quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Transfiguração

imagem: andriete-le-secq

Tens agora outro rosto, outra beleza:
Um rosto que é preciso imaginar,
E uma beleza mais furtiva ainda...
Assim te modelaram caprichosas,
Mãos irreais que tornam irreal
O barro que nos foge da retina.
Barro que em ti passou de luz carnal
A bruma feminina...
Mas nesse novo encanto
Te conjuro
Que permaneças.
Distante e preservada na distância.
Olímpica recusa, disfarçada
De terrena promessa
Feita aos olhos tentados e descrentes.
Nenhum mito regressa....
Todas as deusas são mulheres ausentes...


Miguel Torga

pede-me a lua agora que o outono nos adormece.
Pede-me a constelação que ela faz com o teu sorriso.

eu sei onde buscar esse poema.
eu sei onde arder esse sonho.

mas move-te até mim e encontra-me
entre as tuas pedras. entre as tuas mãos

tira-me do silêncio.
toma-me a mão alada

diz-me se estás próxima. se me abraças.
se me abraças. Se estás próxima.

diz-me que a noite é a tua boca fechada
que me vai beijar.

E eu dou-te a lua.


Daniel Gonçalves

A mulher chorava

imagem: Sophie Delaporte

a mulher chorava
depois de tudo o que se passou.
cinco feridos graves e um morto.
nenhum deles era filho, marido
parente sequer
mas a mulher chorava
porque as mulheres choram
e nunca por fácil coisa como se pensa.
a imagem às vezes regressa
a mulher aluída nas lágrimas
caindo como a noite sobre a rua.
porque são assim as mulheres
choram como eu escrevo
por sobre muito fundas verdades
sem pedir licença a quem olha


João Ricardo Lopes

Art by Isabel F.




terça-feira, 30 de agosto de 2011



Quero um poema triste
um poema que fale dessa dor sem jeito que eu às vezes sinto

Mas tem tristeza que não quer ser fala
tristeza do tipo que cala e pede segredo
lágrima sem soluço no silêncio do próprio abraço

A dor que eu hoje sinto
é a felicidade que eu às vezes minto
é o horror cotidiano entrando pelas gretas
é o olho roxo de dentro depois das brigas em vão

O poema que eu escrevo
não se escreve por si mesmo
não me mostra seus caminhos
não me abre suas clareiras

Esse poema simplório quer só o direito de ficar calado
de se manter inescrito
como nota antes da música
filho que não nasce antes da hora

A tristeza que eu escrevo é falsa.
Triste é o poema que me cala

Maria Rezende
imagem: andriete-le-secq

Daqui a vinte anos farei teu poema
e te cantarei com tal suspiro
que as flores pasmarão, e as abelhas,
confundidas, esvairão seu mel.
Porém, a urgência da dor o impele à escrita:
Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziguezagueante, rouco,
feita da impureza do minuto
e de vozes em febre, que golpeiam
esta viola desatinada
no chão, no chão.

Carlos Drummond de Andrade

Espionagens Verbais

imagem: Lara Jade

Anda desde a manhã uma palavra
a perseguir-me, a espreitar-me de longe
em atitude nítida de pose,
em clara posição de desafio.

Sugere-se ligeira e disfarçada,
depois foge como uma Mata-Hari
lexical. Não sei o que em mim vê:
não tenho alta patente nem estatuto.

E contudo ela anda por aí.
Sonora e inaudível, surge-me
do silêncio e dos ruídos longos,
brevíssima nos cantos ― e perigosa.

Lá passou outra vez. E anda nisto
desde que me vesti e vi o sol.
Nada a faz desistir: nem a tarde
a cair, nem a minha ameaça de fuzis.

Ana Luísa Amaral

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A minha tragédia



Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida! ...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade! ...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim! ...

