domingo, 30 de janeiro de 2011

Último soneto



Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!


Álvares de Azevedo

Arte Poética

Esquece todos os poemas que fizeste. 
Que cada poema seja o número um.

***

Cuidado

A poesia não se entrega a quem a define. 

***

Destino Atroz

Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.

Da inqueta esperança



Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório. 

A grande surpresa 

Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...


Mário Quintana

XLIII - O Guardador de Rebanhos



Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!


Alberto Caeiro 
(heterônimo de Fernando Pessoa)

Musa


Entre o teu corpo e a paisagem vejo abrir-se
a distância que me leva de mim a ti. E se
entre mim e ti outra distância não houvesse,
limito-me a contar os passos que dou para
que a conta não acabe. Tu, porém, olhas-me
neste fundo de tabuada, e deixas que o teu
braço seja a régua onde a distância se mede
pelo abraço que falta. Então, acerto a conta
pelo triângulo que o outro braço forma,
quando seguras a cabeça, e fecho nesse ângulo
a soma dos corpos que totalizam o amor.


Nuno Júdice

sábado, 29 de janeiro de 2011

Canção da mulher que escreve

Gianni Strino 


Não perguntem pelo meu poema:
Nada sei do coração do pássaro
Que a música inflama.

Não queiram entender minhas palavras:
Não me dissequem, não segurem entre vidros
Essas canções, essas asas, essa névoa.
Não queiram me prender como a um inseto
No alfinete da interpretação:
Se não podem amar o meu poema, deixem
Que seja somente um poema.

(Nem eu ouso erguê-lo entre meus dedos e perturbar a sua liberdade)


Lya Luft

Violeta



Sempre teu lábio severo
Me chama de borboleta!
- Se eu deixo as rosas do prado
É só por ti - violeta!

Tu és formosa e modesta,
As outras são tão vaidosas!
Embora vivas na sombra
Amo-te mais do que às rosas.

A borboleta travessa
Vive de sol e de flores.
- Eu quero o sol de teus olhos,
O néctar dos teus amores!

Cativo de teu perfume
Não mais serei borboleta;
- Deixa eu dormir no teu seio,
Dá-me o teu mel - violeta


Casimiro de Abreu

Felicidade


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta


Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011


"Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva nã é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva, talvez seja isso ao que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: VIVO. E apenas vivo de uma alegria mansa."


Clarice Lispector

trago afogadas no azul
as palavras que diria.

mas o dia é maior que eu
o sol recusa subterfúgios.
não há recanto sem luz,
o mar entra-me pelos sentidos,
e eu me rendo.

será líquido meu destino



Silvia Chueire

Soneto 1


Amor, cuántos caminos hasta llegar a un beso,
qué soledad errante hasta tu compañía!
Siguen los trenes solos rodando con la lluvia.
En Taltal no amanece aún la primavera.
Pero tú y yo, amor mío, estamos juntos,
juntos desde la ropa a las raíces,
juntos de otoño, de agua, de caderas,
hasta ser sólo tú, sólo yo juntos.
Pensar que costó tantas piedras que lleva el río,
la desembocadura del agua de Boroa,
pensar que separados por trenes y naciones
tú y yo teníamos que simplemente amarnos,
con todos confundidos, con hombres y mujeres,
con la tierra que implanta y educa los claveles.


AMOR, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.




Pablo Neruda
Tradução de Antonio Miranda

Horas Rubras


Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca e misteriosa...
e sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!


Florbela Espanca

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Meus olhos



Quisera que meus olhos fossem duros e frios
e que ferissem fundo dentro do coração
e que nada expressassem dos meus sonhos vazios,
fosse esperança ou ilusão.
Indecifráveis sempre a todos os profanos
do fundo e suave azul da tranqüilidade safira,
incapazes de ver os pesares humanos
ou a alegria do viver.
No entanto estes meus olhos são cândidos e tristes,
não como eu os desejo nem como devem ser.
É que estes olhos meus é o coração que os veste
e seu desgosto fá-los ver.

Pablo Neruda

Mirada infiel


Miró sus piernas huyendo gráciles de algún tormento
(nunca supo de cual); el corazón tamborileó al ritmo
de pendulares caderas. Involuntariamente adivinó el
pináculo de sus pechos y resbaló jugando en el
contorno de su cintura. Se juró leer el pensamiento
que le caía en forma de cascada (hasta entonces no
conceptuaba en su fantasía una luz tan bronceada).
Luego miró hacia la vereda de enfrente; la vio otra
vez, pero ahora iba inmersa en otras piernas; y en
una corta y rubia cabellera.


