terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pierre Choderlos de Laclos, As Relações Perigosas

Para levar a cabo esse trabalho com mais liberdade, precisava mudar o lugar de nossas entrevistas, pois um simples gabinete, que separa o quarto de vossa pupila do aposento da mãe, não podia inspirar-lhe suficiente confiança para expandir-se à vontade. Eu prometera a mim mesmo, pois, fazer inocentemente algum ruído que lhe pudesse causar medo bastante para que se decidisse a escolher asilo mais seguro no futuro; poupou-me esse cuidado.
A menina gostava de rir, e, para favorecer-lhe a alegria, lembrei-me de lhe contar durante nossos entreatos todas as aventuras escandalosas que me vinham à mente; e a fim de torná-las mais picantes e prender mais sua atenção, atribuí-as todas à sua mamãe, que eu me comprazia em recamar assim de vícios e de ridículos.
Não foi sem motivo que fiz essa escolha; encorajava melhor do que qualquer outro minha tímida colegial e inspirava-lhe, ao mesmo tempo, o mais profundo desprezo pela mãe. Observei desde há muito que, se esse meio nem sempre é necessário para seduzir uma jovem, é indispensável, e muitas vezes o mais eficaz quando se quer depravá-la; pois quem não respeita a mãe não respeita a si mesma; verdade moral que acredito tão útil, que muito apreciei fornecer um exemplo em apoio de preceito.
Entretanto, vossa pupila, que não pensava em moral, sufocava de rir a cada instante;  [...] larguei-a sozinha tres horas mais cedo que de costume; por isso combinamos, ao separarmos, que seria em meu quarto que nos encontraríamos.
Já a recebi duas vezes, e, neste curto intervalo, a colegial se tornou quase tão sabida quanto o professor. Sim, tudo que lhe ensinei, até as complacências. Só excetuei as precauções.
Deste modo, ocupado durante a noite toda, lucro com dormir boa parte do dia; e, como a companhia atual do castelo nada tem que me atraia, mal apareço uma hora por dia no salão. [...]
Ocupo meus lazeres imaginando os meios de recuperar as vantagens perdidas com minha ingrata e também em compor uma espécie de catecismo da devassidão para uso de minha colegial. Divirto-me com nada nomear senão pelo termo técnico, e rio, de antemão, com a interessante conversa que isso provocará entre ela e Gercourt na primeira noite de casamento. Nada é mais engraçado do que a ingenuidade com que ela já se serve do pouco que sabe dessa língua! Não imagina que se possa falar de outro jeito. Esta menina é realmente sedutora! Esse contraste da candura ingênua com a linguagem da imprudência não deixa de produzir efeitos, e, não sei por que, somente as coisas estranhas me agradam agora.

Pierre-Ambroise-François Choderlos de Laclos, As Relações Perigosas

Ó tempos de incerta esperança
que assim vos desacreditastes!
Cresceram nuvens sobre a lua
e o vento passou pelas hastes.

Vinde ver meu jardim sem flores
no presente nem no futuro,
e a mão das águas procurando
um rumo pelo solo escuro!

Vinde ouvir a história da vida
no sopro da noite deserta.
Caíram as sombra das vozes
dentro da última estrela aberta.

Ai! tudo isto é letra do horóscopo...
E só tu, Estátua, resistes!
— Mas, embora nunca te quebres,
terás sempre os olhos mais tristes.

Cecília Meireles

Pais e Filhos

(Renato Russo e seu filho Giuliano)


Estátuas e cofres. E paredes pintadas.
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar.
Nada é fácil de entender.

Dorme agora.
É só o vento lá fora.
Quero colo. Vou fugir de casa.
Posso dormir aqui com você?
Estou com medo. Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.

Meu filho vai ter nome de santo.
Quero o nome mais bonito.

É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.

Me diz porque o céu é azul.
Explica a grande fúria do mundo.
São meus filhos que tomam conta de mim.

Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar.
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais.
Eu moro com os meus pais.

É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.

Sou uma gota d'água
Sou um grão de areia.
Você me diz que seus pais não entendem.
Mas você não entende seus pais.

Você culpa seus pais por tudo.
E isso é absurdo.
São crianças como você
O que você vai ser, quando você crescer?

Renato Russo

Segundo Deleuze, “quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, além da filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte e seu objetivo? Denunciar todas as ficções sem as quais as forças reativas não prevaleceriam. Denunciar, na mistificação, essa mistura de baixeza e tolice que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos algozes. Fazer, enfim, do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres, isto é, homens que não confundam os fins da cultura com o proveito do Estado, da moral, da religião. Vencer o negativo e seus altos prestígios. Quem tem interesse em tudo isso a não ser a filosofia? A filosofia como crítica mostra-nos o mais positivo de si mesma: obra de desmistificação. (…) A tolice e a bizarria, por maiores que sejam, seriam ainda maiores se não subsistisse um pouco de filosofia para impedi-las, em cada época, de ir tão longe quanto desejariam, para proibi-las, mesmo que seja por ouvir dizer, de serem tão tolas e tão baixas quanto cada uma delas desejaria.

Deleuze, Gilles. Nietzsche e a filosofia, Ed. Rio, Rio de Janeiro, 1976.

Náusea


Náusea. Vontade de nada.
Existir por não morrer.
Como as casas têm fachada,
Tenho este modo de ser.

Náusea. Vontade de nada.
Sento-me à beira da estrada.
Cansado já no caminho
Passo pra o lugar vizinho.

Mais náusea. Nada me pesa
Senão a vontade presa
Do que deixei de pensar
Como quem fica a olhar…

Fernando Pessoa

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Consciousness expresses itself through creation. This world we live in is the dance of the creator. Dancers come and go in the twinkling of an eye but the dance lives on. On many occasion when I am dancing, I have felt touched by something sacred. In those moments, I felt my spirit soar and become one with everything that exists. I become the stars and the moon. I become the lover and the beloved. I become the victor and the vanquished. I become the master and the slave. I become the singer and the song. I become the knower and the known. I keep on dancing then it is the eternal dance of creation. The creator and the creation merge into one wholeness of joy. I keep on dancing... and dancing... and dancing, until there is only... the dance.


