sexta-feira, 14 de setembro de 2012

À margem dum soneto


 A poetisa, vestida de veludo branco e negro como uma andorinha, estendeu a mão delgada, onde as unhas punham um reflexo de jóias, ao visitante que surgia à porta da salinha iluminada.

As grandes flores dos cretones claros davam ao pequeno aposento um ar alegre de festa íntima. O irradiador aceso espalhava por todo ele uma temperatura deliciosa. Nas paredes, pratos da china preciosos; uma praça de aldeia cheia de sol, de Alberto Sousa. Aqui e ali, espalhados por colunas e mesinhas, os sorrisos amigos de meia dúzia de fotografias. Três jarras enormes, ajoujadas de camélias brancas, puríssimas, lembrando, na sua gelada perfeição, exangues flores de cera.

Lá fora, a tarde de Novembro desdobrava-se em véus lutuosos, encostava-se às vidraças como cortinados de burel pardo, opacos e pesados. O mugido das sirenas rasgava as sombras do crepúsculo em gemidos lamentosos, carregados de desolação e tristeza.

─ Sabe? Fechei hoje o meu livro de versos…

E num sorriso radioso:

─ Com um belo soneto!

O sorriso dele tornou-se mais caricioso, deu-lhe maior luminosidade aos olhos sérios, distendeu-lhe as linhas duras da boca de lábios finamente desenhados.

Sentou-se na cadeira que ela lhe indicava, circunvagou pela salinha, acolhedora e íntima, um olhar satisfeito e murmurou:

─ Diga.

A poetisa concentrou-se, fixou os olhos num ponto do espaço, num olhar já vago como afogado em sonho e, docemente, numa doce voz macia e triste, começou, enquanto desfiava num gesto inconsciente as grandes contas do seu colar cor-de-rosa:

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes
Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada!

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada!

Pesadelos de insónia ébrios de anseio!
Loucura a esboçar-se, a anoitecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!…

Um longe silêncio… As sirenas mugiam lá fora, cada vez mais lamentosas e mais tristes. Uma camélia desabou de repente, numa chuva de pétalas sobre o tapete.

─ Então? ─ pronunciou a poetisa, baixinho.

E a voz dele, comovidamente, murmurou:

 ─ Como você é dolorosa! Dir-lhe-ia bem o nome de irmãzinha das dores. Nos seus olhos parece caber toda a tristeza deste mundo, a sua boca é já um belo verso doloroso e a sua voz é a própria dor em música…

E repetiu o último terceto:

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!

─ Lá beauté est douloreuse… já o disse Anatole.

Fez-se de novo um grande silêncio, que a voz dele quebrou subitamente:

─ Esse soneto com que você vai fechar as portas douradas do seu belo livro, soneto que a explica e que ao mesmo tempo a envolve, faz-me lembrar um caso que muito me interessou nesta minha última peregrinação pelos hospitais de Paris. Se não receasse entristecê-la, contava-lho.

─ Conte ─ respondeu ela simplesmente, estendendo-lhe a mão, que ele beijou.

─ Recorda-se da romancista brasileira que um dia me apresentou naquela festa em casa de seus pais? E do major L., que por ela se apaixonou nessa ocasião? Sabe que se casaram em Paris, há uns dois anos? Pois bem, é deles que se trata, ou por outra, dele. Fui encontrá-lo num hospital de alienados em Paris, este Verão.

E perante o olhar interrogador dela:

─ Não sabia? ─ e noutro tom: ─ Dá-me licença?

Puxou da cigarreira, escolheu um cigarro, que acendeu, e principiou:

─ Como deve recordar-se, aquela paixão deixou completamente assombradas todas as pessoas das relações de ambos. Ela era feia, nada elegante, não sabia vestir-se, e ele, pelo contrário, era um rapaz adorável e um dandi. A explicação, quanto a mim, é tudo quanto há de mais simples: aquela feia era inteligente, tinha o talento, o espírito e a graça, e sobretudo o encanto duma imaginação extraordinária, palpitante de vida, apaixonada e colorida, sempre variada, duma pujança assombrosa como as profundas florestas da sua pátria brasileira. Pois foi precisamente essa imaginação que o apaixonou, que acabou por o endoidecer…

 ─ Não vejo em nada disso o meu soneto…

Ele interrompeu-a, numa fingida impaciência:

─ Não seja mulher, você que o é tão pouco. Espere…

A poetisa sorriu e esperou que ele continuasse, voltando a desfiar, num gesto maquinal, as grandes contas do seu colar cor-de-rosa.

