sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sombra



Quantas vidas em frente
da minha vida. Procuro nelas o meu reflexo,
e perco-me em cada rosto que encontro. Peço
ao céu uma névoa, para me esconder
de quem me rouba a alma; e a luz brilha,
mais intensa, para que todos se precipitem
sobre mim, e me tirem cada pedaço
do que sou, para o atirar a quem dele
precisa. Se ao menos o espelho
me guardasse a imagem; ou a janela,
ao abrir-se, me desse um impulso de ave...
Mas só existo para quem não sabe
que existo; e só falo para fugir de quem me ouve,
como se fosse a sombra de que me liberto
quando a sua sombra me prende
ao vidro.


Nuno Júdice