terça-feira, 8 de maio de 2012

Da morte. Odes Mínimas


I

Te batizar de novo.
Te nomear num trançado de teias
E ao invés de Morte
Te chamar Insana
               Fulva
                             Feixe de flautas
              Calha
                 Candeia
Palma, por que não?
Te recriar nuns arco-íris
Da alma, nuns possíveis
Construir teu nome
E cantar teus nomes perecíveis:
           Palha
           Corça
         Nula
         Praia
Por que não?


II

Demora-te sobre minha hora.
Antes de me tomar, demora.
Que tu me percorras cuidadosa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena

Duas fortes mulheres
Na sua dura hora.

Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.

E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne
E posse
Como fazem os homens.


III

Pertencente te carrego:
Dorso mutante, morte.
Há milênios te sei
E nunca te conheço.
Nós, consortes do tempo
Amada morte
Beijo-te o flanco
Os dentes
Caminho candente a tua sorte
A minha. Te cavalgo. Tento.


IV

Vinda do fundo, luzindo
Ou atadura, escondendo
Vindo escura
Ou pegajosa lambendo
Vinda do alto
Ou das ferraduras
Memoriosa se dizendo
Calada ou nova
Vinda da coitadez
Ou régia numas escadas
Subindo

Amada
Torpe
Esquiva

Bem-vinda.


V

Túrgida-mínima
Como virás, morte minha?

Intrincada. Nos nós.
Num passadiço de linhas.
Como virás?

Nos caracóis, na semente
Em sépia, em rosa mordente
Como te emoldurar?

Afilada
Ferindo como as estacas
Ou dulcíssima lambendo

Como me tomarás?


VI

Ferrugem esboçada
Perfil sem dracma

Crista pontuda
No timbre liso

Um oco insuspeitado
Na planície

Um cisco, um nada
À tona das águas

Brevíssima contração:
Te reconheço, amada


VII

Perderás de mim
Todas as horas

Porque só me tomarás
A uma determinada hora.

E talvez venhas
Num instante de vazio
E insipidez.
Imagina-te o que perderás
Eu que vivi no vermelho
Porque poeta, e caminhei
A chama dos caminhos

Atravessei o sol
toquei o muro de dentro
Dos amigos

A boca nos sentimentos

E fui tomada, ferida
De malassombros, de gozo

Morte, imagina-te.


VIII

Lenho, olaria, constróis
Tua casa no meu quintal.
E desde sempre te espio

Linhos e cal tua cara
Lenta tua casa

Nova crescendo agora
Nos meus cinquenta.
E madeirames e telhas
E escadas, tuas rijezas

Tuas costas altas

Vezenquando te volteias
Para que eu não me esqueça

Do instante cego

Quando me pedirás companhia.
Eu não me esqueço.
Te espio de hora em hora

Casa e começo, tua cara,
A qualquer tempo te reconheço.

IX

Os cascos enfaixados
Para que eu não ouça
Teu duro trote.
É assim, cavalinha,
Que me virás buscar?
Ou porque te pensei
Severa e silenciosa
Virás criança
Num estilhaço de louças?
Amante
Por que te desprezei?
Ou com ares de rei
Por que te fiz rainha?

X

De sandálias de palha
Pães pretos e esteira

Um dia, para recebê-la.

De sutis seduções
A palavra de ouro, de cereja

Me calo para recebê-la.

Depois me deito
Entre cordas e estanhos
E sonhos pátios, guetos

Ínfimos sapatos
Sobre as ilusões.

E então te abraço.
Ombro, cancela
Me fecho para recebê-la.


XI

Levarás contigo

Meus olhos tão velhos
Ah, deixa-os comigo
De que te servirão?

Levarás contigo
Minha boca e ouvidos?
Ah, deixa-os comigo
Degustei, ouvi
Tudo o que conheces
Coisas tão antigas.

Levarás contigo
Meu exato nariz?
Ah, deixa-o comigo
Aspirou, torceu-se
Insignificante, mas meu.