Michael Jackson, in: Dangerous

Vai, vai, vai disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar tanta realidade.

T.S. Eliot

Tanto



Nada entendo de signos:
se digo flor é flor, se digo água
é água. ( Mas pode ser disfarce de um segredo.)
Se não podem sentir, não torçam
a arvore-de-coral do meu silêncio:
deixem que eu represente meu papel.
Não me queiram prender como a um inseto
no alfinete da interpretação:
se não me podem amar, me esqueçam.
Sou uma mulher sozinha num palco,
e já me pesa demais todo esse ofício.
Basta que a torturada vida das palavras
deite seu fogo ou mel na folha quieta,
num texto qualquer com o meu nome embaixo.

Lya Luft

Dama Negra



Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar…
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;

E como em noites de Itália,
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora.
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com o biquinho
Das aves rubras do céu;

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!?

Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;

Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor,…
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor!

Castro Alves
Mesmo assim insisto

Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardarei indisfarçáveis remendos das muitas quedas, dos muitos toques, embora sempre os tenha evitado aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto - meus gestos e palavras são magrinhos como eu, e tão morenos que, esboçados à sombra, mal se destacam do escuro, quase imperceptível me movo, meus passos são inaudíveis feito pisasse sempre sobre tapetes, impressentida, mãos tão leves que uma carícia minha, se porventura a fizesse, seria mais branda que a brisa da tardezinha. Mas desde que, há duas semanas, uma cigana desvendou as fracas linhas das palmas de minha mão, pouco sossego encontro até em meu próprio sossego: dois amores, ela apontou, um já passado, e com amargura localizei na memória aquele sôfrego Estudante, e outro em breve por chegar. Desde então, me desconheço. Abreviaram-se-me as idas ao banheiro para molhar os pulsos e os lóbulos das orelhas, animando a circulação que se me estanca nas veias, por vezes olvido a torneira aberta e surpreendo-me a odiar minhas próprias tranças, as manchas roxas sob os olhos e tudo que me torna assim, fugaz. Mal posso conter um susto investigando o porte de cada homem que se aproxima, em cada esquina que dobro, em cada ônibus que tomo para ir e vir, sinto que busco prometido e me detesto por essa inquietação febril, pelo amor que desconheço e mal consigo supor, tão parca é minha vida de memórias ou medidas. Esforço-me por dar-lhe pinceladas tênues, não me atrevo aos óleos nem aos acrílicos, é nos guaches e sobretudo nas aquarelas que procuro o verde esmaecido de sua tez, mas por vezes alguma coisa se alvoroça e me surpreendo alucinada, incontrolável, a chafurdar em tintas fortes, berrantes cores primárias, formas toscas, símbolos sensuais, e é então que mergulho em banhos gelados no meio da noite para apaziguar a carne incompreensível, fremente qual Teresa d’Ávila, afogada entre lençóis, as palavras da cigana me embalando feito uma berceuse, imagino se não será o próprio Senhor este que se aproxima, e não conheço. Em cada junho, sei que não suportarei o próximo agosto, me debato elaborando aquela futura tarde gris para encontrá-lo - não aqui, entre torpezas, mas numa outra dimensão de luz maior, além de meu próprio corpo, irmão-burro aprisionado pelos instintos, num espaço discreto e contido como eu mesma venho sendo através destas quase três décadas que, álgida, sobrepujei. Sobrevivo a cada manhã quando, cruzando as portas e corredores que me conduzem às ruas intermináveis, imagino sempre que sou invisível para cada um dos que passam. Ninguém suspeita de meu segredo, caminho severa pelas calçadas, olhos baixos para que minha sede não transpareça: ah sou tão morena e magrinha que ninguém me adivinha assim como tenho andado - castamente cinzelada no topo deste morro onde os ventos não cessam jamais de uivar, tendo entre as mãos, como quem segura lírios maduros dos campos, uma espera tão reluzente que já é certeza.

Caio Fernando Abreu

domingo, 29 de agosto de 2010

As Rosas de Piéria



E morta jazerás: de ti
não restará lembrança, em tempo algum,
nem mesmo compaixão jamais despertarás
:nas rosas de Piéria não tiveste parte.

Desconhecida até na casa de Hades,
errante esvoaçarás em meio a obscuros mortos.


Safo


Fui monja
vestida de negro
em labirinto azul.

Antes do Ser
havia um homem
consciente
destruindo o lirismo
das minhas madrugadas.

Estava presente
nas conversas dos bares
solitárias histórias.
Estava presente
na fusão dos homens medíocres
e dos homens sem cor.

Em azul e negro
eu vi o esboço
de um caso triste,
aquele doido
procurando as mãos.
As mãos que deixara
sobre alguma mesa
de mármore azulado
em algum labirinto azul.

Morreu o mundo das monjas.
Morreu o mundo das mãos.
Sou doida desfigurada
procurando mãos
mergulhadas em azul.

Sou quase morta
no descanso estéril
da cor negra.


Hilda Hilst

Igual – Desigual


Eu desconfiava
Todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todas as experiências de sexo são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais.
E todos, todos os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.
Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais, iguais, iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações do mundo são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum homem, bicho ou coisa.
Ninguém é igual a ninguém.
Todo ser humano é um estranho ímpar.

Carlos Drummond Andrade

Romance Sonâmbulo


Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de lua
sustenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Federico Garcia Lorca

O sono


Nas horas da noite, se junto a meu leito
Houveres acaso, meu bem, de chegar,
Verás de repente que aspecto risonho
Que toma o meu sonho,
Se o vens bafejar!

O anjo, que ao sono preside tranqüilo,
Ao anjo da terra não ceda o lugar;
Mas deixe-o amoroso chegar ao meu leito,
Unir-me a seu peito,
D'amor ofegar.

