sábado, 19 de maio de 2012

James Joyce, Ulisses


Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:

 - Introibo ad altare Dei.

 Parado, ele perscrutou a escada sombria de caracol e gritou asperamente:

 - Suba, Kinch! Suba, seu temível jesuíta!

 Solenemente ele avançou para a plataforma de tiro. Olhou à volta e seriamente abençoou três vezes a torre, o terreno à volta e as montanhas que despertavam. Em seguida, avistando Stephen Dedalus, ele se inclinou em direção a ele e fez cruzes rápidas no ar, gorgolejando na garganta e sacudindo a cabeça. Contrariado e sonolento, Stephen Dedalus apoiou os braços no último degrau da escada e olhou friamente para o rosto sacolejante e gorgolejante que o abençoava, para a cabeça eqüina e os cabelos claros sem tonsura, tingidos e matizados como carvalho descorado.

 Buck Mulligan espreitou por um instante por baixo do espelho e depois cobriu a tigela rapidamente.

 - De volta pro quartel! - disse implacavelmente.

 E acrescentou em tom sacerdotal:

 - Pois isto, meus bem-amados, é a verdadeira cristina: corpo e alma e sangue e feridas. Música lenta, por favor. Fechem os olhos, senhores. Um momento. Um pequeno problema com esses corpúsculos brancos. Silêncio, todos.

 Ele olhou de soslaio para cima e soltou um longo e lento assobio de chamada, depois fez por um momento uma pausa em atenção enlevada, com seus dentes iguais e brancos brilhando aqui e ali pontilhados de ouro. Crisóstomo. Dois fortes assobios estridentes responderam através da calma.

 - Obrigado, meu velho - gritou vivamente. - Isto é o bastante. Desligue a corrente, está bem?

 Saltou fora da plataforma de tiro e olhou seriamente para o seu observador, juntando em volta das pernas as dobras soltas de seu penhoar. A cara rechonchuda e sombria e a queixada oval e taciturna lembravam um prelado, patrono das artes na idade média. Um sorriso agradável desabrochou em seus lábios.

 - A ironia das coisas! - disse ele alegremente. - Seu nome absurdo, um grego antigo!

 Ele apontou com o dedo num gesto amigável e se encaminhou para o parapeito rindo consigo mesmo. Stephen Dedalus se aproximou, acompanhou-o e a meio caminho cansado se sentou na beira da plataforma de tiro, observando-o enquanto ele apoiava o espelho no parapeito, molhava o pincel na tigela e passava a espuma na face e no pescoço.

 A voz alegre de Buck Mulligan prosseguia.

 - Meu nome também é absurdo: Malachi Mulligan, dois dátilos. Mas soa helênico, não soa? Saltitante e radioso como o próprio cervo. Nós precisamos ir a Atenas. Você vem se eu conseguir que a tia me dê vinte libras?

 Ele pôs o pincel de lado e, rindo com prazer, gritou:

 - Será que ele vem? O jesuíta subnutrido!

 Parando, ele começou a fazer a barba com cuidado.

 - Diga-me, Mulligan - falou Stephen tranqüilamente.

 - Sim, meu anjo?

 - Quanto tempo Haines vai ficar nesta torre?

 Buck Mulligan mostrou um rosto barbeado por cima do ombro direito.

 - Meu Deus, ele não é horrível? - disse francamente. - Um saxão enfadonho. Ele não acha que você seja um cavalheiro. Meu Deus, esses malditos ingleses! Estourando de dinheiro e indigestão. Porque ele vem de Oxford. Você sabe, Dedalus, você tem o verdadeiro estilo de Oxford. Ele não consegue entender você. Ó, meu nome para você é o melhor: Kinch, a lâmina-de-faca.

 Ele raspou cautelosamente o queixo.

 - A noite inteira ele esbravejou em sonho a respeito de uma pantera negra - disse Stephen. - Onde é que está o estojo da arma dele?

 - Um miserável lunático! - disse Mulligan. - Você ficou apavorado?

 - Fiquei - Stephen disse energicamente e com um medo crescente. - Aqui no escuro com um homem que eu não conheço esbravejando e ameaçando aos gemidos atirar numa pantera negra. Você salvou homens de afogamento. Porém eu não sou um herói. Se ele ficar aqui eu estou fora.

 Buck Mulligan franziu a testa ao olhar para a espuma em sua navalha. Ele saltou de seu poleiro e começou a dar apressadamente uma busca nos bolsos de sua calça.