E minha voz e cantiga?
Meu verso, meu dom
De poesia, sortilégio, vida?
Ah, leva-os contigo.
Por mim.


XII

Por que não me esqueces
Velhíssima-Pequenina?
Nas escadas, nas quinas
Trancada nos lacres
No ocre das urnas
Por que não me esqueces
Menina-Morte?

Sempre à minha procura.
Tua rede de avencas
Teu crivo, coágulo
tuas tranças negras

Por que não viajas 
No líquido cobre
Da tua espessura?

E por que soberba
Se te procuro 
Te fechas?


XIII

Funda, no mais profundo do osso.
Fina, na tua medula
No teu centro-ovo. Rasa, poça d'água
Tina. Longa, pele de cobra, casca.
Clara numas verticais, num vazado sol
Da tua pupila. Paciente, colada às pontes
Onde devo passar atada aos pertences da vida.
Em tudo és e estás.


XIV

Porque é feita de pergunta
De poeira

Articulada, coesa
Persigo tua cara e carne
Imatéria.

Porque é disjunta
Rompida
Geometral se faz dupla
Persigo tua cara e carne
Resoluta.

Porque finge que franqueia
Vestíbulo, espaço e casa
Se sobreponho de cascas
Gaiolas, grades

Máscara tripla
Persigo tua cara e carne.

Comigo serrote e faca.


XV

Como se tu coubesses
Na crista
No topo
No anverso do osso

Tento prender teu corpo
tua montanha, teu reverso.

Como se a boca buscasse
Seus avessos 
Assim te busco
Torsão de todas as funduras.

Persecutória te sigo
Amarras, músculo.
E sempre te assemelhas
A tudo que desliza, tempo,
Correnteza.

Na minha boca. Nos ocos.
No chanfrado nariz.
Rio abaixo deslizas, limo
Toco, em direção a mim.


XVI

Cavalo, búfalo, cavalinha
Te amo, amiga, morte minha,
Se te aproximas, salto
Como quem quer e não quer
Ver a colina, o prado, o outeiro
Do outro lado, como quem quer
e não ousa
Tocar o teu pêlo, o ouro

O coruscante vermelho do teu couro 
como quem não quer.


XVII

Rasteja, voa, passeia
Com toda lenteza
Sobre a minha Ideia

Em espiral
Oblonga, retilínea
Te recrio terra
Sobre a minha Ideia

(Caracol de sumos
Andorinha
Crina)

Vagueia sobre a minha Ideia
E não sei se flui

Poreja

Única, primeira
Num mosaico de teias.

Se infinita sobre a minha Ideia
Se assemelha à vida.


XVIII

Te vi
Atravessando as muradas
Montada no teu cavalo
Acróbata de guarda-sóis.
(Eu era noite e não via)
Te vi levíssima
Descendo numas aguadas
Lenta descendo como os anzóis.
(Eu era peixe e sabia)
Te vi semente de som
E te tomei. Patas, farpas
Jato de sol, açoite
Borbulho nas águas frias.
Tu eras morte.


XIX

Se eu soubesse
Teu nome verdadeiro

Te tomaria
Úmida, tênue

E então descansarias.

Se sussurrares
Teu nome secreto
Nos meus caminhos
Entre a vida e o sono.

Te prometo, morte,
A vida de um poeta. A minha:
Palavras vivas, fogo, fonte.

Se me tocares
Amantíssima, branda
Como fui tocada pelos homens

Ao invés de Morte
Te chamo Poesia
Fogo, Fonte, Palavra viva
Sorte.




XX


Teu nome é Nada.
Um sonhar o Universo
No pensamento do homem
Diante do eterno, nada.


Morte, teu nome.
Um quase chegar perto.
Um pouco mais (me dizem)
E terias o Todo no teu gesto.
Um pouco mais, tu O terias visto.


Teu nome é Nada.
Haste, pata. Sem ponta, sem ronda.
Um pensar duas palavras diante da Graça:
Terias tido.




