sexta-feira, 15 de junho de 2012

Clarissa Pinkola Estes, Mulheres que correm com os lobos




Capítulo 1

O uivo: A ressurreição da Mulher Selvagem

La Loba, a Mulher-lobo

Devo revelar que não sou um daqueles seres divinos que marcham deserto adentro e retornam repletos de sabedoria. Viajei por muitos lares e espalhei farelos ao redor de cada local em que dormi. No entanto, com muita freqüência, em vez de adquirir sabedoria, envolvi-me em inconvenientes episódios de giardíase, E. coli1 e disenteria amebiana. É esse o destino de uma mística de classe média provida de intestinos delicados.
Qualquer que fosse o conhecimento ou a idéia que vislumbrei nas minhas viagens e lugares estranhos e visitas a pessoas extraordinárias, aprendi a me proteger, pois às vezes o velho pai Academus, como Cronos, ainda tem uma tendência a devorar os filhos antes que eles comecem a curar ou a surpreender. Essa espécie de intelectualização exagerada oculta os modelos da Mulher Selvagem e a natureza instintiva das mulheres.
Assim, para promover nosso relacionamento de intimidade com a natureza instintiva, seria de grande ajuda se compreendêssemos as histórias como se estivéssemos dentro delas, em vez de as encararmos como se elas fossem alheias a nós. Penetramos numa história pela porta da escuta interior. A história falada toca no nervo auditivo, que atravessa a base do crânio até chegar ao bulbo do cérebro logo abaixo da ponte de Varólio. Ali, os impulsos auditivos são transmitidos para cima para o consciente ou, segundo dizem, para a alma… dependendo da atitude de quem ouve.
Antigos anatomistas falavam de o nervo auditivo dividir-se em três ou mais caminhos nas profundezas do cérebro. Eles concluíram que o ouvido devia, portanto, funcionar em três níveis diferentes. Um deles seria o das conversas rotineiras da vida. Um segundo seria dedicado à aprendizagem e à arte. E o terceiro existiria para que a própria alma pudesse ouvir orientações e adquirir conhecimentos enquanto estivesse aqui na terra.
Ouçam, portanto, com a escuta da alma agora, pois é essa a missão das histórias.
Osso a osso, fio a fio de cabelo, a Mulher Selvagem vem voltando. Através de sonhos noturnos, de acontecimentos mal compreendidos e parcialmente esquecidos, a Mulher Selvagem vem chegando. Ela volta através das histórias.
Comecei minha própria migração pelos Estados Unidos afora na década de 1960, à procura de um local para residir que fosse cheio de árvores, que recendesse a água e que fosse habitado pelas criaturas que eu amava: o urso, a raposa, a serpente, a águia, o lobo. Os lobos estavam sofrendo um extermínio sistemático na região dos Grandes Lagos superiores. Não importava onde eu fosse, os lobos estavam sendo acossados de uma forma ou de outra. Embora muitos falassem deles como seres ameaçadores, eu sempre me senti mais segura quando havia lobos nos bosques. Lá para o oeste e para o norte naquela época, era possível acampar e ouvir as montanhas e a floresta cantando, cantando, cantando à noite.
No entanto, mesmo lá, a era dos fuzis de longo alcance, holofotes montados em jipes e “iscas” de arsênico fez com que o silêncio se espalhasse pela terra. Logo em seguida, as Montanhas Rochosas também ficaram praticamente sem nenhum lobo. Foi assim que vim para o grande deserto que se espraia metade no México, metade nos Estados Unidos. E quanto mais eu viajava para o sul, mais ouvia histórias sobre lobos.
Vejam só, dizem existir um local no deserto onde o espírito das mulheres e o espírito dos lobos se encontram através dos tempos. Senti que estava descobrindo algo quando nas terras fronteiriças com o Texas ouvi uma história intitulada “Moça Loba” a respeito de uma mulher que era uma loba que era uma mulher. Depois descobri a antiga história asteca dos gêmeos que foram amamentados por uma loba até crescerem o suficiente para ficar de pé sozinhos.
