quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Inês Pedrosa, Fazes-me Falta

Aranta Sestayo


36. Por que te escolho, neste sussurro sem retorno? Por que te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui?
Morreste-me antes que eu morresse - e não consigo morrer sem ti! Nunca consegui. Todos os dias da minha vida estive contigo como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti. Como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti. Mais delicadas, mais ritmadas, mais claras - menos tu.
Arrumei os amores, é a primeira regra da vida - saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição - como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma - por que se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?
Passávamos horas ao telefone. A repetir ao pormenor todas as novidades do dia. A especular sobre as causas ocultas de cada gesto ou palavra dos nossos amantes. A projetar obras grandiosas que nos elevariam ao Olimpo da inteligência. A anotar os pormenores maus das pessoas boas. A esfaquear metodicamente as pessoas más. A fazer de conta que éramos os melhores e os piores do mundo. A escutar em estereofonia a faixa mais bonita do mais recente disco de cada um. Por isso nunca fui capaz de perceber as distinções entre conversas de homem e conversas de mulher. Tu eras tão mulher como eu, eu era tão homem como tu - e cada um de nós tinha sexo, claro, tudo entre nós era sexo, sexo sublime, sem ranger de molas, desgaste de corpos, sem o melancólico ritual do frenesim e do repouso que reduz a paixão a cinzas.
Fartaste-te do meu corpo, mesmo abstrato? Em que dia me abandonaste? Em que palavra a minha voz se partiu? Que sombra se abriu por dentro dos teus olhos para despedaçar a minha imagem? Nos meus pesadelos, um abutre rondava o teu cérebro e comia-te vivo. Rir-te-ias, se te contasse, havias de dizer, como das outras vezes: "Contigo os psis não enriqueciam. A tua alma parece, não te ofendas, um filme pornô. Está lá tudo escancarado, com gemidos e chicotes." Nunca soube viver sem ti - encontrava-te em todos os sonhos, à beira de uma explicação que nunca chegava mas que eu sabia existir. Um dia, no nosso próximo almoço de conveniência, tu dirias: "Zanguei-me quando tu fizeste isto e disseste aquilo." E eu dir-te-ia que foi sem querer, e voltaríamos a ser o nó intacto de antigamente.
Foi sem querer. Se deixei de te comover, de te divertir, de te inspirar, meu querido, foi sem querer. Se perdi a capacidade de te ferir e fazer sangrar, foi sem querer. Foi sem querer que te copiei, para não te perder, para não perceberes que eu se calhar não era capaz. Foi sem querer que se calhar não fui mesmo capaz - preguiçosa, timorata, escondida na gruta da perfeição impossível. Foi sem querer que morri, em vez de ter engolido uns comprimidos e pegado num telefone para te dizer que me estava a matar.
Nunca soube ser mulher para essas coisas. Sempre pertenci ao clube das fortes. (...)
É verdade que nem tu me mereceste tanto - continuei a falar contigo, na minha sala silenciosa, lágrima a lágrima, até a morte decidiu vir buscar-me. Mas não te preocupes: foi apenas uma coincidência, e foram necessários quase dois anos de conversas assim, num silêncio bêbado de risos antigos, para que a coincidência acontecesse. E foi sem querer. Se eu imaginasse que continuaria por dentro da morte a chorar por ti, ter-te-ia procurado em vida para te matar.
Escrevi-te cartas - as mais sinceras não cheguei a enviar-te, porque não eram tão geniais como eu queria que tu me visses. Às outras, literariamente inatacáveis, não respondeste. O departamento de salvação era comigo; tu não eras tão arrogante. Amavas por prazer, que só o prazer entrega a arte - demência que o amor é. Eu amava-te com narcisismo e vontade de poder. Só davas o que eu te pedia; nunca te ocorreria correr de extintor na mão para me salvar de fogos que eu não tivesse detectado ainda.
Eu queria salvar o mundo. Queria também que me vissem a salvar o mundo, sim. Tinha ideias muito precisas sobre como o fazer. Eu saberia exatamente como estimular o funcionário público para que desse o seu melhor, como acabar com os privilégios dos ricos e distribuir os excedentes do mundo pelos pobres, como animar os jovens e fazer descer a curva da criminalidade. Tudo era uma questão de ideias simples, investimento maciço na ingenuidade humana, na qual já ninguém parecia acreditar.
Sabia também exatamente como acabar com a tristeza ou solidão de qualquer dos meus amigos. A minha casa era um hotel particular de grande movimento. Às vezes magoava-me ligeiramente ouvir, às seis da manhã, depois de uma noite inteira a requentar corações:
- Tu não és capaz de viver sozinha - num tom insidiosamente paternalista. Eu a aguentar o sorriso com uma grua imaginária, pensando nos meus livros, nos testes para corrigir, no estado em que chegaria à reunião da manhã seguinte, e afinal, aquele coração maltratado estava ali a fazer-me um favor. A beber o meu whisky, o meu sono, a parte mais generosa do meu coração, e afinal só porque eu não era capaz de viver sozinha.
É verdade que não sou capaz de morrer sozinha. Ninguém é.
Mas morre-se melhor quando não ouvimos a morte a bater à porta, quando ela nos irrompe pela casa como uma visita inesperada.
Sempre gostei de visitas inesperadas - nisso éramos completamente diferentes. Sonhei a vida inteira com uma festa-surpresa que nunca me fizeram - a páginas tantas, tu e todos os outros começaram a dizer-me que já não era possível fazerem-me a tal festa, porque eu vivia em ansiedade à espera dela. "Já não seria surpresa, percebes?" Não, nunca percebi. O Natal não deixava de ser uma surpresa só porque eu já sabia que ele ia chegar. Vivia a sonhar com esse dia em que um de vocês me atrairia a um restaurante à beira mar onde estariam todos os meus amigos e amores, rodeados de rosas brancas e balões coloridos, com um piano e a guitarra do Pascoal, para me receberem em apoteose ao som de "A Sombra das Nuvens no Mar".
Deus não tem particular queda para a música - afinou alguns pássaros, certos tipos de chuva e as ondas do mar, mas deixou aos homens o sublime do som. Sempre tive a impressão de que Deus era mulher - e a Sua falta de talento para a música, se acreditarmos nas análises estatísticas sobre o sexo dos grandes compositores, prova-o. Outra prova é esta Sua compaixão para com as saudades que tenho de ti - uma forma de malícia, claro, mas nem por isso menos compassiva. Faz-me falta a música para dançar ao teu lado neste noante em que vogo. Tive a minha festa-surpresa, sim, apareceram-me todos, carregados de flores, ao lado do caixão. Mas só tu cantas encostado ao gelo da minha boca azul.


Inês Pedrosa, Fazes-me Falta