XXI


Por que vens ao meio-dia
De cornadura galopando conchas
De cornetim à frente da minha casa
Corta-capim, corta-águas?
Descansa. Faz entrepausa.
Colhe matiz, faz nuança.
Porque até no que não vejo
Te vejo. Corpo de ar e marfim
Boca, palato


Sempre colada, sempre colada.





XXII

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.


XXIII

Porque conheço dos humanos
Cara, Crueza,
Te batizo Ventura
Rosto de ninguém 
Morte-Ventura
Quando é que vem?

Porque viver na Terra
É sangrar sem conhecer
Te batizo Prisma, Púrpura
rosto de ninguém
Unguento
Duna
Quando é que vem?

Porque o corpo
É tão mais vivo quando morto
Te batizo Riso 
Rosto de ninguém
Sonido
Altura
Quando é que vem?


XXIV

No meio-dia te penso.
Íntima te pretendo.
Incendiada de mim
Contigo morrendo
Te sei lustro marfim e sopro.
e te aspiro, te cubro de sussurros
Me colo extensa sobre tua cabeça
Morte, te tomo.

E num segundo
Ouvindo novamente os sons da vida
Nomes, latidos, passos
Morte, te esqueço.
E intensa me retomo sob o sol.


XXV

Onde nasceste, morte?
Que cores, ocaso e monte?
E os pulsos que te arrancaram
Do mais escuro. De carne?
Te alimentavas
De amêndoas negras? Havia águas?
Vagidos, choros,
Empelicada como nasce a vida?
Se querias, tocavas?
 E sendo criança
Não tocavas em tudo
E o instante se fazia 
Insipidez e nada?

E velhíssima agora
Conhecendo todos os tatos
Agonia, terror e pasmo

Saciada

Por que não partes?


XXVI

Durante o dia constrói
Seu muro de girassóis.
(Sei que pretende disfarce
E fantasia.)
Durante a noite,
Fria de águas
Molhada de rosas negras
Me espia.
Que queres, morte,
Vestida de flor e fonte?

- Olhar a vida.


XXVII

Me cobrirão de estopa
Junco, palha,
Farão de minhas canções
Um oco, anônima mortalha
E eu continuarei buscando
O frêmito da palavra.

E continuarei
Ainda que os teus passos
De cobalto
Estrôncio
Patas hirtas
Devam me preceder.

Em alguma parte
Monte, serrado, vastidão
E Nada,
Eu estarei ali
Com minha canção de sal.



XXVIII

Ah, negra cavalinha
Flanco de acácias
Dobra-te para a montaria
Porque me sei pesada
De perguntas, negras favas
Entupindo-me a boca
E no bojo um todo averso
Uns adversos de nojo:
Que rumos? Que calmarias?
Me levas pra qual desgosto?
Há luz? Há um deus que me espia?
Vou vê-lo agora montada alma
Sobre as tuas patas? Tem Rosto?
Dobra-te mansa
Porque me sei pesada. De vida.
De fundura de poço. E porque
Um poeta não sabe montar a morte
Ainda que seja a minha:
Flanco de acácias.
Negra cavalinha.


XXIX

Te sei. Em vida
Provei teu gosto.
Perdas, partidas
Memória, pó.

Com a boca viva provei
Teu gosto, teu sumo grosso.
Em vida, morte, te sei.


XXX

Juntas. Tu e eu.
Duas adagas
Cortando o mesmo céu.
Dois cascos
Sofrendo as águas.

E as mesmas perguntas.

Juntas. Duas naves
Números
Dois rumos
À procura de um deus.

E as mesmas perguntas
No sempre
No pasmoso instante.

Ah, duas gargantas
Dois gritos
O mesmo urro
De vida, morte.

Dois cortes.
Duas façanhas.
E uma só pessoa.


XXXI

Nos veremos de frente:
As gargantas vítreas
Plexo e ventre
De todos os lados:
Dorso de nós duas
Flanco e braços.

As grandes palavras
Trancadas e vivas
No meu peito baço.


XXXII

Porque me fiz poeta?
Porque tu, morte, minha irmã,
No instante, no centro
De tudo o que vejo.