Florbela Espanca

Cetim

Talantbek Chekirov 

Ele não sabe que eu o amo dentro dos armários, nos dias mais esquisitos, que eu me enfeito, me serpenteio de fantasias, que eu uso pintas, plumas e anáguas, rendas escuras e visto cintas e certas meias.….. ele não sabe que eu me deslizo dentro dos tramas, baixo da cama, eu me escorrego, nem desconfia como eu me apego a essas manias.
Ele não sabe como eu me entrego.
Como que preparo, com que firulas, uma avidez de festas impossíveis, uns gostos, cânhamo, sândalo, essências, suor e uma gota de absinto, na pele um cheiro forte de tudo. E de marisco.
Ele não sabe que eu pinto a boca de vermelho, percorro todos os espelhos da casa na maior cumplicidade clandestina, e largo o corpo, lasseio as cordas, me estico,
Espreguiço, muito frouxa, mansa, transpirada, um vapor que embaça os vidros, um calor de porta fechada.
Que eu vou me encostando nas paredes, tirando pulseira, sandálias, me deixando acontecer, improvisando formas, cedendo as tentações, devagar, os pés, tapete, coxas, a umidade, pêlos, copos de vinho,olheiras.
Ele não sabe que eu o envolvo nessas imagen, o escondo nessas figuras, que eu o possuo o quanto quero, o invento e deito e rodo, malho, mordo, uivo, rio.
Ele não sabe que eu habito com essas danças na cabeça, com essas ervas na gaveta, essas folias.
Ele nem sabe do que estou falando
Entende nada dessas alegorias.


Bruna Lombardi, Gaia

Ouvidos de orvalho

Jia Lu - Departure  

Na eternidade, ninguém se julga eterno.
Aqui, nesta estada, penso que vou durar
além dos meus anos, que terei
outra chance de reaver o que não fiz.
Se perdoar é esquecer, me espera o pior:
serei esquecido quando redimido.

Não me perdoes, Deus. Não me esqueças.
O esquecimento jamais devolve seus reféns.

A claridade não se repete. A vida estala uma única vez.

O fogo é uma noz que não se quebra com as mãos.
A voz vem do fogo, que somente cresce se arremessado.
Não há como recuar depois de arder alto.
Fui lançado cedo demais às cinzas.

Somos reacionários no trajeto de volta.
Quando estava indo ao teu encontro,
arrisquei atalhos e travessas desconhecidas.
Acreditei que poderia sair pela entrada.
Ao retornar, não improviso.

Minha conversão é pelo medo,
orando de joelhos diante do revólver,
sem volver aos lados,
na dúvida se é de brinquedo ou de verdade.

O vento faz curva. Não mexo nos bolsos,
na pasta e na consciência,
nenhum gesto brusco de guitarra,
a ciência de uma mira
e o gatilho rodando próximo
do tambor dos dentes.

Derramado em Deus, junto meu desperdício.

Vou te extraviando no ato de nomear.
Melhor seria recuar no silêncio.

Cantamos em coro como animais da escureza.
Os cílios não germinaram.
Falta plantio em nossas bocas, vegetação nas unhas,
estampas e ervas no peito.
Suplicamos graves e agudos, espasmos e espanto,
compondo esquina com a noite.

Cantar não é desabafo,
mas puxar os sinos
além do nosso peso,
acordando a cúpula de pombas.

Somos fumaça e cera,
limo e telha,
névoa e leme.
O inverno nos inventou.

Não importa se te escuto
ou se explodes meus ouvidos de orvalho:
morre aquilo que não posso conversar?

Ficarei isolado e reduzido,
uma fotografia esvaziada de datas.
Os familiares tentarão decifrar quem fui
e o que prosperou do legado.
Haverei de ser um estranho no retrato
de olhos vivos em papel velho.

Escrevo para ser reescrito.
Ando no armazém da neblina, tenso,
sob ameaça do sol.
Masco folhas, provando o ar, a terra lavada.
Depois de morto, tudo pode ser lido.

