quinta-feira, 31 de maio de 2012

Hilda Hilst, Tu não te moves de ti



Para onde vão os trens meu pai?
Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços 
no mapa, e depois o pai ria: também
pra lugar algum meu filho,tu podes
ir e ainda que se mova o trem
tu não te moves de ti



TADEU


Porque um enorme fervor se aguça em mim, eu Tadeu, de joelhos te peço que

OUVE, Rute, que me escutes: como se um rio grosso encharcasse os juncos e eles mergulhassem no espírito das águas, como se tudo, luta repouso dentro de mim se entranhasse, como se a pedra fosse minha própria alma viva, assim minha vida, olho espiralado olhando o mundo, volúpia de estar vivo, ouve Rute o que se passa quando os meus olhos se abrem na manhã de gozo, (de desgosto, se repenso o mundo) muito bem, Rute, esse olho me olhando agora é bem o teu, já sei, te preocupas se fiz bem o discurso, claro, me saí como sempre, as palavras estufadas, continuo no meu alto posto se é isso o que te importa, oligopólio-impacto-dinamizado, até comedores de excedentes eu usei, a água mineral perlada à minha frente

Tadeu, a empresa é um corpo que precisa um dirigente, vão notar a estria vermelha no teu olho, mandaste o Balanço para os jornais? falavas na manhã

Na sôfrega manhã de mim, no sol da minha hora, sol da minha manhã, Vida, que esse fio de aço nunca se estilhace, liga-me ao teu nervo, OUVE , Rute, nunca fui esse que pretendes, nem nunca posso ser marido ou presidente de qualquer coisa, agora aos cinquenta as cordas que me ligavam à tua vida apodreceram, sou novo, olha ao redor e entende que nada dentro da casa é carne de mim, apenas as minhas pedras, aquelas de ágata, e a minha mesa e a enorme gaveta, os papéis os versos os desenhos, apenas essas coisas fazem parte do meu corpo novo

Dispenso o motorista? podemos estudar à noite teu primeiro relatório de política empresarial, tenho a minha parte nisso, por exemplo a taxa de crescimento, eu te dizia, Tadeu, que você minimizava a espantosa habilidade dos sócios fundadores, olha para mim, não é nada fácil, o meu amor de sempre, esta esperança: um dia sim Tadeu vai me tocar de novo, não é justo, o que há com as coisas? não são as mesmas? escolhemos os quadros a casa as jarras de prata, eu vivi inteira para o teu momento, vou buscar as compressas, quem sabe um colírio, pare de esfregar os olhos, não está bem limpa a vidraça, não te assustes, vê-se mesmo embaçado o lá de fora

Que horas são Rute?

Nove. Dispenso o motorista?

Subo as escadas, o corrimão gelado, os degraus largos, volto-me. Te amei. As falanges pequeninas me alisando a cara, mas tudo se pulveriza, pulverizar a empresa, a cara de todos bufolamente parda, mas senhor diretor doutor presidente excelência agora que chegamos à maximização do lucro, o lucro nervo-núcleo da empresa, excelentíssimo senhor Tadeu , um momento, alguma coisa aqui de beber para as nossas coronárias, o senhor disse que vai viajar durante um tempo? Estilete de luz pousando no Ativo e no Passivo, dez horas da manhã reunião da diretoria, as caras ainda pardacentas, as mandíbulas caídas, alguns balbucios, eu estufando de vida e querendo discursar pausadamente comecei: Senhores faz-se necessário e premente que continuem a existir sem o meu corpo  presente, não estou aqui, na verdade nunca estive aqui, jamais tornarei a estar aqui. Sorriram. Pensam que repito bizarrias matinais de executivos. O rapaz dos copos e da água mineral também sorriu. Rute agora também sorri. Caminho, a ponta dos pés na passadeira da escada, vou subindo desenho sinuoso e colorido, quantas vezes subindo ponta dos pés tocando os caixilhos dourados, o corredor marmóreo o banco de convento

claro, Rute, evidente que é uma peça rara, e essa estupenda samambaia, o coração pulsando, uma extrassístole derrepente

Tadeu, tome beladenal, eu sendo teu médico e teu amigo faço uma sugestão: pare de olhar a vida com esse jeito assombrado, o que é que andas vendo que o pessoal não vê? A porta do meu quarto. A primeira vez que nos deitamos ali, Rute, (tínhamos um comovente passado?) um comovido presente, Tadeu junto de ti, homem convencional, a Causa acima de tudo. O que é a Causa? A empresa. Um passional da ideia. Que ideia? A empresa.

Comovidos comoventes todos esse anos, o suco de laranja as torradas o sol batendo na imensa vidraça, Tadeu é reflexão postura, tiro os sapatos, caminho até o terraço do quarto, que coisa é essa em mim que aspira esse fulgor da noite, que coisa é mais que demasia em mim? Já vi outras vezes a mesma lua e no entanto isso vivo amarelo brilhoso redondo sobre a casa é

outra lua como se fosse esforço de ser Tadeu suspenso sobre a casa. O que há com as coisas? Não são as mesmas? Não, Rute, uma coisa em mim, atenta, vê mais luz, de início é como se fosse uma névoa correndo, por isso é que te pergunto sempre, limparam as vidraças? limparam os porta-retratos? Sépia sobre as nossas caras, véu devagar se diluindo, ainda não te vejo, o crepe do teu vestido pousando no meu braço, ventava, a flor diminuta dos limoeiros salpicava os sapatos, pedimos a alguém que passava

por favor, pode nos tirar um retrato? é que a tarde está linda, é só apertar aqui. Rias porque tudo era cheiro e transparência e o meu toque era vermelho sobre a tua vida, factível de repente perguntaste, o que é factível, Tadeu? Por quê? Porque vi nos teus papéis assim: factível sim uma pirâmide solar sustentando a vida. Que pode ser feito, Rute. Não há mais névoa agora, há fatos e retratos, quando pensavas que víamos juntos as mesmas coisas não era verdade, que os fatos as coisas os retratos o verde o branco coalhado da flor dos limoeiros estava ali à nossa frente e viamos tudo isso com o mesmo olho, ah, nada nada, não víamos, teu limite é distante do meu, as descobertas não serão jamais as mesmas, sofro de sofreguidão, vejo através, difícil dizer aos outros que estou sofrendo de vida, que nunca mais vou morrer porque me incorporei à vida, não é que não te ame mais, mas devo ir, direi assim?