As notas que exalam as harpas celestes,
Os gozos, que os anjos só podem gozar,
Talvez também frua, se ao meu peito unido
T'encontro, ó querida,
No meu acordar!

Gonçalves Dias

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Jim Morrison

Pense DIFERENTE


”Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os encrenqueiros. Os que fogem ao padrão. Aqueles que vêem as coisas de um jeito diferente. Eles não se adaptam às regras, nem respeitam o status quo. Você pode citá-los ou achá-los desagradáveis, glorificá-los ou desprezá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles empurram adiante a raça humana. E enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como gênios. Porque as pessoas que são loucas o bastante para pensarem que podem mudar o mundo são as únicas que realmente podem fazê-lo.”(*)


"... O mote da propaganda é estimular as pessoas a “pensarem diferente” – a frase “think different” é o slogan da Apple.
Claro que o objetivo do comercial é estimular o público a “pensar diferente” na hora de comprar um novo equipamento de informática, trocando os sisudos desktops tradicionais pelas estilosas máquinas Macintosh. Mas o texto extrapola os limites da publicidade. E, ao assisti-lo, comecei a pensar que nós, pessoas que hoje se engajam na luta por um mundo vegetariano – menos violento e mais ético, menos egoísta e mais harmonioso –, somos os loucos capazes de alterar os rumos da raça humana.

Individualmente, nenhum de nós é um Gandhi ou um Martin Luther King. Porém, quando nos unimos, nos tornamos fortes. Poderosos. Capazes de grandes realizações. O simples fato de não nos adequarmos como cordeirinhos à ditadura de um mundo antropocentrista e especista já é sinal de que estamos dispostos a pensar diferente. E quando nos mobilizamos em protestos, ou nos empenhamos em produzir materiais informativos para levar a mensagem do vegetarianismo a um maior número de pessoas, estamos desempenhando, sem medo algum, o papel de loucos dos tempos modernos.


Talvez tenhamos de correr muitas estradas pelo mundo, como as personagens do livro de Kerouac, para falar das coisas em que acreditamos, dos nossos sonhos e das nossas convicções. E o mais doloroso é que, provavelmente, não teremos o prazer de ver nossas palavras-semente produzirem frutos. Para não nos frustrarmos, é essencial lembrar que não há nenhum problema nisso: Malcom X, por exemplo, foi assassinado no auge de sua luta, bem antes de ver suas idéias proliferarem. Mas, em seu breve tempo nesta Terra – ele morreu aos 40 anos –, soube fazer a vida valer a pena.


E nós? Estamos fazendo tudo o que podemos? Se temos esse potencial transformador imenso, por que não nos colocamos mais e mais a serviço das causas que acreditamos e defendemos?

Todos os dias, acordo com a certeza de que tenho muito a oferecer e construir, mas me deixo enredar por uma série de tarefas, deveres, obrigações, que me consomem e me afastam do que importa de verdade. Para ter o dinheiro do aluguel ou da ração dos cachorros, dedico horas preciosas ao trabalho cotidiano, roubando o tempo que deveria ser dedicado à disseminação de novos paradigmas.

Não falo só de divulgar para o mundo os benefícios de uma alimentação vegetariana. Há muito mais a mostrar, a difundir. Precisamos combater a cultura utilitarista que enxerga os animais como meios de produção, e não como seres vivos, relegando-os a condições miseráveis de vida e de morte. Explorados pela ciência, pela indústria do entretenimento, pelo mercado de pets, pelo mundo da moda ou pelas religiões que preconizam sacrifícios, os animais são as grandes vítimas da história deste planeta. As ameaças que os encurralam são de toda sorte: dos desastres ambientais que ameaçam a sobrevivência de espécies inteiras às pequenas atividades do dia-a-dia que os sujeitam às piores vilezas, o fato é que os animais têm pagado o preço da nossa ambição, da nossa mesquinhez.

Porém, enquanto me acomodo ao meu cotidiano pobre e comezinho, sei de grandes e admiráveis “loucos” que se arriscam para defender os direitos dos animais. No mundo inteiro, ativistas promovem ações diretas, viajam de um país a outro falando de libertação animal e resistem às pressões. Alguns vão presos, outros singram os mares sem fixar residência. Em uníssono, acreditam que podem mudar o mundo. E – tenho certeza disso – conseguirão mudá-lo.

Nós estamos a um passo de contribuir de maneira efetiva para essa luta. Quando começamos a abrir mão dos alimentos, das roupas, dos cosméticos, das diversões e de outros tantos detalhes que compõem o amplo espectro do statusquo, já estamos ajudando a desenhar um novo cenário para a humanidade. Mas podemos ir além. Os horizontes são amplos e é possível ultrapassá-los. Podemos, por exemplo, escrever e espalhar mensagens, sem nos envergonhar de sermos “diferentes”. Melhor ainda: podemos nos orgulhar de nossas diferenças.
Em tempo: o executivo todo-poderoso da Apple, Steve Jobs, é vegetariano, e teve participação direta na elaboração do comercial que me trouxe inspiração para este artigo.

Sim, Jobs é especial, e coloca sua inteligência e criatividade a serviço das empresas que gere. Mas nós também somos especiais. Afinal, como nos atrevemos a acreditar que somos capazes de mudar o mundo, fazemos parte de um grupo seleto, que tem a coragem e a ousadia necessárias para empreender grandes transformações.

