em uma página branca

O Christmas (Natal) de 1822... foi notável em Guernesey. Caiu neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que há neve é memorável; a neve é um acontecimento.
Naquela manhã de Christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre-Port ao Vale assemelhava-se a um lençol branco: nevara desde a meia-noite até o romper do dia.
Pelas 9 horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda ocasião de os anglicanos irem à Igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos à Capela Eldad, o caminho estava quase deserto. Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas três viandantes, um menino, um homem e uma mulher.
Estes tres viandantes, caminhando separados uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito anos, parara e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atrás da mulher, uns cem passos, dirigia-se, como ela, para o lado de Saint-Sampson.
Ele era moço ainda e parecia ser operário ou marinheiro. Vestia as roupas ordinárias, isto é, uma grossa camisa de pano escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apesar da festa, não iria à igreja. Os grossos sapatos de couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.
A viandante, essa evidentemente trajava a roupa de ir à igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listras brancas e cor-de-rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomá-la-iam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e, pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquela graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescência, a mistura dos dois crepúsculos, o princípio de uma mulher e o fim de uma menina.
O homem não reparava nela.
De súbito, perto de uma moita de azinheiras, que forma o ângulo de uma horta rústica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a atenção do homem.
Parou, pareceu reparar nele um instante, abaixou-se, e o homem julgou vê-la escrever com o dedo alguma coisa na neve. Levantou-se e pôs-se de novo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desapareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao Castelo de Lierre. O homem, quando ela se voltou pela segunda vez, reconheceu Déruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentia necessidade alguma de apressar o passo.
Alguns instantes depois estava junto à moita de zinheiras no ângulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provável que, se nessa ocasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente, tinha os olhos baixos, e assim os levou maquinalmente ao lugar em que parara a menina. Dois pezinhos aí estavam impressos e ao lado deles a palavra escrita por ela: Gilliatt.
Era este o nome dele.
Chamava-se Gilliatt.


Victor Hugo, Os trabalhadores do mar

Remissão


Pintura - David Naman



Naquele dia fazia um azul tão límpido, meu Deus,
que eu me sentia perdoado pra sempre não sei de quê.


Mário Quintana

Perguntarão pela tua alma
A alma que é ternura,
Bondade,
Tristeza,
Amor.
Mas tu mostrarás a curva do teu vôo
Livre, por entre os mundos...
E eles compreenderão que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
E mais amargo,
Porque não se pode mostrar,
Porque não se pode ver...

Cecilia Meireles
imagem: jovan charlton

Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos todos os dois
Assim ao léo
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu

Chico Buarque

Cegueira Bendita


Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago…
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
"Stendendo as asas brancas cor do sonho…

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!…

E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros até à morte!

Florbela Espanca

domingo, 27 de junho de 2010

Quebrando paradigmas...


Imagine mais de 30 membros da Companhia de Ópera da Filadélfia, no meio do povo em um mercado italiano, como transeuntes comuns e, de repente, começam a cantar La Traviata. 

 (Eles estão com microfones de lapela, por isso o som é tão bom.)

Melodia


Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.

José Agostinho Baptista

Quereis muito


quereis a palavra certa
na hora certa.
não apenas o metro correto,
a frase bem feita.
quereis o sangue,
a alma do poeta,
a vida curta a galopar
gargantas

— como se não custasse esforço
fingir que fingimos —

quereis a vida,
a árvore da vida.
não apenas o trajeto reto,
geometria exata.
quereis elipses, parábolas,
o sabor mais íntimo
a perpassar vocábulos.

— como se cada letra
não fosse gota derramada —

quereis o que não sei
se posso dar.
o segredo do olhar,
o frio que me corta a pele
antes que a palavra
se esfacele e arda
na fina folha
de cada momento.

— como se cada volta da caneta
não fosse hesitação —

quereis muito, senhores,
muito.
mais do que pode
a mão que escreve o poema.
mais do que pode
um simples coração.

Silvia Chueire

O Julgamento de Frinéia


Mnezarete, a divina, a pálida Frinéia,
Comparece ante a austera e rígida assembléia
Do Areópago supremo. A Grécia inteira admira
Aquela formosura original, que inspira
E dá vida ao genial cinzel de Praxíteles,
De Hiperides à voz e à palheta de Apeles.

