sexta-feira, 15 de junho de 2012

Franz Kafka, A metamorfose




"Gregor não chegou a entrar na sala de estar, mas, de dentro de seu quarto, apoiou-se à folha da porta, de modo que só podia ser vista a metade de seu corpo e sobre ela a cabeça inclinada para o lado, com a qual espreitava os outros lá fora. Nesse meio tempo o dia amanhecera de vez e ficara bem mais claro; visível, do outro lado da rua, mostrava-se o recorte, infindável do edifício cinza-enegrecido oposto – era um hospital -, com suas janelas regulares rompendo de maneira dura a fachada; a chuva ainda caía, mas apenas em pingos grandes, visíveis um a um, e literalmente jogados de forma isolada sobre a terra. Os talheres do café da manhã jaziam em abundância sobre a mesa, pois para o pai o café da manhã era a refeição mais importante do dia, e ele se demorava nela durante horas a ler diferentes jornais. Justo na parede oposta pendia uma fotografia de Gregor, de seus tempos de serviço militar, que o mostrava como tenente, mão na espada, sorrindo despreocupado, e invocando respeito para sua postura e uniforme. A porta que dava para a sala de espera estava aberta e podia-se olhar – visto que a porta de entrada também estava aberta – pelo vestíbulo da casa afora até o início da escada que descia."

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"Inexorável, o pai o empurrava para trás emitindo silvos como se fosse um selvagem. Mas Gregor ainda não tinha nenhuma prática em caminhar de ré, e só conseguia fazê-lo com muita lentidão. Se Gregor apenas pudesse se virar, estaria logo dentro de seu quarto, mas ele temia impacientar seu pai com a perda de tempo empenhada nessa operação, e a cada instante a bengala na mão do pai o ameaçava com um golpe fatal nas costas ou na cabeça. Ao final das contas, no entanto, não restou a Gregor outra coisa a fazer, uma vez que percebera com horror que não lograva sequer manter a direção ao caminhar de ré; de modo que começou a se virar, lançando olhares incessantes e angustiados a seu pai e tentando movimentar-se o mais rápido possível, mas alcançando fazê-lo apenas com muito vagar. Talvez o pai tenha percebido suas boas intenções, pois não perturbou no ato, e até, pelo contrário, ajudou-o no movimento giratório, dando umas pancadinhas aqui e ali com a ponta de sua bengala, mas mantendo-se à distância. Se pelo menos não fosse aquele sibilar insuportável do Pai! Por causa dele Gregor perdeu totalmente a cabeça. Já havia se virado quase por completo quando, sempre ouvindo aquele sibilar, chegou a se confundir, voltando a se virar um pouquinho na direção contrária. Quando, no entanto, enfim se encontrou, feliz, com a cabeça ante a abertura da porta, deu-se conta de que seu corpo era demasiado largo para conseguir passar por ela assim no mais. Ao pai, na situação em que se encontrava, naturalmente também não ocorreu, nem de longe, abrir a outra folha da porta, a fim de arranjar espaço suficiente para que Gregor conseguisse passar. Sua ideia fixa era fazer apenas com que Gregor entrasse o mais rápido possível para dentro de seu quarto. Jamais permitiria também os preparativos circunstanciais que Gregor necessitava para se erguer e talvez, desse modo, conseguir passar pela porta. Ao invés disso, agora impelia Gregor fazendo uma barulheira ainda maior, como se não houvesse nenhum obstáculo à sua frente; a Gregor aquilo já soava como se não fosse apenas a voz de um único pai, no momento parecia de verdade que a coisa não estava mais para brincadeira, e Gregor forçou sua entrada – acontecesse o que quisesse acontecer – pela porta. Um dos lados de seu corpo elevou-se, ele estava deitado em posição oblíqua na abertura da porta; um de seus flancos ficou bastante esfolado, na porta branca e ficaram manchas horríveis e em pouco estava entalado no vão de entrada e não conseguia mais se mover sozinho; as perninhas de um dos lados pendiam tremembundas, soltas ao ar, enquanto as do outro lado se encontravam apertadas dolorosamente ao chão; foi aí que seu pai lhe desferiu um violento golpe por trás – desta vez salvador de verdade – e ele voou, sangrando em abundância, quarto adentro. A porta ainda foi fechada com a bengala, depois enfim ficou tudo em silêncio."