Silvia Lakatos

Fonte: Revista Vegetarianos

Jack Kerouac, On the road

Fomos a Nova York - as circunstâncias, já esqueci, eram duas garotas negras -, mas não havia garotas lá; tínhamos marcado um encontro para jantar e elas não apareceram. Fomos até o estacionamento, onde Dean tinha algumas coisas a fazer - mudar de roupa no barraco dos fundos e se ajeitar um pouco em frente a um espelho rachado, coisas assim, e logo caímos fora. E foi nessa noite que Dean conheceu Carlo Marx. Algo verdadeiramente extraordinário aconteceu quando Dean conheceu Carlo Marx. Duas cabeças iluminadas como eram, eles se ligaram no ato. Um par de olhos penetrantes relampejou ao cruzar com dois outros olhos penetrantes - o santo vagabundo de mente sombria que é Carlo Marx. Daquele momento em diante quase não vi mais Dean, e fiquei um pouco magoado também.
As energias deles entraram em fusão; comparado a eles, eu não passava de um paspalho, era incapaz de acompanhar aquele ritmo. Começa então o louco redemoinho de tudo o que ainda estava por vir; e ele misturaria todos meus amigos e o pouco que restava da minha família numa gigantesca nuvem de poeira pairando sobre a Noite Americana. Carlo falava a Dean sobre Old Bull Lee, Elmer Hassel e Jane; Lee no Texas (...), Hassel na ilha de Riker, Jane vagando pelo Times Square (...), com sua bebezinha nos braços e acabando em Bellevue. E Dean falou para Carlo sobre desconhecidos do Oeste como Tommy Snark, o craque manco das mesas de bilhar, viciado no baralho e veado abençoado. Falou também sobre Roy Johnson, Big Ed Dunkel, seus amigos de infância, seus companheiros da rua, suas inumeráveis garotas e orgias e fotos pornográficas, seus heróis, heroínas, aventuras. Eles vararam as ruas juntos absorvendo tudo com aquele jeito que tinham no começo, e que mais tarde se tornaria muito mais melancólico, perceptivo e vazio. Mas essa época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop! - pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos "aaaaaaah!. Como é mesmo que eles chamam esses garotos na Alemanha de Goethe? Desejando ardorosamente aprender como escrever tão bem quanto Carlo, Dean, como é fácil imaginar, começou a envolvê-lo com aquela alma insinuante e amorosa que só mesmo um verdadeiro vagabundo poderia ter. "Carlo, agora deixe que eu  fale, o que eu tenho a te dizer é o seguinte..." Não os vi por umas duas semanas, durante as quais eles selaram sua amizade numa proporção tão intensa quanto seu diálogo diabólico que virava a noite e emendava o dia.
Chegou então a primavera, época ideal para cair na estrada, e todos neste bando disperso começaram a se preparar para algum tipo de viagem. Eu estava ocupadíssimo com meu romance, mas quando já estava na metade, depois de uma viagem ao Sul com minha tia para visitar meu irmão Rocco, senti que estava pronto para tomar o rumo do Oeste pela primeiríssima vez.

Jack Kerouac, On the road

Com licença poética


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado

Essência


há um blues traçado
entre as minhas palavras
e as minhas mãos,
a equilibrar-se frágil como lágrima.

lamento e riso tocam as minhas pálpebras,
ritmo e desconsolo apontam caminhos
entre os meus cabelos.

deixo-me levar.


Silvia Chueire

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Tomasz Rut 

Ele não sabia como escrever um poema de amor. Ele sabia apaixonar-se, e nesse percurso tortuoso que se impõe quando da paixão se trata, às vezes, conseguia chegar ao amor. Era forte nas pequenas fraquezas, sabia como se desvencilhar dos golpes mais violentos. Mas não sabia fazer poemas de amor, escrever cartas ou mandar bilhetinhos. Só tinha a seu favor o deslize da língua, ato sempre falho para dizer o incomunicável: "preciso de ti". Certa vez tomou coragem e decidiu escrever sobre o estado de seu espírito: così mi trovo in amorosa erranza foi o primeiro verso que lhe surgiu à cabeça. Por que sempre invocar Dante quando quero falar de amor? Pensou. Abandonou o amoroso engano. Não queria falar disso. Queria ser mais objetivo. Não era possível. Não tinha o talento da objetividade. Pensou em coisas, em imagens que comunicassem o seu amor, pensou pensou: "meu querido, hoje releio Orlando para provar que a tua testa é mais bonita; agora sei que foi para ti que Einstein chegou à Teoria da Relatividade Geral; reaprendo a geografia, tu és como uma península branca ora sobre o verde, ora sobre o negro; queria que me ajudasses a assaltar um banco; preciso de um companheiro para cruzar a fronteira e morrer no deserto, para depois verdejar o deserto transformados em húmus; não tenho dúvidas, era em ti que Eliot pensava quando escreveu The Waste Land; tu sabes o segredo oculto no interior do pêssego; antecipaste-me a monção, lavando com o teu brilho a poeira seca do inverno azul; tu és o Inverno Azul; és também a minha lição mais ancestral de estética; és a desconstrução do poema; és o motivo por que não sei escrever poemas de amor; tu és a bala que acabou de chegar ao centro do meu coração - e eu estou feliz por isso!

Oscar Mourave


falemos sobre as pequenas coisas que nos cercam
falemos vagarosamente para que durem
um mínimo instante além do tempo que as fitamos

para as grandes coisas
já dedicamos toda a nossa pressa
e ela não foi capaz de nos dar conforto
nem de solucionar os graves problemas humanos

dediquemos às pequenas coisas um olhar preguiçoso

melhor ainda
façamos um pacto de silêncio enquanto caminhamos
de mãos dadas como Ricardo e Lídia à beira do riacho
onde eu nunca me havia dado conta
dos pés de avenca na sombra amarela do Ipê

façamos um pacto de silêncio para ouvir os pássaros
façamos um pacto de silêncio para ouvir as águas
e os seixos que rolam no seu leito

façamos silêncio para ouvir o vento
façamos silêncio porque as palavras estão gastas
como os seixos que rolam ao sabor das circunstâncias.

Fred Matos

Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

XXXVI - O guardador de rebanhos




E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!…
Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!…
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.
Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio…
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.


Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Lembranças


Teus retratos — figuras esmaecidas;
mostram pouco, muito pouco do que foste.
Tuas cartas — palavras em desgaste,
dizem menos, muito menos
do que outrora me diziam
teus silêncios afagantes...
Só o espelho da minha memória
conserva nítida, imutávela projeção de tua formosura,
só nos folhos dos meus sentidos
pairam vívidas
em relevo
as frases que teu carinho
soube nelas imprimir.
Sou a urna funerária de tua beleza
que a saudade
embalsamou.

Quando chegar o meu instante derradeiro
só então, mais do que eu,
tu morrerás
em mim.

Gilka Machado

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Stendhal (Marie-Henri Beyle), O Vermelho e o Negro



- Que idade tem, senhor? - perguntou ela a Julien.
- Quase dezenove anos.
- Meu filho mais velho tem onze - tornou a Sra. de Rênal, completamente tranquilizada -, vai ser quase um camarada para o senhor. O senhor saberá tratar com ele. Uma vez o pai quis bater-lhe. O menino ficou uma semana doente. Entretanto, foi apenas um tapinha.
"Que diferença entre ele e mim", pensou julien. "Ainda ontem meu pai me espancou. Como é feliz a gente rica!"
A Sra. de Rênal começava já a querer surpreender as mínimas nuanças do que se passava na alma do preceptor; tomou aquele movimento de tristeza por timidez e tentou encorajá-lo.
- Como é seu nome, senhor? - disse ela com um acento e uma graça de que Julien sentiu todo o encanto.
- Chamo-me Julien Sorel, minha senhora. Tremo ao entrar, pela primeira vez na minha vida, em uma casa estranha. Preciso da sua proteção e do seu perdão para muitas coisas nos primeiros dias. Nunca estive no colégio; era muito pobre. A não ser com o meu primo cirurgião-mor, membro da Legião de Honra, e com o Sr. Cura Chélan, nunca falei com outros homens. O senhor cura pode dar-lhe informações a meu respeito. Meus irmãos me espancavam sempre; não acredite se eles falarem mal de mim. Perdoe os meus erros, minha senhora, pois nunca serão intencionais.
Enquanto falava, Julien se ia tornando senhor de si; e examinava a Sra. de Rênal. Tal é o efeito da graça perfeita, sempre que é natural e sobretudo quando a pessoa que ela ornamenta nem sonha em possuí-la. Julien, que se sentia conhecedor da beleza feminina, era capaz de jurar naquele instante que ela não tinha mais de vinte anos. Teve, de súbito, a idéia atrevida de beijar-lhe a mão. A seguir teve medo da sua idéia. Pensava, um momento depois: "É uma covardia minha não realizar uma ação que me pode ser útil e diminuir o desprezo que essa linda senhora provavelmente tem por um pobre operário recém arrancado à serraria". Talvez Julien se sentisse encorajado pelas palavras "rapaz bonito" que, havia seis meses, ele ouvia repetir aos domingos por algumas moças. Durante esses debates interiores, a Sra. de Rênal lhe dirigia algumas palavras, instruindo-o sobre o modo de iniciar a sua tarefa com as crianças. A coação que Julien fazia a si mesmo tornou-o, novamente, muito pálido; disse, num ar constrangido:
- Nunca, minha senhora, eu baterei em seus filhos. Juro-o perante Deus.
E, ao dizer essas palavras, ousou tomar a mão da Sra. de Rênal e levá-la aos lábios. Ela espantou-se com esse gesto, e, pensando melhor, sentiu-se chocada. Como fizesse muito calor, seu braço estava completamente nu sob o xale; e o movimento de Julien, levando-lhe a mão aos lábios, deixara-o inteiramente a descoberto. Ao cabo de alguns instantes ela repreendeu a si mesma; pareceu-lhe que não se mostrara imediatamente indignada.
[...]
Mais de uma hora depois, quando o Sr. de Rênal voltou com o preceptor vestido de preto, tornou a encontrar a mulher no mesmo lugar. Sentiu-se tranquilizada com a presença de Julien; enquanto o examinava, esquecia-se de ter medo. Julien não pensava nela; apesar de toda a sua desconfiança do destino e dos homens, a sua alma, naquele momento, era a de uma criança; parecia-lhe ter vivido anos desde o momento em que, três horas antes, encontrava-se trêmulo, na igreja. Observou o ar glacial da Sra. de Rênal, compreendeu que ela estava zangada com o fato de ele haver ousado beijar-lhe a mão. Mas o sentimento de orgulho que lhe dava o contato com roupas tão diferentes das suas punha-o de tal forma fora de si, e era tão grande o seu anseio de esconder a alegria, que todos os seus movimentos tinham qualquer coisa de brusco e de louco. A Sra. de Rênal contemplava-o com olhos espantados.
[...]
A hora que Julien passou no quarto pareceu um instante à Sra. de Rênal. As crianças, avisadas da chegada do preceptor, atormentavam a mãe com perguntas. Finalmente apareceu Julien. Era outro homem. Dizer que estava grave seria dizer pouco: Era a própria gravidade encarnada. Foi apresentado aos meninos e falou-lhes com um tom que espantou até o Sr. de Rênal.
- Aqui estou, meus senhores - disse, concluindo a sua alocução -, para ensinar-lhes latim. Já sabem o que é dar uma lição. Aqui está uma santa Bíblia - disse, mostrando-lhes um pequeno volume in-32, de capa preta. - É especialmente a história de Nosso Senhor Jesus Cristo, é a parte que se chama o Novo Testamento. Seguidamente eu lhes tomarei a lição; tomem agora a minha.
Adolphe, o mais velho, apanhara o livro.
- Abra ao acaso - prosseguiu Julien - e leia a primeira palavra de um parágrafo. Eu direi de cor o livro sagrado, norma da conduta de todos nós, até me mandarem parar.
Adolphe abriu o livro, leu uma palavra e Julien disse toda a página com a mesma facilidade com que falaria o francês. O Sr. de Rênal olhava para a mulher com um ar de triunfo. As crianças, vendo o espanto dos pais, arregalavam os olhos. Um criado veio para a porta do salão; Julien continuou a falar latim. A princípio, o criado ficou imóvel e, a seguir, sumiu-se. Logo depois, a criada de quarto da senhora e a cozinheira chegaram perto da porta; já então Adolphe havia aberto o livro em oito lugares, e Julien continuava a recitar com a mesma facilidade.
- Ah! Santo Deus! Que lindo padrequinho! - disse, alto, a cozinheira, boa rapariga muito devota.
O amor próprio do Sr. de Rênal estava intranquilo; longe de pensar em examinar o preceptor, estava ele completamente ocupado em buscar na memória algumas palavras latinas; pôde, finalmente, dizer um verso de Horácio. De latim, Julien só conhecia a sua Bíblia. Respondeu, cerrando o cenho:
- O santo ministério a que me destino proibe-me a leitura de um poeta tão profano.
O Sr. de Rênal citou um número bastante elevado de pretensos versos de Horácio. Explicou aos filhos o que vinha a ser Horácio. Mas as crianças, tomadas de admiração, não prestavam a menor atenção ao que ele dizia. Olhavam para Julien.
Continuando os criados à porta, Julien entendeu que devia prolongar a prova:
- É preciso - disse ele ao menor dos meninos - que o Sr. Stanilas-Xavier também me indique uma passagem do livro santo.
O pequeno Stanisla, todo orgulhoso, leu como pôde a primeira palavra de um versículo e Julien disse toda a página. Para que nada faltasse ao triunfo do Sr. de Rênal, quando Julien estava recitando, entraram o Sr. Valenod, o possuidor dos belos cavalos normandos, e o Sr. Charcot de Maugiron, subprefeito do distrito. Essa cena valeu a Julien o título de "senhor", os próprios criados não se atreveram a recusar-lho.
De noite, Verrières inteira afluiu à casa do Sr. de Rênal para ver a maravilha. Julien, respondeu a todos com um ar sombrio, que os mantinha à distância. Sua glória propagou-se tão rapidamente pela cidade que poucos dias depois, o Sr. de Rênal, como medo de que lho arrebatassem, propôs a ele um contrato por dois anos.
- Não senhor - respondeu friamente Julien -, pois, se o senhor quiser despachar-me eu serei obrigado a sair. Um compromisso que me liga ao senhor sem o obrigar a nada não é justo; recuso-o.
Julien soube conduzir-se de tal forma que, menos de um mes, depois da sua chegada à casa, o próprio Sr. de Rênal o respeitava. Estando o cura de relações cortadas com o Sr. de Rênal e o Sr. Valenod, ninguém pôde denunciar a antiga paixão de Julien por Napoleão. E ele só se referia a este com verdadeiro horror.