─ Um dia, pouco depois de se casarem, ele começou a ter umas ideias bizarras. Começou a vê-la desdobrar-se, a descobrir-lhe, através de todos os seus romances, as almas diversas que eram dela e que ela ocultava dentro de si. Curioso, não é? Naquele romance Alma Branca, viu-a imaculada, ingénua, fria e longínqua. Viu-a, com as mãozitas estendidas, manter o amor à distância, com um olhar de pavor. Viu-a passar no mundo, inacessível e sagrada, entre filas respeitosas de homens que nem ousavam cobiçar a sua imaterial beleza. Viu-a morrer, virginal e sorridente, numa cama do tamanho dum berço, onde o peso do seu corpo cavara um ninho de andorinha. Viu-a depois, naquele outro romance Flor de Luxo, ardente e sensual, rubra flor de paixão, endoidecendo homens, perdendo honras, destruindo lares, cortesã gananciosa cheia de vícios, toda manchada de impurezas. Viu-a, no seu outro romance As Mãos sem nada, céptica e desiludida, irónica, desprezando tudo, desdenhando tudo, passando indiferente em todos os caminhos, fazendo murchar todas as coisas belas, plenas de entusiasmo e exaltação, com o seu hálito gelado, mal as suas mãos lhes tocavam. Viu-a assassinar a irmã em Cláudia. Viu-a mentir, mentir dia e noite só pelo prazer de mentir em Vida Inútil. Viu-a beijar doidamente o amante doido na Paixão de Maria Teresa.

«Que mulher era então ela? Que mulher era aquela mulher? Que mulher era a sua mulher? Quantas mulheres tinha ele?… E então, quando a possuía, via a outra, a de alma branca, estender as mãozitas trementes para o afastar, com um olhar de pavor; quando lhe dava um lábios pintados entreabrirem-se, rubros, no seu sorriso de cortesã; quando a ouvia discutir uma obra de arte, uma bela acção, um rasgo sublime de generosidade, no calor de qualquer emoção espiritual, logo pensava: «Mas se ela não crê em nada?!» E assim via-a mentir a todas as horas, toda ela era uma mentira viva; a sua carne feita doutras carnes, a sua alma onde se debatiam mil almas, aparecia-lhe simbolizada numa hidra de mil cabeças, de mil corpos, de mil almas!

«E, a pouco, e pouco, começou a fugir dela, a ter-lhe medo. Espreitava-lhe o menor gesto, todas as expressões, as mais leves, da fisionomia. Via-a sempre mascarada e já lhe conhecia as máscaras uma a uma.

«Aquele sorriso era da Cláudia, quando cravava as unhas no pescoço da irmã, quando a via morrer sob a pressão dos seus dedos. Aquele olhar vago era o olhar, entre irónico e desdenhoso, da que não crê em nada, da desencantada da vida. Aquele rápido bater de pálpebras servia a Cláudia para velar o fulgor do olhar quando o amante sorria à irmã, na penumbra do jardim das murtas. Aquele gesto era um doce gesto de Angélica, quando erguia as urnas pesadas das túlipas nos solitários de cristal. Era assim que Salomé levantava as ondas revoltas dos cabelos, pesadas como um elmo de ouro maciço, naquele mesmo gesto de voluptuoso cansaço. Maria Teresa mordia as pétalas das flores assim mesmo, quando o amante pousava nela, brutal como uma carícia de fauno, o olhar que a despia…

«E vinham-lhe à lembrança cenas inteiras dos romances dela, que ele revivia, que misturava à sua vida, sem conseguir destrinçar, por fim, a verdade da ficção.

«A mulher passou com ele dois anos desgraçados, dois anos miseráveis, pavorosos!

«Quando a estreitava nos braços, debruçava-se-lhe no olhar, como quem se debruça no parapeito dum abismo onde marulha o mar, para ver… mas só lhe distinguia a espuma branca dos sonhos, a água negra marulhava lá mais para o fundo… E então, desiludido, apavorado, chorava em altos gritos a miséria de não saber quem era a mulher que possuía, quem era a mulher que era dele!

«Chamava-lhe Angélica e queria-a sempre vestida de branco com uma gola afogada de tule branco, como a outra; Maria Teresa, e queria-a de veludo negro com o cabelo liso em franja sobre a testa: chamava-lhe Cláudia e cobria-a de jóias, obrigava-a a andar com os dedos carregados de anéis, grandes colares de contas ao pescoço, os braços apertados em rígidos braceletes de escrava; Salomé, e punha-a meia nua, impúdica, de revoltos cabelos frisados, de negros olhos alongados em dois traços até às fontes.