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"Certa vez – já havia passado bem um mês desde a metamorfose de Gregor, e não existia, portanto, nenhum motivo especial para que a irmã ficasse espantada por causa do aspecto de Gregor -, ela veio um pouco mais cedo do que de costume encontrou Gregor quando ele, imóvel e completamente predisposto ao susto, olhava para fora da janela. Para Gregor, o comportamento da irmã não seria inesperado, se ela apenas tivesse desistido de entrar no quarto, uma vez que a posição dele a impedia de abrir logo a janela; mas ela não apenas não entrou no quarto, como também recuou e trancou a porta; um estranho poderia pensar que ela agira assim por pensar que Gregor estava à sua espreita a fim de mordê-la. Naturalmente Gregor se escondeu de imediato sob o canapé, mas teve de esperar até o meio-dia até que a irmã voltasse, e ela parecia bem mais inquieta do que de costume. Por causa disso ele percebeu que seu aspecto ainda era insuportável para ela, que com certeza continuaria a ser insuportável para ela, e que ela tinha de fazer muito esforço para dominar a vontade de fugir correndo  ante à visão do corpo dele, ainda que fosse a mínima de suas partes que sobressaía sob o canapé. A fim de poupá-la também dessa visão, ele um dia carregou sobre as costas – necessitou de quatro horas para o serviço – o lençol da cama, depositando-o sobre o canapé e arrumando-o de modo a cobrir por completo o móvel, e fazendo com que a irmã, mesmo que se acocorasse, não pudesse mais vê-lo. Caso o lençol não fosse necessário na opinião dela, então ela poderia afastá-lo, pois era suficientemente claro que não poderia fazer parte de um dos prazeres de Gregor o ato de encarcerar assim, de todo; mas ela deixou o lençol onde estava o Gregor inclusive acreditou ter surpreendido um olhar de agradecimento em seu rosto, quando certa vez afastou um pouco o lençol com a cabeça a fim de ver como a irmã acolhia a nova instalação.
Nas primeiras duas semanas os pais não conseguiram vencer a própria resistência em chegar até ele, e ele ouviu várias vezes como eles reconheciam plenamente os atuais serviços da irmã, ao passo que até então costumavam se irritar com ela, porque ela lhes parecia ser uma mocinha algo inútil. Agora, no entanto, os dois tinham por hábito esperar, tanto o pai quanto a mãe, ante o quarte de Gregor enquanto a irmã o arrumava; e mal ela havia saído, tinha de contar com precisão qual era o aspecto interior do quarto, o que Gregor havia comido, como ele havia se comportado dessa vez e se por acaso não era possível perceber uma pequena melhora."

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"- Tu, Gregor! – exclamou a irmã de punhos levantados e olhar ameaçados.
Desde a metamorfose eram as primeiras palavras  que a irmã endereçava diretamente a ele. Ela correu ao quarto vizinho a fim de buscar uma essência qualquer com a qual pudesse despertar a mãe do seu desmaio; Gregor também quis ajudar – para a salvação do quadro ainda havia tempo - , mas estava colado firmemente ao vidro e necessitou  se livrar dele com violência; depois correu também ao quarto vizinho, como se pudesse – do mesmo jeito que fazia em tempos passados – dar à irmã algum conselho; mas então teve de ficar parado atrás dela sem faze nada; enquanto vasculhava em diversos frasquinhos, ela ainda acabou levando um susto ao se virar; um dos frascos caiu no chão e quebrou; um estilhaço feriu Gregor no rosto, algum remédio corrosivo correu por ele; Grete cuidou apenas em pegar a maior quantidade possível de frasquinhos, sem se demorar por mais tempo, e correu com eles para dentro, onde estava a mãe; a porta ela bateu com o pé. Gregor ainda estava separado por uma tranca da mãe, que por culpa dele talvez estivesse próxima da morte; a porta ele não deveria abrir, caso não quisesse afastar a irmã, que tinha de ficar junto da mãe; ele não tinha nada a fazer de momento a não ser esperar; e acossado por autocensuras e apreensão, começou a rastejar, rastejou por tudo, paredes, móveis e Toto da sala até cair, enfim – dominado pelo desespero, ao sentir que o aposento inteiro começava a girar em volta dele -, sobre o meio da grande mesa."

Franz Kafka, A metamorfose (trechos)