sexta-feira, 6 de julho de 2012

O meu eu triste



Por vezes quando tenho os olhos vermelhos
subo ao cimo do Edifício RCA
e contemplo o meu mundo, Manhattan -
os meus edifícios, as ruas das minhas proezas,
apartamentos, camas, andares de águas correntes
- a 5ª Avenida em baixo que também recordo
os seus carros como formigas, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham, do tamanho de bolas de lã -
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
o pôr do sol sobre New Jersey onde nasci
e Paterson onde brinquei com formigas -
os meus amores tardios na Rua 15,
os meus maiores amores no Lower East Side,
as minhas antigas paixões fabulosas no distante
Bronx -
caminhos cruzando-se nestas ruas escondidas,
a minha história resumida, as minhas ausências
e êxtases em Harlem -
- o sol a brilhar em tudo o que possuo
num relance até ao horizonte
na minha última eternidade -
a matéria e a água.

Triste,
apanho o elevador e desço,
ruminando,
e caminho nos passeios questionando as vidraças humanas, caras,
perguntando-me quem ama,
e paro, atónito
em frente da montra de um stand de automóveis
perdido em pensamentos tranquilos,
o tráfico passando pelo edifício da 5ª Avenida, atrás de mim
esperando um momento quando...

São horas de ir para casa e fazer o jantar e ouvir
na rádio as românticas notícias da guerra
... todo o movimento se detém
e eu a caminho na tristeza intemporal da existência,
com ternura a escorrer dos prédios,
com as pontas dos dedos tocando a cara da realidade,
a minha própria cara riscada por lágrimas de vidro
de uma janela - no crepúsculo -
em que não desejo -
bombons - ou possuir os vestidos ou os quebra-luzes
japoneses de compreensão -
Confundido pelo espectáculo à minha volta,
Um homem pela rua acima lutando
com pacotes, jornais,
gravatas, fatos elegantes
em direcção ao seu desejo
Homens, mulheres, jorrando pelos passeios
semáforos marcando o tempo de relógios apressados e
o movimento na berma -

E todas estas ruas que se cruzam,
buzinando, pausadamente,
em avenidas
onde grandes edifícios se erguem ou enquistadas em vielas
pelo tráfico vacilante
carros que guincham e máquinas
tão doloroso para este
campo, este cemitério
esta quietude
em leito de morte ou montanha
que visto uma vez
não se recupera ou deseja
na memória futura
em que todo o Manhattan que vi irá desaparecer


Allen Ginsberg 
Tradução: José Alberto Oliveira