No mais que perfeito
No veio, no gozo
Colada entre mim e o outro.
No fosso
No nó de um ínfimo laço
No hausto
No fogo, na minha hora fria.

Me fiz poeta
Porque à minha volta
Na humana ideia de um deus que não conheço
A ti, morte, minha irmã,
Te vejo.


XXXIII

Esboçava-se.
Escorria líquido.
Era vidro.

Amava torpe.
Mesquinho te amava.
Era um vivo.

Luzente ofuscava
De vermes e asas
Vivo, silente,
Alquimia de fogo:
De pedra fria
A gozo.

Dirias morto?


XXXIV

Tão escuramente caminha
À beira-lágrima
Dentro do meu ser

Que já não sei
De onde me veio ou vinha
Vontade minha de te conhecer.

Hoje tão escuramente
Passeias, tardas, te arrastas
Num vasto alheamento
Dentro do meu ser

Que já não sei
Se te pensar foi gesto
Para inda mais ferir
Minha própria mágoa.

Por que, pergunto, estando viva
Devo eu morrer?
Por que, se és morte,
Deves me perseguir?

Aquieta-te, afunda-te
Morre, pequenina,
Escuramente
Dentro do meu sofrer.


XXXV

Ah, se eu soubesse de nuvens
Como te sei no hoje, morte minha,
Diria que me perseguem
Para escurecer
Essas caras de neve.
Diria que se detêm
Sobre a minha casa
Para ensombrar a alma. A minha.
E espalhadas
Diria que se avizinha
O cerco. A paliçada.
Que estou muda no além
N sofrido perfil.
Nítida. sozinha.

Se eu soubesse de nuvens
Como te sei
Não diria o que disse
Nem faria o poema. Olhava apenas.


XXXVI

Um peixe lilás e malva
Num claro cubo
De sons e água.

Assim te mostrarás.

Um perfil curvo.
Soma de asas.
Um quase escuro
Sobre as vidraças.

E fios e linhas
Trançando máscaras
Para a minha cara:
Rubro mandala
Para um perfil.

Então ajusto
Para o mergulho
Cores e máscara.
Sou eu. Um peixe rubro

E um outro lilás e malva.


XXXVII

Não compreendo. Apenas
Tento
Somar meu corpo
A teu corpo negro
Minhas águas
A teu remo
E cascos, os meus,
E luzes de um dia
E ânus, regaço
Somar
A teu matiz cobreado
Tua garra fria.

Não compreendo. Apenas
Tento
(Suor, subida, cascalho
Seca)
Somar teu corpo
A meu pensamento.


XXXVIII

No coração, no olhar

Quando se tocarem
Pela primeira vez
Aqueles que se amam

Eu estarei.

Nas grandes luas.
Nas tardes.
Nas pequeninas canções
Nos livros

Eu e minha viva morte
Estaremos ali
Pela primeira vez.

Dirão:
Um poeta e sua morte
Estão vivos e unidos
No mundo dos homens.

Nas madrugadas
Pela primeira vez

Em amor

Tocada.


XXXIX

Uns barcos bordados
No último vestido
Para que venham comigo
As confissões, o riso
Quietude e paixão
De meus amigos.

Porque guardei palavras
Numa grande arca
E as levarei comigo

Peço uns barcos bordados
No último vestido
E vagas
Finas, desenhadas
Manso friso

Como as crianças desenham
Em azul as águas.

Uns barcos
Para a minha volta à Terra:
Este duro exercício
Para o meu espírito


XL

Lego-te os dentes.
Em ouro, esmalte e marfim.

Entre sarrafos e palha
O baço dos meus ossos.

Procura na tua balança
Minha couraça. Meu bandolim.
Escrita e torso.

Pesa-me a mim. Minhas funduras
E o gume do meu desgosto.

Procura, na minha hora,
Entre sarrafos e palha

O que restou de mim
À tua procura


Hilda Hilst
Da Morte. Odes Mínimas - Editora Globo, p. 29 a 68
Ilustrações: Andrzej Malinowski