sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bruna Lombardi, Diário do Grande Sertão

Verdades e Mentiras

No meio da gravação uma pausa. Câmaras quebradas. Ficamos caçando sombra pra sentar e o papo rolou em torno da memória. Um assunto intrigante. Sempre quis entender qual o filtro da minha memória. Se ela me trai, se às vezes sou eu que não quero registrar certas passagens. Qual o processo? Será que já vejo as coisas através do prisma da minha fantasia? Será que todos nós estamos enxergando tudo da mesma maneira? Enxergando concretamente as mesmas coisas? Por que nossa atenção seleciona alguns detalhes e se desinteressa por outros inconscientemente?
O papo era que, se cada um de nós contasse a cena que fizemos há pouco, nenhum diria a mesma coisa.
O processo de percepção, sensação, recepção de cada um reage a estímulos externos de forma diferente, os núcleos de interesse divergem, as conotações são diversas, etc.

Cada indivíduo tem a qualidade de ser único, original e especial na forma de ver as coisas. Tolstói dizia que se você descrever o mundo exatamente como é já estaria mentindo.
Verdades e mentiras.
A versão, a História escrita pelos vencedores, as diferentes visões do mesmo assassinato em Rashomón do Kurosawa. A relatividade do que se vê e crê em Priandello . O filme de Orson Welles: F. for fake . Acho que Welles passou a vida brincando com o tema, acho que a ideia também o perseguia , essa mania que ele tinha de farsante, as mágicas que ele fazia, seus desenhos, suas frases dúbias, suas fotos vestidas de mago, prestidigitador. Seu forte senso de humor . Adoro o dualismo das pessoas. Só os chatos se levam sempre a sério.
Na verdade somos ávidos de acontecimentos, estamos sempre presenciando fatos, julgando, buscando as verdades e mentiras.
Somos todos voyeurs, curiosos, espectadores, testemunhas de tudo que é feito à nossa volta. Jornais, revistas, peças de teatros, livros, filmes, fofocas, uma fresta na veneziana, um binóculo na janela de um edifício, toda essa avalanche, quantidade de informações tentando suprir essa compulsiva necessidade de todos nós. Jogo de espelhos.
A margem de erro entre o que se vê e o que permanece inscrito na nossa memória . Um ato de ilusionismo, a vida . Um divertido e faiscante jogo da imaginação.
Cada vez se verá um novo ângulo, como num velho rosto conhecido onde, conforme a luz a gente observa um traço nunca antes reparado. Máscaras. Teatro Nô. Quando eu era adolescente ficava preocupa em saber se certas coisas eram reais ou fruto da minha fantasia.
A ideia me aprisionava. A gente busca verdades absolutas quando a verdade é absolutamente relativa. As coisas são sempre vistas através de conceitos, mitos, escalas de valores.

Sempre que relato fatos objetivos me pergunto se a minha memória me trai, se ela me desobedece secretamente, se ela foge da ordem estabelecida e registra as coisas de uma maneira muito singular. Elipses do coração da gente. Será que minha emoção, que minha percepção é real? Vejo as coisas como elas são e elas são realmente como eu as vejo? Não sei.
De que matéria é feita a fantasia? Qual a origem? Qual a matéria entre os dois polos?
Não me preocupa mais esse discernimento. Não é o real que busco. Mas o que me fascina, o que me atrai. Me oriento pelos meus sentimentos mesmo que o resultado seja uma visão distorcida. Mesmo que tudo seja apenas o exercício do sonho.
A simples ideia de sentir me basta.
“Oi suindara, linda cor” 

Às vezes pinta alguém com a manha de embarcar na viagem da loucura. Às vezes você descobre um lance num quarto, num livro, um som, um fundo de olho. Às vezes um relance de compreensão. Um raio, um relâmpago que desaparece em seguida. Alguma coisa fica impressa, mas você não sabe exatamente o quê. Você quase entendeu. Quase o entendimento. Quase.
O que é essencial? O conhecimento, a arte, a civilização? Não se pode viver dentro da civilização e fora da arte. E toda essa mistura de sentimentos que nos confundem? E a procura, a fé, a raiva, tesão, o amor físico?

Olhei tantas vezes e tão demoradamente esse céu do sertão , miríades de estrelas e nenhuma resposta . Nenhum sinal. Nada a desvendar. Não descobri nada do processo planetário, do acaso , das circunstâncias fortuitas, nada.
Muitas vezes senti uma alegria contagiante. A invasão de uma felicidade tão absurda que pareço cintilar, solto faíscas, meus dedos dão choque.

Outras vezes me senti pequena diante do mistério.
Não sei nada.
Nonada.
Só sinto que não há nada mais belo que o desconhecido. A busca do desconhecido move toda a criação.
O desconhecido, esse irresistível.

