sábado, 6 de outubro de 2012

Brita Seifert


46. Já não vingarei ninguém - as curvas do Tempo esgotaram-se no minuto em que gerei essa criança fora do sítio. Todas as crianças nascem fora do sítio, provavelmente.
Jesus provava-me também isso - o seu pai adotivo, doce carpinteiro da mansidão, pôs mais clemência no amor que lhe deu do que o pai autêntico, que era Deus.
Não serão Deus todos os pais? Os tirânicos, os indiferentes, os obsessivos, arrastando-nos através de cordas de sangue, culpa, remorso. Um Deus que matamos quando lhe cumprimos os sonhos. Um Deus que assassinamos devagar quando lhe realizamos os pesadelos.
No vermelho ardente dos quinze anos, a idade em que os pais se renegam e se escolhem, eu já não tinha pais para escolher - apenas a evidência rumorosa de um par de fantasmas na penumbra do corpo.
Tu foste talvez o pai que eu escolhi, o meu amor em cruz - Pai, Filho, Espírito Santo. Não te amei mais nem menos por te ter escolhido tarde, o coração domesticado à força de sonhos interrompidos. Todas as noites da vida que contigo inventei fui rezando para que um anjo te ateasse a alma, um anjo parecido - oh, vaidade do amor - com o puro auge de mim.
Nessa curva do Tempo em que já não estou há uma criança que me devora devagar. É o amor absoluto, dizem nos livros, não importa o sexo. Então porque o sinto como um réptil que me esmaga corpo e vontade? Então porque me faz chorar o cheiro da terra molhada e a semente da tristeza me devora os ossos e me estala a pele? A criança nasce e tu apareces com um ramo de rosas brancas na mão.
- Posso amar o teu filho?
- No amor não se pede licença. Mas que sabes tu do amor? Se soubesses, limpavas os pés à entrada e já não saías. És um valdevinos.
- O teu filho também é um valdevinos. Tem boca de morango esborrachado, como o pai, e isto sem sequer saber beijar. E os mesmos olhos de carneiro sonso, em matadouro perpétuo. Vai-te dar que fazer. E não te vai amar melhor do que eu.
- O amor só piora com a reprodução. É como a pintura. E não é das boas cores que se fazem os bons pintores. Tu abandonaste-me. Eras a minha família e abandonaste-me.
- Não, eu não era a tua família porque não te cobro juros nem partilhas. E porque voltei, e estamos vivos. As famílias só marcam encontro nos cemitérios. Eu sou a tua escolha, a vitória intermitente da tua liberdade sobre o campo magnético do teu corpo. O teu amigo, se é que ainda entendes a palavra.
- Então muda a fralda ao meu filho, que eu ainda trago as dores de o ter.
E o meu filho pára de chorar quando lhe pegas ao colo e lhe beijas a testa. E o meu filho beija-te a testa. onze curvas do tempo depois, quando tu morres noutra cama deste mesmo hospital onde não estive. Mas a alteração das curvas do Tempo fará com que os teus dedos morram entre as mãos da Teresa, com as unhas pintadas de azul.
A Teresa aperta agora os teus dedos como os apertará nesse futuro imediato que ainda parece tão distante de ti. Um avião cruza o céu do anoitecer, sobre a cidade iluminada. como cruzará nesse instante em que respiras pela última vez, com os pulmões esmagados por um autocarro mortífero que não te buscava a ti, animado com essa imagem de mim que te sorri da cabeceira. Sei que estarei aqui, meu querido, com uma réstia de espessura para te servir de Deus, para te dizer que vamos poder recomeçar do zero. Passar a limpo os cadernos esborratados da nossa amizade.
A visão dessa curva do Tempo fez voar para longe o pássaro do ciúme. Fica-me um frio desse desertar de asas - como se, levando-me o ciúme, me levasse também um pedaço quente da carne que eu já não tinha. Conversas longamente com a Teresa, os dois deitados na madeira do chão, as cortinas esvoaçando, escurecendo com a noite que entra pela janela aberta. Falam da falta que eu vos faço e não escutam a música das minhas lágrimas, ligeira, imaterial, música que se esquece dentro do que se vai sendo, como a das canções de amor que me amaciavam a vida.

47. Tu, a Teresa, o Pascoal - agora inseparáveis, arrumando-me de gargalhada em gargalhada. Falam muito de mim.
Existo cada vez menos fora das vossas imaginações contaminadas. Falam muito de mim mas não me recordam a voz.
Quando dizem noite, é a vossa noite que ressoa no calor povoado que desenharam sobre a minha morte. Já não te custa entrar na casa deserta, fechar a porta. Sorris para a minha fotografia, memória transfigurada do que deixei por ser. És capaz de adormecer sem te lembrares da campa onde o meu corpo apodrece.
Vives outra vez na imortalidade leviana dos mortais.
Fico em tua casa à tua espera, mas não me vês - mãe vencida pelo cansaço no seu cadeirão de espia. Estou morta, mas ainda não me habituei a essa ideia. De tanto pintar cabarés celestes para crianças desvalidas - sim, a mãe está no céu a dançar com o avô, e agora jogam às cartas - perdi o caminho do paraíso épico, monótono, dos vitrais.
Peço a Deus que me prolongue este estágio terrestre, que me contrate para teu anjo particular até que tu subas a este limbo de nuvens e me ensines o caminho da sala de jogos derradeira. Ou que negocie com os Deuses dos indianos e me volte a poisar sobre a terra como teu cão. Ou gato. Ou pelo menos canário. A gratidão de uma forma de vida onde me fossem poupados os uivos de dor dos que morrem. Suponho que Deus andará assoberbado de urgências. Entranho-me nas tuas paredes.
Digo: claridade, e tu repetes, no meio do sonho: claridade.
Digo: sangue do meu sopro, e tu repetes: sangue do meu sopro.
Digo: estou aqui e tu devolves-me: ausência.

Inês pedrosa, Fazes-me falta