Hilda Hilst, Tu não te moves de ti
Brita Seifert


 Em cada corpo a corpo se procura 
o espírito das águas onde a alma 
por vezes paira sobre a face obscura 
e só depois do fim encontra a calma 

 essa calma tristíssima de quem 
volta a si de repente e sabe então 
que enquanto um se esvai e outro se vem 
ninguém é de ninguém ó solidão. 

 Suprema solidão que vem depois 
de findo o corpo a corpo sobre a cama 
quando nunca se é um mas sempre dois 
 e só um cigarro triste ainda é chama 
e um último pudor puxa os lençóis 
e a cinza cobre o amor que já não ama.


Manuel Alegre, in Sete Sonetos e Um Quarto

O Primeiro de Todos os Meus Sonhos

Brita Seifert



o primeiro de todos os meus sonhos era sobre
um amante e o seu único amor,
caminhando devagar(pensamento no pensamento)
por alguma verde misteriosa terra

até o meu segundo sonho começar—
o céu é agreste de folhas;que dançam
e dançando arrebatam(e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam)

mas essa mera fúria cedo se tornou
silêncio:em mais vasto sempre quem
dois pequeninos seres dormem(bonecas lado a lado)
imóveis sob a mágica

para sempre caindo neve.
E então este sonhador chorou:e então
ela rapidamente sonhou um sonho de primavera
—onde tu e eu estamos a florescer


e.e. Cummings, in "livrodepoemas"
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

“— Sempre achamos que são demasiadamente estreitos os limites de nossa personalidade! Atribuímos à nossa pessoa somente aquilo que distinguimos como individual e divergente. Mas cada um de nós é um ser total do mundo, e da mesma forma como o corpo integra toda a trajetória da evolução, remontando ao peixe e mesmo a antes, levamos em nossa alma tudo o quanto desde o princípio está vivendo na alma dos homens. Todos os deuses e todos os demônios que já existiram, quer entre os gregos, os chineses ou os cafres, todos estão conosco, todos estão presentes, como possibilidades, desejos ou caminhos. Se toda a humanidade perecesse, com exceção de uma só criança medianamente dotada, esse menino sobrevivente tornaria a encontrar o curso das coisas e poderia criar tudo de novo: deuses, demônios e paraísos, mandamentos e proibições, antigos e novos Testamentos.
— Pois bem — objetei-lhe. — Mas que fim leva o valor do indivíduo? Para que aspiramos a algo se já temos tudo concluído em nós mesmos?
— Alto lá! — exclamou Pistórius com força. — Há muita diferença entre levarmos simplesmente o mundo em nós mesmos e conhecê-lo.”


Hermann Hesse, em “Demian”

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Bellydance Sensual Mood

O Silêncio




também é uma atividade prática do silêncio, a própria discrição do silêncio por meio do silêncio 



Entra. E ouve. Pergunto-te: o que pode te contar o silêncio que corre através das 
 palavras, neste curso de amor e amizade, no meio delas, a preencher a casa de um certo 
 nada, e o corpo de escrita? Será uma fala? De que maneira? Poderá preservar-se através 
 da morte? Por que faz ele com que o amor seja a necessidade de advir um nome na 
 secreta dor? 
Ao habitar o silêncio, uma pergunta, um perigo de poço, pode fazer cair o corpo. 
 Perguntas em círculo talvez deixem passar o curso das palavras. O pensamento espreita 
 como se não fosse dizer e desmoronar ao fim de tudo. “Os olhos percutentes” assumem 
 a mais pura graça da presença, como quem, para fazer ficar o amor, dirige-se a seu justo 
 desaparecimento. “Quem diria que são olhos dormentes? O silêncio. O silêncio.


 Maria Gabriela Llansol


 Nesse lugar-poema 
desse livro que eu escrevo 
invento uma fala clara 
palavra feita pra boca 
com jeito de todo dia e 
destino de se espalhar 

 Nu aqui é pelado 
seio é peito 
bruma é neblina 
pungente é tudo que dói 

 Vasta é grande 
casta é pura 
retém aqui é segura 

 Aqui não cabe floreio 
aqui reverto a inversão 
simplicidade, aqui, é sofisticação


Maria Rezende 
As pessoas jamais se apaixonariam se não tivessem
 ouvido falar do amor. 
François de La Rochefoucauld . 


. E você pode se perguntar, bom, como foi que eu vim
 parar aqui? 
E você pode se dizer, 
Essa não é a minha linda casa. 
E você pode se dizer, 
Essa não é a minha linda esposa. 