Finalmente, dos antigos lavradores espanhóis de terras doadas pelo governo e dos povos índios do sudoeste, ouvi histórias sobre as pessoas que se dedicam aos ossos, os velhos que ressuscitam os mortos. Dizia-se que recuperavam tanto seres humanos quanto animais. Foi quando, numa das minhas expedições etnográficas, conheci uma mulher dessas e nunca mais fui a mesma. As histórias sobre os que se dedicam aos ossos persistiam não importa aonde eu fosse. Essas histórias assumem muitas formas. “La Loba” é uma delas.
La Loba
Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para o sul, para o Monte Alban3 num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.
0 único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo — algo da alma.
Todos nós começamos como um feixe de ossos perdido em algum ponto num deserto, um esqueleto desmantelado que jaz debaixo da areia. É nossa responsabilidade recuperar suas partes. Trata-se de um processo laborioso que é mais bem executado quando as sombras estão exatamente numa certa posição, porque exige muita atenção. La Loba indica o que devemos procurar — a indestrutível força da vida, os ossos.
Esse cuento milagro, um conto de mistério, La Loba, nos mostra o que pode dar certo para a alma. É um conto de ressurreição acerca do vínculo do mundo subterrâneo com a Mulher Selvagem. Ele promete que, se cantarmos a canção, poderemos conclamar os restos psíquicos do espírito da Mulher Selvagem e trazê-la de volta à forma vital com nosso canto.
Na história, La Loba canta sobre os ossos que reuniu. Cantar significa usar a voz da alma. Significa sussurrar a verdade do poder e da necessidade de cada um, soprar alma sobre aquilo que está doente ou precisando de restauração. Isso se realiza por meio de um mergulho no ponto mais profundo do amor e do sentimento, até que nosso desejo de vínculo com o Self selvagem transborde, e em seguida com a expressão da nossa alma a partir desse estado de espírito. Isso é cantar sobre os ossos. Não podemos cometer o erro de tentar extrair esse imenso sentimento de amor de algum ser amado, pois essa função feminina de descobrir e cantar o hino da criação é um trabalho solitário, um trabalho realizado no deserto da psique.
Consideremos a própria La Loba. O símbolo da Velha é uma das personificações arquetípicas mais disseminadas no mundo. Outros são os da Grande Mãe e Pai, da Criança Divina, do Trickster, do Feiticeiro (a), da Virgem e do Jovem, da Guerreira-heroína e do Bobo (a). Mesmo assim, La Loba é muito diferente na sua essência e nos seus efeitos, pois ela é a raiz principal de todo um sistema instintivo.
No sudoeste dos Estados Unidos, ela é também conhecida como a velha La Que Sabé, Aquela Que Sabe. Ouvi falar pela primeira vez de La Que Sabé quando morava nas montanhas Sangre de Cristo no Novo México, sob a proteção do Pico Lobo. Uma velha bruxa de Ranchos me disse que La Que Sabé sabia de tudo sobre as mulheres, que La Que Sabé havia criado as mulheres a partir de uma ruga na sola do seu pé divino. É por isso que as mulheres são criaturas cheias de sabedoria. Elas são feitas essencialmente da pele da sola do pé, que tudo sente. Essa idéia de que a pele do pé tem maior sensibilidade me soou verdadeira pois uma índia aculturada da tribo kiché uma vez me disse que só havia calçado seu primeiro par de sapatos aos vinte anos de idade e que ainda não estava acostumada a caminhar con los ojos vendados, com vendas nos pés.
Essa Mulher Selvagem La Loba, que vive no deserto, foi chamada por muitos nomes e atravessa todas as nações pelos séculos afora. Seguem-se alguns dos seus antigos nomes: A Mãe dos Dias é a deusa-mãe-criadora de todos os seres e de todas as coisas, incluindo-se o céu e a terra. Mãe Nyx exerce seu domínio sobre tudo o que for da lama e das trevas. Durga controla os céus, os ventos e os pensamentos dos seres humanos dos quais se espalha toda a realidade. Coatlique dá a vida ao universo incipiente, que é maroto e difícil de controlar, mas, como uma mãe loba, ela morde a orelha do filhote para contê-lo. Hécata, a velha vidente que “conhece seu povo” e traz em si o cheiro de húmus e o sopro divino. E muitas, muitas outras. Essas são as imagens do que e de quem vive aos pés dos morros, longe no deserto, lá nas profundezas.