 - Droga! - bradou guturalmente.

 Ele veio para a plataforma de tiro e, enfiando a mão no bolso superior de Stephen, disse:

 - Faça-nos empréstimo de seu traponasal para limpar minha navalha.

 Stephen suportou que ele puxasse para fora e exibisse erguido por uma das pontas um lenço amarrotado e sujo. Buck Mulligan limpou a lâmina da navalha cuidadosamente. Em seguida, lançando um olhar por cima do lenço, disse:

 - O traponasal do bardo! Uma nova cor artística para os nossos poetas irlandeses: verdemeleca. A gente quase pode sentir o gosto, não é?

 Ele subiu no parapeito novamente e lançou um olhar à volta por sobre a baía de Dublin, com seu cabelo louro de carvalhopálido ligeiramente alvoroçado.

 - Ó Deus! - disse tranqüilamente. - Não é que o mar é aquilo que Algy chama de uma grande e doce mãe? O mar verdemeleca. O mar escrotocompressor. Epi oinopa ponton. Ah, Dedalus, os gregos! Eu preciso lhe ensinar. Você precisa os ler no original. Thalatta! Thalatta! Ele é a nossa grande e doce mãe. Venha ver. 

Stephen se levantou e se encaminhou para o parapeito. Apoiando-se nele olhou para a água embaixo e para o barco-correio desafogando a entrada da enseada de Kingstown.

 - Nossa mãe toda-poderosa! - disse Mulligan.

 Ele voltou abruptamente do mar para o rosto de Stephen seus olhos cinzentos inquisitivos.

 - A tia acha que você matou a sua mãe - disse ele. - É por isso que ela não quer me deixar ter nada a ver com você.

 - Alguém a matou - disse Stephen sombriamente.

 - Que droga, Kinch, você podia ter se ajoelhado quando sua mãe agonizante pediu - disse Buck Mulligan. - Eu sou hiperbóreo tanto quanto você. Mas pensar em sua mãe rogando no seu último suspiro que você se ajoelhasse e rezasse por ela. E você recusou. Existe alguma coisa sinistra em você...

 Ele se interrompeu e passou espuma de novo ligeiramente na face. Um sorriso tolerante crispou seus lábios.

- Mas um mímico encantador! - murmurou consigo mesmo. - Kinch, o mais encantador de todos os mímicos!

Seriamente e em silêncio ele fez a barba com tranqüilidade e cuidado.

Stephen, com o cotovelo repousando no granito pontudo, encostou a palma abaixo da sobrancelha e olhou para a extremidade da manga de seu casaco preto lustroso que começava a puir. Uma dor, que ainda não era a dor do amor, agitou seu coração. Silenciosamente, em sonho, ela viera até ele após a sua morte, seu corpo gasto dentro de largas roupas tumulares marrons, exalando um odor de cera e pau-rosa, seu sopro, que se curvara sobre ele, mudo, reprovador, um fraco odor de cinzas molhadas. Através do punho puído ele viu o mar saudado como uma grande e doce mãe pela voz bem alimentada ao seu lado. A orla da baía e o horizonte continham uma massa líquida verde opaca. Uma tigela de porcelana ficara ao lado do leito de morte dela contendo a bile que parecia uma lesma verde arrancada de seu fígado apodrecido em seus ataques de vômito e de altos gemidos.


Buck Mulligan limpou novamente sua navalha de barba.

 - Ah, pobre corpodecão! - disse ele com voz branda. - Eu preciso te dar uma camisa e alguns traposnasais. Como está a calça de segunda mão? 

- Ela está caindo bastante bem - respondeu Stephen.

 Buck Mulligan atacou a concavidade abaixo de seu lábio inferior.

 - A ironia disso tudo - disse ele satisfeito. - Devia ser calça-de-segunda-perna. Só Deus sabe que alcoólatra sifilítico se desfez dela. Eu tenho uma com uma listra fina cinzenta. Você vai ficar elegante nela. Não estou brincando, não, Kinch. Você fica bonitão quando está bem vestido.

 - Obrigado - disse Stephen. - Se ela for cinzenta eu não posso usar.

 - Ele não pode usá-la - falou Buck Mulligan para o seu rosto no espelho. - Etiqueta é etiqueta. Ele mata a mãe mas não pode usar calça cinzenta.


 James Joyce, Ulisses