Talking Heads 


 Para começar, olha quanto livro. Lá estavam os seus romances de Edith Wharton, organizados não por título mas por data de publicação; lá estava o conjunto completo de Henry James da Modern Library, presente do pai dela no seu aniversário de vinte e um anos; lá estavam os de capa mole e com orelhas de burro que ela teve que ler em disciplinas da faculdade, um monte de Dickens, uma pitada de Trollope, além de boas doses de Austen, George Eliot, e das temíveis irmãs Brontë. Lá estava uma montanha de volumes pretos e brancos da New Directions, quase tudo poesia de gente como H. D. ou Denise Levertov. Lá estavam os romances de Colette que ela lia às escondidas. Lá estava a primeira edição de Couples, que era da mãe dela, que Madeleine tinha sondado sub‑repticiamente na sexta série e que agora estava usando para dar apoio textual à sua monografia de conclusão de curso sobre o romance e o casamento. Lá estava, em resumo, uma biblioteca de tamanho médio, mas ainda portátil, que representava basicamente tudo que Madeleine tinha lido na universidade, uma coleção de textos, aparentemente escolhidos de maneira aleatória, cujo foco lentamente se fechava, como um teste de personalidade, um teste sofisticado em que você não conseguisse trapacear ao perceber as implicações das questões e em que finalmente você ficava tão perdida que o seu único recurso fosse responder a verdade pura e simples. E aí você ficava esperando o resultado, torcendo por “Artística”, ou “Passional”, pensando que podia aceitar “Sensível”, temendo secretamente “Narcisista” e “Caseira”, mas recebendo finalmente um veredito de dois gumes que lhe causava sensações diferentes dependendo do dia, da hora, ou do cara que por acaso você estivesse namorando: “Romântica Incurável”.

 Eram esses os livros no quarto em que Madeleine estava deitada, com um travesseiro em cima da cabeça, na manhã da sua formatura na universidade. Ela tinha lido cada um deles, muitas vezes relido, não raro sublinhando trechos, mas isso não lhe servia de nada agora. Madeleine estava tentando ignorar o quarto e tudo que estava nele. Estava torcendo para se deixar cair de novo no oblívio em que tinha ficado bem aconchegada pelas últimas três horas. Qualquer nível mais alto de consciência a forçaria a encarar certos fatos desagradáveis: por exemplo, a quantidade e a variedade de álcool que tinha ingerido na noite anterior e o fato de que tinha ido dormir sem tirar as lentes. Pensar nesse tipo de detalhe evocaria, por sua vez, os motivos de ela ter bebido tanto assim para começo de conversa, o que ela definitivamente não queria fazer. Então Madeleine ajeitou o travesseiro, bloqueando a luz do começo da manhã, e tentou pegar no sono de novo.

 Mas não adiantou. Porque bem naquela hora, na outra ponta do apartamento, a campainha começou a tocar.

 Começo de junho, Providence, Rhode Island, o sol no céu já há quase duas horas, iluminando a baía clara e as chaminés da Narragansett Electric, nascente como o sol do selo de Brown University gravado em todas as flâmulas e bandeiras desfraldadas sobre o campus, um sol de rosto sagaz, que representava o saber. Mas este sol — o que estava sobre Providence — estava saindo na frente do metafórico, porque os fundadores da universidade, com seu pessimismo batista, tinham escolhido representar a luz do saber amortalhada por nuvens, indicando que a ignorância ainda não tinha sido eliminada do reino dos homens, enquanto o sol de verdade estava naquele exato momento abrindo caminho à força por entre a cobertura de nuvens, soltando raios lascados de luz lá de cima e dando esperança aos esquadrões de pais, que tinham passado o fim de semana inteiro encharcados e gelados, de que o clima atípico não fosse estragar o dia de festa. Por todo o College Hill, nos jardins geométricos das mansões georgianas, os jardins com cheiro de magnólia das vitorianas, sobre calçadas de tijolos que margeavam grades negras de metal como as de uma tirinha de Charles Addams ou de um conto de Lovecraft; na frente dos estúdios da Rhode Island School of Design, onde um estudante de pintura, que passara a noite inteira acordado trabalhando, amplificava aos berros sua Patti Smith; reluzindo nos instrumentos (tuba e trompete, respectivamente) de dois dos membros da banda marcial de Brown que tinham chegado cedo ao lugar marcado e estavam olhando em volta nervosos, perguntando‑se onde é que estavam os outros; iluminando as ruelas de pedras que desciam a colina para o rio poluído, o sol brilhava em cada maçaneta de latão, cada asa de inseto, cada folha de grama. E, afinada com a luz que subitamente jorrava, como a arma que dá a largada de alguma atividade, a campainha do apartamento de quarto andar de Madeleine começou, clamorosamente, insistentemente, a tocar.

 A onda chegava até ela menos como som que como sensação, um choque elétrico que lhe corria espinha acima. Em um mesmo gesto Madeleine arrancou o travesseiro da cabeça e sentou na cama. Ela sabia quem estava tocando o interfone. Eram os seus pais. Ela tinha aceitado encontrar Alton e Phyllida para o café da manhã às sete e meia. Tinha combinado com eles dois meses atrás, em abril, e agora aqui estavam eles, na hora marcada, à sua maneira ansiosa, com que ela podia contar. O fato de que Alton e Phyllida tinham vindo de carro lá de Nova Jersey para ver a formatura dela, de que não estavam aqui hoje para comemorar apenas o sucesso dela, mas o deles como pais, não tinha em si nada de errado ou inesperado. O problema era que Madeleine, pela primeira vez na vida, não queria participar disso. Ela não estava com orgulho de si própria. Não estava a fim de comemorar. Tinha perdido a crença na relevância do dia e do que o dia representava.

 Ela pensou em não atender. Mas sabia que se não atendesse uma das suas colegas de quarto ia atender, e aí ela ia ter que explicar onde tinha ido parar ontem à noite, e com quem. Portanto, Madeleine escorregou da cama e relutantemente se pôs de pé.