No mito e seja pelo nome que for, La Loba conhece o passado pessoal e o passado remoto pois ela vem sobrevivendo pelas gerações afora e é mais velha do que o tempo. Ela é a memória arquivada das intenções femininas. Ela preserva a tradição feminina. Seus bigodes pressentem o futuro; ela tem o olho opaco e sagaz da velha; ela viaja simultaneamente para frente e para trás no tempo, equilibrando um lado com a dança que realiza com o outro.
La Loba, a velha. Aquela Que Sabe, está dentro de nós. Ela viceja na mais profunda alma-psique das mulheres, a antiga e vital Mulher Selvagem. A história de La Loba descreve sua casa como aquele lugar no tempo no qual o espírito das mulheres e o espírito dos lobos se encontram — o lugar onde a mente e os instintos se misturam, onde a vida profunda da mulher embasa sua vida rotineira. É o ponto onde o Eu e o Tu se beijam, o lugar onde as mulheres correm com os lobos.
Essa velha está entre os universos da racionalidade e do mito. Ela é a articulação com a qual esses dois mundos giram. Esse espaço entre os mundos é aquele lugar inexplicável que todas reconhecemos uma vez que passamos por ele, porém suas nuanças se esvaem e têm a forma alterada se quisermos defini-las, a não ser quando recorremos à poesia, à música, à dança… ou às histórias.
Existem especulações acerca de o sistema imunológico do corpo humano achar-se enraizado nesse misterioso terreno psíquico, bem como os impulsos e imagens místicas e arquetípicas, incluindo-se nossa fome de Deus, nosso anseio pelos mistérios e todos os instintos sagrados e mundanos. Alguns sugeririam que a memória da humanidade, a raiz da luz, a espiral das trevas também se encontram ali. Não se trata de um vazio, mas do lugar dos Seres da Névoa, onde as coisas são e ainda não são, onde as sombras têm substância e a substância é diáfana.
Uma coisa a respeito desse espaço é certa: ele é antigo… mais velho do que os oceanos. Como La Loba, ele não tem idade; é atemporal. O arquétipo da Mulher Selvagem dá sustentação a essa camada e emana da psique instintiva. Embora ela possa assumir muitos disfarces nos nossos sonhos e experiências criativas, ela não pertence à camada da mãe, da virgem, da mulher medial, nem da criança interior. Ela não é a rainha, a amazona, a amada, a vidente. Ela é só o que é. Chamem-na de La Que Sabé, Aquela Que Sabe; chamem-na de Mulher Selvagem, de La Loba, chamem-na pelos seus nomes nobres ou pelos seus nomes humildes; chamem-na pelos seus nomes mais novos ou mais antigos; ela continua sendo apenas o que é.
A Mulher Selvagem como arquétipo é uma força inimitável e inefável que traz para a humanidade um abundante repertório de idéias, imagens e particularidades. O arquétipo existe por toda a parte e, no entanto, não é visível no sentido comum da palavra. O que pode ser visto dele no escuro não é visível à luz do dia.
Encontramos comprovações residuais dos arquétipos nas imagens e símbolos presentes nas histórias, na literatura, na poesia, na pintura e na religião. Seu brilho, sua voz e seu perfume parecem ter a intenção de fazer com que nos alcemos da contemplação de nossos próprios rabos para viagens maiores em companhia das estrelas.
