segunda-feira, 9 de julho de 2012

A Medalha


Ela entrou na ponta dos pés. Tirou os sapatos para subir a escada. O terceiro degrau rangia. Pulou-o apoiando-se no corrimão.
— Adriana!
A moça ficou quieta, ouvindo. Teve um risinho frouxo quando se inclinou para calçar os sapatos, Ih! que saco.
Fez um afago no gato que lhe veio ao encontro, esfregando-se na parede. Tomou-o no colo.
— Romi, Romi... Então, meu amor?
— Adriana!
Assustado com o grito, o gato fugiu espavorido pela escada abaixo. Ela prosseguiu sem pressa, arrastando os pés.
O quarto estava iluminado. Empurrou a porta.
— Acordada ainda, mãe?
A mulher fez girar a cadeira de rodas e ficou defronte à porta. Vestia uma camisola de flanela e tinha um casaco de tricô atirado nos ombros. Os olhos empapuçados reduziam--se a dois riscos pretos na face amarela.
— Precisava ser também na véspera do casamento? Precisava ser na véspera? — repetiu a mulher agarrando-se aos braços da cadeira.
— Precisava.
— Cadela. Já viu sua cara no espelho, já viu?
A moça encostou-se no batente da porta. Abriu a bolsa e tirou o cigarro. Acendeu-o. Quebrou o palito e ficou mascando a ponta.
— Acabou, mãe? Quero dormir.
A mulher aproximou mais a cadeira. Fechou no peito cavado a gola do casaco. Falou em voz baixa, com suavidade.
— Na véspera do casamento. Na vés-pe-ra. Você já viu sua cara no espelho? Já se olhou num espelho?
— E daí? O véu vai cobrir minha cara, o véu cobre tudo, ih! tem véu à beça. Vou dar uma beleza de noiva, mãe, você vai ver. Preferia me meter no meu colante preto mas seu genro é romântico, aquelas ondas...
— Cínica. Igualzinha ao pai. Ele ia achar graça se te visse assim, aquele cínico.
— Não fale do meu pai.
— Falo! Um cínico, um vagabundo que vivia no meio de vagabundos, viciado em tudo quanto é porcaria. Você é igual, Adriana. O mesmo jeito esparramado de andar, a mesma cara desavergonhada...
— Ele era bom.
— Bom! Aquilo então era bondade? Hein? Um debochado,
um irresponsável completamente viciado, igualzinho a você.
Imagine, bom... Estou farta desse tipo de bondade, quero gente com caráter, sabe o que é caráter? É o que ele nunca teve, é o que você não tem. Na véspera do casamento...
— Na véspera ou no dia seguinte, que diferença faz?
A mulher sacudiu-se na cadeira.
— Às vezes nem acredito. Uma filha assim, eu não acredito.
A moça esfregou os olhos congestionados. O rímel das pestanas deixou nas pálpebras dois grossos aros de carvão.
— Sou ótima, mãe. Uma ótima menina, é o que todo mundo diz.
A mulher quis abotoar o casaco. Faltavam botões. Fechou a gola na mão.
— Por que não se casa com ele? Hein? Vamos, Adriana,
por que não se casa com ele?
— Com ele quem?
— Com esse vagabundo que acabou de te deixar no portão.
— Porque ele não quer, ora.
— Ah, porque ele não quer — repetiu a mulher. Parecia triunfante. — Gostei da sua franqueza, porque ele não quer.
Ninguém quer, minha querida. Você já teve dúzias de homens e nenhum quis, só mesmo esse inocente do seu noivo...
— Mas ele não é inocente, mãezinha. Ele é preto.
A mulher respirou com dificuldade. Abriu nos joelhos as mãos cor de palha. Inclinou-se para a frente e baixou o tom de voz.
— Por que você diz isso?
Adriana deixou cair o cigarro e vagarosamente esmagou a brasa no salto do sapato. Passou a mão indolente pelos cabelos oxigenados de louro. Apanhou uma ponta mais comprida, levou-a até a cara e ficou brincando com o cabelo no lábio arregaçado.
— Olha só o meu bigode, mãe, agora tenho um bigode!
— Responda, Adriana, por que você diz isso? Que ele é preto.
A moça abriu a boca para bocejar. Desatou a rir.
— Oh! meu Deus... Porque é verdade, querida. E você sabe que é verdade mas não quer reconhecer, o horror que você tem de preto. Bom, não deve ser mesmo muito agradável, concordo, um saco ter uma filha casada com um preto, ih! que saco. Preto disfarçado mas preto. Já reparou nas unhas dele? No cabelo? Reparou, sim, você é tão esperta, um faro! Sou branca, tudo bem, mas meu sangue é podre.
Então é o sangue dele que vai vigorar, entendeu? Seus netos vão sair moreninhos, aquela cor linda de brasileiro.
— Chega, Adriana.
— Não chega não, eu queria dormir, lembra? Então é isso daí, nunca vi ninguém reconhecer preto assim fácil como você, um puta faro. O tipo pode botar peruca, se pintar de ouro e de repente num detalhe, aquele detalhinho...
Inclinou-se para apanhar a bolsa que caiu. Catou vacilante o pente e o espelho, quis ainda alcançar o lápis que rolou no assoalho, desistiu do lápis, Ih!... Levantou-se apertando a bolsa contra o peito, a outra mão apoiada na maçaneta da porta. Respirou penosamente, a boca aberta. Encarou a mulher.
— Tudo bem?
— Tudo bem, Adriana. Tenho é muita pena desse moço.
Seu noivo. Casar com uma coisa dessas, imagine.
— Mas ele vai ser podre de feliz comigo, mãezinha. Podre de feliz. Se encher muito, despacho o negro lá pros States, tem uma cidade lindinha, como é mesmo?... O nome, eu sabia o nome, ah! você já ouviu falar, você adora ler essas notícias, não adora? Espera um pouco... pronto, lembrei, Little Rock! Isso daí, Little Rock. A diversão lá é linchar a negrada.
A mulher retesou-se inteira, como se fosse saltar. Ficou de repente maior, os olhos mais brilhantes. O tronco se aprumou com arrogância, rejuvenescido. Mas, aos poucos, foi afrouxando os músculos. Voltou a diminuir de tamanho, a cabeça inclinada para o ombro. A voz começou baixa.
— Você não pode mais me ferir, Adriana. Ele também não conseguia. O seu pai. Podia fazer o que quisesse, dizer o que quisesse. Não me atingia mais. Ficava aí na minha frente com essa sua cara, a se retorcer feito um vermezinho viciado e gordo...
— Emagreci seis quilos.
— E gordo. Nada mais me atinge, Adriana. É como se ele voltasse, nunca vi uma coisa assim, vocês dois são iguais.
Ele morreu e encarnou em você, o mesmo jeito mole, balofo. Sujo. Na minha família todas as mulheres são altas e magras. Você puxou a família dele, tudo com cara redonda de anão, cara redonda e pescoço curto, olha aí a sua cara. E a mãozinha de dedinho gordo, tudo anão.
Adriana continuava segurando a maçaneta, o corpo vacilante, o risinho frouxo. Apoiara-se numa perna, a outra ligeiramente flexionada. Calçava e descalçava o sapato decotado, com uma fivela de pedrinhas verdes.
— Acabou, querida? Quero dormir.
A luz da manhã já se insinuava na vidraça. A mulher fez um gesto mortiço na direção da janela.
— Fiz o que pude.
— Então, ótimo. Tudo bem, agora queria dormir um pouquinho, posso?
— Um instante ainda — disse a mulher e a voz subiu fortalecida, veemente. — Ah, me lembrei agora, era Naldo, não era? O nome daquele seu primo, o primeiro da lista. Nem quinze anos você tinha, Adriana, nem quinze anos e já se agarrando com ele na escada, emendada naquele devasso.
— Ele não era devasso.
— Não? E aquelas doenças todas? Vivia dependurado em negras, viveu anos com aquela empregada peituda, pensa que não sei?
— Ele não era um devasso. E ele me amou.
— Amou... Fugiu como um rato quando foram pilhados, o safado. Fugiu como fugiram os outros, nenhum quis ficar, Adriana, nenhum. Vi dezenas deles, casados, divorciados, toda uma corja te apertando nas esquinas, detrás das portas, uma corja que nem dinheiro tinha para o hotel. Um por um, fugiram todos.
— Ele me amou.
Um galo tentou prolongar mais seu canto e o som saiu difícil, rouco. A mulher fez um movimento de ombros e o casaco escorregou para o assento da cadeira. Apontou a cômoda.
— Vai, abre aquela caixa ali em cima... Abriu? Tem dentro uma medalha de ouro que foi da minha avó. Depois passou para minha mãe, está me ouvindo, Adriana? Antes de morrer minha mãe me entregou a medalha, nós três nos casamos com ela. Tem também a corrente, procuro depois.
Você se casa amanhã, hum? Leva a medalha, é sua.
(...)


Lygia Fagundes Telles, A Medalha