 Por um momento pareceu dar certo, aquilo de ficar de pé. Sua cabeça parecia curiosamente leve, como que esvaziada. Mas aí o sangue, drenando‑se do crânio como se de uma ampulheta, encontrou um gargalo, e a parte de trás da cabeça explodiu de dor. No meio dessa pancada, como o núcleo furioso de que ela emanava, irrompeu de novo o interfone.

 Ela saiu do quarto e foi tropeçando descalça até o interfone da entrada, batendo no botão FALAR para calar a campainha.
 “Oi?”
 “O que aconteceu? Você não escutou o interfone?” Era a voz de Alton, grave e peremptória como sempre, apesar de estar saindo de um alto‑falante minúsculo.
 “Desculpa”, Madeleine disse. “Eu estava no chuveiro.”
 “Até parece. Será que dava para você deixar a gente entrar?”
 Madeleine não queria. Ela precisava se lavar antes.
 “Eu já estou descendo.”

 Dessa vez ela segurou demais o botão FALAR, cortando a resposta de Alton. Ela apertou de novo e disse: “Papai?”. Mas enquanto estava falando Alton também devia estar, porque quando ela apertou OUVIR só veio estática.

 Madeleine aproveitou essa pausa na comunicação para apoiar a cabeça no caixilho da porta. A madeira era uma sensação fresca e boa. Veio‑lhe a ideia de que, se pudesse deixar o rosto apertado contra a madeira pacificante, podia conseguir curar a dor de cabeça, e se pudesse deixar a testa contra o caixilho pelo resto do dia, de alguma maneira conseguindo ainda sair do apartamento, podia até conseguir aguentar tomar café com os pais, marchar no desfile de formatura, pegar um diploma e se formar.

 Ela ergueu o rosto e apertou FALAR de novo.

 “Papai?” 
Mas foi a voz de Phyllida que respondeu. “Maddy? O que está acontecendo? Abra para nós.”
 “As minhas amigas ainda estão dormindo. Eu vou descer. Não toquem mais.”
 “Nós queremos ver o seu apartamento!”
 “Agora não. Eu vou descer. Não toquem.”

 Ela tirou a mão dos botões e se afastou, olhando fixamente para o interfone como que para ver se ele tinha coragem de abrir a boca. Quando ele não abriu, ela voltou pelo corredor. Estava chegando ao banheiro quando a sua colega Abby emergiu, fechando o caminho. Ela bocejou, passando a mão pelo cabelo imenso, e aí, percebendo Madeleine, sorriu cúmplice.
 “Então”, Abby disse, “onde é que você foi se esconder ontem de noite?”
 “Os meus pais estão aqui”, Madeleine explicou. “Eu tenho que ir tomar café.”
 “Anda, me conta.”
 “Não tem nada pra contar. Eu estou atrasada.”
 “Mas como é que você está com a mesma roupa, então?”
 Em vez de responder, Madeleine baixou os olhos e se viu. Dez horas antes, quando tinha pegado o vestidinho preto Betsey Johnson emprestado com Olivia, Madeleine achou que tinha ficado bem nele. Mas agora o vestido parecia quente e grudento, o grande cinto de couro lembrava um artefato sadomasô e tinha uma mancha perto da barra que ela não queria identificar.

 Abby, enquanto isso, tinha batido na porta de Olivia e entrado. “O coração partido da Maddy já era”, ela disse. “Acorda! Você tem que ver isso aqui.”

 O caminho para o banheiro estava livre. A necessidade que Madeleine sentia de um banho era radical, quase patológica. No mínimo ela precisava escovar os dentes. Mas a voz de Olivia agora já era audível. Logo Madeleine teria duas colegas a interrogando. Havia o risco de que os seus pais começassem a tocar a campainha de novo a qualquer momento. Tentando fazer o mínimo de barulho, ela foi avançando pelo corredor aos poucos. Enfiou os pés em um par de mocassins que tinham ficado na porta, esmagando o calcanhar dos sapatos enquanto se equilibrava, e escapou para o corredor externo.

Jeffrey Eugenides, A trama do casamento
tradução de Caetano W. Galindo
Créditos: Blog Companhia das Letras

terça-feira, 29 de maio de 2012

Quando eu

An-He


Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.


Alberto Caeiro

Quero me casar




Quero me casar
Na noite na rua
No mar ou no céu
Quero me casar. 

Procuro uma noiva
Loura morena
Preta ou azul
Uma noiva verde
Uma noiva no ar
Como um passarinho. 

Depressa, que o amor
Não pode esperar!


Carlos Drummond de Andrade

Flores da pele



como um jardineiro que vai moldando 
os espaços de beleza em uma casa antiga 
vou escarpindo meus olhos sobre as vestes 
do que despe uma manhã de sanidade pouca 
num mundo em eterna convulsão 

não sei de onde virão as palavras que 
somam-se aos ventos no movimento das flores 
que de tamanha volúpia e beleza disputam 
presença com o hálito das formigas 

são renais as pedras que cobrem o estrumo 
de saberes mal digeridos e que a todo instante 
bocejam com os impulsos do ar que movimenta 
folhas espalhadas pela calçada 

na espera de uma colheita que as removerá 
como um entulho de uma beleza que nunca 
espelha seus motivos 


 lau siqueira

Frida Kahlo - Her Paintings

Manhã



Estou 
e num breve instante 
sinto tudo 
sinto-me tudo 

 Deito-me no meu corpo 
e despeço-me de mim 
para me encontrar 
no próximo olhar 

 Ausento-me da morte 
não quero nada 
eu sou tudo 
respiro-me até à exaustão 

 Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

 A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos
 Educadamente mortos


  Mia Couto, do livro "Raiz de orvalho e outros poemas" 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Consideração do Poema




Para ler o Poema


Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranqüilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Reinicio a infância
no esboço do poema
e circunscrevo o litoral
fragmentado do que sou.