No espaço de La Loba, como diz o poeta Tony Moffeit, o corpo físico é “um animal luminoso”,4 e o seu sistema imunológico parece ser fortalecido ou debilitado pelo pensamento consciente. No lugar de La Loba, os espíritos manifestam-se como personagens e La Voz Mitológica da psique profunda fala como poeta e oráculo. Tudo o que tiver valor psíquico, mesmo depois de morto, pode ser ressuscitado. Da mesma forma, o material básico de todas as histórias existentes no mundo até hoje teve início com a experiência de alguém aqui nesse explicável terreno psíquico e com a tentativa de relatar o que lhe ocorreu ali.
Existem vários nomes para esse espaço entre os mundos. Jung chamou-o tanto de inconsciente coletivo e psique objetiva quanto de inconsciente psicóide — referindo-se a uma camada mais indescritível do primeiro. Ele considerava este último um lugar em que os universos biológico e psicológico compartilhavam as mesmas nascentes, em que a biologia e a psicologia talvez se pudessem fundir, influenciando-se mutuamente. Desde a memória humana mais remota, esse lugar — quer o chamemos de Nod, de lar dos Seres de Névoa, de fissura entre os mundos — é o lugar onde ocorrem aparições, milagres, imaginação, inspiração e curas de todas as naturezas.
Embora esse local transmita imensa riqueza psíquica, ele não deve ser abordado sem antes alguma preparação, pois é grande a tentação de nos afundarmos alegremente no prazer de nossa estada ali. A realidade consensual pode, em comparação, parecer menos interessante. Nesse sentido, essas camadas mais profundas da psique podem se transformar numa armadilha de êxtase, da qual as pessoas voltam sem equilíbrio, com idéias duvidosas e pressentimentos impalpáveis. Não é assim que deve ser. A pessoa que volta deve estar completamente purificada ou ter sido mergulhada numa água revitalizante e inspiradora, algo que deixe na nossa pele o perfume do que é sagrado.
Cada mulher tem acesso potencial ao Rio Abajo Rio, esse rio por baixo do rio. Ela chega até ele através da meditação profunda, da dança, da arte de escrever, de pintar, de rezar, de cantar, de tamborilar, da imaginação ativa ou de qualquer atividade que exija uma intensa alteração da consciência. Uma mulher chega a esse mundo-entre-mundos através de anseios e da busca de algo que ela vê apenas com o cantinho dos olhos. Ela chega lá com artes profundamente criativas, através da solidão intencional e da prática de qualquer uma das artes. E mesmo com essas práticas bem executadas, grande parte do que ocorre neste mundo inefável permanece para sempre um mistério para nós por desrespeitar as leis físicas e racionais como as conhecemos.
O cuidado com que se deve penetrar nesse estado psíquico está registrado numa história curta porém eloqüente acerca de quatro rabinos que ansiavam por ver a sagrada Roda de Ezequiel.
Os quatro rabinos
Uma noite quatro rabinos receberam a visita de um anjo que os acordou e os levou para a Sétima Abóbada do Sétimo Céu. Ali eles contemplaram a sagrada Roda de Ezequiel.
Em algum ponto da descida do Pardes, Paraíso, para a Terra, um rabino, depois de ver tanto esplendor, enlouqueceu e passou a perambular espumando de raiva até o final dos seus dias. O segundo rabino teve uma atitude extremamente cínica. “Ah, eu só sonhei com a Roda de Ezequiel, só isso. Nada aconteceu de verdade!’ O terceiro rabino falava incessantemente no que havia visto, demonstrando sua total obsessão. Ele pregava e não parava de falar no projeto da Roda e no que tudo aquilo significava… e dessa forma ele se perdeu e traiu sua fé. O quarto rabino, que era poeta, pegou um papel e uma flauta, sentou-se junto à janela e começou a compor uma canção atrás da outra elogiando a pomba do anoitecer, sua filha no berço e todas as estrelas do céu. E daí em diante ele passou a viver melhor.5
Quem viu o quê na Sétima Abóbada do Sétimo Céu, não sabemos. Mas sabemos, sim, que o contato com o mundo onde residem as Essências faz com que percebamos algo fora do conhecimento normal dos seres humanos e nos preenche com uma sensação de amplitude e de grandeza. Quando tocamos Aquela Que Sabe, isso provoca uma reação nossa e nos faz agir a partir da nossa natureza integral mais profunda.