Stendhal (Marie-Henri Beyle), O Vermelho e o Negro

Desamparo


Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito,
porque uma ondulação maternal de onda eterna
te levará na exata direção do mundo humano.

Mas no equilíbrio do silêncio,
no tempo sem cor e sem número,
pergunta a mim mesmo o lábio do meu pensamento:

quem é que me leva a mim,
que peito nutre a duração desta presença,
que música embala a minha música que te embala,
a que oceano se prende e desprende
a onda da minha vida, em que estás como rosa ou barco...?


Cecília Meireles

Reconheço-me



Reconheço-me em todas as paisagens
anunciadas pelos profetas, ou pelos mágicos,
fascinada com o impulso que me faz arriscar
uma paixão sem aviso prévio.
Plagio sem restrições
a vida de heróis fantasiosos.
Procuro em todas as definições
acerca da vida e da morte
a síntese perfeita
e transcrevo-a nas cordas vocais
para a citar a propósito das coisas que acontecem.
Ninguém me diga o caminho onde se equivalem
os dias e as noites de um roteiro de verão.

Graça Pires

Pra não dizer adeus



1.
O coração explode
na dor acumulada e na fadiga:
o morto ensaia novos passos
ao ritmo de sua amante estranha.
Morrer foi mais do que uma escolha:
foi render-se enfim àquela melodia.

Baixa uma cunha de luz
sobre os que velam: enlaçado à sua amada,
o morto espreita atrás da cortina
enquanto se arma o cenário.
Na platéia, silêncio e surdez:
somos os não-iniciados.
Mas alguém conhece o roteiro,
alguém distribui os papéis, alguém
vai pronunciar nossos nomes.
Ninguém será esquecido
no palco que nos aguarda:
seremos vistos, seremos registrados,
também seremos chamados.

2.
Caminho entre as minhas perdas
-- que são insetos escuros –
e os meus ganhos, douradas borboletas.

A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o lento pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.

Que liberdade não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
a minha vida:
apenas andar,
apenas olhar, apenas
ouvir essa voz, essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão a menor importância

porque no vasto oceano
a minha eventual desarmonia
é apenas uma gota
desafinada.
Mais nada.

Lya Luft

para Hilda Hilst

Hilda Hilst ao lado de sua amiga, a escritora Ligia Fagundes Teles.

Abro a folha da manhã
Por entre espécies grã-finas
Emerge de musselinas
Hilda, estrela Aldebarã.

Tanto vestido enfeitado
Cobre e recobre de vez
Sua preclara nudez
Me sinto mui perturbado.

Hilda girando boates
Hilda fazendo chacrinha
Hilda dos outros, não minha
Coração que tanto bates.

Mas chega o Natal
e chama a ordem Hilda.
Não vês que nesses teus giroflês
Esqueces quem tanto te ama?

Então Hilda, que é sab(ilda)
Manda sua arma secreta:
um beijo em morse ao poeta.
Mas não me tapeias, Hilda.

Esclareçamos o assunto.
Nada de beijo postal
No Distrito Federal
o beijo é na boca e junto.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Chico Buarque e Gilberto Gil - Cálice censurado



Um trecho do show PHONO 73 realizado no Anhembi, em São Paulo. A música Cálice foi considerada subversiva pelos orgãos da ditadura militar, por isso mesmo sendo cantada com a letra modificada, o microfone do Chico Buarque foi desligado.