Quem foi que descodificou
o céu no meu olhar
e me deixou na alma
um deus imaginado?

Quando o espaço do sonho é circular
como o tempo das cerejas,
ou da migração dos pássaros
que fendem o infinito,
inadiado é o rito da poesia.

Se eu fosse uma gaivota, dançaria
na proa dos veleiros
até à hipnose
de abraçar a maresia.


Graça Pires
imagem: Tomasz Rut 


Hesito muito antes da palavra. 
porque um precipício se abre nela 
e não tem sentido,vibra apenas. 
porque pode ser a morte 
ou o nascimento para um lugar 
de cores e fadas e barcos de sol. 
porque me doem as mãos 
cada vez que tento segurar 
o mundo em traços redondos quadrados. 

por isso te digo: hesito e morro e nasço. 
e corro para a rua com a força de quem 
vai anunciar gritar chamar dizer.
mas lá fora sorrio apenas 
enquanto caminho para um banco 
de jardim, devagarinho, 
como se por um momento 
eu soubesse o nome de tudo 
e tudo tivesse o mesmo nome. 


Vasco Gato 

Jô soares, As esganadas




A gorda é a última freguesa a deixar o tradicional chá da tarde na confeitaria Colombo. Segue pela Gonçalves Dias em direção à rua do Ouvidor. Sua bata branca é amarelada pela infinita quantidade de molhos e caldos nela derramada. Farelos antiquíssimos apegam-se como náufragos desesperados aos babados da blusa. A gorda é bela. Bela e voraz. À porta da confeitaria, ainda segura meia fatia de torta de morango na mão esquerda, enquanto a direita envolve um enorme éclair de chocolate. A gorda gruda-se àquelas guloseimas como se delas dependesse sua vida. Ela é gorda, bela, voraz e gulosa.

Um dilema a aflige à medida que avança pela calçada estreita demais para ela: deveria terminar primeiro a torta ou, antes, abocanhar o éclair? Seus pequeninos olhos porcinos, indecisos, olham para os acepipes presos firmemente entre seus dedos roliços. Ela é gorda, bela, voraz, gulosa e indecisa.

Finalmente, trêmula e ofegante, numa antevisão gozosa dos prazeres que as ávidas papilas da sua língua sentiriam, a gorda atocha na boca o pedaço de torta. Mastiga e engole automaticamente, num movimento simultâneo aperfeiçoado por décadas de prática. Limpa a mão na saia cinza livrando-se dos restos do creme chantilly. As listas brancas sobre a saia formam a imagem grotesca de um quadro abstrato. Ela é gorda, bela, voraz, gulosa, indecisa e lambuzona.

A gorda chega à rua Primeiro de Março, agarrando o gigantesco éclair de chocolate com as duas mãos, como se fosse um imenso falo negro. Antes que desfira a primeira dentada na cobiçada iguaria, sua bisbilhotice é atiçada por um furgão branco fosco estacionado quase na esquina da rua. O que alerta a atenção da gorda são os diversos doces e bombons expostos numa grande prateleira que sai do veículo, e o cartaz empunhado por um homem ao lado onde se lê em letras garrafais:

degustação grátis!
prove os saborosos petiscos da pâtisserie 
doces finos e ajude-nos a escolher.
nenhuma experiência necessária.

Ela enfia na boca o éclair de uma só vez e se aproxima daquele Eldorado gastronômico sem saber que se avizinha da sua última tentação.