A história recomenda que a melhor atitude para vivenciar o inconsciente profundo é a do fascínio sem exagero ou retraído, sem excessos de admiração ou de cinismo; com coragem, sim, mas sem imprudência.
Jung adverte em seu magnífico ensaio “A função transcendente”6 para o fato de algumas pessoas, em sua busca do Self, exagerarem na estetização da experiência de Deus ou do Self; de algumas subestimarem essa experiência, de algumas super-valorizarem a mesma e de outras que, não estando preparadas para ela, saem feridas. No entanto, ainda outras descobrirão um jeito de cumprir o que Jung chamou de “obrigação moral” de sobreviver e de exprimir o que foi aprendido na descida ou na subida até o Self selvagem.
Essa obrigação moral da qual ele fala significa viver aquilo que percebemos, seja o que for encontrado nos campos elísios da psique, nas ilhas dos mortos, nos desertos de ossos de La Loba, na vertente da montanha, nos rochedos do mar, na riqueza do mundo subterrâneo — em qualquer lugar onde La Que Sabé sopre sobre nós, nos transformando. Nossa função é a de mostrar que recebemos esse sopro — demonstrá-lo, divulgá-lo, cantá-lo, vivenciar no mundo aqui em cima o que recebemos através de percepções repentinas da história, do corpo, dos sonhos e das viagens de todos os tipos.
La Loba faz um paralelo com os mitos universais nos quais os mortos são ressuscitados. Na mitologia egípcia, Ísis cumpre essa tarefa para seu irmão morto, Osíris, que é esquartejado pelo irmão mau, Set, todas as noites. Isis trabalha desde o anoitecer até o amanhecer todas as noites para restaurar o corpo do irmão antes da manhã, se não o sol não nascerá. O Cristo levantou Lázaro, que estava morto há tanto tempo que “cheirava mal”. Deméter chama sua pálida filha Perséfone de volta da Terra dos Mortos uma vez por ano. E La Loba canta sobre os ossos.
Essa é a nossa técnica de meditação enquanto mulheres, a evocação de aspectos mortos e desagregados de nós mesmas, a evocação de aspectos mortos e desagregados da própria vida. Aquele que recria a partir do que está morto é sempre um arquétipo de duas faces. A Mãe Criadora é sempre também a Mãe Morte, e vice-versa. Em virtude dessa natureza dual, ou dessa duplicidade de função, a grande tarefa diante de nós consiste em aprender a compreender à nossa volta e dentro de nós exatamente o que deve viver e o que deve morrer. Nossa tarefa reside em captar a situação temporal de cada um: permitir a morte àquilo que deve morrer, e a vida ao que deve viver.
Para as mulheres, Rio Abajo Rio, o mundo do rio por baixo do rio, o lar da Mulher dos Ossos, contém conhecimentos diretos a respeito de mudas de plantas, rizomas, a semente da origem do mundo. No México, diz-se que as mulheres têm a luz de la vida. Essa luz está localizada, não no coração da mulher, não atrás dos seus olhos, mas en los ovarios, onde todas as sementes estão armazenadas antes mesmo que ela nasça. (Para os homens que explorarem as idéias profundas da fertilidade e da natureza da semente, a imagem que se aplica é a da bolsa peluda, o escroto.)
É esse o conhecimento adquirido quando nos aproximamos da Mulher Selvagem. Quando La Loba canta, ela está cantando a partir do saber contido nos ovários, um conhecimento que vem das profundezas do corpo, do fundo da mente, do fundo da alma. Os símbolos da semente e dos ossos são muito semelhantes. Se tivermos o rizoma, a base, a parte original, se tivermos o trigo para semear, qualquer dano poderá ser reparado, qualquer devastação poderá ser corrigida com outra semeadura, os campos podem ficar em pousio, as sementes duras podem ser postas de molho para que amaciem, para ajudá-las a abrir e brotar.
