segunda-feira, 14 de maio de 2012

Romeu e Julieta



A minha mente teme 
Algo que, ainda preso nas estrelas, 
Vai começar um dia malfadado 
Com a festa dessa noite, e ver vencido 
O termo desta vida miserável 
Com a pena vil da morte inesperada. 

** 

Benvólio – Ora, uma chama apaga outra chama, 
Cada angústia reduz uma outra dor: 
Alegre-se com a dor que hoje reclama, 
O desespero cura a dor menor. 
Pegue nova infecção no seu olhar, 
Que o seu veneno a outra há de matar. 

**

 Romeu – Ela é que ensina as tochas a brilhar, 
E no rosto da noite tem um ar 
De joia rara em rosto de carvão. 
É riqueza demais pro mundo vão. 
Como entre corvos pomba alva e bela 
Entre as amigas fica essa donzela. 
Depois da dança, encontro o seu lugar, 
Pra co’a mão dela a minha abençoar. 
Já amei antes? Não, tenho certeza; 
Pois nunca havia eu visto tal beleza. 

 **

 Julieta – Nasce o amor desse ódio que arde? 
Vi sem saber, ao saber era tarde. 
Louco parto de amor houve comigo, 
Tenho agora de amar meu inimigo. 

**

 Coro – Mal a antiga paixão agonizava 
E o novo amor já quer o lugar dela; 
A bela por quem ontem se matava 
 Junto a Julieta nem sequer é bela. 
Agora amado, ama outra vez Romeu, 
Ambos presa do aspecto exterior;
Ele leva à inimiga o pranto seu 
E ela tira do ódio doce amor. 
Inimigo, a Romeu fica vedado 
Fazer as juras naturais do amor, 
E a ela, apaixonada, não é dada 
Ir encontrá-lo, seja onde for. 
Mas a paixão, à força, os faz vencer, 
Temperando o perigo co’o prazer.


William Shakespeare, Romeu e Julieta