Jô soares, As esganadas

Gabriel García Marquez, Cem anos de solidão

O Coronel Aureliano Buendía dispunha então de tempo para enviar de quinze em quinze dias um informe pormenorizado a Macondo. Mas apenas uma vez, quase meses depois de ter partido, Úrsula lhe escreveu. Um emissário especial trouxe em casa um envelope lacrado, dentro do qual havia um papel escrito com a caligrafia preciosa do coronel: Tomem muito cuidado com papai porque ele vai morrer. Úrsula se alarmou. "Se Aureliano está dizendo, Aureliano sabe", disse. E pediu ajuda para levar José Arcadio Buendía para o seu quarto. Não só estava tão pesado como sempre, mas também na sua prolongada estadia debaixo do castanheiro tinha desenvolvido a faculdade de aumentar de peso voluntariamente, a ponto de sete homens não poderem com ele e terem de levá-lo arrastado para a cama. Um bafo de fungos novos, de orelha-de-pau, de antiga e concentrada intempérie impregnou o ar do quarto quando começou a respirá-lo o velho colossal macerado pelo sol e pela chuva. No dia seguinte não amanheceu na cama. Depois de procurá-lo por todos os quartos, Úrsula encontrou-o outra vez debaixo do castanheiro. Então o amarraram na cama. Apesar da sua força intacta, José Arcadio Buendía não estava em condições de lutar. Tanto fazia para ele. Se voltou ao castanheiro não foi por vontade, mas por um costume do corpo. Úrsula cuidava dele, dava-lhe de comer, levava-lhe notícias de Aureliano. Mas na realidade, a única pessoa com quem ele podia ter contato, há muito tempo já, era Prudencio Aguilar. Já quase pulverizado pela profunda decrepitude da morte, Prudencio Aguilar vinha duas vezes por dia conversar com ele. Falavam de galos. Prometiam fazer uma criação de animais magníficos, não tanto para desfrutar umas vitórias que no momento já não lhes fariam falta, mas para ter alguma coisa com que se distrair nos tediosos domingos da morte. Era Prudencio Aguilar quem o limpava, quem lhe dava de comer e quem lhe levava notícias esplêndidas de um desconhecido chamava Aureliano e que era coronel na guerra. Quando só, ele se consolava com o sonho dos quartos infinitos. Sonhava que se levantava da cama, abria a porta e passava para outro quarto igual, com a mesma cama de cabeceira de ferro batido, a mesma poltrona de vime e o mesmo quadrinho da Virgem dos Remedios na parede do fundo. Desse quarto passava para outro exatamente igual, cuja porta abria para passar para outro exatamente igual, e em seguida para outro exatamente igual, até o infinito. Gostava de ir de quarto em quarto, como numa galeria de espelhos paralelos, até que Prudencio Aguilar lhe tocava o ombro. Então voltava de quarto em quarto, acordando para trás, percorrendo o caminho inverso, e encontrava Prudencio Aguilar no quarto da realidade. Uma noite, porém, duas semanas depois de o terem levado para a cama, Prudencio Aguilar tocou-lhe o ombro num quarto intermediário, e ele ficou ali para sempre, pensando que era o quarto real. Na manhã seguinte, Úrsula lhe levava o café quando viu se aproximar um homem pelo corredor. Era pequeno e atarracado, com um terno de fazenda negra e um chapéu também negro, enorme, enterrado até os olhos taciturnos. "Meu Deus", pensou Úrsula. "Eu teria jurado que era Melquíades." Era Cataure, o irmão de Visitación, que havia abandonado a casa fugindo da peste da insônia, e de quem nunca se tornou a ter notícia. Visitación perguntou-lhe por que tinha voltado, e ele respondeu na sua língua solene: — Vim ao funeral do rei. Então entraram no quarto de José Arcadio Buendía, sacudiram-no com toda força, gritaram-lhe ao ouvido, puseram um espelho diante das fossas nasais, mas não puderam despertá-lo. Pouco depois, quando o carpinteiro tomava as medidas para o ataúde, viram pela janela que estava caindo uma chuvinha de minúsculas flores amarelas. Caíram por toda a noite sobre o povoado, numa tempestade silenciosa, e cobriram os tetos e taparam as portas, e sufocaram os animais que dormiam ao relento. Tantas flores caíram do céu que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta, e eles tiveram que abrir caminho com pás e ancinhos para que o enterro pudesse passar.


Gabriel García Marquez, Cem anos de solidão
Eu já fui cabo de vassoura, confesso. Um cabo de vassoura como tantos outros. Seria longo contar tudo o que tenho passado nesta longa vida, desde que me arrancaram da árvore em que fui tronco e me levaram a uma oficina, onde fui cortado, torneado e mil coisas sofri, até conhecer a nova função que me reservava o destino.
Meus irmãos de floresta, muitos cortados comigo na mesma ocasião, depois que deixaram de ser galho ou tronco de árvore para ser madeira, que é como nos chamam depois do serrote ou do machado, estão espalhados por esse mundo de Deus. Muitos, hoje são caixas e caixotes. Graças a isso, têm acabado conhecendo até países estrangeiros, levando laranjas ou latas de conserva. Outros acabaram mesas, cadeiras, armários, móveis de toda sorte. Tenho primos que são portas, janelas e se contentam olhando o movimento da rua. Alguns, tão orgulhosos no tempo das folhas, quando o vento passava e assobiava no arvoredo, são hoje, apenas, soalho. Fraco destino, para quem vivia na altura e sonhava, na pior das hipóteses, ser, pelo menos, teto ou armação de telhado, coisa que, para ser vista, obriga o bicho homem a levantar a cabeça. Ser pisado e repisado o dia inteiro, tábua humilde de assoalho, por pés desconhecidos, de sapato sujo, é triste para quem já foi árvore e enfrentou raios e ventanias.
[...]
Destino de quem foi árvore ou galho é dureza...
Os homens que nos utilizam e nos utilizaram, desde o começo dos tempos, cortando, serrando, aplainando, enfiando pregos, são de uma insensibilidade impressionante.



Orígenes Lessa, Memórias de um cabo de vassoura

sábado, 26 de maio de 2012

Corpo de Terra

Death be not pround, though some have called thee 
Mighty and dreadfull, for, thou art no soe, 
for those, whom thou think'st thou dost overthrow, 
Die not, poore death, nor yet canst thou kill me. 

 John Donne



I

Chaga de sol, rosácea ardente 
Aqueles linhos de sangue, o peito 
Mais profundo, aberto, extenso, 
Toda a delicadez do poeta 
Flui 
Exangue 
Num círculo de dor. Assim te lembro.

 

II

 Dorme o pastor. E sobre ele a pedra. 
E dentro dele, no coração, no ventre
A primeira libélula. Dorme 
Recente de raízes, o poeta.


 

III

 No seu corpo de terra, dorme o inocente. 
Cantou a solidão, a salamandra 
E um cavalo e um cavaleiro de barro 
Carmesim. E teve amor ao medo e à centelha 
Que o fez cantar assim.



IV

Dorme o profeta. E se não escuta o vento
Ouve na minha boca o seu Ofício de treva.
Em aflição, em amor eu te celebro
E na tua mão fechada está o meu grito:
O que esperaste da minha boca



V

Dorme o cantor: No dia de vossa ira
Lembrai-vos, Senhor, do sal e do carvão
Nas minas. E alguém há de calar os algozes
Do tempo, e há de nascer a flor sobre o teu sono
E pelo teu lamento.



VI

Dorme o amigo no seu corpo de terra.
E dentro dele a crisálida amanhece:
Ouro primeiro, larva, depois asa
Hás de romper a pedra, pastor e companheiro.




VII

Pastor, as violetas estão sobre os pilares
É tempo do poeta abrir seu canto
Tempo de iniciação, tempo de esfera
E de uma linha-mundo curvo-reta:
Trajetória de amor e de amplidão.