Dispor da semente significa ter o acesso à vida. Conhecer os ciclos da semente significa dançar com a vida, dançar com a morte, dançar de volta à vida. A natureza da Mulher Selvagem nas mulheres é a da mãe da vida e da morte em sua forma mais antiga. Como gira nesses ciclos constantes, eu a chamo de mãe da vida-morte-vida.
Se algo está perdido, é a ela que devemos recorrer, com quem devemos falar, a quem devemos prestar atenção. Seus conselhos psíquicos são às vezes ásperos ou difíceis de pôr em prática, mas sempre têm a capacidade de transformar e de restaurar. Portanto, quando algo está perdido, precisamos procurar a velha que sempre vive na pelve esquecida. Ela vive ali, meio dentro e meio fora do fogo criador. É um lugar perfeito para a mulher morar, bem ao lado dos huevos férteis, seus óvulos, suas sementes femininas. Ali tanto as idéias minúsculas quanto as mais importantes estão esperando que nossa mente e nossos atos as manifestem.
Essa velha La Loba é a quintessência da mulher de dois milhões de anos.7 7 Ela é a Mulher Selvagem original que vive debaixo da terra e, no entanto, sobre o seu solo. Ela vive dentro de nós e nos transcende; nós somos cercadas por ela. Os desertos, os bosques e a terra debaixo das nossas casas têm pelo menos dois milhões de anos.
Sempre me intrigou como as mulheres gostam de cavar a terra. Elas plantam bulbos para a primavera. Elas enfiam dedos enegrecidos no solo estercado para transplantar mudas perfumadas de tomateiros. Acho que estão cavando para encontrar a mulher de dois milhões de anos. Estão procurando seus dedos e suas patas. Querem encontrá-la como um presente para si mesmas, pois com ela sentem-se inteiras e em paz.
Sem ela, ficam irrequietas. Muitas mulheres com quem trabalhei durante todos esses anos começavam sua primeira sessão com alguma variação em torno da seguinte frase: “Bem, não me sinto mal, mas também não me sinto bem.” Para mim, essa condição não é um mistério tão grande assim. Sabemos que ela tem como origem uma falta de esterco. A cura? La Loba. Descubram a mulher de dois milhões de anos. Ela é quem cuida do que já morreu e do que está morrendo nas mulheres. Ela é o caminho entre os vivos e os mortos. É ela quem canta os hinos da criação sobre os ossos.
A velha, a Mulher Selvagem, é La Voz Mitológica. Ela é a voz mítica que conhece o passado e nossa história ancestral e mantém esse conhecimento registrado nas histórias. Às vezes sonhamos que ela é uma voz maravilhosa, porém incorpórea.
Como donzela-megera, ela nos revela o que significa ser, não ressecada, mas enrugada. Os bebês nascem enrugados de instinto. Eles sabem do fundo dos ossos o que é certo e o que deve ser feito. É inato. Se uma mulher conseguir manter esse dom de ser velha quando jovem e jovem quando velha, ela sempre saberá o que vem depois. Se ela tiver perdido esse dom, ainda poderá recuperá-lo com algum exercício psíquico deliberado.
Na história de La Loba, a velha no deserto é uma recolhedora de ossos. Na simbologia arquetípica, os ossos representam a força indestrutível. Eles não se prestam a uma fácil redução. Por sua estrutura, é difícil queimá-los e praticamente impossível pulverizá-los. Nos mitos e nas histórias, eles representam a alma/espírito indestrutível. Sabemos que a alma/espírito pode ser ferida, até mesmo mutilada, mas é quase impossível eliminá-la.
Pode-se amassar a alma e dobrá-la. Pode-se feri-la e marcá-la com cicatrizes. Podem-se deixar nela os sinais da doença e as queimaduras do medo. Mas ela não morre, pois está protegida por La Loba no mundo subterrâneo. Ela é tanto quem descobre os ossos quanto quem os incuba.
