sábado, 19 de maio de 2012

Tens os amantes




Tens os amantes,
Sem nome, as suas histórias são só deles
E tens o quarto, a cama, e as janelas.
Procede como se fosse um ritual
Desdobra a cama, sepulta os amantes, enegrece as janelas.
Deixa-os viver nessa casa durante uma geração ou duas.
Ninguém se atreve a perturbá-los
Pelo corredor, os visitantes passam em pontas de pés junto da porta
Tanto tempo fechada
Atentos a algum ruído, um gemido, uma canção:
Não se ouve nada, nem sequer respirar.
Sabes que não estão mortos,
Sentes a presença do teu intenso amor.
Os teus filhos crescem, deixam-te,
Convertidos em viajantes e soldados.
O teu marido morto após uma vida de serviço.
Quem te conhece? Quem te recorda?
Mas em tua casa um ritual progride:
Não terminou: necessita de mais gente.
Um dia a porta abre-se para os aposentos do amante
O quarto converteu-se num denso jardim
Cheios de cores, odores, sons que não conhecias.
A casa, lisa como uma obreia de sol, só no meio do jardim
Na cama os amantes, lenta, deliberadamente e em silêncio
Realizam o ato do amor
Os olhos cerrados,
Apertados como se tivessem pesadas moedas de carne sobre eles
Os seus lábios magoados, com novas e velhas pisaduras
O cabelo e a barba desesperadamente enredados
Quando ela põe a boca no seu ombro
Ela duvida que seja o seu ombro


Leonard Cohen