Vejo degraus até no vôo.
Tua violência é a suavidade.
Não há queda mais funda
do que não ser o escolhido,
amargar o fim da fila,
ser o que fica para depois,
o que enumera os amigos
pelos obituários de jornal,
o que enterra e se retrai no desterro,
esfacela a rosa ao toque
na palidez das pétalas e velas,
vistoriando cada ruga
e infiltração de heras entre as veias,
nunca adulto para compreender.

Não há nada de natural na morte natural.
Divorciar-se do corpo, tremer ao segurar
as pernas, acomodar-se no finito
de uma cama e deitar com o tumulto
que vem de um túmulo vazio.

Fabrício Carpinejar

Uma mulher chamada guitarra


Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam un mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.
O violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina - viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo - o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres- contrabaixo.
Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em beneficio de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.
Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.
Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado - contra o peito - lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.
Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seu tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranqüila num céu alto? E eu vos responderei: um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ternura


Enquanto nesta atroz demora,
Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;

Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez que ao menos fosse;

Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;

Por que os escondas de teu seio
No doce o pequenino vale
- Por que os envolva o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;

E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que minha és hoje,
E és para todo o sempre minha...

Manuel Bandeira

Música



Como um raio a rasgar a vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma cidade secreta
a levantar-se do chão, como água, como pão

Como um instante único na vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma pétala dessa flor
a levantar-se do chão, como água, como pão,

Assim nasceste no meu olhar, assim te vi,
flor a florir desmedida, instante único
a levantar-se do chão, a rasgar a vida,

Assim nasceste no meu olhar, assim te amei,
vida, água, pão, raio a rasgar uma cidade secreta
a levantar-se do chão, flor a florir desmedida

José Luis Peixoto


Procurei entender os sinais
suspensos entre as colunas
e as fechaduras. Empenhei-me
em esclarecer os recados
apressados de socorro,
o tambor lacerado das paredes.
Decifrei o grafite dos banheiros
públicos, as inscrições puídas
no lenho, os volantes
recebidos no trânsito.
A vida com erros de ortografia
tem mais sentido.
Ninguém ama com bons modos.


Fabrício Carpinejar, Cinco marias 

Amores




quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sobre a neve



Sobre mim, teu desdém pesado jaz
Como um manto de neve... Quem dissera
Porque tombou em plena Primavera
Toda essa neve que o Inverno traz!

Coroavas-me inda há pouco de lilás
E de rosas silvestres... quando eu era
Aquela que o Destino prometera
Aos teus rútilos sonhos de rapaz!

Dos beijos que me deste não te importas,
Asas paradas de andorinhas mortas...
Folhas de Outono e correria louca...

Mas inda um dia, em mim, ébrio de cor,
Há-de nascer um roseiral em flor
Ao sol da Primavera doutra boca!

Florbela Espanca

Dona Flor

imagem:  Catarina Sousa

Ela é tão meiga! Em seu olhar medroso
Vago como os crepúsculos do estio,
Treme a ternura, como sobre um rio
Treme a sombra de um bosque silencioso.

Quando, nas alvoradas da alegria,
A sua boca úmida floresce,
Naquele rosto angelical parece
Que é primavera, e que amanhece o dia.

Um rosto de anjo, límpido, radiante...
Mas, ai! sob êsse angélico semblante
Mora e se esconde uma alma de mulher

Que a rir-se esfolha os sonhos de que vivo
— Como atirando ao vento fugitivo
As folhas sem valor de um malmequer...

Vicente de Carvalho

Encantos cor de rosa

imagem: Maria Salvador 

Minha alma tem muitas asas
e chega a você num instante
sempre que você me chama
com um suspiro do coração.

Minha alma tem muitas cores
e se veste de azul no espaço
em que te espero amanhecer
com mil encantos cor de rosa.

