sábado, 15 de setembro de 2012

Inês Pedrosa, Fazes-me falta



38. Desarrumar-te os livros. Queria ter o poder de um sopro para que pelo menos o volume de cima ficasse desalinhado. Nem na casa de férias que chegamos a partilhar se admitia um milímetro de confusão. Eu tinha a mania da organização interna - alfabética, temática - tu, da harmonia externa: as lombadas tinham que compor uma sequência cromática, o caos uma aparência de serenidade.
A nossa casa de férias: branca, rematada a azul. Com um jardim selvagem que tu domaste à força - a relva insistia em não pegar, a palmeira em não crescer. No interior das janelas, bancos de pedra através dos quais se podia ficar a olhar para o mar dias inteiros. Desesperavas com a humidade, o cheiro a bafio na roupa, as manchas cinzentas nas paredes, o bolor nos sapatos. Eu gostava de vestir a roupa assim, com um toque molhado e um odor a velho, sentia-me em paz. Fora do mundo urbano que foi, é ainda, a minha droga.
(...)
As cidades, sinto-as febris como adolescentes, dançando sobre as pistas da sua própria luz, consumidas por uma inquietação difusa, cruéis, livres, impuras, amantes absolutas do novo, com toda a sua sujidade inaugural. Sítios de queda e construção, leviandade e levitação, onde os acontecimentos se precipitam em cadeia e a verdade pequena de cada um existe verdadeiramente, alterando a composição química do todo a cada passo.
Dizias às vezes que as cidades cansam, de desalmadas. Meu querido, a poluição urbana é feita do lastro azul das almas que gravitam sobre elas, almas antigas e futuras que lutam para se infiltrar na carne do presente, para fazer da memória uma casa em obras.
Almas esgarçadas por aquilo que não conseguiram atingir - as cidades dão-nos a medida constante do inatingível, por isso não conseguimos afastar-nos delas.
Há sempre um lampejo de morte numa qualquer esquina das cidades que amamos, os passos de alguém que já não existe, mas insiste em caminhar à nossa frente, confundindo o ruído dos seus passos com o ruído dos passos dos que ainda estão para nascer. Falta o silêncio, a resignação da morte nas cidades - eu não me resigno, não consigo dormir em paz, desistir desse turbilhão urbano que tem a marca da minha respiração ofegante.
Os cravos vermelhos sangram no branco das tuas paredes.
Sempre preferiste rosas, ou então camélias. Troçavas da minha fúria pelos cravos e agora aí estás, rodeado deles, com a camisola verde água que te dei e nunca estreaste porque a achavas berrante. Estás dentro da camisola verde água, deitado nos tacos de madeira clara da tua casa lisa. Os livros em volta, exércitos rumorejantes, alinhados. Os cravos, o verde, a canção de Gainsbourg - "como podes gostar tanto de um homem que se lava tão pouco e se barbeia tão mal", perguntavas-me, - foi preciso que eu morresse para que entrasse na tua casa.
Dieu est un, fumeur d'havanes. Comme toi.

Inês Pedrosa, Fazes-me falta