sábado, 26 de maio de 2012

Limitações do flerte

Boris Geer

Que fim levaram aquelas que flertamos nos bares, esquinas e aeroportos? Não aquelas que levamos ao restaurante, parques e camas, mas aquelas tocadas num leve aceno, de longe, corpo fluindo e morrendo na ponte aérea do instante. Mas por que pensar nas distantes que nem tocamos na mão ou fronte? Preferimos jogar com a ausente? É essa a nossa concreta fonte? Como se vê, não adianta, não se aprende. A gente aqui pensando nas que flertamos de leve, em dois minutos intensos, entre um sorriso e o gesto frustro, enquanto, perto, pisamos brutos o calcanhar da que está junto, ou pulamos na jugular da que nos cobre de frutos, olhando por sobre os muros as que ondeiam seus bustos sobre a linha do horizonte. - Amar com os olhos é mais fácil e anônimo? - É mais fútil? É declarar por telefone, apenas com um fio de voz que enrosca os corpos e mentes, ou melhor, numa vaga prolação, sem dormente ou trilho que leve o trem-passageiro ao outro corpo-estação. Mas como é vegetativo esse amar plantado, esgalhando o olhar furtivamente. A isso, prefiro carnívoras plantas que se abraçam e num sufoco se esmigalham deixando ao chão sementes em que piso, convertendo a morte havida em refluir de raízes. Flertar é texto-antigo, é bordar caligrafias quando há guerra e telegramas. Flertar é prefácio e eu quero logo desfolhar o livro. Flertar é usar binóculos devastando camarotes oblíquos quando o drama está no palco - e em nossos corpos aflitos. Amar assim tão voyeurista, é tão perverso como amar só por carta, com a caneta em riste e triste é pior que conhecer estrela só na foto, é apenas vê-la de luneta, correr atrás de um cometa. É chamar a fêmea sem macho na padaria. É cear ante um retrato e uma cadeira vazia. Isto de amar de longe, só com os olhos, não é sequer ir à caça. É ir à exposição de animal de raça. É ver decoração em loja, olhar por trás da vitrina um feriado que passa. É coisa de telegrafista ou coisa de mau amador de rádio, ouvindo só os ruídos do outro lado da antena e cama. Não é tocar de ouvido partitura desconhecida. O músico, nisso, é o contrário, vai mais fundo pois pega com as mãos e arpeja a música com os dedos. E eu tenho essa mania de amar como o invasor pulando os muros de Roma, como o astronauta se acolchoando na câmara, como o casulo se entretecendo no claro-e-escuro, enfim, como a gavinha da barroca parreira crescendo a sede das vinhas.  Um amar estabanado, como a criança quebrando o delicado brinquedo e derramando a alma dos pichos sobre o tapete do medo. Comigo é assim: ficar olhando não basta. Vou logo precipitando borrasca e estrela. Que se cuide o olhar alheio quando olho com o corpo inteiro, porque alojo fácil, peço café e pijama, e fico pastando com esse olhar de boi manso no breve espaço da cama.

Affonso Romano de Sant'Anna