sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Gabriel García Marquez, Cem anos de solidão



Num domingo, às seis horas da tarde, Amaranta Úrsula sentiu a premência do parto. A sorridente parteira das garotas que se deitavam por causa da fome fez com que ela subisse na mesa da sala de jantar, montou a cavalo no seu ventre e a maltratou com galopes selvagens até que seus gritos foram silenciados pelo choro de um varão formidável. Através das lágrimas, Amaranta Úrsula viu que era um Buendía dos grandes, socado e voluntarioso como os Josés Arcadios, com os olhos abertos e clarividentes dos Aurelianos e predisposto a começar a estirpe outra vez do princípio e purificá-la dos seus vícios perniciosos e da sua vocação solitária, porque era o único em um século que tinha sido engendrado com amor.
- É um antropófago perfeito - disse - vai se chamar Rodrigo.
- Não - contradisse o marido. - Vai se chamar Aureliano e ganhar trinta e duas guerras.

Depois de cortar o umbigo, a parteira pôs-se a remover com um trapo o ungüento azul que lhe cobria o corpo, iluminada por Aureliano com uma lâmpada. Só quando o viraram de costas é que perceberam que ele tinha alguma coisa a mais que o resto dos homens e se inclinaram para examiná-lo. Era um rabo de porco.

Não se alarmaram. Aureliano e Amaranta Úrsula não conheciam o precedente familiar nem se lembravam das pavorosas admoestações de Úrsula, e a parteira acabou de tranqüilizá-los com a suposição de que aquele rabo inútil poderia ser cortado quando o menino mudasse os dentes. Depois não tiveram mais ocasião de tornar a pensar nisso, porque Amaranta Úrsula sangrava um manancial inesgotável. Tentaram socorrê-la com ataduras de teia de aranha e cinza socada, mas era como querer tapar uma fonte com as mãos. Nas primeiras horas, ela fazia esforços para conservar o bom humor. Pegava na mão do assustado Aureliano e suplicava que não se preocupasse, que gente como ela não tinha sido feita para morrer contra a vontade e rolava de rir dos recursos truculentos da parteira. Mas à medida que as esperanças abandonavam Aureliano, ela ia se fazendo menos visível, como se a estivessem apagando da luz, até que se afundou na sonolência. Na madrugada da segunda-feira trouxeram uma mulher que rezou junto à cama orações de cauterização, infalíveis em homens e animais, mas o sangue apaixonado de Amaranta Úrsula era insensível à qualquer artifício diferente do amor. De tarde, depois de vinte e quatro horas de desespero, souberam que estava morta porque o caudal se extinguiu sem auxílios e o seu perfil se afilou e as florações da cara se desvaneceram numa aurora de alabastro e tornou a sorrir.

Aureliano não compreendera até então quanto gostava de seus amigos, quanta falta lhe faziam e quanto teria dado para estar com eles naquele momento. Colocou o menino na cestinha que a mãe tinha preparado para ele, tapou a cara do cadáver com uma manta e vagou sem rumo pelo povoado deserto, procurando um desfiladeiro de volta ao passado. Bateu na porta da farmácia, onde não tinha estado nos últimos tempos, e o que encontrou foi uma oficina de carpintaria. A anciã que abriu a porta com uma lâmpada na mão compadeceu-se do seu desvario e insistiu em que não, que ali nunca tinha havido uma farmácia, nem nunca havia conhecido uma mulher de colo esbelto e olhos sonhadores que se chamasse Mercedes. Chorou com a testa apoiada na porta da antiga livraria do sábio catalão, consciente de que estava pagando os prantos atrasados de uma morte que não quisera chorar no seu devido tempo para não quebrar os feitiços do amor. Quebrou os punhos contra os muros de argamassa de O Menino de Ouro, clamando por Pilar Ternera, indiferente aos luminosos discos alaranjados que cruzavam o céu e que tantas vezes tinha contemplado com uma fascinação pueril, nas noites de festa, do pátio dos socós. No último salão aberto do desmantelado bairro de tolerância, um conjunto de acordeões tocava as canções de Rafael Escalona, o sobrinho do bispo, herdeiro dos segredos de Francisco, o Homem. O dono da cantina, que tinha um braço seco e como que torrado por tê-lo levantado contra a mãe, convidou Aureliano a tomar uma garrafa de aguardente, e Aureliano convidou-o a tomar outra. O dono da cantina falou da desgraça do seu braço. Aureliano falou da desgraça do seu coração, seco e como que torrado por havê-lo erguido contra a irmã. Acabaram chorando juntos e Aureliano sentiu por um momento que a dor tinha terminado. Mas quando tornou a ficar sozinho na última madrugada de Macondo, abriu os braços na metade da praça, disposto a acordar o mundo inteiro e gritou com toda a sua alma:

— Os amigos são uns filhos da puta!

Nigromanta resgatou-o de um charco de vômito e lágrimas. Levou-o para o seu quarto, limpou-o, fez com que tomasse uma xícara de caldo. Acreditando que isso o consolava, riscou com um traço de carvão os inumeráveis amores que ele continuava lhe devendo e evocou voluntariamente as suas tristezas mais solitárias para não deixá-lo sozinho no pranto. Ao amanhecer, depois de um sono ruim e breve, Aureliano recobrou a consciência da sua dor de cabeça. Abriu os olhos e se lembrou da criança.

