segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Felicidade

Quando Stuart Elton se dobrou para tirar de sua calça, com um peteleco, um fio branco, o gesto banal, seguido como foi por um deslizamento e avalanche de sensação, assemelhou-se a uma pétala de rosa caindo, e Stuart Elton, ao se endireitar para retomar a conversa com mrs. Sutton, sentiu-se constituído de pétalas, muitas, firme e compactamente sobrepostas umas às outras, e todas avermelhadas, todas de lado a lado aquecidas, todas colorizadas por esse inexplicável brilho. Caiu pois uma pétala, assim que ele se dobrou. Nunca havia sentido isso – não  - quando era jovem, e agora, aos quarenta e cinco anos, bastou ele se dobrar para tirar um fio da calça para que impetuosamente isso descesse a vará-lo, essa bela e ordeira percepção de vida, esse deslizamento, essa avalanche de sensação, estar em sintonia com o todo, quando voltou a se aprumar recomposto -  mas o que era que ela estava dizendo?

Mrs. Sutton (arrastada pelos cabelos ainda por cima dos restolhos e pelos altos e baixos da terra lavrada da meia-idade em princípio) estava dizendo que empresários lhe haviam escrito e até marcado encontros com ela, mas que nada dera em nada. Tudo para ela se tornava assim tão difícil porque não tinha ligações normais com o teatro, já que seu pai e toda a sua família eram pessoas simples do interior. (Foi então que Stuart Elton tirou o fio da calça.) Ela parou; sentiu-se reprovada. Mas Stuart Elton, sentiu também, quando o viu dobrar-se, tinha o que ela queria. E, quando ele se reergueu, procurou desculpar-se – dizendo que falava muito de si – e acrescentou:
“ você me parece ser, de longe, a pessoa mais feliz que eu conheço”.
O que soava em curiosa harmonia com o que ele tinha pensado e com a impressão de suave deslizamento de vida seguido de reajuste ordeiro, a impressão da pétala caindo e de uma rosa completa. Mas seria isso “felicidade”? Não. A palavra tão grande não parecia encaixar-se, não parecia referir-se àquele estado de ser que espiralava em lâminas rosadas em torno de uma Luz refulgente. Fosse como fosse, disse mrs. Sutton, de todos os seus amigos ele era o que ela mais invejava. Ele parecia ter tudo; ela, nada. Ambos contaram – cada qual tinha dinheiro bastante; ela, um marido e filhos; ele, sua solteirice; ela estava com trinta e cinco anos; ele, com quarenta e cinco; ela nunca adoecera na vida e ele, como disse, era efetivamente mártir de alguma complicação interna – sonhava o dia todo em comer lagosta, mas não podia nem tocar em lagosta. Ora essa! Ela exclamou, como se enfiasse os dedos nalguma. Para ele, até sua própria doença era motivo de riso. Seria isso contrabalançar as coisas, ela perguntou? Seria senso de proporção, seria? Seria o quê, perguntou ele, sabendo muito bem o que ela queria dizer, mas acautelando-se diante dessa mulher insensata e destrutiva com seus modos estouvados, seu vigor e seus dissabores, que gostava de um rolo e travava escaramuças, que era capaz de abater e desfazer essa própria fruição tão valiosa, essa percepção do existir – duas imagens lhe vieram de relance e simultaneamente à cabeça – uma bandeira ao vento, uma truta num rio – equilibradas, balançadas, num fluxo de sensação límpida fresca clara luminosa lúcida tilintante invasiva que como o ar ou o rio mantinha de tal modo aprumado que, caso ele movesse a mão, caso se dobrasse ou dissesse qualquer coisa, desalojaria a pressão dos inumeráveis átomos de felicidade que se uniam para suspendê-lo de novo.
“Você não liga para nada”, disse mrs. Sutton. “Não se altera com nada”, ela disse desajeitadamente, lambuzando-o à volta de respingos e sobras como um homem que aqui e ali bota massa tentando assentar tijolos, enquanto ele permanecia lá bem calado, bem reservado, bem secreto; tentando extrair alguma coisa dele, uma pista, uma chave, uma orientação, invejando-o, indignando-se com ele e sentindo que, se ela, com seu alcance emocional, sua paixão, sua capacidade, suas prendas, tivesse isso acrescido a si, poderia ser de imediato a própria rival de mrs. Siddons. Ele não lhe diria; devia dizer-lhe.