Mirou suas pernas fugindo gráceis de algum tormento
(nunca soube de qual); o coração tamborilou ao ritmo
de quadris pendulares. Involuntariamente adivinhou o
pináculo de seus seios e resvalou brincando com no
confronto de sua cintura. Jurou ler o pensamento
que se derramava em forma de cascata (até então não
conceituava em sua fantasia uma luz tão bronzeada).
Depois mirou a vereda por diante; voltou a vê-la
outra vez, mas agora ia imersa em outras pernas; e em
uma curta e loura cabeleira.


Andrés Echevarria
(Tradução de Antonio Miranda)

Beijo Eterno


Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue.
Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!...
Diz tua boca: "Vem!"
Inda mais! diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais!
que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!


Castro Alves

Who Said we Can't be Happy?

fotografia de Gabriela Boleslavsky
"Happy"
Lighthouse Family

Hey, what's happened to our lives?
When did you and me forget how to have a good time?
And we gotta get back to the life
That we forgot 'cos we got too much on our minds

Hey, we got to make some time for the stuff that you can't buy
And get a life 'cos you know all that serious stuff ain't no fun

Who says you can't be happy all the time?
I know but I'm still gonna try
Hey let's all go out tonight
Why don t you and me go out and have a good time?
Make our life a supernatural high
Cos we're both leaving all that bad stuff far behind

Hey there's gonna come a time you kiss it all goodbye
So get a life 'cos you ain't got a clue when that day's gonna come
Who says you can't be happy all the time?
I know but I'm still gonna try

Who says you can't be happy all the time?
Say what you like but I'm still gonna try
Who says you can't be happy all the time?
I know but I'm still gonna try
Who says you can't be happy all the time?
I know but I'm still gonna try

Who says you can't be happy all the time?
Say what you like but I'm still gonna try

But I'm still gonna try
But I'm still gonna try

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Haleh Bryan


Decifrar teus olhos
é como ler em pergaminhos
uma escrita desconhecida,
é como ler na superfície do mar
um navio enterrado,
o segredo das conchas.
Decifrar teus olhos
como se teus olhos fossem
o lado oculto da lua.


Roseana Murray



borboleta na chuva
o peso da gota
ainda mais leve

*
mariposa en la lluvia
el peso de la gota
aun más leve


Alice Ruiz

If

fotografia de Dina Bova

(If - Bread)

If a picture paints a thousand words
Then why can’t I paint you
The words will never show
The you I’ve come to know

If a face can launch a thousand ships
Then where am I to go
There’s no one home but you
You all that’s left me too
And when my love
For life is running dry
You come and pour yourself on me

If a man could be in two places
At one time I will be with you
Tomorrow and today
Beside you all the way

If the world should stop revolving
Spinning slowly
And down to die
I’d spend the end with you
When the world was through

Then one by one
The stars will all go out
Then you and I
Would simply fly away

If a picture paints a thousand words
Then why can’t I
Why can’t I paint you

Elogio da leitura



Sigo o movimento dos teus olhos
no livro que seguras,
e vais descobrindo ao mesmo tempo
que eu. O que sentes? Que
sonhos inundam a tua cabeça, quando
uma palavra ocupa toda a página, e te
obriga a parar a meio de um
um parágrafo? Ou de que te lembras,
quando voltas atrás, e me fazes reler
a frase por onde eu passara, sem ter
visto o que me dizes? Explicas-me
que este livro é a tua vida; mas
a tua vida também é um livro, digo-te,
quando o deixas cair para o chão,
e me deixas ler pelas linhas da tua mão.


Nuno Júdice

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Resposta



Ninguém pode calar dentre mim
Esta chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar

Eu não posso explicar quando foi
E nem quando ela veio
E só digo o que penso, só faço o que gosto
E aquilo que creio

Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade
De quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou
Ou vai falar de mim

Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade
De quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem vai falar
Ou já falou de mim


Composição: Maysa

Recordação


Agora, o cheiro áspero das flores
leva-me os olhos por dentro de suas pétalas.
Eram assim teus cabelos;
tuas pestanas eram assim, finas e curvas.

As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo,
tinham a mesma exalação de água secreta,
de talos molhados, de pólen,
de sepulcro e de ressurreição.
E as borboletas sem voz
dançavam assim veludosamente.

Restituiu-te na minha memória, por dentro das flores!
Deixa virem teus olhos, como besouros de ônix,
tua boca de malmequer orvalhado,
e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios,
com suas estrelas e cruzes,
e muitas coisas tão estranhamente escritas
nas suas nervuras nítidas de folha
- e incompreensíveis, incompreensíveis.