Quando os vinhos, na orgia, os convivas exaltam
E das roupas, enfim, livres os corpos saltam,
Nenhuma hetera sabe a primorosa taça,
Transbordante de Cós, erguer com maior graça,
Nem mostrar, a sorrir, com mais gentil meneio,
Mais formoso quadril, nem mais nevado seio.

Estremecem no altar, ao contemplá-la, os deuses,
Nua, entre aclamações, nos festivais de Elêusis...
Basta um rápido olhar provocante e lascivo:
Quem na fronte o sentiu curva a fronte, cativo...
Nada iguala o poder de suas mios pequenas:
Basta um gesto, - e a seus pés roja-se humilde Atenas...
Vai ser julgada. Um véu, tornando inda mais bela
Sua oculta nudez, mal os encantos vela,
Mal a nudez oculta e sensual disfarça.
cai-lhe, espáduas abaixo, a cabeleira esparsa...
Queda-se a multidão. Ergue-se Eutias. Fala,
E incita o tribunal severo a condená-la:

"Elêusis profanou! É falsa e dissoluta,
Leva ao lar a cizânia e as famílias enluta!
Dos deuses zomba! É ímpia! é má!" (E o pranto ardente
Corre nas faces dela, em fios, lentamente...)
"Por onde os passos move a corrupção se espraia,
E estende-se a discórdia! Heliastes! condenai-a!"

Vacila o tribunal, ouvindo a voz que o doma...
Mas, de pronto, entre a turba Hiperides assoma,
Defende-lhe a inocência, exclama, exora, pede,
Suplica, ordena, exige... O Areópago não cede.
"Pois condenai-a agora!" E à ré, que treme, a branca
Túnica despedaça, e o véu, que a encobre, arranca...

Pasmam subitamente os juizes deslumbrados,
- Leões pelo calmo olhar de um domador curvados:
Nua e branca, de pé, patente à luz do dia
Todo o corpo ideal, Frinéia aparecia
Diante da multidão atônita e surpresa,
No triunfo imortal da Carne e da Beleza.

Olavo Bilac

A minha felicidade não é a sua

No mais recente livro de Carlos Moraes, o ótimo Agora Deus vai te pegar lá fora, há um trecho em que uma mulher ouve a seguinte pergunta de um major: "Por que você não é feliz como todo mundo?". A que ela responde mais ou menos assim: "Como o senhor ousa dizer que não sou feliz? O que o senhor sabe do que eu digo para o meu marido depois do amor? E do que eu sinto quando ouço Vivaldi? E do que eu rio com meu filho? E por que mundos viajo quando leio Murilo Mendes? A sua felicidade, que eu respeito, não é a minha, major".
E assim é. Temos a pretensão de decretar quem é feliz ou infeliz de acordo com nossa ótica particular, como se felicidade fosse algo que pudesse ser visualizado. Somos apresentados a alguém com olheiras profundas e imediatamente passamos a lamentar suas prováveis noites insones causadas por problemas tortuosos. Ou alguém faz uma queixa infantil da esposa e rapidamente decretamos que é um fracassado no amor, que seu casamento deve ser um inferno, pobre sujeito. É nessas horas que junto as pontas dos cinco dedos da mão e sacudo-a no ar, feito uma italiana indignada: mas que sabemos nós da vida dos outros, catzo?
Nossos momentos felizes se dão, quase todos, na intimidade, quando ninguém está nos vendo. O barulho da chave na porta, de madrugada, trazendo um adolescente de volta pra casa. O cálice de vinho oferecido por uma amiga com quem acabamos de fazer as pazes. Sentar no cinema, sozinha, para assistir ao filme tão esperado. Depois de anos com o coração em marcha lenta, rever um ex-amor e descobrir que ainda é capaz de sentir palpitações. Os acordos secretos que temos com filhos, amores, amigos. A emoção provocada por uma frase de um livro. A felicidade de uma cura. E a infelicidade aceita como parte do jogo - ninguém é tão feliz quanto aquele que lida bem com suas precariedades.
O que sei eu sobre aquele que parece radiante e aquela outra que parece à beira do suicídio? Eles podem parecer o que for e eu seguirei sem saber de nada, sem saber de onde eles extraem prazer e dor, como administram seus azedumes e seus êxtases, e muito menos por quanto anda a cotação de felicidade em suas vidas. Costumamos julgar roupas, comportamento, caráter - juízes indefectíveis que somos da vida alheia -, mas é um atrevimento nos outorgarmos o direito de reconhecer, apenas pelas aparências, quem sofre e quem está em paz.
A sua felicidade não é a minha, e a minha não é a de ninguém. Não se sabe nunca o que emociona intimamente uma pessoa, a que ela recorre para conquistar serenidade, em quais pensamentos se ampara quando quer descansar do mundo, o quanto de energia coloca no que faz, e no que ela é capaz de desfazer para manter-se sã. Toda felicidade é construída por emoções secretas. Podem até comentar sobre nós, mas nos capturar, só se permitirmos.

