terça-feira, 9 de outubro de 2012


Agora sei como estou preso a esse todo que sou, aspiro, duas, três golfadas distendem o meu peito, seguro os ombros de Marta e grito: Marta, Marta, ainda não estou pronto para ficar na treva, ainda tenho tanto amor, ainda tenho mãos para trabalhar a terra, toca-me, vê como essa carne é viva, olha-me, Marta, eu que sou tão você, olha-me, eu que amo a tua força, os teus pés colados à terra, a tua lucidez. É inútil. O meu corpo foi depositado no seu lugar. Estou acima dele, a uma pequena distância. Pairo sobre ele. Os meus amigos recuam. Olham-me em silêncio. Inútil tentar qualquer gesto. Não me vêem. Grito três vezes: Marta! Marta! Marta! Não me ouve. Rolam a pedra. Fecham a entrada. Tudo está terminado. É verdade. Tudo está terminado. Pronuncio vagarosamente: bendito sejas Tu, Deus grande, valoroso e terrível, bendito sejas Tu, Eterno.

***

Há um homem diferente no pátio. Vê-se que ele ama Jesus mais do que a si mesmo. Não posso precisar a que ponto ele se ama, mas é mais. Isso está bem claro. Chama-se Judas, o Iscariotes. O amor desse homem é diferente do meu amor: é um amor de mandíbulas cerradas, de olhar oblíquo, de desespero escuro. Todas as vezes que o vejo, penso: não seria mais sensato se Jesus o afastasse de vez? Ao mesmo tempo em que penso assim, penso também: não seria justo afastar o único homem que ama dum jeito de homem, o único homem que talvez na minha ausência possa defender o Mestre, derrubar tudo e atacar feito um homem. Por favor, é preciso que me compreendam: esse amor de Judas, o Iscariotes, não é um amor ideal porque é ciumento e agressivo.

***

Não que ele tenha feito alguma violência, não, não fez nada -, mas o olhar que lança ao redor e sobretudo a mim é um olhar que diz: o meu amor é mais forte, é mais sangue, vocês não O possuirão, Ele conta comigo. Eu, Lázaro, digo a vocês que tenho piedade dele. Sei que ele não sabe expressar o seu amor de um outro jeito e por isso não seria correto ofendê-lo, ofendê-lo seria como se você desse um pontapé no teu cão, só porque ele te arranha os joelhos quando você chega, compreende? O teu cão não sabe fazer de outro modo, não é um cão amestrado. Judas, o Iscariotes, é, talvez, alguém que arranha não os joelhos, não, mas o peito de Jesus [...] eu acho que o amor do Iscariotes tem que ser assim como é. É inevitável que seja como é [..] Judas, eu também sou você. Apenas... apenas...eu me recuso a ser totalmente você.


Hilda Hilst