Demora


Meu amigo se separou.

E ria e conversava com todo fermento da noite. Não vi nenhuma careta. Nenhuma cara amarrada. Nenhuma marca de suicídio. Um homem aberto ao convívio. Quem o observava não cogitaria que dividiu um táxi com sua mulher e cada um partiu para a um canto diferente da cidade. Não imaginaria que ele se distanciou da esposa de cinco anos. Não se apontaria coisa alguma de diferente nele, sem resquício de mal-estar na gola, sem qualquer dobra a mais em sua camisa xadrez. Levantava o chope com a mesma envergadura. Preocupava-se com o rumo dos temas com igual zelo. Comentou filmes, destilou cotação de livros, elegante na ironia e contido na crítica. Aparentava a boemia engraçada de uma sexta-feira. Nem mais vontade de beber, nem menos.

Não havia cansaço de uma longa refrega, olheiras de preocupação, bafo de ofensas. Estava até de dentes escovados, cheiroso inclusive — e eu que jurava que não se tomava banho num divórcio.

A impressão é que esqueceu um compromisso, extraviou uma tarefa, sei lá, a chave da porta do edifício, algo substituível, não um namoro, um casamento, um destino. Sugeria um desapego, uma frieza, fiquei em dúvida se podia confiar nele, não havia feito barbaridades como quebrar cabides e porta-retratos, não havia protagonizado um ataque de piromaníaco com as cortinas, não sumiu com imagens e cenas em seu computador. Como que meu amigo não estava sofrendo? Como não chorava, não reclamava de sua companhia, não condenava o desenlace?

Não vislumbrava um filete de sangue que atraísse os vampiros das fofocas. Ou seja, nós, os colegas do balcão, ansiosos por tragédias, boquiabertos, salivando por detalhes, escárnios, pela exposição desenfreada de sua vida íntima.

Não saiu um palavrão, uma filha da puta de sua boca. Meu amigo não falou nada. Não se debruçou na toalha, não palitou as veias, não esbofeteou seus olhos com guardanapos.

Justamente porque estava sensível demais. Excesso de sensibilidade nos leva à insensibilidade. O extremo é negação.

A despedida era muito recente para gritar e sacudir os braços em oração muçulmana. Ainda não respirou lonjuras, não experimentou a quebra de ritmo, não descontou um par de talheres na hora de pôr a mesa. Não existia um dia de travesseiro e de cama vazia. Não engasgou no ato falho, não emudeceu no constrangimento das gavetas, mantinha a espera de um pedido de desculpa.

Desespero em demasia é tranquilidade. Não processamos, não digerimos, estamos conectados em pensamento com as últimas palavras, revisando os diálogos com a esperança de intervir na ilha de edição ou de retomar as filmagens.

Demoramos a nos separar, mais ainda em nos descobrir separados.

Aceitei que estava realmente divorciado um mês depois do fim, ao buscar o filho no antigo apartamento. Encontrei as tolhas molhadas no corrimão da escada-caracol. Eu que sempre levava para cima quando subia ao escritório, eu que sempre estendia o jogo no varal do terraço. Toda manhã, como uma senha, um rito de bom-dia.

Enfrentei a saudade, contive o ímpeto da falta. Confesso que a imobilidade doeu mais do que um movimento abrupto. Se realizasse o ato banal, vestiria novamente os fantasmas.

A casa não era mais minha. Os hábitos não eram mais meus. Não tinha mais obrigação com o passado. Sequei o rosto com os próprios punhos.

Fabrício Carpinejar

Odeio


veio um golfinho do meio do mar roxo
veio sorrindo pra mim
hoje o sol veio vermelho como um rosto
vênus, diamante, jasmim
veio enfim o e-mail de alguém

veio a maior cornucópia de mulheres
todas mucosas pra mim
o mar se abriu pelo meio dos prazeres
duna de ouro e marfim
foi assim, é assim, mas assim é demais também

odeio você, odeio você, odeio você
odeio

veio um garoto do arraial do cabo
belo como um serafim
forte e feliz feito um deus, feito um diabo
veio dizendo que sim
só eu, velho, sou feio e ninguém

veio e não veio quem eu desejaria
se dependesse de mim
são paulo em cheio nas luzes da bahia
tudo de bom e ruim
era o fim, é o fim, mas o fim é demais também

odeio você, odeio você, odeio você
odeio

Caetano Veloso

De medo


Era um dia de medo sob as nuvens, um dia de música ignorada, o medo nascendo feito jato d'água, do peito espalhando-se pelo corpo, a tremer tantos terremotos, como se a terra fosse revirar-se, a náusea a subir e descer.
Era um dia de medo e nestes dias é que renunciamos viver. Assim foi.

Ela o observava sem calar completamente, nunca fora capaz do silêncio de pedra. Observava, cada vértebra estremecida, a pedir internamente: não, assim não. Cada pensamento voltado para o acontecimento: a vida estancada, parada à margem árida do que estava ali, do que estava por vir.
Mas nossas mãos nunca podem remover o medo alheio, por mais que prometam o paraíso. Cada um procura o inferno que bem entende.

Eram dias de tenebroso terror para os quais ela olhava sem acreditar que poderiam ser. Dias de inundações, de ondas desgovernadas, de vozes ásperas chocando-se contra as paredes, contra a sua face incrédula.
Também ela, por minutos, temeu. Temeu o esquecimento de que eram felizes. Tão mais felizes do que podem ser as pessoas no nosso tempo. Sabia que a felicidade tem tanto peso quanto a morte, ambas não se deve esquecer.

Eram dias com o terror colado. Desaguaram em milhares de palavras, numa corrente líquida de palavras desesperadas, de pensamentos a procurar um nexo, qualquer nexo. Mas qualquer nexo corria à solta das coisas, chorava-se a lágrima pura da dor.

