sábado, 6 de outubro de 2012

Nietzsche - Humano, Demasiado Humano


Prólogo – 2  (excerto)

Pois foi assim que noutros tempos, quando precisava disso, também inventei para mim os “espíritos livres”, aos quais é dedicado este livro melancólico-corajoso  com o título de Humano, Demasiado Humano, semelhantes “espíritos livres” não há, não havia, mas nessa altura, como disse, eu precisava da sua companhia, para permanecer bem-disposto no meio de coisas más (doença, isolamento, estrangeiro, desalento, inatividade); como valentes companheiros e espectros, com os quais se cavaqueia e ri, quando se tem vontade de cavaquear e rir, e que se manda para o diabo, quando eles se tornam aborrecidos.

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Prólogo – 4  (excerto)

Um "espírito livre”, (...), esta fresca palavra faz bem, quase que aquece. Já não se vive nos laços do amor e do ódio, sem sim, sem não, voluntariamente perto, voluntariamente longe, de preferência escapando, esquivando-se, continuando a esvoaçar, voando outra vez para longe, outra vez para o alto; está-se mal acostumado como todo aquele que, um dia, viu uma imensa diversidade abaixo de si  - e a pessoa torna-se a contrapartida daqueles que se preocupam com coisas que não lhes dizem respeito. De fato, ao espírito livre dizem respeito, doravante, meramente coisas – e quantas coisas! – que já não o preocupam...

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Prólogo - 5

Um passo mais na convalescença, e o espírito livre aproxima-se outra vez da vida; lentamente, é certo, quase recalcitrante, quase desconfiado. O ambiente ao seu redor torna-se de novo mais quente, mais amarelo, por assim dizer; sentimento e simpatia adquirem profundidade, ventos brandos de todo o gênero passam por ele. Ele tem quase a impressão de que só agora os olhos se lhe abre para o que está perto. Está perplexo e fica sentado sem se mexer: onde estava ele, então? Essas coisas próximas e ainda mais próximas: como elas lhe parecem transformadas! Que penugem e que encanto elas adquiriram, entretanto! Ele olha, agradecido, para trás - agradecido à sua peregrinação, à sua dureza e ao alheamento de si próprio, aos seus panoramas e voos de pássaro nas frias alturas. Que bom não ter ficado, como um terno e tristonho preguiçoso, sempre "em casa", sempre "em si"! Estava fora de si: não há dúvida. Só agora é que ele se vê a si próprio - e que surpresas encontra nisso! que arrepios nunca experimentados! Que felicidade mesmo no cansaço, na antiga doença, nas recaídas de convalescente! como lhe agrada ficar quieto, sofrendo, criar paciência, deitar-se ao sol! Quem entende como ele da felicidade no inverno, da mancha de sol na parede?! Esses convalescentes, outra vez meio voltados para a vida, e os lagartos são os animais mais agradecidos do mundo, e também os mais modestos; há alguns, entre eles, que não deixam passar um dia sem lhe pendurarem um pequeno cântico de louvor na orla da veste que se arrasta. E falando a sério: é uma cura radical contra todo o pessimismo (afecção cancerosa dos velhos idealistas e dos mentirosos, como é sabido...) adoecer à maneira desses espíritos livres, ficar doente um bom bocado e, depois, ainda mais devagar, ainda mais devagar, pôr-se são, "mais são" quero dizer. Há sabedoria, sabedoria da vida, em receitar a si próprio até mesmo a saúde apenas em pequenas doses, durante muito tempo.

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Prólogo – 8  (excerto)

Depois de uma resposta tão amável, a minha filosofia aconselha-me a calar e não continuar a fazer perguntas. Tanto mais que, em certos casos, como refere o ditado, só se permanece filósofo, ficando... calado.



Nice, na Primavera de 1886

Nietzsche, Humano Demasiado Humano