sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Canto e Palavra


                1

Todo homem é vário. 
Vário e múltiplo. Eu sou 
menos: sou um duplo 
e me contento com o que sou.
Fosse meu nome legião, 
meu destino talvez fosse 
a fossa e o abismo onde 
a vara de porcos me emborcou.
Não sou tantos, repito, 
sou um duplo 
e me contento com o que sou. 

                              2 

Sou primeiro o canto 
e o que cantou 
e só depois – palavra 
e o que falou.
Meu corpo testifica este conflito 
quando entre palavras e canto 
não se  perde ou se dissipa, 
mas se afirma 
e me redime.
O homem primeiro é o canto. 
só depois se organiza, 
                 se acrescenta 
                 se articula, 
se clareia de palavras 
e dissipa o que são brumas.
Se o canto é o eu fluindo, 
a palavra é o eu pensado. 
na palavra eu sempre guio, 
mas no canto eu sou guiado.
O canto é o que atinjo 
(ocultamente) sem me oferecer, 
e quando, de repente, 
eu me descubro 
                 – sem querer.
A palavra, ao contrário, 
é o ato claro, 
o talho e o atalho 
                – no objeto,
embora seja como o corpo 
um ser concreto 
e como o mito 
               – um ser incerto.

                             

Quereis saber 
como eu faço 
ou de mim como eu quero? 
É fácil: 
                  Cultivo em mim os meus contrários 
                   e a síntese dos termos cultivo, 
sabendo que o canto é quando 
e a palavra é onde , 
e que ela o ultrapassa 
mais que o complementa . 
E certo que o homem 
embora sinta e pense, 
                 cante e fale 
seus conflitos nunca  vence, 
é que eu tranqüilo me exponho, 
em fala me traduzo, 
em canto me componho: 
pois um homem somente se organiza 
e completo se apresenta 
quando com seus contrários se acrescenta. 

                                  4

Difícil é demarcar 
o limite, o dia, o instante 
em que o homem 
de seu canto se destaca. 
O limite, o dia, o instante 
em que o homem se desfaz 
da imponderável música-novelo-e-ovo 
e configura-se no gesso, 
e do que era um homem-canto 
emerge um homem-texto.
Difícil é dizer como e onde, 
não o porque, 
um dia a gente se observa, 
                          Se admira, 
Mais que isto: 
um dia o ser do homem todo denuncia: 
já não se flui 
como fluía, 
nem se esvai 
como esvaía, 
edo organismo informe e vago 
emerge a vida organizada.
Nada se perdeu 
nem jamais se perderia 
neste homem que de novo se formou. 
Algo duro nele se passa 
e em seu trajeto se passou, 
quando  indo do canto à palavra 
a si mesmo ultrapassou. 


Affonso Romano de Sant'Anna