Era ela entre as paredes, a tecer as razões de tudo. Era ele acuado. Era ela, Penélope caricatural, a repetir perguntas e respostas, tentando entender a turbulência. Campos e campos de dor. Era ele a fugir.

Não se toma o medo alheio nas mãos e se o desfaz com gestos amorosos. O medo alheio é uma intrincada floresta de dúvidas que não nos pertencem, de renúncias que não são nossas. Nunca renunciou, nunca cedeu ao medo. Mas a nossa coragem não é a coragem do outro.

Era uma casa tristemente quieta de maio. A sua casa. Tapou o seu rosto com a máscara do sorriso, calou sua voz entre as notas de uma qualquer música, e foi vivendo os pedaços da mulher que era, até que os recompusesse um dia. Até que pudesse renascer.

Hoje pensa: um dia a felicidade há de ser uma coisa natural.


Silvia Chueire

Delicatessen


Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou? " A pauladas ",  respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.


Hilda Hilst


(Segunda-feira, 1 de março de 1993)
Correio Popular de Campinas-SP -

É bom ouvir a conversa de duas pessoas inteligentes como Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. O Eco é mais conhecido: "O nome da rosa" e os ensaios sobre semiologia. Já o Carrière além de escritor, fez filmes com Buñel e ambos colecionam livros raros. Vocês podem participar desta conversa, como se fosse um Big Brother, só que devem abrir o livro "Não contem com o fim do livro"( Ed. Record). Os dois trocam idéias sobre as mais variadas coisas. E sempre com bom humor, como ao citar a frase de um humorista búlgaro Karl Valentin: "O futuro era melhor antigamente".

Eis algumas frases engraçadas e intrigantes tiradas daquele livro:

"Onde enfiaram o presente?"- JCC

"Foi preciso quase um século para as galinhas aprenderem a atravessar a rua"- UE


Umberto Eco revela que na juventude leu os livros da Coleção Scala D'oro e só adulto descobriu que tais romances eram modificados e terminavam bem. Em " Os Miseráveis ", de Victor Hugo, por exemplo," Javert não se mata, se demite.


Por sua vez Jean Claude Carrière revela que nas traduções do Abade Delile, Hamlet não morre.


"Nunca se escreveram tantos versos e tão poucos poemas. Nem sequer unzinho durante mais de um século", -diz JCC comentando o período da literatura francesa entre Racine e o Romantismo.

Qualquer semelhança com nossa época é mera coincidência.


"As três grandes civilizações do romance são incontestavelmente a França, a Inglaterra e a Russia"- UE.


"Durante a época em que Napoleão exerce o poder absoluto ,isto é, entre 1800 e 1814, não há um único livro publicado na França que seja lido nos dias de hoje" -JCC.


"Como a Cidade do México situa-se a 400 quilômetros de cada oceano, eles faziam um revezamento de corredores, que traziam o peixe fresco à mesa do imperador em menos de um dia. Cada um deles corria 400 ou 500 metros, depois passava sua carga"-JCC


"Ë o meu caso: coleciono, como já disse, tudo que se refere à ciência falsa, charlatana, oculta, bem como às línguas imaginárias"(...)sou fascinado pelo erro, pela má fé e pela estupidez"- UE


"Na " Poética", Aristóteles cita umas 20 tragédias que não conhecemos mais. O âmago do problema é: por que apenas as obras de Sófocles e Eurípedes subsistiram? Eram as melhores, as mais dignas de passar a posteridade?- UE


"É absolutamente necessário que, associado ao ato de criação, haja um mistério. O publico exige isso. Senão, como Dan Brown ganharia a vida"- UE.


"Porém, de 1933, data da chegada de Hitler ao poder, à morte de Stalin, vinte anos depois, contamos no nosso planeta perto de 100 milhões de mortes violentas" -JCC


"A burrice é uma forma de administrar a estupidez com orgulho e assiduidade" -UE


"Picasso admitia que também podia fazer Picassos falsos. Inclusive gabou-se de ter feito os melhores Picassos falsos do mundo" -JCC


"É incrivel que , no pais mais filosófico do mundo, a Alemanha, não ensinem filosofia no liceu"-UE


"O Holocausto teria sido possível se a internet existisse?" -UE


"Sem eletricidade está tudo irremediavelmente perdido. Em contrapartida , ainda poderemos ler livros, durante o dia, ou a noite à luz de uma vela, quando a herança audiovisiual tiver desaparecido"-JCC


Affonso Romano de Sant'Anna

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mau Sangue


Herdo de meus antepassados, os gauleses, os olhos azuis-claros, a
fronte estreita, e a falta de jeito para a luta. Sinto que minhas roupas
são tão bárbaras quanto as deles. Apenas não unto a cabeleira.
Os Gauleses foram esfoladores de animais, queimadores de ervas, os
mais inábeis de seu tempo.
Deles, eu herdo: a idolatria e o amor ao sacrilégio; - oh! todos os
vícios: cólera, luxúria, - magnífica, a luxúria; - sobretudo mentira e preguiça.
Detesto todas as profissões. Mestres e oficiais, todos campônios,
ignaros. A mão que empunha a pena equivale à que guia o arado. -
Que século de mãos! - Jamais me servirei das mãos! Depois, a
domesticidade leva demasiado longe. A honradez da mendicidade
exaspera-me. Os criminosos repugnam-me como castrados: quanto a mim,
estou intacto, e pouco se me dá.

Mas quem fez tão pérfida a minha língua que, até agora, tem guiado
e protegido a minha preguiça? Sem saber utilizar-me do corpo, e
mais ocioso que um sapo, tenho vivido por toda a parte. Não há
família na Europa que eu não conheça: - Estou falando de famílias
iguais à minha, que devem tudo à declaração dos Direitos do
Homem – Tenho conhecido cada filho-família!

Arthur Rimbaud

Pequena elegia de setembro


Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade