segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Jacqueline Susann, o Vale das Bonecas



Você terá que escalar o Monte Everest para alcançar o Vale das Bonecas. A escalada é brutal e poucas pessoas viram esse pico. Você jamais soube o que exatamente encontraria lá, mas a última coisa que esperaria era o Vale das Bonecas. Você fica ali parado, esperando pela felicidade que esperava sentir – mas ela não vem. Você está muito longe para ouvir os aplausos e para agradecê-los. E não há mais para onde subir. Você está sozinho e esse sentimento é mais forte que tudo. O ar é tão rarefeito que fica quase impossível respirar. Você conseguiu e o mundo o chama de herói. Foi mais divertido, porém, no começo da escalada,, quando havia apenas a esperança e o sonho de realizá-la. Tudo o que você podia ver então era o cume da montanha, ninguém que informasse sobre o Vale das Bonecas. Quando você alcança o píncaro tudo é diferente. A jornada o deixou arrasado, surdo, cego e cansado demais para que possa apreciar a vitória. Anne Welles nunca pretendeu fazer a escalada. Ainda assim, deu o primeiro passo no dia em que olhou à sua volta e disse: - Não, isso não me basta. Quero alguma coisa mais. – quando encontrou Lyon Burke era muito tarde para voltar atrás.

********

Fazia um calor de 40 graus no dia em que Anne chegou. Nova Iorque ardia – era um animal de concreto apanhado por uma onda de calor fora da estação. Ela, porém, não se incomodava com o calor nem com a confusão de uma praça chamada Times Square. Achava Nova Iorque a cidade mais excitante do mundo...


Jacqueline Susann, o Vale das Bonecas

João e Maria


Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

Composição: Chico Buarque/ Sivuca

Silêncio


Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

A tentação


Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:

“ Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz”.

Murilo Mendes

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O grande momento

by  Marta Bucher

A varanda era batida pelos ventos do mar
As árvores tinham flores que desciam para a
morte, com a lentidão das lágrimas.
Veleiros seguiam para crepúsculos com as
asas cansadas e brancas se despedindo,
O tempo fugia com uma doçura jamais de
novo experimentada
Mas o grande momento era quando os meus
olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus olhos...


Augusto Frederico Schmidt

Fuga

by Elena Dudina
 
A mulher que vive no poço emprestou-me
o seu corpo noturno no espelho do sonho. Tem
os traços pálidos da água negra, e os olhos
transparentes de uma ausência de luz.
As suas mãos são frias quando as toco;
e os cabelos derramam-se pelo peito,
escondendo os ombros onde murcharam
as flores da manhã. A sua voz, porém,
tem a frescura de um desejo de sol;
e o seu rosto liberta-se da solidão
dos abismos, com a dureza do âmbar
que dá cor aos seus lábios.


Nuno Júdice

Milágrimas

by  Lara Guimarães


Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

Alice Ruiz

Poema

by Adri Berger

Esperamos assim. Por esperança, a espera
vai-se tornando sonho afável; mas descubro
no olhar que te procura uma névoa de orvalho.
Qualquer palavra que te diga é sem sentido.

Eu estou sonhando, eu nada escuto, eu nada alcanço.
Quem me vê não me vê, que estou fora do mundo.
Lá, constante presença em memória guardada,
percebo a tua essência – e não sei nem teu nome.

E à tentação de tantas máscaras felizes
Há mil rostos na terra: e agora não consigo
Recordar um sequer. Onde estás? Inventei-te?
Só vejo o que não vejo e que não sei se existe.
se opõe meu leal, nítido sangue.


Cecília Meireles.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A outra

kozdra baczulis

Amamos sempre no que temos
O que não temos quando amamos.
O barco pára, largo os remos
E, um a outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos?
À Outra.

Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora e minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De quem é a boca?
Da Outra.

Os remos já caíram na água,
O barco faz o que a água quer.
Meus braços vingam minha mágoa
No abraço que enfim podem ter.
Quem abraço?
A Outra.

Bem sei, és bela, és quem desejei…
Não deixe a vida que eu deseje
Mais que o que pode ser teu beijo
E poder ser eu que te beije.
Beijo, e em quem penso?
Na Outra.

Os remos vão perdidos já,
O barco vai não sei para onde.
Que fresco o teu sorriso está,
Ah, meu amor, e o que ele esconde!
Que é do sorriso
Da Outra?

Ah, talvez, mortos ambos nós,
Num outro rio sem lugar
Em outro barco outra vez sós
Possamos nos recomeçar
Que talvez sejas
A Outra.

Mas não, nem onde essa paisagem
É sob eterna luz eterna
Te acharei mais que alguém na viagem
Que amei com ansiedade terna
Por ser parecida
Com a Outra.

Ah, por ora, idos remo e rumo,
Dá-me as mãos, a boca, o ter ser.
Façamos desta hora um resumo
Do que não poderemos ter.
Nesta hora, a única,
Sê a Outra.


Fernando Pessoa

Balada aos teus encantos

by  MarinaAn

Há no teu corpo coleios
de serpente pelo chão...
Quem sabe, pois, se os teus seios
são serpentes enroscadas,
em sensuais emboscadas,
- escondidos como estão?

São tão belos os teus seios,
redondos, vivos e cheios,
cheios, como luas cheias
e brancos como as areias,
- irrequietos como o mar...
As vezes, quando te agitas,
palpitam trêmulos no ar,
- são duas aves aflitas
presas de ânsias infinitas
mas que não podem voar...

São duas aves esquivas
irrequietas e lascivas
que quando escapam do ninho
erguem seus bicos ao céu;
- aves sem asas, cativas,
em posições agressivas
crescendo em tua nudez,
- nos bicos cor de uva e mel
têm duas gotas de vinho,
de um doce vinho, de um vinho
de uma infinita embriaguez.

Sentinelas avançadas
de tuas formas ousadas,
não se rendem com certeza
guardando a tua beleza,
e embora caia o teu corpo
e entregues tua alma até,
- teus seios, esses teus seios,
redondos, belos e cheios,
erguem-se mais, sem receios!
- ainda estão vivos, de pé!

Quando se atiram no ataque
enfrento-os com o meu desejo!
- não há forca que os aplaque,
não há carícia, nem beijo,
se os tento em vão dominar...
Que eles assim me entontecem:
- sou como o vento! E eles crescem:
- são como as ondas do mar!

Roubaste ao mar duas ondas
são duas ondas redondas.
que ostentam pérolas raras,
pérolas cor de cereja
que o meu desejo deseja
no teu corpo de águas claras...

- são duas ondas redondas
que espraiam contra o meu peito
quando em teu corpo perfeito
- no oceano - que é o nosso leito,
sou como um barco no mar...

Roubaste ao mar duas ondas
são duas ondas redondas
onde me vou naufragar...


J.G. de Araújo Jorge

Flores sem nome

by  Isabel Gomes da Silva


Estou amando essas flores, sem lhes saber o nome.
Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como aprendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo poema, certa forma,
como certas pessoas que por mim passam
- inalcançáveis -
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.


Affonso Romano de Sant'Anna

Sacrilégio

by Brita Seifert

Como a alma pura, que teu corpo encerra,
Podes, tão bela e sensual, conter?
Pura demais para viver na terra,
Bela demais para no céu viver.

Amo-te assim! - exulta, meu desejo!
É teu grande ideal que te aparece,
Oferecendo loucamente o beijo,
E castamente murmurando a prece!

Amo-te assim, à fronte conservando
A parra e o acanto, sob o alvor do véu,
E para a terra os olhos abaixando,
E levantando os braços para o céu.

Ainda quando, abraçados, nos enleva
O amor em que me abraso e em que te abrasas,
Vejo o teu resplendor arder na treva
E ouço a palpitação das tuas asas.

Em vão sorrindo, plácidos, brilhantes,
Os céus se estendem pelo teu olhar,
E, dentro dele, os serafins errantes
Passam nos raios claros do luar:

Em vão! - descerras úmidos, e cheios
De promessas, os lábios sensuais,
E, à flor do peito, empinam-se-te os seios,
Ameaçadores como dois punhais.

Como é cheirosa a tua carne ardente!
Toco-a, e sinto-a ofegar, ansiosa e louca.
Beijo-a, aspiro-a... Mas sinto, de repente,
As mãos geladas e gelada a boca:

Parece que uma santa imaculada
Desce do altar pela primeira vez,
E pela vez primeira profanada
Tem por olhos humanos a nudez...

Embora! hei de adorar-te nesta vida,
Já que, fraco demais para perdê-la,
Não posso um dia, deusa foragida,
Ir amar-te no seio de uma estrela.

Beija-me! Ficarei purificado
Com o que de puro no teu beijo houver;
Ficarei anjo, tendo-te ao meu lado:
Tu, ao meu lado, ficarás mulher.

Que me fulmine o horror desta impiedade!
Serás minha! Sacrílego e profano,
Hei de manchar a tua castidade
E dar-te aos lábios um gemido humano!

E à sombria mudez do santuário
Preferirás o cálido fulgor
De um cantinho da terra, solitário,
Iluminado pelo meu amor...


Olavo Bilac

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Tenho frio e ardo em febre

by Brita Seifert

Tenho frio e ardo em febre!
O amor me acalma e endouda! O amor me eleva e abate!
Quem há que os laços, que me prendem, quebre?
Que singular, que desigual combate!


Não sei que ervada flecha
Mão certeira e falaz me cravou com tal jeito,
Que, sem que eu a sentisse, a estreita brecha
Abriu, por onde o amor entrou meu peito.

O amor me entrou tão cauto
O incauto coração, que eu nem cuidei que estava,
Ao recebê-lo, recebendo o arauto
Desta loucura desvairada e brava.

Entrou. E, apenas dentro,
Deu-me a calma do céu e a agitação do inferno...
E hoje... ai de mim!, que dentro em mim concentro
Dores e gostos num lutar eterno!

O amor, Senhora, vede:
Prendeu-me. Em vão me estorço, e me debato, e grito;
Em vão me agito na apertada rede...
Mais me embaraço quanto mais me agito!

Falta-me o senso: a esmo,
Como um cego, a tatear, busco nem sei que porto:
E ando tão diferente de mim mesmo,
Que nem sei se estou vivo ou se estou morto.

Sei que entre as nuvens paira
Minha fronte, e meus pés andam pisando a terra;
Sei que tudo me alegra e me desvaira,
E a paz desfruto, suportando a guerra.

E assim peno e assim vivo:
Que diverso querer! Que diversa vontade!
Se estou livre, desejo estar cativo;
Se cativo, desejo a liberdade!

E assim vivo, e assim peno:
Tenho a boca a sorrir e os olhos cheios de água;
E acho o néctar num cálix de veneno,
A chorar de prazer e a rir de mágoa.

Infinda mágoa! Infindo
Prazer! Pranto gostoso e sorrisos convulsos!
Ah! Como dói assim viver, sentindo
Asas nos ombros e grilhões nos pulsos!

Olavo Bilac

Fazer Versos

by kayleighjune

Fazer versos
Muitos nunca entenderão
o fazer versos. Acham um passatempo
e insensatez perversa.
Contemplo-os à noite, do terraço
que dá para a solidão de seus quartos.
Dormem todos. Mas há luzes acesas.
Devem ser poetas que desconheço
e me desconhecem, e alta noite reconstroem,
mudos, um diálogo de muitos,
como se nunca fossem morrer.

Os outros dormem. Dormem
imaginando, às vezes, como o artista há de ser.
O artista, apenas, arde o ser.


Affonso Romano de Sant'Anna

Por mim?

by  Bernardo Coelho

Teus negros olhos uma vez fitando
Senti que luz mais branda os acendia,
Pálida de langor, eu vi, te olhando,
Mulher do meu amor, meu serafim,
Esse amor que em teus olhos refletia...
Talvez! - era por mim?

Pendeste, suspirando, a face pura,
Morreu nos lábios teus um ai perdido...
Tão ébrio de paixão e de ventura!
Mulher de meu amor, meu serafim,
Por quem era o suspiro amortecido?
Suspiravas por mim?...

Mas... eu sei!... ai de mim? Eu vi na dança
Um olhar que em teus olhos se fitava...
Ouvi outro suspiro... d'esperança!
Mulher do meu amor, meu serafim,
Teu olhar, teu suspiro que matava...
Oh! não eram por mim.


Álvares de Azevedo

Desses scripts que a gente inventa e quer



"uma pergunta (desde sempre pululando) me assalta: é possível viver isso com alguém que não saiba sentir assim? Ou: as pessoas que não escrevem/não percebem assim o mundo e os sentimentos poderão ser astros principais desses scripts que a gente inventa e quer?" (Nálu Nogueira)
  

um medo me assalta na resposta e eu paro um pouco.
se lhe digo: não é possível / não podem
minto pra mim e pra você.

pra todos nós, pra você e pra mim,
a resposta que tenho e sinto: sim.

amamos no outro o que nos falta e nos completa?
quem quiser que pense assim.

amamos no outro o buscar da mesma meta?
menos ruim.

amamos o outro porque nele nos outramos
e ao mesmo tempo nos fundimos. nele somos.

o outro, que não sente como sentimos,
sente o que sentimos.
e não pergunta se sentimos menos
só porque não sentimos como ele.

ele sente e basta.
a gente sente e escreve.

em que o escrever sente mais do que o bastar?

pensemos: eu amo e preciso dizer,
o outro ama e não precisa falar.

: amamos o outro porque amamos.

e o outro, que nos ama, ama ouvir,
pois é como se dissesse,
esses scripts que a gente inventa e quer.


Antoniel Campos

A flor do sonho

 by Ivone Peoples


A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou, talvez, sina…

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa de minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…



Florbela Espanca

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Jack Kerouac, Viajante Solitário

“Na verdade, não sou um beat, mas sim um estranho e solitário católico, louco e místico... Planos finais: solidão eremítica nas florestas, escrever tranquilamente na velhice, vaga esperança do Paraíso (como, de resto, todo mundo)...
Queixa favorita sobre o mundo contemporâneo: o desprezo jocoso das pessoas “respeitáveis”.... que, por não levarem nada a sério, estão destruindo velhos sentimentos humanos, mais antigos do que a Time Magazine... Dave Garroways rindo-se de pombas brancas...
(...)
Viajante Solitário é uma coleção de textos publicados e inéditos conectados por um tema comum: viagens.
As viagens percorrem os Estados Unidos do sul para a costa leste, costa oeste, o noroeste distante, México, Marrocos, Paris, Londres, os oceanos Atlântico e o Pacífico a bordo de navios, e as várias pessoas e cidades interessantes encontradas nesses lugares.
Trabalhos em ferrovias, no mar, misticismo, trabalho na montanha, lascívia, solipsismo, auto-indulgência, drogas, igrejas, museus de artes, ruas urbanas, um apanhado geral da vida vivida por um vagabundo sem grana e educado de forma independente, indo a lugar algum.
Seu objetivo e propósito é simplesmente poesia, ou descrição natural.

- “O mundo pode ser louco, até que finalmente a gente possa compreender que, “oh, bem, na verdade tudo é tão repetitivo”

- “Ah, América, tão imensa, tão triste, tão negra, você é como as filhas de um verão seco que se tornaram quebradiças antes do final de agosto, você não tem conserto, todos que você vê, não há nada além da desesperança seca e soturna, o conhecimento da morte iminente, o sofrimento da vida presente, luzes natalinas não vão salvá-lo nem a ninguém, de nada adianta acender enfeites de natal em um arbusto, morto em agosto à noite, e lhe dar o aspecto de outra coisa qualquer, que espécie de Natal é esse que você celebra no vazio?... nessa nuvem nebulosa?”


-" O próximo touro! – Primeiro os velhos garotos juntam o sangue com pás, jogam em um carrinho de mão e saem de cena. O alisador da arena retorna calmamente com seu ancinho. – 'Olé', garotas jogam flores para o assassino de animais de colete bordado. E eu vi como todo mundo morre e ninguém vai se importar, senti como é horrível viver apenas para morrer, como um touro encurralado em uma arena humana estridente.


Jack Kerouac, Viajante Solitário
by  Luis Carlos de Carvalho

Recordarás aquela quebrada caprichosa
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.

Recordarás os dons da terra:
irascível fragrância,barro de ouro,
ervas do mato ,loucas raízes,
sorrílegos espinhos como espadas

Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.

E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não espera nada
e achamos tudo o que está esperando.

Pablo Neruda



E isenta ficarei dos antigos amados
Que, pela Lua cheia, em rápidas sortidas
Ainda vêm me atirar flechas envenenadas
Para depois beber-me o sangue das feridas.

E assim serei intacta, e assim serei tranqüila
E assim não sofrerei da angústia de revê-los
Quando, tristes e fiéis como lobos no cio
Se puserem a rondar meu castelo de estrelas.

Farta de saber ler, saberei ver nos astros
A brilharam no azul da abóboda no Oriente
E beijarei a terra , a caminhar de rastros
Quando a Lua no céu contar teu rosto ausente.

Eu te protegerei contra o Íncubo
Que te espreita por trás da Aurora acorrentada
E contra a legião dos monstros de Poente
Que te querem matar, ó impossível amado!



Vinícius de Moraes

Reflexo

by  Miguel Avataneo

Sem nada para fazer, olha-se no espelho
do quadro, procurando uma resposta. Ou
será o contrário, sendo ela uma projeção
da sua própria imagem? No fundo, é o movimento
do olhar que vai de uma para outra que
impede uma certeza: se é no horizonte do quadro, de cuja
perspectiva ela faz parte, que se encontra a realidade,
ou se é no pensamento da mulher
que vê o seu reflexo que o mundo se descobre,
para que ambas se reconheçam a mesma? Olho-as:
e também eu não sei a que espaço pertenço,
quando a janela está aberta, e a luz que entra
me empurra para fora, onde uma primavera
é possível. Elas, no entanto, não querem saber
disto; e é como se a mulher que se ajoelha,
na cadeira, esperasse o milagre que a faça
sair do quadro, e avançar pelo dia,
como a luz avança pela sala onde nada acontece,
a não ser este olhar que as prende uma
à outra, e me deixa de fora.


 Nuno Júdice

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Arte by Elena Dudina

camaleones

El_gatito

Manos_tiernas

A Pátria


Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...
Quem com seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!


Olavo Bilac

Soneto antigo

by Miguel Avataneo 
 
Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.


Cecília Meireles
by Alejandro Rosemberg

Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cômoda, num espelho mais antigo,
a tarde refletia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.



Maria do Rosário Pedreira

sábado, 19 de fevereiro de 2011


"The word god is for me nothing more than the expression and product of human weaknesses, the Bible a collection of honourable, but still primitive legends which are nevertheless pretty childish. No interpretation no matter how subtle can (for me) change this. … For me the Jewish religion like all others is an incarnation of the most childish superstitions. And the Jewish people to whom I gladly belong and with whose mentality I have a deep affinity have no different quality for me than all other people. As far as my experience goes, they are no better than other human groups, although they are protected from the worst cancers by a lack of power. Otherwise I cannot see anything 'chosen' about them."

***
The most beautiful experience we can have is the mysterious. It is the fundamental emotion that stands at the cradle of true art and true science. Whoever does not know it and can no longer wonder, no longer marvel, is as good as dead, and his eyes are dimmed. It was the experience of mystery — even if mixed with fear — that engendered religion. A knowledge of the existence of something we cannot penetrate, our perceptions of the profoundest reason and the most radiant beauty, which only in their most primitive forms are accessible to our minds: it is this knowledge and this emotion that constitute true religiosity. In this sense, and only this sense, I am a deeply religious man.


Albert Einstein

Flor da mocidade

by Sergey Ryzhkov

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.

Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.

Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.


Machado de Assis
by Alexander Marchenko

Bati com o pé no deserto
e não nasceu uma fonte…
Toquei numa rocha
e não se cobriu de açucenas…
Beijei uma árvore
e o enforcado não ressuscitou…
Amaldiçoei a paisagem
e não secaram as raízes…

Digam-me lá: para que diabo serve ser poeta?
(Os santos são mais felizes.)



José Gomes Ferreira

Explicação

by  Anzhelina Nadyezda

O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
e alguém mata os personagens.)


Cecília Meireles

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Me encontro



 Em nenhum dos lados,
nem sob, nem sobre,
mas entre.

No mínimo imaginado
e em cada folículo
dos teus pêlos.

Nos meridianos dos cabelos,
no Equador do teu pescoço,
nos sulcos digitais das mãos e dedos,
na derme e epiderme do teu dorso
eu me encontro.

Eu me encontro em cada gota exsudada.
No teu sangue,
nas tuas vísceras,
nas tuas tripas,
na tua baba.

Em cada gesto contorcido do teu gozo,
onde te emprenho
e, fecundando-te de mim,
me encontro assim
e não mais me tenho.

Esporo de mim mesmo no teu ventre germinado,
absorvendo-te o cálcio,
carbono do teu carbono,
no líquido amniótico naufragado.

Ora pai, ora rebento,
osmoso-me de ti, me desplacento
e qual fêmea parida,
vou lambendo-te por cria
e a própria cria sendo.

Em cada som do teu espectro
e nas cores dos teus gritos e silêncios.

Na lágrima de todos os motivos
e em todos os motivos de tua vestimenta
eu me encontro.

Na tua saia,
no teu seio,
no teu cio.

E quando grito ou silencio inda me encontro
aos escombros, por inteiro,
janeiro após janeiro,
no abraço onde seguro o teu ombro
com meu queixo,
me encontro e não te deixo.

Na fala altissonante dos papiros,
em que deixei meus versos mais sagrados,
embalados
na paz do cantochão dos teus suspiros.

em ti todo me encontro.


Antoniel Campos

Autopsicografia

by Elena Dudina

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.



Fernando Pessoa

Elegia



As árvores em flor, todas curvadas,
Enfeitarão o chão que vais pisar.
E a passarada cantará contente
Bem lindos cantos só em teu louvor.

A natureza se fará toda carinho
Para te receber, meu grande amor.

Virás de tarde, numa tarde linda –
Tarde aromal de primavera santa.
Virás na hora em que o sino ao longe
Anuncia tristonho o fim do dia.

Eu estarei saudoso à tua espera
E me perguntarás, pasma, sorrindo:
Como eu pude adivinhar quando chegavas,
Se era surpresa, se de nada me avisaste?

Ah, meu amor! Foi o vento que trouxe o teu perfume
E foi esta inquietação, esta mansa alegria
Que tomou meu solitário coração ...


Augusto Frederico Schmidt
Tinham um olhar dentro, de quem olha fixo e sacode a cabeça, acenando como se numa penetração entrassem fundo demais, concordando, refletidas. Olhavam fixo, pupilas perdidas na extensão amarelada das órbitas, e concordavam mudas. A sabedoria humilhante de quem percebe coisas apenas suspeitas pelos outros. Jamais saberíamos das conclusões a que chegavam, mas oblíquos olhávamos em tomo numa desconfiança que só findava com algum gesto ou palavra.
Nem sempre oportunos. O fato é que tínhamos medo, ou quem sabe alguma espécie de respeito grande, de quem se vê menor frente a outros seres mais fortes e inexplicáveis. Medo por carência de outra palavra para. melhor definir o sentimento escorregadio na gente, de leve escapando para um canto da consciência de onde, ressabiado, espreitaria. E enveredávamos então pelo caminho do fácil, tentando suavizar o que não era suave. Recusando-lhes o mistério, recusávamos o nosso próprio medo e as encarávamos rotulando-as sem problema como "irracionais", relegando-as ao mundo bruto a que deviam forçosamente pertencer. O mundo de dentro do qual não podiam atrever-se a desafiar-nos com o conhecimento de algo ignorado por nós. Pois orgulhos, não admitiríamos que vissem ou sentissem além de seus limites. Condicionadas a seus corpos atarracados, de penas cinzentas e três garras quase ridículas na agressividade forçada -condicionadas à sua precariedade, elas não poderiam ter mais do que lhe seria permitido por nós, humanos.


Caio Fernando Abreu

Aldous Huxley, As Portas da Percepção

Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscedência; debalde. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.
Muitos desses universos são suficientemente semelhantes, uns aos outros, para permitir entre eles uma compreensão por dedução, ou mesmo por mútua projeção de percepção. Assim, recordando nossos próprios infortúnios e humilhações podemos nos condoer de outras pessoas em circunstâncias análogas; somos até capazes de nos pormos em seu lugar (sempre, evidentemente, em sentido figurado). Mas em certos casos a ligação entre esses universos é incompleta, ou mesmo inexistente. A mente é o seu campo, porém os lugares ocupados pelo insano e pelo gênio são tão diferentes daqueles onde vivem o homem e a mulher comuns que há pouco ou nenhum ponto de contato na memória de cada um para servir de base à compreensão ou a ligação entre eles. Falam, mas não se entendem. As coisas e fatos que símbolos se referem pertencem a reinos de experiências que se excluem mutuamente.
(...)
Sou e, até onde minha memória alcança, sempre fui pouco dado a devaneios. As palavras, mesmo as mais evocativas, empregadas pelos poetas, não conseguem produzir imagens em minha mente. Não vêm ao meu encontro visões hipnagógicas no limiar do sono. Quando me lembro de algo, a memória não se me apresenta como um fato ou objeto vivido. Por um esforço da vontade, consigo evocar uma imagem não muito vivida do que aconteceu na tarde da véspera, de como era o Lungarno antes de as pontes terem sido destruídas ou da estrada de Bayswater quando os poucos ônibus eram verdes e pequeninos, puxados por velhos cavalos a uns seis quilômetros por hora. Mas essas imagens terão pouca substância, e de forma alguma poderão ter vida própria. Guardam, para os objetos reais, a mesma proporção que os fantasmas homéricos apresentam com relação aos homens de carne e osso que vão visitá-los nas sombras. Só quando tenho febre alta é que minhas imagens mentais adquirem vida independente. Para aqueles cuja imaginação é fértil, meu mundo interior terá de parecer curiosamente monótono, limitado e desinteressante. Este era o mundo — um pobre mundo, porém meu — que eu esperava ver transformado em algo inteiramente diferente de si mesmo.


Aldous Huxley, As Portas da Percepção

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011


by Anzhelina Nadyezda

Tu, amada,
tu antecipadamente perdida, tu que jamais chegaste,
não sei que notas te são mais queridas.
Não mais tento, sob a agitação do que vem surgindo,
reconhecer-te. Em mim todas
as grandes imagens, as paisagens remotas,
cidades e torres e pontes e im-
previstos desvios dos caminhos
e a violência destas terras
divididas outrora com deuses:
em mim tudo cresce contigo,
com tua fugidia lembrança.

Ah, tu és os jardins,
jardins que fitei com tamanha
esperança. Uma janela aberta
na casa de campo — e pensativa
quase te voltas pra mim. Becos encontrei —
tinhas acabado de os percorrer,
e muitas vezes as vitrines dos comerciantes,
ainda embaralhadas contigo, espelharam de volta,
assustadas, minha tão súbita imagem. — Quem sabe
se o mesmo pássaro não ressoou através de nós, ontem,
um por um, no anoitecer?


Rainer Maria Rilke
(tradução: Gabriel Dirma de A. Leitão)

Uma sombra que se ilumina

by  Michael Cohen

Um cair de cabelos nos teus ombros,
um suspiro preso à lembrança que
ficou, um brilho que se demora nos
olhos à janela, um eco que não passa
na memória de um murmúrio, o
abraço em que o tempo se suspende,
a voz que dança por entre ruídos e
silêncio, as mãos que não se libertam
num gesto de despedida, lábios que
outros lábios procuram, uma luz
que alastra na sombra que desce,
e uma sombra que se ilumina quando
a noite já cresce: tu, sonho que
faz real a realidade com que te sonho.


Nuno Júdice
by  Karen Rexrode

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.


Clarice Lispector

Crepúsculo dos Ídolos


Há mais ídolos do que realidades no mundo: este é o meu "mau olhado" em relação a esse mundo, bem como meu "mau ouvido"... Há que se colocar aqui ao menos uma vez questões com o martelo, e, talvez, escutar como resposta aquele célebre som oco, que fala de vísceras intumescidas - que encanto para aquele que possui orelhas por detrás das orelhas! - para mim, velho psicólogo e caçador de ratos que precisa fazer falar em voz alta exatamente o que gostaria de permanecer em silêncio...
Também este escrito - o título o denuncia - é antes de tudo um repouso, um feixe de luz solar, uma escorregadela para o seio do ócio de um psicólogo. Talvez mesmo uma nova guerra? E novos ídolos são auscultados?... Este pequeno escrito é uma grande declaração de guerra; e no que concerne à ausculta dos ídolos, é importante ressaltar que os que estão em jogo, os que são aqui tocados com o martelo como com um diapasão, não são os ídolos em voga, mas os eternos; - em última análise, não há de forma alguma ídolos mais antigos, mais convencidos, mais insuflados... Também não há de forma alguma ídolos mais ocos... Isto não impede, que eles sejam aqueles em que mais se acredita; diz-se também, sobretudo no caso mais nobre, : que eles não são de modo algum ídolos...