Álvaro Bastos

Diálogo de todo dia



- Alô, quem fala?
- Ninguém. Quem fala é você que está perguntando quem fala.
- Mas eu preciso saber com quem estou falando.
- E eu preciso saber antes a quem estou respondendo.
- Assim não dá. Me faz o obséquio de dizer quem fala?
- Todo mundo fala, meu amigo, desde que não seja mudo.
- Isso eu sei, não precisava me dizer como novidade. Eu queria saber é quem está no aparelho.
- Ah, sim. No aparelho não está ninguém.
- Como não está, se você está me respondendo?
- Eu estou fora do aparelho. Dentro do aparelho não cabe ninguém.
- Engraçadinho. Então, quem está fora do aparelho?
- Agora melhorou. Estou eu, para servi-lo.
- Não parece. Se fosse para me servir já teria dito quem está falando.
- Bem, nós dois estamos falando. Eu de cá, você de lá. E um não conhece o outro.
- Se eu conhecesse não estava perguntando.
- Você é muito perguntador. Pois se fui eu que telefonei.
- Não perguntei nem vou perguntar. Não estou interessado em conhecer outras pessoas.
- Mas podia estar interessado pelo menos em responder a quem telefonou.
- Estou respondendo.
- Pela última vez, cavalheiro, e em nome de Deus: quem fala?
- Pela última vez, e em nome da segurança, por que eu sou obrigado a dar esta informação a um desconhecido?
- Bolas!
- Bolas digo eu. Bolas e carambolas. Por acaso você não pode dizer com quem deseja falar, para eu lhe responder se essa pessoa está ou não aqui, mora ou não mora neste endereço? Vamos, diga de uma vez por todas: com quem deseja falar?
…Silêncio.
- Vamos, diga: com quem deseja falar?
- Desculpe, a confusão é tanta que eu nem sei mais. Esqueci. Tchau!

Carlos Drummond de Andrade

Poemas de Um Terno de Pássaros ao Sul



Fragmento I

Pouco crescemos
no que aprendemos,
o sabor

de um livro antigo
está em jovem
esquecê-lo.

Eu alterei
a ordem do teu ódio.
Fiz fretes de obras

na estante.
Mudava os títulos
de endereços

em tua biblioteca
e rastreavas, ensandecido,
aquele morto encadernado

que ressuscitou
quando havias enterrado
a leitura,

aquele coração insistente,
deixando atrás uma cova
aberta na coleção.

Sou também um livro
que levantou
dos teus olhos deitados.

Em tudo o que riscavas,
queria um testamento.
Assim recolhia os insetos

de tua matança,
o alfabeto abatido
nas margens.

Folheava os textos,
contornando as pedras
de tuas anotações.

Retraído,
como um arquipélago
nas fronteiras azuis.

Desnorteado,
como um cão
entre a velocidade

e os carros.
Descia o barranco úmido
de tua letra,

premeditando
os tropeços.
Sublinhavas de caneta,

visceral,
impaciente com o orvalho,
a fúria em devorar as idéias,

cortar as linhas em estacas da cruz,
marcá-las com a estada.
Tua pontuação delgada,

um oceano
na fruta branca.
Pretendias impressionar

o futuro com a precocidade.
A mãe remava
em tua devastação,

percorria os parágrafos a lápis.
O grafite dela, fino,
uma agulha cerzindo

a moldura marfim.
Calma e cordata,
sentava no meio-fio da tinta,

descansando a fogueira
das folhas e grilos.
Cheguei tarde

para a ceia.
Preparava o jantar
com as sobras do almoço.

Lia o que lias,
lia o que a mãe lia.
Era o último a sair da luz.

Fabrício Carpinejar

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Eterno


 E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
A vida eterna
E o fogo eterno

(Le silence éternel de ces espace infinis m’effraie)

- O que é eterno Yayá Lindinha?
- Ingrato é o amor que te tenho.

Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eterníssimo

A cada instante se criam novas categorias do eterno.

Eterna é a flor que se flana
Se souber abrir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem o nome.

e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto do enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras
Eterno, mas até quando? É esse marulho em nós de um mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos.
E tentação e vertigem; e também a pirueta dos ébrios.

Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas não quero ser senão eterno.

Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essência
ou nem isso.
E que eu desapareça e fique em chão varrido onde pousou uma sombra
E que não fique no chão nem fique na sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como um esponja no caos
e entre os oceanos de nada
gere um ritmo.

Carlos Drummond de Andrade

Estupor



esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer

esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir

esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir

Paulo Leminski

Em vão




Passo triste na vida e triste sou,
Um pobre a quem jamais quiseram bem!
Um caminhante exausto que passou,
Que não diz onde vai nem donde vem.

Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém
A flor da minha boca desdenhou!
Solitário convento onde ninguém
A silenciosa cela procurou!

E eu quero bem a tudo, a toda a gente...
Ando a amar assim, perdidamente,
A acalentar o mundo nos meus braços!

E tem passado, em vão, a mocidade
Sem que no meu caminho uma saudade
Abra em flor a sombra dos meus passos!

Florbela Espanca

Despedida


Despeço-me de ti, as pernas cruzadas sobre o braço do sofá da sala, a música ao fundo, florescida a orquídea, o cão a dormir sem solenidade. A fumaça do cigarro lenta no ar, e nas mãos uma taça de vinho tinto, dos que tu gostas e eu também gosto.

Despeço-me de ti em silêncio . Despeço-me de ti para não ter que me despedir de mim . Uma pessoa não pode viver na dor e na falta a esperar que o tempo volte.

Despeço-me de ti ao som da memória, da visão clara do teu corpo enrodilhado no meu, da visão clara do teu amor colado ao meu. Do teu pranto.
Tantos anos me custaram despedir-me de ti. Tantos anos a conversar contigo sozinha no quarto, a querer beijar-te, a quase ver os teus olhos desejosos a meterem-se nos meus. Memórias.

O amor não é memória. O amor dobra a esquina e temos nosso coração nas mãos. E queremos ofertá-lo a um estranho. Porque por ele o coração saltou-nos do peito. E seus olhos miúdos têm um brilho oculto pela tristeza . E seus gestos diferentes nos atraem, Seu corpo nos chama e o nosso quer atendê-lo. E uma beleza fulge naquele rosto. Nos nossos rostos. E um estranho é sempre um estranho, não és tu, nunca será. Mas a vida usa palavras fora do comum às vezes. E nós, todos nós, queremos amar.

Não é morte, o amor. Nem tempo, nem metafísica, nem psicologias. O amor tem vontade própria, não quer ser explicado. Não vive de reminiscências, elas são apenas a lembrança do que ele um dia foi.

Amor é presente, agora, já. Vida desfraldada , mergulhada no mar, a escalar as encostas das montanhas, a embrenhar-se na selva. O corpo e o que mais pode haver além dele, dedicados a isso. Tu sabes.

Despeço-me de ti ao som de um cello, de séculos atrás, que tu me deste.

Um beijo e adeus.

Silvia Chueire

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Jean-Paul Sartre, A Idade da razão