Martha Medeiros

Brasília







sexta-feira, 25 de junho de 2010

Flores


Flores para quando tu chegares
Flores para quando tu chorares
Uma dinâmica botânica de cores
Para tu dispores pela casa

Pelos cômodos, na cômoda do quarto
Uma banheira repleta de flores
Pela estrada, pela rua, na calçada
Flores num jardim

Pétalas ao vento, para tu contares
Para além dos nomes
Que possam dizê-las
Flores pra compores
Metáforas antes de comê-las

Pelos cômodos, na cômoda do quarto
Uma banheira repleta de flores
Pela estrada, pela rua, na calçada
Flores para mim

Flores pros meus braços
Ofertá-las para parabenizar-te
Flores, quantas flores forem necessárias
Para perguntares pra que tantas flores...

Zélia Duncan
Composição: Fred Martins e Marcelo Diniz

Pequenos assassinatos


Vegetariano
               não dispenso chorar
sobre legumes esquartejados
no meu prato.

Tomates sangram em minha boca,
alfaces desmaiam ao molho de limão-mostarda-azeite,
cebolas soluçam sobre a pia
e ouço o grito das batatas fritas.

Como.
Como um selvagem, como.
Como tapando o ouvido, fechando os olhos,
distraindo, na paisagem, o paladar,
com a displicente volúpia
de quem mata para viver.

Na sobremesa
continua o verde desespero:
peras degoladas,
figos desventurados
e eu chupando o cérebro
amarelo das mangas.

Isto cá fora. Pois lá dentro
sob a pele, uma intestina disputa
me alimenta: ouço o lamento
de milhões de bactérias
que o lança-chamas dos antibióticos
exaspera.

Por onde vou é luto e luta. 


Affonso Romano de Sant´Anna

Ó! menina dos olhos verdes, que à tardinha
estás sempre à janela à hora de minha volta…
Que cousas pensarás? Que fazes aí sozinha?
Por que regiões de sonho a tua alma se solta?

Sempre que dobro a esquina encontro o teu olhar
e o teu claro sorriso adolescente ainda…
Habituei-me a te ver – e és tão criança e tão linda
que sem querer, também sorrio ao te encontrar…

Menina dos olhos verdes… A quem esperas
com teus olhos gritando a cor das primaveras?
Queres versos? Pois bem, estes são teus, recolhe-os!

Escrevi-os pensando em ti, tímida e bela,
- a menina dos olhos verdes da janela
debruçada à janela verde dos meus olhos!

J. G. de Araújo Jorge

Era já tudo previsto




quando a face da surpresa
beija a lente dos teus olhos,
a dois palmos, tu de mim,
sem que saibas o que digo,
mal disfarças. mal disfarço.
tudo é, sem que pareça.
tudo diz, sem que precise.

era já tudo previsto
e sequer nos percebemos.
pouco a pouco, lentamente,
cada dia, todo instante,
nesse jeito diferente
de querer e ser distante.

era já tudo previsto,
resta ser, que se consuma.
mas, defeso, te resisto,
tudo em ti me enciúma,
cada letra, cada fala,
se sorris ou se te calas.

era já tudo previsto
e sabíamos assim.
mal disfarço, mal disfarças,
a dois palmos   tu de mim.


antoniel campos  

Felicidade Clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade". Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte"com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Clarice Lispector