Não a encontrou na cestinha. No primeiro impacto, experimentou uma explosão de alegria, pensando que Amaranta Úrsula tinha despertado da morte para se ocupar da criança. Mas o cadáver era uma montanha de pedras sob a manta. Consciente de que ao chegar tinha encontrado aberta a porta do quarto, Aureliano atravessou a varanda saturada pelos  suspiros matinais do orégão e chegou à sala de jantar, onde ainda estavam os escombros do parto: a panela grande, os lençóis ensangüentados, os cestos de cinza e o torcido umbigo da criança numa fralda aberta sobre a mesa, junto à tesoura e ao fio de seda. A idéia de que a parteira voltara por causa do menino no decorrer da noite proporcionou-lhe uma pausa de sossego para pensar. Jogou-se na cadeira de balanço, a mesma em que se sentara Rebeca nos tempos originais da casa, para dar aulas de bordado, e em que Amaranta jogava xadrez chinês com o Coronel Gerineldo Márquez, e em que Amaranta Úrsula costurava a roupinha da criança; e naquele relâmpago de lucidez teve consciência de que era incapaz de aguentar sobre a sua alma o peso esmagador de tanta coisa acontecida. Ferido pelas lanças mortais das tristezas próprias e alheias, admirou a impavidez da teia de aranha nas roseiras mortas, a perseverança do mato, a paciência do ar na radiante manhã de fevereiro. E então viu a criança. Era uma pelasca inchada e ressecada que todas as formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente para os seus canais pelo caminho de pedras do jardim. Aureliano não conseguiu se mover. Não porque estivesse paralisado pelo horror, mas porque  naquele instante prodigioso revelaram-se as chaves definitivas de Melquíades e viu a epígrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada no tempo e no espaço dos homens: O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas.

Em nenhum ato da sua vida Aureliano tinha sido mais lúcido do que quando esqueceu os seus mortos e a dor dos seus mortos e tornou a pregar as portas e as janelas com as cruzes de Fernanda, para não se deixar perturbar por nenhuma tentação do mundo, porque agora sabia que nos pergaminhos de Melquíades estava escrito o seu destino. Encontrou-os intactos, entre as plantas pré-históricas e os charcos fumegantes e os insetos luminosos que tinham desterrado do quarto qualquer vestígio da passagem dos homens pela terra, e não teve serenidade para levá-los para a luz, mas ali mesmo, de pé, sem a menor dificuldade, como se estivessem escritos em castelhano sob o brilho deslumbrante do meio-dia, começou a decifrá-los em voz alta. Era a história da família, escrita por Melquíades inclusive nos detalhes mais triviais, com cem anos de antecipação. Redigira-a em sânscrito, que era a sua língua materna, e cifrara os versos pares com o código privado do imperador Augusto e os ímpares com os códigos militares lacedemônios. A proteção final, que Aureliano começava a vislumbrar quando se deixou confundir pelo amor de Amaranta Úrsula, radicava em Melquíades ter ordenado os fatos não no tempo convencional dos homens, mas concentrando tudo em um século de episódios cotidianos, de modo que todos coexistiram num mesmo instante. Fascinado pela descoberta, Aureliano leu em voz alta, sem saltos, as encíclicas cantadas que o próprio Melquíades fizera Arcadio escutar e que, na realidade, eram as predições da sua execução, e encontrou anunciado o nascimento da mulher mais bela do  mundo que estava subindo ao céu de corpo e alma, e conheceu a origem de dois gêmeos póstumos que renunciavam a decifrar os pergaminhos, não só por incapacidade e inconstância, mas porque as suas tentativas eram prematuras. Neste ponto, impaciente por conhecer a sua própria origem, Aureliano deu um salto. Então começou o vento, fraco, incipiente, cheio de vozes do passado, de murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às nostalgias mais persistentes. Não o percebeu porque naquele momento estava descobrindo os primeiros indícios do seu ser, num avô concupiscente que se deixava arrastar pela frivolidade através de um ermo alucinado, em busca de uma mulher formosa a quem não faria feliz. Aureliano o reconheceu, perseguiu os caminhos ocultos da sua descendência e encontrou o instante da sua própria concepção entre os escorpiões e as borboletas amarelas de um banheiro crepuscular, onde um operário saciava a sua luxúria com uma mulher que se entregava a ele por rebeldia. Estava tão absorto que também não sentiu a segunda arremetida do vento, cuja potência ciclônica arrancou das dobradiças as portas e as janelas, esfarelou o teto da galeria oriental e desprendeu os cimentos. Só então descobriu que Amaranta Úrsula não era sua irmã, mas sua tia, e que Francis Drake tinha assaltado Riohacha só para que eles pudessem se perseguir pelos labirintos mais intrincados do sangue, até engendrar o animal mitológico que haveria de pôr fim à estirpe. Macondo já era um pavoroso rodamoinho de poeira e escombros, centrifugado pela cólera do furacão bíblico, quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo com fatos conhecidos demais e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando-o à medida que o vivia, profetizando-se a si mesmo no ato de decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse vendo a si mesmo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias da sua morte. Entretanto, antes de chegar ao verso final já tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.


Gabriel García Marquez, Cem anos de solidão