Os ossos têm peso suficiente para machucar; são afiados o bastante para cortar a carne e, quando velhos e forçados, tilintam como o vidro. Os ossos dos vivos têm vida e são criaturas em si. Eles se renovam constantemente. Um osso vivo tem uma “pele” de uma estranha suavidade. Ele parece ter certas capacidades que lhe permitem a auto-regeneração. Mesmo um osso seco ainda pode abrigar pequenos seres vivos.
Os ossos de lobo nessa história representam o aspecto indestrutível do Self selvagem, a natureza instintiva, a criatura dedicada à liberdade e ao que permanece incólume, que jamais aceitará os rigores e as exigências de uma civilização morta ou excessivamente civilizadora.
As metáforas dessa história exemplificam o processo completo para devolver a mulher aos seus plenos sentidos selvagens instintivos. Dentro de nós, vive a velha que recolhe os ossos. Dentro de nós estão os ossos espirituais da Mulher Selvagem. Dentro de nós está o potencial de readquirir nossa carne, como a criatura que um dia fomos. Dentro de nós estão os ossos para que nos modifiquemos bem como ao nosso mundo. Dentro de nós estão nosso fôlego, nossas verdades e nossos anseios — juntos eles são a canção, o hino da criação que sempre desejamos entoar.
Isso não quer dizer que devamos sair por aí com o cabelo desgrenhado ou com garras enegrecidas no lugar das unhas. É, continuamos humanas, mas dentro da mulher humana está o Self animal instintivo. Não se trata de nenhum personagem romântico de desenho animado. Ela tem dentes de verdade, um rosnado real, uma generosidade imensa, uma capacidade inigualável para ouvir, garras afiadas, seios generosos e peludos.
Esse Self/mulher-lobo deve ter liberdade para se movimentar, para falar, para ter raiva e para criar. Esse Self é duradouro, possui boa capacidade de recuperação e grande intuição.
É um Self formado nas questões espirituais do nascimento e da morte.
Hoje La Loba dentro de vocês está recolhendo ossos. O que ela está recriando? Ela é o Self da alma, a construtora do lar da alma. Ella lo hace a mano, ela faz e refaz a alma à mão. O que ela está fazendo para você?
Mesmo no melhor dos mundos, a alma precisa de uma renovação ocasional. À semelhança das construções de adobe no sudoeste norte-americano, aqui descascou um pouco, ali caiu um pedaço, acolá a água desmanchou. Sempre se vê uma velha gorda com chinelos consertando as paredes de adobe com uma lama mole. Ela mistura palha, água e terra e aplica essa mistura sobre as paredes, alisando-as de novo. Sem ela, a casa perde sua forma. Sem ela, a casa pode virar uma massa informe depois de uma chuvarada.
La Loba é a guardiã da alma. Sem ela, perdemos nossa forma. Sem uma linha direta com ela, diz-se que os seres humanos ficam desalmados ou que sua alma está perdida. Ela dá forma à casa da alma e constrói mais com suas próprias mãos. Ela é a que usa um avental velho. Ela é a que tem um vestido mais comprido na frente do que atrás. Ela é a que dá pancadinhas, alisa, afaga. Ela é a criadora de almas, de lobos, a guardiã do lado selvagem.
Portanto, em termos imagísticos — quer você seja um lobo negro, um cinzento do norte, um vermelho do sul, quer seja um branco do Ártico — você é a perfeita criatura instintiva. Embora algumas pessoas preferissem que você se comportasse e não demonstrasse alegria exagerada ao dar as boas-vindas a alguém, faça-o de qualquer jeito. Haverá quem se afaste de você com medo ou repulsa. A pessoa amada irá, porém, valorizar esse seu novo aspecto — se ele ou ela for a pessoa certa para você.
Algumas pessoas não apreciarão sua atitude de dar uma cheirada em tudo para ver o que é. E, pelo amor de Deus, nada de se deitar de costas no chão com as patas para cima. Menina feia. Lobo feio. Cachorro feio. Certo? Errado. Não ligue. Divirta-se.
As pessoas fazem meditação para conseguir um equilíbrio psíquico. É por isso que se faz psicoterapia e análise. É para isso que os seres humanos analisam seus sonhos e criam arte.