Friedrich Nietzsche, Acerca da verdade e da mentira

Num certo canto remoto do universo cintilante, vertido em incontáveis sistemas solares, havia uma vez um astro onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e hipócrita da “história mundial”, mas foi apenas um minuto. Depois de a natureza ter respirado umas poucas vezes, o astro enregelou e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim, alguém poderia inventar uma fábula como esta e, no entanto, não ficaria suficientemente esclarecido quão lastimável, quão obscuro e fugidio, quão desprovido de finalidade e arbitrário se apresenta o intelecto humano no interior da natureza. Eternidades houve em que ele não existia; quando ele tiver de novo desaparecido, nada terá alterado. Pois para este intelecto não há outra missão que transcenda a vida humana. Antes, pelo contrário, ele é humano, e só o seu dono e progenitor o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo. Mas se nós conseguíssemos comunicar com um mosquito, saberíamos que também ele paira neste ambiente com a mesma presunção e se sente como centro voador deste mundo. Na natureza não há nada de tão censurável e limitado que não se inchasse qual tubo insuflável por meio de um pequeno sopro dessa força do conhecimento; e tal como todo e qualquer carregador ambiciona ter o seu admirador, assim o homem mais orgulhoso, o filósofo, julga ver de todos os lados os olhares do universo, quais telescópios dirigidos para o seu agir e pensar.
É estranho que o intelecto seja capaz disso, ele que é acrescentado apenas como auxiliar aos seres mais infelizes, mais delicados e efêmeros, para sustentá-los durante um minuto na existência da qual, sem esta contribuição, eles teriam toda a razão de fugir como o filho de Lessing. O orgulho ligado ao conhecer e sentir que põe uma névoa ofuscante nos olhos e sentidos dos homens engana-os, por conseguinte, sobre o valor da existência pelo fato de encerrar em si o apreço mais lisonjeiro acerca do conhecimento. O seu efeito mais geral é a ilusão, mas também os efeitos mais particulares contêm em si algo de índole semelhante.
[...]
Que é que o homem no fundo sabe acerca de si mesmo? Sim, se ele conseguisse, ao menos uma vez, percepcionar-se completamente como se estivesse metido num expositor de vídeo iluminado! Não é que a natureza lhe oculta a maior parte das coisas, mesmo sobre o seu corpo, para banir e fixá-lo longe das dobras intestinais, longe do rápido fluir da corrente sanguínea e dos estremecimentos emaranhados das fibras, numa consciência orgulhosa e malabarista! A natureza deitou fora a chave e ai da fatídica curiosidade que conseguisse, através de uma fenda, olhar para fora e para baixo da câmara da consciência e pressentir que o homem assenta no impiedoso, no sôfrego, no insaciável, no homicida, na indiferença do seu não saber e como que suspenso em sonhos preso nas costas de um tigre. De onde, com os diabos, vem nesta constelação o impulso da verdade?

Friedrich Nietzsche, Acerca da verdade e da mentira 

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dança do ventre

David Herbert Lawrence, O amante de Lady Chatterley


Mellors não desejava de maneira alguma entrar em contato com uma mulher, tanto os contatos anteriores lhe abriram na alma feridas difíceis de fechar. Se não pudesse ficar completamete só no mundo, certamente morreria. Desligara-se em absoluto do mundo exterior. Seu último refúgio era a floresta - era aquele esconder-se dentro das árvores.
Constance atiçou demais o fogo e logo se sentiu afogueada. Afastou então o tamborete para dentro da porta, de onde podia vê-lo no trabalho. Mellors fingiu não dar por isso. Continuou a trabalhar atentamente, absorvido no que fazia, com o cão sentado nas patas traseiras, a montar guarda.
Lesto, tranquilo e rápido, o homem terminou o galinheiro que estava construindo, virou-o, experimentou a porta corrediça, depois colocou-o de lado. Levantou-se, foi a um velho galinheiro e o levou para o lugar onde estava trabalhando.
Agachando-se, testou as ripas do galinheiro;algumas quebraram-se em suas mãos; e começou a tirar os pregos. Em seguida, virou pra cima o galinheiro, e ficou a considerá-lo, não dando o menor sinal de notar a presença da mulher.
Constance observava-o fixamente. Aquela mesma solidão que sentira nele quando o viu nu, sentira nele agora vestido. Era o homem solitário, aplicado, que se absorve no que faz, mas ao mesmo tempo medita, com a alma afastada de todo contato humano. Silenciosamente, pacientemente, estava a isolar-se dela - e foi justamente essa tranquilidade, essa espécie de paciência infinita o que mais emocionou as entranhas de Constance. Via sua cabeça inclinada, suas mãos ágeis e calmas, a curva dos rins delgada e sensível - algo tão paciente e distante... Ela percebia que a experiência desse homem era mais profunda que a sua - muito mais profunda e ampla, e isso a aliviaria de si mesma, tornando-a irresponsável pela atração sentida.
E assim ficou Lady Chatterley sentada à porta da cabana por largo tempo, completamente alheia a tudo. Tão ausente de si própria se quedara, que a um volver de olhos Mellors a notou, e se surpreendeu do seu ar calmo de espera. Sim, era a mulher à espera do homem - e ao sentir isso uma eletricidade lhe percorreu pelo corpo.