 Junho, Serra Branca

 Manhã noiteira. Tamos nos preparando para sair. Ainda vamos ter umas horas de viagem noite adentro, antes do sol.
Na porta do meu quarto uma aranha constrói habilmente sua teia. É uma teia gigantesca, entranhada. Seria capaz de ficar horas olhando com paciência oriental, mas não posso. Estou um feixe de nervos, meus centros nervosos na última voltagem, me sinto profundamente emocionada e minha emoção se confunde com a de Diadorim.
Para nós dois hoje é um grande dia.
Amarro meu gibão de couro, pego minhas armas, meu chapéu. Dói demais.
Eu levo Diadorim rumo à sua morte.

“Êêêeeee Mandacarú, oi Diadorim, belo feroz.
 Ah, ele conhecia os caminhares.” 

Você já viu a cara do demônio? Já viu quantas caras ele tem? Já viu todas?
A língua veloz da serpente, o perigo, o jogo da sedução? Eu já. Sei driblar o demônio desde pequena quando vi seu olhar no reflexo do espelho. E com todos os seus disfarces eu o reconheço sempre.
Estou saindo para gravar o duelo final, o definitivo, o encontro com Hermógenes.
Duas palavras não me saem da cabeça:
Agonia e Êxtase.

Não me assusta a loucura. Desde cedo eu soube que ela estava presente, no sangue, desde a primeira vez que vi minha avó, naquele apartamento em Buenos Aires. Não senti a menor emoção. Ela era uma estranha, francesa ou espanhola, ou judia ou gitana uma bela mulher de Istambul , cheia de grandes histórias.
As lendas da família incluem fortunas incalculáveis, castelos por toda a Europa, trens na guerra, navios na Grécia, embaixadas, nascimentos nas cores do oriente, montanhas de minério. E fugas, extravagâncias, separações.
Esses lugares, Praga, Istambul, Atenas, eu deveria percorrê-los atentamente a vida inteira atrás das pistas, dos rastros dessa família que deixa enigmas, fatos intrigantes, charadas.
Decifrar um passeio tão próximo e tão completamente mudado. Um passado quase sem vestígios. Poucos registros, fotos. Endereços em tantas cidades do mundo. Príncipes, sultões, navios explodindo na guerra , tropas que invadem terras e terras. Fugas, perdas, fronteiras fechadas, baixelas de ouro trocadas por litros de leite, parentes desaparecidos, amigos, propriedades.
Não sobra nada a não ser essas histórias intensas, esparsas, que às vezes se concretizam em documentos e consulados, às vezes se mitificam cheias de símbolos, uma cobra enrolada na pata do cavalo do meu tio-avô, e deixam transparecer uma aura mágica. Não sobra nada a não ser a própria história, a não ser um brilho no olho, o olhar iluminado, uma luz. A mesma luz que todos nós descendentes desses fantasmas carregamos em nossa incessante procura.

 Minha história não tem a menor importância. Eu estava falando da loucura. Essa que eu vi brilhar claramente nos olhos de minha avó naquele dia. Tereza. Também me chamo Tereza.
Sempre fica um resíduo. A curva aristocrática de um nariz. Terras em Viena, em Berlim, em Atenas, “Praga é a mais bela das cidades” me diziam.

Naquele dia tive num átimo a compreensão de tudo que nunca me foi explicado. Compreendi tudo o que aprenderia mais tarde e compreendi para sempre.
Depois descobriria Borges, Puig, Cortázar, cronópios. Jeronimus Bosch, Van Gogh, Klee, Miró, Matisse y tantos. Minha história nunca mais será a mesma ahora que he percorrido bares da América do Sul. Depois de boquitas pintadas, Buenos Aires affer y baganas, Jung e o mistério da poesia.
Naquele dia, naquele apartamento em Palermo vi o brilho da alegria da loucura que não se vê nas fotografias. Um brilho vivo, inteligente, a chama da sabedoria.
Cresci com medo. Tudo que atrai assusta.
Invado um território e recuo, mas sei que é meu caminho e devo percorrê-lo.
Muitos anos depois, num avião, minha tia belíssima me adivinha: “não tenha medo da loucura”, ela me diz. Surpreendentemente como todas as mulheres da família. Coisas misteriosas são ditas assim, soltas no meio de conversas. Misturamos temas levianos e vitais sem a menor dificuldade. Tudo faz parte do cotidiano trivial da vida, “somos mais fortes que a loucura” ela me diz, seremos sempre. “Dominar a loucura, canalizá-la pro trabalho”, ela repete enquanto deito a cabeça no seu colo e choro. Subterrâneos.
Expor a loucura, desnudá-la, compartilhá-la com todos.
Talvez estejamos todos nós fazendo isso o tempo todo.
Talvez alguns se arrebentem, sufoquem, explodam.
Seja essa a nossa condenação ou nossa busca de santidade.
Talvez alguns queiram o respiro. Um grande respiro. Uma tomada de ar. Apenas isso.

 “Ele sabia ser um homem terrível! Suspa! O senhor viu onça boca de lado a lado raivável pelos filhos? Viu rusgo de touro no alto campo brabejando, cobra jararacuçu emendando sete botes estalados, bando doido de queixadas pastantes dando febre no mato? E o senhor não viu Reinaldo guerrear!” 


 Bruna Lombardi, Diário do Grande Sertão