... você está casado, Mathieu – disse ele com força.
- Isso é novidade – disse Mathieu.
- Sim, está casado, só que pretende o contrário por causa de suas teorias. Adquiriste hábitos com essa mulher. Quatro vezes por semana vais tranquilamente encontrá-la e passas a noite com ela. E isso dura há sete anos. Não tem mais nada de aventura. Você a estima, sente que tem obrigações para com ela, não a quer abandonar. Estou certo de que não procuras unicamente o prazer; por maior que tenha sido, deve ter-se embotado. Na realidade, deves sentar-te à noite junto dela e contar longamente os acontecimentos do dia, pedir conselhos nos momentos difíceis.
- Evidentemente – disse Mathieu, erguendo os ombros.
- Pois bem, podes dizer-me em que isso difere do casamento? O fato de não morarem juntos? (...) com isso você ganha a comodidade, uma aparência de liberdade. Tens todas as vantagens do casamento e aproveitas os princípios para recusar os inconvenientes. Recusas regularizar a situação, o que é muito fácil e cômodo, pois, se alguém sofre, não é você. (...) Sabes o que não entendo? Você, tão disposto sempre a profligar uma injustiça, você humilha essa mulher há anos, pelo mero prazer de afirmar que estás de acordo com teus princípios. Se realmente subordinasses tua vida a tuas ideias! Mas eu te repito, estás casado, tens um apartamento agradável, recebes bons vencimentos em dia certo, não tens nenhuma inquietação quanto ao futuro, porque o Estado te garante uma aposentadoria. E gostas dessa vida calma, regrada, uma vida de funcionário.
- Escuta – disse Mathieu - , há um mal-entendido entre nós; pouco me importa ser ou não burguês, O que eu quero, apenas... – acabou a frase entre os dentes - é conservar a minha liberdade.
- Eu imaginava – disse Jacques – que a liberdade consistia em olhar de frente as situações em que a gente se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilidades. Não é por certo tua opinião: condenas a sociedade capitalista, e, entretanto, és funcionário nessa sociedade. Proclamas uma simpatia de princípio pelos comunistas, mas tens cuidado em não te comprometeres. Nunca votaste. Desprezas a classe burguesa e, no entanto, és um burguês, filho e irmão de burgueses, e vives como um burguês.
Mathieu fez um gesto, mas Jacques não se deixou interromper.
- Estás, no entanto, na idade da razão, meu caro Mathieu – disse com uma piedade ralhadora. – Mas isso você também o esconde, quer fazer-se de mais moço. Aliás... talvez seja injusto. Talvez não tenhas ainda a idade da razão, é uma idade moral, a que cheguei antes de ti. (...) você nada mais tem de mocinho, não te vai bem a vida boêmia. Aliás, o que é isso, a boemia? Era muito divertido há cem anos, agora... um punhado de desajustados sem perigo para ninguém e que perderam o trem, simplesmente. Você está na idade da razão, Mathieu, está ou deveria estar – repetiu distraidamente.

**********

És livre. Mas para que te serve a liberdade, se não para tomar posição? Você gastou trinta e cinco anos na sua limpeza e o resultado dela é um vácuo. És um corpo estranho, sabes? – continuou com um sorriso amigo. – vives no ar, cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado, flutuas, és um abstrato, um ausente. Não deve ser muito divertido, todos os dias...
(...)
- Você renunciou a tudo para ser livre. Dê mais um passo, renuncie à própria liberdade. E tudo te será devolvido.
(...)
- Você é bem real – disse Mathieu. - Tudo aquilo que você toca parece real. Desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e me enoja.
Acrescentou subitamente:
- És um homem.
- Um homem? – indagou Brunet, surpreso. – O contrário fora inquietante. Que quer dizer com isso?
- Nada, a não ser que escolheste ser um homem.
Um homem de músculos fortes e elásticos, que pensava por meio de curtas e severas verdades, um homem reto, sóbrio, seguro de si, terreno refratário às angélicas tentações da arte, da psicologia, da política, um homem inteiriço, um homem apenas. E Mathieu ali estava, diante dele, indeciso, mal envelhecido, mal cozido, assediado por todas as vertigens do inumano. E pensava: “Eu não pareço um homem”.
Brunet levantou-se.
- Pois faze como eu – disse. – que te impede de fazê-lo? Ou imaginas que poderás viver a vida inteira entre parênteses?
(...)
Vocês são todos iguais, vocês, os intelectuais. Tudo desmorona, os fuzis vão disparar sozinhos e vocês, serenos, reivindicam o direito de ser convencidos. Ah! Se ao menos você pudesse ver-se com meus olhos, compreenderia que não se pode perder tempo. (...) Finges lamentar o teu ceticismo, mas não te desfazes dele. É teu conforto moral. Quando o atacam, a ele te apegas avidamente.
(...)
Não tenho nada a defender; não me envaideço de minha vida e não tenho um níquel. Minha liberdade? Ela me pesa. Há anos que sou livre à toa. Morro de vontade de trocá-la por uma convicção. De bom grado trabalharia com vocês, isso me afastaria de mim mesmo e tenho necessidade de me esquecer um pouco. E depois, penso como você que não se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se está disposto a morrer.
(...)
...quero permanecer livre. É o que posso dizer. Mas posso dizer também: tive medo, prefiro minha cortina verde, prefiro tomar ar, à tarde, no meu balcão, e não desejaria que isso mudasse. Agrada-me indignar-me contra o capitalismo, mas não desejo que o suprimam, porque não teria mais motivos de indignação. Agrada-me sentir-me desdenhoso e solitário de indignação. Agrada-me dizer “não”, sempre “não”, e teria medo que se construísse um mundo viável porque teria que dizer “sim” e fazer como os outros. Por cima ou por baixo: quem julgaria?

