terça-feira, 1 de novembro de 2011

imagem: Klaus Goffelmeyer


fingir que está tudo bem: o corpo
rasgado e vestido com roupa
passada a ferro, rastos de chamas
dentro do corpo, gritos desesperados
sob as conversas: fingir que está
tudo bem: olhas-me e só tu sabes:
na rua onde os nossos olhares se
encontram é noite: as pessoas não
imaginam: são tão ridículas as
pessoas, tão desprezíveis: as pessoas
falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo
bem: o sangue a ferver sob a pele
igual aos dias antes de tudo,
tempestades de medo nos lábios a
sorrir: será que vou morrer?,
pergunto dentro de mim: será que
vou morrer?, olhas-me e só tu
sabes: ferros em brasa, fogo,
silêncio e chuva que não se pode
dizer: amor e morte: fingir que está
tudo bem: ter de sorrir: um oceano
que nos queima, um incêndio que
nos afoga.


José Luís Peixoto

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