Cecília Meireles

Frasqueira




Atenção: é só uma lembrança
a frasqueira onde viaja
o remédio.
Os frascos não existem mais.
Abro o poema,
– cuidado com os estilhaços!
Aspiro o perfume da cura
que evapora rápido.
Empresto uma respiração
que se deixe impregnar.



Sérgio Alcides 

Lágrimas ocultas


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que rí e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi outras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!


Florbela Espanca

domingo, 23 de janeiro de 2011



Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flores!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...

Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

 
Álvares de Azevedo

Interior com figura

fotografia de Daria Zhuravel


É no lugar da janela que o quadro ganha
outra dimensão, não sei se por causa da luz que
entra na sala, através da cortina, se pela
posição do braço, caído ao longo do corpo, mas
mantendo um pouco de energia - a suficiente
para manter o equilíbrio. Mas não estou
a falar do modo como ela está sentada
na cadeira; o que daqui ressalta, antes
pelo contrário, é a convicção do olhar,
fixo no dia que se adivinha do outro lado
da janela, e que a puxa para o exterior,
como se ela estivesse entre o dentro e o fora,
numa indecisão que só o espírito resolve,
quando pensa nas plantas secas nos vasos,
e sonha com a primavera que se anuncia. Por
isso, espero que a imagem se anime,
de súbito, e a figura da mulher sentada
se dirija para a porta, e saia para o quintal
da casa, onde flores e arbustos se confundem,
por entre a erva que ninguém cortou,
ao contrário da sua vida.


 Nuno Júdice


Um poema
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.

Um poema
sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste
Solitário
Único

Ferido de mortal beleza.


Mário Quintana

Eu me importo com os animais...




sábado, 22 de janeiro de 2011



Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!


Mário Quintana

Solidão num Sábado



Estou inútil, sem você,
nesta noite de sábado que começa.
Há as horas que terão que passar, que vão passando
e que me amedrontam
como o imenso deserto ao caminhante já sem forças.

Assisto à tarde que se vai, triste, oleosa,
como se a visse quadriculada, de uma cela,
sem direito à paisagem.

E o pior é que hoje é sábado,
e antes da segunda em que te colho,
há sempre um domingo em que te perco.


J.G. de Araújo Jorge

Ponta de Punhal



Quero tudo que é estilete
Faca, lâmina metal
Tudo que espete, fira, brilhe
Faça mal.
Quero tudo que golpeia
O que sabe ser cruel
O que vê perspícuo e melhor
As almas quando odeia.
Quero o corte exato e preciso
Pra arrancar do centro, do cerne
Do fundo da carne
A minha indignação.
Quero gritar, uivar, mudar o mundo
E gerar acumular e destilar veneno
De dentro do coração.


Bruna Lombardi

O que aprendi contigo



O desencontro das tardes, uma febre
de profecia, a sede de sal dos lábios
sequiosos, a ferida tranquila de um espinho
de rosa, o amor que acontece, as águas da noite
quando os rios se calam, o olhar vigilante
de uma lua sem céu.

Às vezes, ouvia-te no corredor
sem fim, como se os passos da sombra
pudessem ecoar na minha cabeça; e
abria-te a porta, para que uma ausência
branca entrasse no quarto em que te
esperava, para um sempre que nunca foi.

E sentavas-te na cadeira do fundo,
atrás de mim, pedindo-me que te olhasse
no espelho obscuro da memória. Mas
não me voltei, para não ver o lugar vazio
que deixaste na casa solitária do inverno,
sob o véu nupcial que as aranhas teceram.


Nuno Júdice

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Noite

A noite é essa escuridão tão envolvente,
que parece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros e de nós.
Apenas respiramos.
Podem cortar esse ultimo fio
- e o tear que somos se imobiliza.

A noite esconde a terra, o céu, a casa,
os vossos rostos.

Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?

Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.

Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.

O dia é um bailarino com sinos e espelhos.
Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.


Cecilia Meireles

"... adoro ver seus olhos de rapariga rondando a enfermaria: eu, o relógio, a televidão, o celular, eu, a cama do tetraplégico, o soro, a sonda, o velho do Alzheimer, o celular, a televisão, eu, o relógio de novo, e não deu nem um minuto. Também acho uma delícia quando você esquece os olhos emcima dos meus, para pensar no galã da novela, nas mensagens do celular, na menstruação atrasada."