Jean-Paul Sartre, A Idade da razão

Provação. Agora entendo o que é provação. Provação: significa que a vida está me provando. Mas provação: significa que eu também estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável.
Espera por mim: vou te tirar do inferno a que desci. Ouve, ouve:
Pois do regozijo sem remissão, já estava nascendo em mim um soluço que mais parecia de alegria. Não era um soluço de dor, eu nunca o ouvira antes: era o de minha vida se partindo para me procriar. Naquelas areias do deserto eu estava começando a ser de uma delicadeza de primeira tímida oferenda, como a de uma flor. Que oferecia eu? que podia eu oferecer de mim - eu, que estava sendo o deserto, eu, que o havia pedido e tido?
Eu oferecia o soluço. Chorava enfim dentro de meu inferno. As asas mesmo do negror eu as uso e as suo, e as usava e suava para mim - que és Tu, tu, fulgor do silêncio. Eu não sou Tu, mas mim é Tu. Só por isso jamais poderei te sentir direto: porque és mim.
Oh Deus, eu estava começando a entender com enorme surpresa: que minha orgia infernal era o próprio martírio humano.

Clarice Lispector

Volta


 Enfim te vejo. Enfim no teu
Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado.

Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!

Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.

Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!

Manuel Bandeira

fotografia: Ninho Marchini

Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.

Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei9
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.


E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos,
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas, nem repetir as palavras do poema,
para saber o que significa o amor.

Então, dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor.

Nuno Júdice

Cantiga de Passarinho

Josè Miguel Roman Frances

Desde que te conheci
dei para sonhar
com ilhas desertas e
estradas que sigam
o esplendor do sol.
Quero proteger este
amor com o silêncio
da lua e das estrelas,
adormecer seu perfume
no aroma das flores e
ouvir sua voz murmurar
cantigas de passarinhos.
Nosso amor vai durar
enquanto houver versos
e o mar chegar à praia
em sorrisos de espuma.

Álvaro Bastos

sábado, 20 de agosto de 2011

Recordação




Agora, o cheiro áspero das flores
leva-me os olhos por dentro de suas pétalas.

Eram assim teus cabelos;
tuas pestanas eram assim, finas e curvas.

As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo,
tinham a mesma exaltação de água secreta,
de talos molhados, de pólen,
de sepulcro e de ressurreição.

E as borboletas sem voz
dançavam assim veludosamente.

Restitui-te na minha memória, por dentro das flores!
Deixa virem teus olhos, como besouros de ónix,
tua boca de malmequer orvalhado,
e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios,
com suas estrelas e cruzes,
e muitas coisas tão estranhamente escritas
nas suas nervuras nítidas de folha,
- e incompreensíveis, incompreensíveis.

Cecília Meireles

Minha senhora de mim

Guy Bourdin

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito


Maria Teresa Horta
David Gandy 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011


A mulher lançou a sua mão
Eu estava na palma da mão
Eu era uma linha que se apagava
Uma linha que ninguém sabia ler.
Eu disse à mulher: Ah, fecha a mão
Para me guardares


Daniel Faria

Maria Beleza


Porque és Maria, já és tão bonita!
Como vinho adamado e capitoso,
sonho de amor ou quadro voluptuoso,
teu nome encanta e faz sorrir, amar.