Hilda Hilst
do livro Exercícios, p. 17 - 19
imagens: Viktor Sheleg

Uma arte reflexiva

Woman at her toillet, Cayetano de Arquer Buigas


Tal como o pintor copia a natureza, o espelho
serve-se do que existe no mundo em que o puseram
para traduzir a realidade. Ao vê-la, no seu quadro
efêmero, tem-se a impressão de que pode ser
um retrato, capaz de durar para além do instante
em que a mulher atravessa o quarto, de frente
para a mulher que a olha, enquanto bebe o chá;
e as frases que trocam perdem-se no espaço
entre elas e o tempo em que viveram. Mas
o movimento que a moldura fecha, enquanto
ela não sai do campo de visão, para se vestir,
é o suficente para denunciar que tudo se resume
a um instante, e que em breve um rosto voltará
para se olhar ao espelho, pentear-se, e retocar
a pintura. A natureza das coisas é tão simples
como isto; e quando o espelho ficar vazio, o que
importa é o jarro e a bacia onde há muito
secou a água com que ela lavou os olhos, cansados
da noite, deixando a sombra das suas mãos
confundir-se com o eco das vozes que a vida levou.


 Nuno Júdice 

Limitações do flerte

Boris Geer

Que fim levaram aquelas que flertamos nos bares, esquinas e aeroportos? Não aquelas que levamos ao restaurante, parques e camas, mas aquelas tocadas num leve aceno, de longe, corpo fluindo e morrendo na ponte aérea do instante. Mas por que pensar nas distantes que nem tocamos na mão ou fronte? Preferimos jogar com a ausente? É essa a nossa concreta fonte? Como se vê, não adianta, não se aprende. A gente aqui pensando nas que flertamos de leve, em dois minutos intensos, entre um sorriso e o gesto frustro, enquanto, perto, pisamos brutos o calcanhar da que está junto, ou pulamos na jugular da que nos cobre de frutos, olhando por sobre os muros as que ondeiam seus bustos sobre a linha do horizonte. - Amar com os olhos é mais fácil e anônimo? - É mais fútil? É declarar por telefone, apenas com um fio de voz que enrosca os corpos e mentes, ou melhor, numa vaga prolação, sem dormente ou trilho que leve o trem-passageiro ao outro corpo-estação. Mas como é vegetativo esse amar plantado, esgalhando o olhar furtivamente. A isso, prefiro carnívoras plantas que se abraçam e num sufoco se esmigalham deixando ao chão sementes em que piso, convertendo a morte havida em refluir de raízes. Flertar é texto-antigo, é bordar caligrafias quando há guerra e telegramas. Flertar é prefácio e eu quero logo desfolhar o livro. Flertar é usar binóculos devastando camarotes oblíquos quando o drama está no palco - e em nossos corpos aflitos. Amar assim tão voyeurista, é tão perverso como amar só por carta, com a caneta em riste e triste é pior que conhecer estrela só na foto, é apenas vê-la de luneta, correr atrás de um cometa. É chamar a fêmea sem macho na padaria. É cear ante um retrato e uma cadeira vazia. Isto de amar de longe, só com os olhos, não é sequer ir à caça. É ir à exposição de animal de raça. É ver decoração em loja, olhar por trás da vitrina um feriado que passa. É coisa de telegrafista ou coisa de mau amador de rádio, ouvindo só os ruídos do outro lado da antena e cama. Não é tocar de ouvido partitura desconhecida. O músico, nisso, é o contrário, vai mais fundo pois pega com as mãos e arpeja a música com os dedos. E eu tenho essa mania de amar como o invasor pulando os muros de Roma, como o astronauta se acolchoando na câmara, como o casulo se entretecendo no claro-e-escuro, enfim, como a gavinha da barroca parreira crescendo a sede das vinhas.  Um amar estabanado, como a criança quebrando o delicado brinquedo e derramando a alma dos pichos sobre o tapete do medo. Comigo é assim: ficar olhando não basta. Vou logo precipitando borrasca e estrela. Que se cuide o olhar alheio quando olho com o corpo inteiro, porque alojo fácil, peço café e pijama, e fico pastando com esse olhar de boi manso no breve espaço da cama.

Affonso Romano de Sant'Anna
De Caio Para Hilda Hilst

 "Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - "Fica comigo." Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim - teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu Caio"

Caio Fernando Abreu

A Divina Comédia



Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso. Dante o segue.


Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era é cousa tão penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
Que a memória a relembra inda cuidosa.

Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
De outras cousas que vi, direi verdade.

Contar não posso como tinha entrado;
Tanto o sono os sentidos me tomara,
Quando hei o bom caminho abandonado.

Depois que a uma colina me cercara,
Onde ia o vale escuro terminando,
Que pavor tão profundo me causara.

Ao alto olhei, e já, de luz banhando,
Vi-lhe estar às espaldas o planeta,
Que, certo, em toda parte vai guiando.

Então o assombro um tanto se aquieta,
Que do peito no lago perdurava,
Naquela noite atribulada, inquieta.

E como quem o anélito esgotava
Sobre as ondas, já salvo, inda medroso
Olha o mar perigoso em que lutava,

O meu ânimo assim, que treme ansioso,
Volveu-se a remirar vencido o espaço
Que homem vivo jamais passou ditoso.

Tendo já repousado o corpo lasso,
Segui pela deserta falda avante;
Mais baixo sendo o pé firme no passo.

Eis da subida quase ao mesmo instante
Assoma ágil e rápida pantera[3]
Tendo a pele por malhas cambiante.

