quarta-feira, 6 de junho de 2012

Raiz de Orvalho

imagem: adolfo valente


Sou agora menos eu 
e os sonhos 
que sonhara ter 
em outros leitos despertaram 

 Quem me dera acontecer 
essa morte
 de que não se morre 
e para um outro fruto 
me tentar seiva ascendendo 
porque perdi a audácia 
do meu próprio destino 
soltei ânsia 
do meu próprio delírio 
e agora sinto 
tudo o que os outros sentem 
sofro do que eles não sofrem
 anoiteço na sua lonjura e 
vivendo na vida 
que deles desertou 
ofereço o mar 
que em mim se abre 
à viagem mil vezes adiada 

 De quando em quando 
me perco 
na procura a raiz do orvalho 
e se de mim me desencontro 
foi porque de todos os homens 
se tornaram todas as coisas 
como se todas elas fossem 
o eco as mãos 
a casa dos gestos 
como se todas as coisas 
me olhassem 
com os olhos de todos os homens 

 Assim me debruço 
na janela do poema 
escolho a minha própria neblina
 e permito-me ouvir 
o leve respirar dos objetos 
sepultados em silêncio 
e eu invento o que escrevo 
escrevendo para me inventar 
e tudo me adormece 
porque tudo desperta 
a secreta voz da infância 

 Amam-me demasiado 
as coisas de que me lembro 
e eu entrego-me 
como se me furtasse 
à sonolenta carícia 
desse corpo que faço nascer 
dos versos 
a que livremente me condeno


Mia Couto