Chico Buarque, Leite derramado


Uma mulher espera por mim
Uma mulher espera por mim, nela tudo se contém, não falta nada,
No entanto faltaria tudo se lhe faltasse o sexo ou a humidade do homem certo.
Tudo se contém no sexo, corpos, almas,
Significados, provas, purezas, delicadezas, proclamações, efeitos,
Ordens, canções, higidez, orgulho, o mistério materno, o leite seminal,
As esperanças todas, bens, outorgas, todas as paixões, belezas, amores,
os deleites da terra,
Todos os governos, juizes, deuses, o cortejo de pessoas da terra,
Tudo se contém no sexo como partes de si e justificações de si.
Sem pejo o homem de quem gosto sabe e confessa as delicias do sexo,
Sem pejo a mulher de quem eu gosto sabe e confessa as do sexo dela.
Pois eu me afasto das mulheres insensíveis,
Para ficar com a que espera por mim, e com as mulheres de sangue
quente que me satisfazem,xxx
Eu vejo que elas me compreendem e não me repudiam,
Vejo que são dignas de mim e eu serei delas o marido vigoroso.
Essas mulheres não são em nada inferiores a mim,
Têm o rosto tisnado pelo brilho dos sóis e pelo sopro dos ventos,
Há na carne delas, antigas e divinas, agilidade, força,
Elas sabem nadar, remar, montar, lutar, atirar, correr, bater,
recuar, avançar, resistir, defender-se sozinhas,
São supremas por direito próprio - são calmas, límpidas, donas de si mesmas.
Puxo vocês para junto de mim, mulheres,
Não as posso deixar ir. vou lhes fazer bem
Existo para vocês e vocês para mim, 
não apenas para o nosso bem,mas para o bem dos outros,
Envoltos em você dormem grandes heróis e bardos,
Eles se recusam a acordar pelo toque de outro homem que não eu.
Sou eu, mulheres, abro o meu caminho,
Sou severo, cáustico, indissuadível, mas amo vocês,
Não as machuco mais que o necessário a vocês mesmas,
Derramo a substância geradora de filhos e filhas dignos destes
Estados, assedio com músculo pausado e rude,
Me firmo eficazmente, não dou ouvido a rogos,
Não ouso retirar-me sem depositar o que há de muito acumulei dentro de mim.
Através de vocês eu dreno os rios enclausurados de mim mesmo
Em vocês concentro mil anos de futuro,
Em vocês faço enxerto dos tão amados por mim e pela América,
As gotas que em vocês destilo farão medrar moças atléticas e ardentes, novosartistas, músicos, cantores,
As crianças que em vocês procrio vão procriar, por sua vez, outras crianças,
Exigirei, dos meus dispêndios amorosos, homens e mulheres perfeitos,
Eles irão se interpenetrar, espero, como eu e você agora nos interpenetramos,
Contarei com os frutos dos generosos aguaceiros deles como conto
com os frutos dos aguaceiros que ora entorno.
Vou ficar à espera das ternas colheitas do nascimento, vida, morte, imortalidade
Que tão amorosamente planto agora.


Walt Whitman

Aurorava. O sol dava às cinco. As sombras neblinubladas, iam espertando na ensonação geral.No topo das árvores, frutificavam os pássaros. Toda madrugada confirma: nada, neste mundo, acontece num súbito. A claridade já muito espontava como lagarta luzinhenta roendo o miolo da escuridão. As criaturas se vão recortando sob o fundo da inexistência. Neste tempo uterino o mundo é interino. O céu se vai azulando,permeolhável. Abril: sim, deve ser demasiado abril. Agora, que a aurora já entrou neste escrito, entremos no assunto.


Mia Couto

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A dança e a alma

fotografia de Karen Rexrode


A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração , num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança - não vento nos ramos:
seiva, força, perene  estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.


Carlos Drummond de Andrade

XXXI - O guardador de rebanhos



Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios…
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos…
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
O Guardador de Rebanhos

Se tivesse mandado uma palavra: -"espera!"
Sem mais nada, nem mesmo explicar até quando,
eu teria ficado até hoje esperando...
- era a eterna ilusão de que fosses sincera...

Que importa a vida, o Sol, a primavera,
se eras a vida, o Sol, a flor desabrochando?
Se tivesses mandado uma palavra: -"espera!"
eu teria ficado até hoje esperando...

Não mandaste, tu nada disseste, e eu segui
sem saber que fazer da vida que era tua
procurando com o mundo esquecer-me de ti...

E afinal o destino, irônico e mordaz,
ontem, fez-me cruzar com o teu olhar na rua,
ouvir dizer-te: -"espera!..." E ser tarde demais...