«Se a ouvia rir, seguia-lhe a música do riso, num ar de profunda concentração. Quem se teria rido?… De quem seria aquela gargalhada?… Angélica não se ria nunca, morreu novinha, com os seus lábios virgens dum riso… Salomé ria mais alto, as suas gargalhadas rasgavam o silêncio como punhais… Cláudia só sabia sorrir… De quem seria aquele riso?…

«Se a ouvia falar, espiava-lhe o movimento dos lábios, com a atenção de quem decifra um enigma de que depende uma vida. Que mentira dissera ela, a mulher mentirosa?… Que frase de gélida nostalgia murmurara ela, a mulher desiludida?… Que mistério de volúpia segredava ela, a mulher cortesã?…

«E ele, como se chamava ele? Quem era ele? O amante de Maria Teresa, que a vestia toda de cor-de-rosa, quando a vestia de beijos?… Ou aquele conde luxurioso e brutal que possuía Salomé num tapete de peles fulvas como um leão a leoa?… Ou aquele estudante apaixonado e romântico que lia Musset e se levantava de noite para tocar ao piano nocturnos de Chopin?…

«Nos seus momentos lúcidos, cada vez mais raros, chorava doidamente, com a cabeça no regaço da mulher. Ela amava-o, tinha pena dele, consolava-o, tranquilizava-o, como se sossega uma criança doente. Por fim, ficou completamente louco; tiveram de o encerrar numa cela de doidos. E foi lá, minha doce poetisa e amiga, que eu o fui encontrar numa radiosa manhã do Verão passado.

A poetisa não quebrara ainda o encanto do seu gesto. As contas do grande colar cor-de-rosa continuavam a passar-lhe pelos dedos brancos e delgados. O seu olhar, enevoado de lágrimas, vagueou um momento pela sala, prendeu-se ao brilho fulgurante da campânula do irradiador e ali ficou, como hipnotizado.

─ Tenho aqui uma carta ─ prosseguiu ele ─, umas frases sem nexo que ele escreveu e que me entregou, para eu entregar à mulher, no dia em que o fui visitar. Quer que leia?

Ela disse que sim com a cabeça.

─ Maria: expulsa as outras todas e fica só tu. Não queiras tantas bocas no teu rosto que eu tenho medo de ti. Monstro com tantos nomes, dantes chamavas-te só Maria. E eu? como é que eu me chamo, minha mulher…

A poetisa interrompeu-o de súbito, pondo-lhe docemente a mão na boca.

 ─ Cale-se…

Os olhos, afogados numa bruma de lágrimas, procuraram o olhar sério que, ao encontrálos, se dulcificou num olhar de intensa ternura.

As camélias brancas iam deixando cair as pétalas imaculadas sobre o tapete, onde parecia ter nevado. As grandes flores dos cretones claros pareciam querer imitá-las, mais lânguidas agora, mais abertas, como que por milagre embriagadas de aromas pesados. Despediam um brilho mais suave as cores amortecidas das porcelanas, nas paredes. Os sorrisos das fotografias eram mais ausentes, mais vagos, nos cantinhos onde a luz do candeeiro não batia.

Lá fora, a noite de Novembro rasgava os seus véus de luto para que frio luar de Inverno enchesse de prata os caminhos obscuros. Tinham-se calado, no porto, os mugidos lamentosos das sirenas. Na sala só se ouvia o ligeiro ruído que as contas cor-de-rosa faziam ao bater uma nas outras sob os dedos da poetisa, como na areia da praia as conchas que o mar arrasta…

Então, no silêncio pesado duma misteriosa e dulcíssima emoção que os envolvia, ergueu-se lentamente a voz dele, recitando o último terceto:

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!…

─ E… não tem receio… de endoidecer?… ─ murmurou a poetisa, como que a medo, ao esvair-se na penumbra a última sílaba do verso.

A estas palavras, pronunciadas numa vozinha triste e cheia de desalento, ardeu-lhe nos olhos sérios uma chama de alegria, o sorriso aberto que lhe rasgou os cantos da boca, de linhas duras, fez-lhe brilhar na sombra o esmalte são dos dentes. Debruçou-se para ela, como se lhe estivesse gravando na alma as palavras que murmurava:

─ As almas das poetisas são todas feitas de luz, como as dos astros: não ofuscam, iluminam…

As camélias iam-se desfolhando todas, a pouco e pouco. Ela sorriu, abanando tristemente a cabeça:

─ Poeta!…

E ficaram ambos a escutar o ruído das pétalas sobre o tapete, que caíam como gotas de água no silêncio.


Florbela Espanca