segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

imagem: Jason-Fassnacht

2. Pensaste em mim enquanto morrias? Dava muito dinheiro por esta resposta - desde que fosse a verdade. Porque há a verdade - não é tudo tão relativo como tu querias ensinar-me.
Há a verdade, e era isso o que nos unia; que houvesse a verdade, navio absoluto. Alguns outros concordariam connosco, mas à distância. A distância dos risos e dos copos que se tornou a nova intimidade. Para ti, a verdade não era inatingível - estarias já comigo naquela manhã de infância em que quis nadar até ao navio do horizonte? Apanharam-me antes de lá chegar, com um barco a remos e um par de bofetadas - o menino é doido?
Vive-se melhor a inventar a verdade todos os dias, dizem-me.
Faz de conta que não morres. Faz lá. Nós os dois queríamos inventar tudo menos a verdade. Mesmo que ela fosse nossa inimiga. Sobretudo quando ela era nossa inimiga. Queríamos matar a verdade má e espalhar a verdade boa - o menino é doido?
Como é que eu mato a tua morte? Em sonhos, vens-me buscar, levas-me contigo por um corredor longo e frio. Porque há tantos corredores, e tão escuros, nos sonhos? Mas no fim, olhas para mim e já não és tu. Uma caveira com restos de carne nos olhos ri-se para mim e faz nha-nha-nha, como as crianças - bem feita, bem feita, enganei-te. Acordo e tenho dificuldade em separar-te da caveira. Vejo-te ossos, nervos e pele enegrecendo nos retratos, um sorriso cáustico flutuando no silêncio do quarto. E tudo cheira a velhice, à podridão instantânea em que te tornaste. Não querias que te visse morta; punes-me por isso?
A busca da verdade torna-nos castigadores. Tropecei tanto nas tuas pequenas mentiras. Urtigavam-me tanto. Mentia-te imediatamente, com um pouco mais de veemência, para tu veres.
Mentiras. Tornavas tua uma graça que era minha, e essa anedota voltava para mim, aumentada, aviltada pelos pontos de humor que tinhas ganho entretanto no coração de alguém, à minha custa. Quando nos conhecemos não eras assim. Citavas-me.
Punhas aspas. O teu encanto era essa - tão rara - cintilação de aspas. Dizias: "Fulano disse-me, Cicrano contou-me".
Sublinhavas a inteligência e a beleza das palavras dos outros.
Na passagem à política foste largando esse rigor, como uma pele incómoda. Os nomes eclipsaram-se, varridos para debaixo do solene tapete das fontes seguras. Depois, à medida que foste ganhando confiança, aprendeste a dispensar inclusivamente esse recurso às fontes. Quantas frases saídas da minha boca para o teu ouvido, desenhadas de propósito para te fazer rir, regressaram a mim. Nos jornais, como citações da semana saídas do teu nobre cérebro.
Repara que eu não ponho em dúvida a nobreza e vastidão do teu pensar Eras uma tese de doutoramento existencial em movimento. Alguma vez te disse isto? Pensavas tanto e tão bem que intercalavas sempre as citações nos sítios certos. Não precisavas de as engolir e vomitar como pérolas próprias.
Tornaste-te ostra, sim; molusco, ou menos pessoa, se preferires.
A princípio eu ofendia-me, replicava - fazia teatro. E isso era a verdade. Mas desisti; tu não fazias teatro nenhum.
- Que importância é que isso tem? Não me vais agora fazer uma cena de ciúmes por uma história que eu me esqueci que era tua.
A Lia era assim. O Partido era assim: um clube onde ganha o que mais depressa conseguir caçar e comer as qualidades dos outros. E isso, explicavas-me, não era mentir Entraste no mundo especializado onde mentir era diferente de omitir. Muito menos grave. E a traição só existia quando muito repetida, nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas. O resto - inconfidências, sexo, intrigas, queixas - eram apenas escapadelas humanas.
O teu código moral burocratizou-se; havia alíneas para todas as infracções. E mesmo as maiores passaram a ter pouco valor.
Aprendeste que é mínima a distância - um deslize e um crime.
Que todos podemos, num dado instante, escorregar para o negro.
Uma bebida, duas, um bêbado, um assassino; um charro, um cheiro de coca, uma dependência, um ladrão. A vida tornava-se assim.
Incontida. Demasiado simples e complexa. Música em crescendo, ensurdecedora. Sem qualquer verdade de partida.
- Que importância é que isso tem? Pior é quando eles pegam num projecto meu e proclamam que é deles. E eu já me habituei: são homens, são muitos, sempre governaram assim. Se a guerra se faz com mísseis, não adianta cansar-me a atirar-lhes pedras.
Tinhas resposta para tudo, raios te partam. No tempo em que estudavas História, a tua especialidade eram as perguntas.
Interrogavas o passado com veemência e método: porque é que isto foi assim? Porque é que as outras possibilidades não puderam ser? Onde é que está a verdade, para além dos factos?
Riam-se de ti, quando falavas da verdade. Repetiam-te que a verdade não existia - porque essa era a verdade do pedaço de tempo que nos era dado viver. Mas tu não te instalavas no teu tempo. E preocupavas-te continuamente em não te instalares num outro qualquer tempo que te tornasse anacrónica.
- Quero lá saber que me achem caduca. Mas rala-me pensar que posso não ter mais do que ideias-de-reacção. Não nos podemos deixar levar para o campo do inimigo, meu querido.
O campo do inimigo. Sabias desenhá-lo com a nitidez de um relvado de futebol. Gostavas de futebol porque era parecido com a verdade. Mesmo com árbitros comprados. Ou notas correndo em rios gordurosos debaixo das mesas de fiscais, empresários, advogados. Mesmo quando se tornou um negócio. Os maus e os bons, os puros e os impuros; sim, o correr das notas tornava as distinções mais árduas. Mas o sol sobre o relvado decidia tudo - as pernas dos homens correndo atrás da bola da verdade.
- Vê-se tão bem quem joga com tudo o que é e quem joga só com o corpo, dizias tu. Porque é que a vida não é transparente como um jogo de futebol?

Inês Pedrosa, Fazes-me falta