Podia não ser franco o teu olhar,
subtil a curva, o mento sonhador,
o seio augusto e a graça duma flor.
― És Maria, não és? Já és bonita!

Mas tu és linda, jovem flor de raça.
Assim, no esplêndido altar da tua graça,
não sabe a gente eu julgar melhor:

― se a harmonia do nome tão suave,
se a escultura do teu regaço de ave…
Benza-te, Deus, que és um perfeito amor!

Ruy Monte

Lírica



Se tempo e espaço, como os sábios dizem
São coisas que não podem ser,
O sol que não percebe o seu declínio
Não é maior do que nós somos.
Então, por que Amor, imploraríamos
Para vivermos todo um século ?
A borboleta que só vive um dia
Viveu por toda eternidade.

As flores que te dei quando o rocio
Estremecia sobre a vinha
Murcharam antes que a abelha voasse
Para sugar a madressilva.
Que então nos deixem colher ainda
Sem lamentar sua agonia,
E embora sejam poucos os dias de amor
Deixemo-los ao menos ser divinos.


T. S. Eliot

Canto e Palavra

Alba Luna


Quereis saber
como eu me faço
ou de mim como eu me quero?
é fácil:
cultivo em mim os meus contrários
e a síntese dos termos cultivo,
sabendo que o canto é quando
e a palavra é onde,
e que ela o ultrapassa
mais que o complementa.
E certo que o homem
embora sinta e pense,
cante e fale
seus conflitos nunca vence,
é que eu tranquilo me exponho,
em canto me componho:
pois um homem somente se organiza
e completo se apresenta
quando com seus contrários se acrescenta.


Affonso Romano de Sant'Anna

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Saudade


Belos amores perdidos,
Muito fiz eu com perder-vos;
Deixar-vos, sim: esquecervos
Fora demais, não o fiz.

Tudo se arranca do seio,
— Amor, desejo, esperança...
Só não se arranca a lembrança
De quando se foi feliz.

Roseira cheia de rosas,
Roseira cheia de espinhos,
Que eu deixei pelos caminhos,
Aberta em flor, e parti:

Por me não perder, perdi-te:
Mas mal posso assegurar-me,
— Com te perder e ganhar-me,
Se ganhei, ou se perdi...

Vicente de Carvalho

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos".

Carlos Drummond  de Andrade

Canção na janela


Há pouco emergi
da mornidão do sono.
Pensei flutuar:
onde termina minha vida
e começa o mar?
Tudo ao meu redor são dois
cristais reverberando.

Meu destino me contempla
indagador:
nesta imensidão
sou um capim perfumado
que balança, a um tempo
susto e chamamento
-pronta para me desfazer
em outra alma.

Lya Luft

Além alma (uma grama depois)



Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
Não tem vaga nem lugar 
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

Paulo Leminski

Leitura Interrompida


No meio das coisas, com o sentimento certo
de que amanhã é um espaço entre o centro
e o cume, desenhando apenas a linha de
prumo do sol que há-de nascer, espreito
por cima do teu ombro a página em que
ficaste, e te fez pensar. Que sonhos nasce-
ram por entre as palavras, que imagem
ou nuvem te passou pelos olhos, e te
levou com ela, até ao limite de um puro
relâmpago? Desfaz com as tuas mãos a
tapeçaria do segredo; e espreita o que
vai surgindo por entre os fios, e traz
o que parecia ter passado, e morrido
com o tempo. Não te distraias com o
pensamento; e volta a página, para
saberes o que vem a seguir. Mas se
não o fizeres, e se uma respiração
antiga te fizer murmurar de novo
as frases do amor, fecha o livro, como
se já soubesses o que vai acontecer.


Nuno Júdice