É por isso que muitos consultam o tarô, o I Ching, dançam, batucam, fazem teatro, arrancam poemas das entranhas e criam a oração iluminada. É por isso que fazemos tudo o que fazemos. Trata-se da tarefa de reunir todos os ossos. Em seguida, devemos nos sentar diante do fogo para decidir qual canção usaremos para cantar sobre os ossos, que hino da criação, que hino da recriação. E as verdades que dissermos formarão a canção.
Existem algumas boas perguntas a fazer enquanto decidimos qual será a canção, nosso verdadeiro canto. O que aconteceu com a voz da minha alma? Quais são os ossos enterrados na minha vida? Em que condições está meu relacionamento com o Self instintivo? Quando foi a última vez que corri livremente? Como posso fazer com que a vida volte a ter vida? Para onde foi La Loba?
Na história, a velha canta sobre os ossos e, enquanto ela canta, a carne começa a recobri-los. Nós também “nos tornamos” à medida que derramamos a alma sobre os ossos que encontramos. Enquanto vertemos nossos anseios e nossas mágoas sobre os ossos do que costumávamos ser quando jovens, do que tínhamos conhecimento há séculos, e sobre a aceleração que pressentimos no futuro, ficamos de quatro, inabaláveis. À medida que derramamos a alma, somos revitalizadas. Não somos mais uma solução fraca, algo de frágil que se dissolve. Não. Estamos no estágio da transformação em que estamos “nos tornando”.
Como La Loba, nós quase sempre começamos num deserto. Temos uma sensação de perda de direitos, de alienação, de não estarmos vinculadas nem mesmo a uma moita de cactos. Os antigos chamavam o deserto de lugar da revelação divina. Para as mulheres, porém, ele oferece muito mais do que isso.
0 deserto é um lugar em que a vida se apresenta muito condensada. As raízes das plantas se agarram à última gota d’água, e as flores armazenam umidade abrindo apenas de manhã cedo e ao final da tarde. A vida no deserto é pequena porém brilhante, e quase tudo que acontece tem lugar no subsolo. Essa descrição é semelhante à vida de muitas mulheres.
0 deserto não é exuberante como uma floresta ou a selva. Ele é muito intenso e misterioso nas suas formas de vida. Muitas de nós vivem vidas desérticas: ínfimas na superfície e imensas por baixo. La Loba nos revela as belas conseqüências que podem advir desse tipo de distribuição psíquica.
A psique de uma mulher pode ter chegado ao deserto em virtude da ressonância, devido a crueldades passadas ou por não lhe ter sido permitida uma vida mais ampla a céu aberto. Por isso, muitas vezes uma mulher tem a sensação de estar vivendo num local vazio, onde talvez haja apenas um cacto com uma flor de um vermelho vivo, e em todas as direções 500 quilômetros de nada. No entanto, para aquela que se dispuser a andar 501 quilômetros, existe mais alguma coisa. Uma casa pequena e admirável. Uma velha. Ela está à sua espera.
Algumas mulheres não querem estar no deserto psíquico. Elas detestam a fragilidade, a escassez. Não param de tentar fazer com que um calhambeque enferrujado funcione para que possam descer aos solavancos pela estrada na direção de uma refulgente cidade que fantasiam na psique. Decepcionam-se, porém, pois a exuberância e a vida selvagem não se encontram ali. Elas estão no mundo do espírito, no mundo entre os mundos, Rio Abajo Rio, no rio por baixo do rio.
Não seja tola. Volte, pare debaixo daquela única flor vermelha e siga em frente percorrendo aquele último e árduo quilômetro. Aproxime-se e bata à porta castigada pelas intempéries. Suba até a caverna. Atravesse engatinhando a janela de um sonho. Peneire o deserto e veja o que encontra. Essa é a única tarefa que temos de cumprir.
Está querendo ajuda psicanalítica?
Vá recolher ossos.


Clarissa Pinkola Estes, Mulheres que correm com os lobos