domingo, 7 de outubro de 2012

MikaelAlbrecht

Pelas sendas do infinito, no perpétuo rodízio de entes indetíveis, se reencontravam o dia e a noite, mundos maravilhosos semeados no universo para utilidade da vida e glória de quem os criou, cada qual levando, para a suma apoteose, sobrepujanças de atração e de beleza, supremacias de força e de inspiração.
O dia é extrovertido e grandíloquo como o sol e a primavera, cheio de verbos, de tumulto, de quedas que abalam e de subidas que pasmam. As luzes inaugurais, primícias de otimismo contagiante, abrem os horizontes, desvelam as amplidões, descerram os cenários de torneios e de lutas, rasgam os longes de extasiamento e de jornadas. Os fulgores de pino, raios de maturidade sã e viril, explodem os júbilos da fecundação vitoriosa e vertem nitenes promessas de amor e de conquista, inspirando a alegria dos audazes e revigorando a coragem da esperança e do trabalho.
O cair da tarde é limitativo. As primeiras sombras abreviam os panoramas, fecham as linhas das paisagens, reduzem as curvas dos espaços. Impõem-se as aparências no amortecimento das alturas, na constrição dos desmesuramentos, no achatamento das altitudes, na confusão das vistas e das figuras.
A noite é concentrada, medidativa, tímida, prenhe de reticência, de sutilezas, de subentendidos, de suaves mistérios e de balsâmico silêncio. Em seu reinado, parece que a terra perde a voz, a eloqüência e o vigor, ficando apenas com a sensibilidade, o tato e os suspiros.
A lenta mão da sombra, avançando devagarinho, mais branda que o roçar do veludo, leve como o eco de uma prece, começava a tingir os ares com tamanha arte que se diria um mistério. Sumiam-se as claridades tão preguiçosamente, tão saudosamente e tão gravemente que um nobre palor se demorava suspenso no firmamento. Era pausada e majestática a descida do sol, que parecia maior, inflamado de violeta, abatido por um desmaio de pompa e de sangue, lembrando um imponente bota-fora das artes supremas. Tinha-se a impressão de que um deus de luzes fantásticas e de cores deslumbrantes, por desígnio absoluto da natureza, marchava agônico para um abismo sideral, reagindo com todos os seus recursos, com todos os talentos, com todas as lágrimas e com todas as tintas , sem todavia escapar da imolação, a um tempo bela e comovente. Exalando vapores ternos e irisados, afogar-se-ia, afinal, sem dor na alcova estonteandte de uma lei sublime e onipotente, que o ressuscitaria , vivaz e esplendoroso, forjando auroras, criando manhãs, inventando alegrias, aligeirando os homens, fazendo histórias e civilizações.


Souza Neto, Linhas Paralelas