“Hoje à tarde fui a Kew”, ele disse, dobrando o joelho para dar-lhe um peteleco de novo, não porque ali houvese um fio branco, mas para certificar-se, ao repetir o gesto, de que sua máquina, tal como estava, estava em ordem.
Assim alguém, perseguido numa floresta por lobos, rasgaria pedaços da própria roupa e quebraria uns biscoitos para atirá-los às infelizes feras, sentindo-se quase mas não de todo seguro em seu alto e veloz protegido trenó.
Acossado pela esfomeada alcateia que lhe vinha no encalço, preocupando-se agora com o pedacinho de biscoito que lhes tinha jogado – com aquelas palavras “Hoje à tarde fui a Kew”  -  Stuart Elton se lançou diante dos lobos em desabalada carreira para um regresso a Kew, ao pé de magnólia, ao lago, ao rio, levantando bem a mão para espantá-los. Em meio às feras ( pois o mundo parecia repleto de uivantes lobos agora), lembrou-se de pessoas que lhe faziam convites para almoçar ou jantar, ora aceitos, ora não, e da impressão que lá tivera, na faixa ensolarada de grama em Kew, de completo domínio, de ser tão simples manejar a bengala quanto escolher isso ou aquilo, ir ali ou acolá, quebrar biscoitos em pedaços e arremessá-los às feras, ler tal coisa, olhar tal outra, encontrar qualquer um ou uma, alojar-se em aposentos de algum bom companheiro – “A Kew sozinho?”, repetiu mrs. Sutton. “Só você mesmo?”
Ah, a loba gritou no seu ouvido. Ah! Suspirou ele, enquanto por um instante pensava no ah suspirado nessa tarde à beira do lago, perto de uma mulher que bordava um pano branco debaixo de uma árvore e gansos que bamboleavam passando, pois ele tinha suspirado ao ver a cena de sempre, namorados de braços dados, lá onde havia agora essa paz, a saúde que tinha sido uma vez lá ruína temporal desespero; assim de novo essa loba mrs. Sutton o fazia lembrar-se; sozinho sim; toalmente sozinho; mas ele se refez, como havia então se refeito quando os jovem passam, agarrando-se a isso, a isso, fosse lá o que isso era, e apertando-o contra si para seguir em frente, com pena deles.
“totalmente sozinho”, repetiu mrs. Sutton. E disse que era isso que ela não podia entender, num desesperado arremesso de sua cabeça coroada por cabelo escuro brilhante – ser feliz estando totalmente só.
“Sim”, ele disse.
Na felicidade há sempre essa exaltação espantosa. Não é animação; nem arroubo; nem louvor, celebridade ou saúde (ele não conseguia andar três quilômetros sem se sentir estafado), é um estado místico, um transe, um êxtase que, embora ele fosse ateu, cético, não batizado e tudo mais, tinha, suspeitava, certa afinidade com o êxtase que transformava homens em padres, que levava mulherees no vigor da mocidade a se arrastar pelas ruas com rufos engomados que mais pareciam ciclames rodeando seus rostos e lhes empedrava os olhos e os lábios; mas com uma diferença; àqueles, isso aprisionava;  a ele punha em liberdade. Deixava-o livre de toda dependência de qualquer um e qualquer coisa.
Mrs. Sutton também sentia isso, enquanto esperava que ele falasse.
Sim ele iria parar o seu trenó e saltar, deixar que os lobos se ajuntassem todos em volta, fazer afagos nos seus pobres e rapaces focinhos.
“Kew estava uma beleza – cheio de flores – magnólias azaleias”, ele nunca conseguia se lembrar dos nomes e disse assim para ela.
Não era nada que eles pudessem destruir. Não; mas se era algo que vinha de modo tão inexplicável assim, assim poderia ir-se, como ele havia sentido ao sair de Kew, ao subir a pé beirando o rio até Richmond. Um galho, por que não?, poderia a cor se alterar; o verde tornar-se azul; ou uma folha estremecer; e isso já seria bastante; sim; já seria bastante destroçar-se, despedaçar-se, destruir a fundo essa espantosa coisa o milagre, esse tesouro que foi dele tinha sido dele era dele deveria ser sempre dele, pensou ficando impaciente e ansioso e sem pensar em mrs. Sutton deixou-a bruscamente e andou atravessando a sala para apanhar um cortador de papel. Sim; tudo bem. Ele ainda o tinha.


Felicidade, Virgínia Woolf