De uma vez por todas, não quero saber muitas coisas. - A sabedoria também traz consigo os limites do conhecimento.
*


É em nossa natureza selvagem que melhor nos restabelecemos de nosso movimento antinatural, de nossa espiritualidade...
*

Como? O homem é apenas um erro de Deus? Ou Deus apenas um erro do homem? – Ajuda-te a ti mesmo: assim todos te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.
*

Que não se venha a cometer nenhuma covardia contra as próprias ações! Que não as abandonemos
em seguida! O remorso é indecente.
*
O homem criou a mulher. A partir de que porém? De uma costela de seu Deus - de seu "Ideal"...
*
O quê? Tu procuras? Tu gostarias de te decuplicar, de te centuplicar? Tu procuras adeptos? -
Procuras zeros! -
*
Os homens póstumos - eu, por exemplo - são pior compreendidos do que os homens ligados ao seu
próprio tempo, mas melhor ouvidos. Mais exatamente: nunca somos compreendidos e é daí que provém
nossa autoridade...
*

Como? Vós escolhesses a virtude e o peito estufado, mas olhais ao mesmo tempo invejosamente
para as vantagens dos inescrupulosos? Com a virtude renuncia-se contudo às "vantagens"... (escrito na
porta da casa de um anti-semita.)
*

"Homens maus não possuem canções".
*

Há um ódio à mentira e à dissimulação que nasce de uma apreensão sensível da honra. Há um ódio
exatamente como esse que nasce da covardia, visto que a mentira é proibida por um mandamento
divino. Covarde demais para mentir...
*

Quão poucas coisas são necessárias para a felicidade! O som de uma gaita. - Sem música a vida seria
um erro. O alemão imagina Deus cantando canções.
*
Se nós imoralistas fazemos mal à virtude? Tão pouco quanto os anarquistas fazem mal aos príncipes.
Somente depois de lhes ter alvejado é que estes se sentam firmemente em seus tronos. Moral: é preciso
alvejar a moral.
*
Tu és alguém que observa? Ou que coloca as mãos à obra? - Ou que desvia o olhar e se põe de
lado?...
*
Tu queres acompanhar? Ou ir à frente? Ou ir por sua própria conta?... É preciso saber o que se quer
e que se quer.
*
Estes eram degraus para mim. Servi-me deles para subir e precisei então passar por cima deles. Mas
eles pensavam que queria aquietar-me sobre eles...
*
O que importa que eu tenha razão?! Eu tenho por demais razão. E quem hoje ri melhor também ri
por último.
*
A fórmula de minha felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta...


Friedrich Nietzsche, O Crepúsculo dos Ídolos

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Timidez

 Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve ...

-mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundo vão navegando,
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.



Cecília Meireles



Por ti junto a los jardines recién florecidos me duelen
los perfumes de primavera.

He olvidado tu rostro, no recuerdo tus manos,
¿cómo besaban tus labios?

Por ti amo las blancas estatuas dormidas en los parques,
las blancas estatuas que no tienen voz ni mirada.

He olvidado tu voz, tu voz alegre.
He olvidado tus ojos.

Como una flor a su perfume, estoy atado a tu recuerdo impreciso.
Estoy cerca del dolor como una herida, si me tocas me dañarás irremediablemente.

Tus caricias me envuelven como las enredaderas a los muros sombríos.
He olvidado tu amor y sin embargo te adivino detrás de todas las ventanas.

Por ti me duelen los pesados perfumes del estío:
Por ti vuelvo a acechar los ginos que precipitan los deseos,
las estrellas en fuga, los objetos que caen.

Pablo Neruda

***



Por ti, junto dos jardins recém-florescidos afligem-me os perfumes da Primavera.
Esqueci o teu rosto, não recordo as tuas mãos, como beijavam os teus lábios?
Por ti, amo as alvas estátuas adormecidas nos parques que não têm voz nem olhos.
Esqueci a tua voz alegre, esqueci os teus olhos.
Como uma flor ao seu perfume, estou ligado à tua recordação imprecisa.
Estou perto da dor como uma ferida, se me tocares, magoar-me-ás irremediavelmente.
Envolvem-me as tuas carícias como trepadeiras às paredes sombrias.
Esqueci o teu amor e, não obstante, adivinho-te por detrás de todas as janelas.
Por ti, afligem-me os pesados perfumes do Estio: por ti,
torno a vislumbrar os sinais que precipitam os desejos,
as estrelas em fuga, os objetos que caem.



Pablo Neruda