sábado, 14 de julho de 2012

Uma Temporada no Inferno



Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde se abriam todos os corações, onde todos os vinhos corriam.
Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. - E achei-a amarga. - E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras, ó miséria, ó ódio, a vós é que meu tesouro foi confiado.
Consegui fazer desvanecer-se em meu espírito toda a esperança humana. Sobre toda alegria, para estrangulá-la, dei o salto surdo da fera.
Chamei os carrascos para, perecendo, morder a coronha de seus fuzis. Chamei as calamidades, para me sufocar com a areia, com o sangue. O infortúnio foi o meu deus. Estendi-me na lama. Sequei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera me trouxe o pavoroso riso do idiota.
Ora, muito recentemente, quando eu estava quase nas últimas, pensei em procurar a chave do antigo festim, onde eu recobraria talvez o apetite.
A caridade é essa chave. - Esta inspiração prova que sonhei.
"Permanecerás hiena, etc..." exclamou o demônio que me coroou de tão gentis papoulas. "Ganha a morte com todos os teus apetites, e o teu egoísmo e todos os pecados capitais."
Ah! foi o que fiz e por demais! - Todavia, caro Satã, por favor, tende para mim um olhar menos irritado! e enquanto ficais à espera de umas tantas covardiazinhas em atraso, e já que apreciais no escritor a ausência das faculdades descritivas ou instrutivas, destaco para vós estas poucas hediondas folhas de meu caderno de réprobo.


Arthur Rimbaud
Tradução de Lêdo Ivo