terça-feira, 8 de novembro de 2011

Jardim absolute



Diante de ti e exposta à tua contemplação,
recebo lições que equivalem a viajar o mundo inteiro de repente
e a falar mil línguas fluentemente.
Interagir com a aula é que é a prova,
muda e silenciosa é sua floração,
calado é o seu crescimento.

Mas pra mim, são ainda tambores de fevereiro
batendo forte no couro do pensamento.
Entro com pés delicados em outubro,
mas trago um coraçao recoberto pela flora de setembro.
Ah ,meu jardim eloqüente, cruzeiro, viagem, absoluto evento!
(é jardim como de toda a gente, mas só por ser meu é um jardim diferente.)

Está tudo aqui:
o trabalho do sol,
o ofício clarioso da luz,
seu tear didático e inconsúltil
no sofisticado cinema simples da fotossíntese.
É fotografia do mundo quando em paz,
é sua definição, sua possível síntese.

Há em ti todos os representantes da vida:
os quatro elementos, sua loucura,
seus divinos ventos,
a persistência das raízes,
a fina firmeza das hastes.
O resultado cromático pronunciado em pétalas,
tudo confirmando a nossa humana bravura no tempo.

E por cima desse tudo,
está a estação lírica do meu contentamento.
Escrevo o que vejo acontecer por debaixo da terra,
de acordo com a palestra estética e ética desta brotação.

Verde, verde, verde,
te amo, meu jardim absoluto!
Te levo comigo inteiro,
retrato três por quatro amarelado,
vivo e oculto dentro da carteira,
guardado como concreta subjetividade querida,
na algibeira traseira da calça comprida
da minha vida!

Elisa Lucinda