David Herbert Lawrence, O amante de Lady Chatterley
imagem: MaXu


Espreitava em seus olhos uma lágrima,
e em meus lábios uma frase a perdoar;
falou o orgulho, o seu pranto secou,
senti nos lábios essa frase expirar.
Eu vou por um caminho, ela por outro;
mas, ao pensar no amor que nos prendeu,
digo ainda: porque me calei aquele dia?
E ela dirá: por que não chorei eu?


Gustavo Adolfo Bécquer

Chora bandido


Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

Edu Lobo/Chico Buarque

Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.

Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.

Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...

Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!

Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.

(...)

Gilka Machado

Amanhecer


Ouço bater o teu coração nesta manhã
em que uma luz de argila constrói o busto
do tempo, que um dia descobrirás dentro
de ti, e onde irás reconhecer um rosto
outrora amado. Mas não esperes; o dia de hoje é
o dia que desejas, e não é todas as manhãs
que esta luz te abraça com o seu fulgor
de ave, convidando-te a partir até ao fim
da terra. Não precisas de levar contigo
mais do que o sorriso que se abriu
no instante em que o sol nasceu; e
poderás enchê-lo com as palavras que
tantas vezes esboçaste, sem as dizer,
e agora fazem parte dos teus lábios
como a flor, que pertencia ao caule de onde
a cortei, para a deixar na mesa
que ficará vazia.

Nuno Júdice

Jack Kerouac, Visions of Cody

I accept lostness forever.

* It no longer makes me cry and die and tear myself to see her go because everything goes away from me like that now — girls, visions, anything, just in the same way and forever and I accept lostness forever.

* I'm writing this book because we're all going to die — In the loneliness of my life, my father dead, my brother dead, my mother far away, my sister and my wife far away, nothing here but my own tragic hands that once were guarded by a world, a sweet attention, that now are left to guide and disappear their own way into the common dark of all our death, sleeping in me raw bed, alone and stupid...

* The mad road, lonely, leading around the bend into the openings of space towards the horizon Wasatch snows promised us in the vision of the West, spine heights at the world's end, coast of blue Pacific starry night — nobone halfbanana moons sloping in the tangled night sky, the torments of great formations in mist, the huddled invisible insect in the car racing onwards, illuminate. — The raw cut, the drag, the butte, the star, the draw, the sunflower in the grass — orangebutted west lands of Arcadia, forlorn sands of the isolate earth, dewy exposures to infinity in black space, home of the rattlesnake and the gopher the level of the world, low and flat: the charging restless mute unvoiced road keening in a seizure of tarpaulin power into the route.

Jack Kerouac, Visions of Cody (1960)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray (3)

- Boa influência é coisa que não existe, senhor Gray. Toda influência é imoral... imoral, do ponto de vista científico.
- Por quê?
- Porque influenciar uma pessoa é emprestar-lhe a nossa alma. Essa pessoa deixa de ter idéias próprias, de vibrar com as suas paixões naturais. As suas qualidades não são verdadeiras. Os seus pecados, se é que existe o que se chama pecado, vêm-lhe de outrem. Essa pessoa torna-se o eco da música de outra pessoa, intérprete de um papel que não foi escrito para ela. A finalidade da vida é para cada um de nós o aperfeiçoamento, a realização plena da nossa personalidade. Hoje, cada qual tem medo de si próprio; esquece o maior dos deveres: o dever que tem consigo mesmo. Naturalmente, o homem é caridoso. Dá de comer ao faminto, veste o maltrapilho. Mas a sua alma é que sofre fome e anda nua. A coragem abandonou a nossa raça. Talvez nunca a tenhamos tido. O temor da sociedade, que á a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião...eis as duas coisas que nos governam. Contudo... [...]
- Contudo - continuou lorde Henry, com a sua voz grave e melodiosa, abanando curiosamente a mão, em um gesto tão seu, que já tinha no tempo de colegial -, sou de parecer que se o homem vivesse plena e totalmente a sua vida, desse forma a todo sentimento, expressão a toda idéia, realidade a todo devaneio.... creio que o mundo receberia um novo impulso eufórico, um impulso de alegria que nos faria esquecer todos os males do medievalismo e voltar aos ideais helênicos... talvez a algo mais belo e mais rico do que o próprio ideal helênico. Mas o mais valoroso dos seres humanos tem medo de si mesmo. A mutilação do selvagem subsiste tragicamente na renúncia que nos estraga a vida. Somos punidos pelo que enjeitamos. Todo impulso que nos empenhamos em sufocar incuba no nosso espírito e nos envenena. Peque o corpo uma vez, e estará livre do pecado, porque a ação tem um dom purificador. Nada restará então, salvo a lembrança de um prazer, ou a volúpia de um arrependimento. A única maneira de se livrar de uma tentação é ceder-lhe. Resistamos-lhe, e a nossa alma adoecerá de desejo do que proibimos a nós mesmos, do que as suas leis monstruosas tornaram monstruoso e ilegítimo. Tem-se dito que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. Também é no cérebro, só nele, que ocorrem os grandes pecados do mundo.

Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray

Roseira brava


Há nos teus olhos de oiro um tal fulgor
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.

Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio amor!

Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!

Tua irmã... teu amor... e tua amiga...
E também - toda em flor - a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!...

Florbela Espanca

Ouça a chuva



Ouça (ouça), ouça (ouça)

Ouça cada gota da chuva
Murmurando segredos em vão
Fascinantemente procurando por alguém para ouvir
Essa história é mais do que ela esconde

Por favor, nao vá embora
Podemos ficar por enquanto?
É apenas tão dificil dizer adeus
Ouça a chuva

Ouça, ouça,ouça,ouça,ouça,ouça a chuva
Pingando
Ouça (ouça), ouça (ouça)

Eu estou sozinha na tempestade
De repente, doce, palavras ganham forma
Depressa eles dizem para voce não há muito tempo
Abra seus olhos para o amor à sua volta

Você pode achar que está sozinho
Mas eu ainda estou aqui com você
Você pode fazer tudo o que sonha
Apenas lembre-se de ouvir a chuva

(Listen to the rain – Evanescence)

Achava que não podia ser magoada


Achava que não podia ser magoada;
achava que com certeza era
imune ao sofrimento —
imune às dores do espírito
ou à agonia.

Meu mundo tinha o calor do sol de abril
Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro.
Minha alma em êxtase, ainda assim
conheceu a dor suave e aguda que só o prazer
pode conter.

Minha alma planava sobre as gaivotas
que, ofegantes, tão alto se lançando,
lá no topo pareciam roçar suas asas
farfalhantes no teto azul
do céu.

(Como é frágil o coração humano —
um latejar, um frêmito —
um frágil, luzente instrumento
de cristal que chora
ou canta.)

Então de súbito meu mundo escureceu
E as trevas encobriram minha alegria.
Restou uma ausência triste e doída
Onde mãos sem cuidado tocaram
e destruíram

minha teia prateada de felicidade.
As mãos estacaram, atônitas.
Mãos que me amavam, choraram ao ver
os destroços do meu firma-
mento.

(Como é frágil o coração humano —
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trêmulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora.)

Silvia Plath
Juan Fortuny

nas pontas dos pés
eu, bailarina
toco de leve a corda
sobre o abismo.

equilibrista,
os músculos retesos
atenta a cada gesto ínfimo;
que não me atire,
não me mate,
não incida íntimo
e amargo
no meu peito
e abaixo dos meus pés.

voam meus olhos a olhar as asas,
voam este vôo sem retorno,
nas asas de todos os desejos.
no tênue tecido destes versos,
navegam oceânicos pensamentos,
imagens, memória e canções.

breve, cuidadosa dos meus passos,
no peito
o sonho irresistível,
na alma o sonho
incontestável,
toco a sapatilha nesta corda.

Silvia Chueire