J.G.de Araújo Jorge

Salvação


SALVACIÓN

Se fuga la isla
Y la muchacha vuelve a escalar el viento
y a descubrir la muerte del pájaro profeta
Ahora
es el fuego sometido
Ahora
es la carne
la hoja
la piedra
perdidos en la fuente del tormento
como el navegante en el horror de la civilación
que purifica la caída de la noche
Ahora
la muchacha halla la máscara del infinito
y rompe el muro de la poesía.


Salvação

Se a ilha escapa
e a moça volta a escalar o vento
e a descobrir a morte do pássaro profeta
Agora
é o fogo submetido
Agora
é a carne
a folha
a pedra
perdidos na fonte do tormento
como o navegante no horror da civilização
que purifica a caída da noite
Agora
a moça descobre a máscara do infinito
e rompe o muro da poesia


Alejandra Pizarnik
Trad.  Ana Maria Ramiro

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Encontrei-te. Era o mês...



Encontrei-te. Era o mês... Que importa o mês? Agosto,
Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março,
Brilhasse o luar, que importa? ou fosse o sol já posto,
No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.

Que saudades de amor na aurora do teu rosto,
Que horizonte de fé no olhar tranqüilo e garço!
Nunca mais me lembrei se era no mês de agosto,
Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março.

Encontrei-te. Depois... depois tudo se some:
Desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e poeira...
Era o dia... Que importa o dia, um simples nome?

Ou sábado sem luz, domingo sem conforto,
Segunda, terça ou quarta ou quinta ou sexta-feira



Alphonsus de Guimaraens

Seio Virgem



O que eu sonho noite e dia,
O que me dá poesia
E me torna a vida bela,
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
E' o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara, o cetim
Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios,
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios!

Quando os vejo, de paixão
Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter...
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!

Minhas ternuras, donzela,
Votei-as à forma bela
Daqueles frutos de neve...
Aí duas cândidas flores
Que o pressentir dos amores
Faz palpitarem de leve.

Mimosos seios, mimosos,
Que dizem voluptuosos:
"Amai-nos, poetas, amai!
"Que misteriosas venturas
"Dormem nessas rosas puras
E se acordarão num ai!"

Que lírio, que nívea rosa,
Ou camélia cetinosa
Tem uma brancura assim?
Que flor da terra ou do céu,
Que valha do seio teu
Esse morango ou rubim?

Quantos encantos sonhados
Sinto estremecer velados
Por teu cândido vestido!
Sem ver teu seio, donzela,
Suas delícias revela
O poeta embevecido!

Donzela, feliz do amante
Que teu seio palpitante
Seio d'esposa fizer!
Que dessa forma tão pura
Fizer com mais formosura
Seio de bela mulher!

Feliz de mim... porém não!...
Repouse teu coração
Da pureza no rosal!
Tenho eu no peito uma aroma
Que valha a rosa que assoma
No teu seio virginal?...


Álvares de Azevedo

Espera



Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Ofício de Amar

(fotografia de Sofia Maurício)


já não necessito de ti
tenho a companhia noturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nomadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo 


Al Berto

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Love story



Su nombre era Margoth, llevaba boina azul
y en su pecho colgaba una cruz.
Canta Leo Marini con don Américo y sus Caribes
Digamos que es lindo tener penas de amor
y disfrazar la noche con la llorosa nostalgia del bolero:
sin ti es inútil vivir
como inútil será
el quererte olvidar:
digamos que la violeta entre el libro,
el retrato, acaso una carta donde volcamos toda nuestra falta de vergüenza
(¿sabe usted lo que es ir desnudo por la calle?)
quieren decir que sin un amor la vida no se llama vida.
Digamos todo esto:
que la soledad, que la nostalgia, que el ayer que vivimos,
son apenas esta noche que no te veo mirándome a los ojos.
Digamos de la guitarra que lo dice todo:
la penumbra, el beso tímido,
el insomnio deshojando margaritas,
la pobre y estúpida pena de amor, digamos,
en fin, digamos
que todo esto es apenas la certeza
de que alguna vez fuimos felices.


Dario Jaramillo Agudelo

Premier jour





Des draps blancs dans une armoire 
Des draps rouges dans un lit 
Un enfant dans sa mère 
Sa mère dans les douleurs 
Le père dans le couloir 
Le couloir dans la maison 
La maison dans la ville 
La ville dans la nuit 
La mort dans un cri 
Et l'enfant dans la vie.


Jacques Prévert