Não se afastava de ante mim a fera;
E em modo tal meu caminhar tolhia,
Que atrás por vezes eu tornar quisera.

No céu a aurora já resplandecia,
Subia o sol, dos astros rodeado,
Seus sócios, quando o Amor divino um dia

A tais primores movimento há dado.
Me infundiam desta arte alma esperança
Da fera o dorso alegre e mosqueado,

A hora amena e a quadra doce e mansa.
De um leão de repente surge o aspecto,[4]
Que ao meu peito o pavor de novo lança.

Que me investisse então cuido inquieto;
Com fome e raiva atroz fronte levanta;
Tremer parece o ar ao seu conspeto.

Eis surge loba, que de magra espanta;
De ambições todas parecia cheia;
Foi causa a muitos de miséria tanta!

Com tanta intensa torvação me enleia
Pelo terror, que o cenho seu movia,
Que a mente à altura não subir receia.

Como quem lucro anela noite e dia,
Se acaso o tempo de perder lhe chega,
Rebenta em pranto e triste se excrucia,

A fera assim me fez, que não sossega;
Pouco a pouco me investe até lançar-me
Lá onde o sol se cala e a luz me nega.

Quando ao vale eu já ia baquear-me
Alguém fraco de voz diviso perto,[6]
Que após largo silêncio quer falar-me.

Tanto que o vejo nesse grão deserto,
— “Tem compaixão de mim” — bradei transido —
“Quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”

“Homem não sou” tornou-me — “mas hei sido,
Pais lombardos eu tive; sempre amada
Mântua lhes foi; haviam lá nascido.

“Nasci de Júlio em era retardada,
Vivi em Roma sob o bom Augusto,
Quando em deuses havia a crença errada.

“Poeta, decantei feitos do justo
Filho de Anquíses, que de Tróia veio,
Depois que Ílion soberbo foi combusto.

“Mas por que tornas da tristeza ao meio?
Por que não vais ao deleitoso monte,
Que o prazer todo encerra no seu seio?”

“— Oh! Virgílio, tu és aquela fonte
Donde em rio caudal brota a eloqüência?”
Falei, curvando vergonhoso a fronte. —

“Ó dos poetas lustre, honra, eminência!
Valham-me o longo estudo, o amor profundo
Com que em teu livro procurei ciência!

“És meu mestre, o modelo sem segundo;
Unicamente és tu que hás-me ensinado;
O belo estilo que honra-me no mundo.

“A fera vês que o passo me há vedado;
Sábio famoso, acude ao perseguido!
Tremo no pulso e veias, transtornado!”

Respondeu, do meu pranto condoído;
“Te convém outra rota de ora avante
Para o lugar selvagem ser vencido.

“A fera, que te faz bradar tremante,
Aqui passar não deixa impunemente;
Tanto se opõe, que mata o caminhante.

“Tem tão má natureza, é tão furente,
Que os apetites seus jamais sacia,
E fome, impando, mais que de antes sente.

“Com muitos animais se consorcia,
Há-de a outros se unir té ser chegado
Lebréu, que a leve à hórrida agonia.

“Por ouro ou por poder nunca tentado
Saber, virtude, amor terá por norte,
Sendo entre Feltro e Feltro potentado.

“Será da humilde Itália amparo forte,
Por quem Camila a virgem dera a vida,
Turno Eurialo, Niso acharam morte.

“Por ele, em toda parte, repelida
Irá lançar-se no infernal assento,
Donde foi pela Inveja conduzida.

“Agora, por teu prol, eu tenho o intento
De levar-te comigo; ir-te-ei guiando
Pela estância do eterno sofrimento,

“Onde, estridentes gritos escutando,
Verás almas antigas em tortura
Segunda morte a brados suplicando.

“Outros ledos verás, que, em prova dura
Das chamas, inda esperam ter o gozo
De Deus no prêmio da imortal ventura.

“Se lá subir quiseres, um ditoso
Espírito, melhor te será guia,[8]
Quando eu deixar-te, ao reino glorioso.

“Do céu o Imperador, a rebeldia
Minha à lei castigando, não consente
Que eu da cidade sua haja a alegria.

“Em toda parte impera onipotente,
Mas tem no Empíreo sua augusta sede:
Feliz, por ele, o eleito à glória ingente!”

— “Vate, rogo-te” — eu disse — “me concede,
Por esse Deus, que nunca hás conhecido,
Porque este e maior mal de mim se arrede.

“Que, até onde disseste conduzido,
À porta de São Pedro eu vá contigo
E veja os maus que houveste referido”.

Move-se o Vate então, após o sigo.



Dante Alighieri
Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro

sexta-feira, 25 de maio de 2012


Morena dos olhos d’água



Morena dos olhos d'água
Tira os seus olhos do mar
Vem ver que a vida ainda vale
O sorriso que eu tenho
Pra lhe dar

Descansa em meu pobre peito
Que jamais enfrenta o mar
Mas que tem abraço estreito, morena
Com jeito de lhe agradar
Vem ouvir lindas histórias
Que por seu amor sonhei
Vem saber quantas vitórias, morena
Por mares que só eu sei

O seu homem foi-se embora
Prometendo voltar já
Mas as ondas não tem hora, morena
De partir ou de voltar
Passa a vela e vai-se embora
Passa o tempo e vai também
Mas meu canto ainda lhe implora, morena
Agora, morena, vem.

Morena dos olhos d'água
Tira os seus olhos do mar
Vem ver que a vida ainda vale
O sorriso que eu tenho
Pra lhe dar



Chico Buarque

Ouço uma fonte



Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.

É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.

É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.

É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.

É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.

É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!


Augusto Frederico Schmidt

Paul McCartney's 'My Valentine' Featuring Natal...

Via Crucis (A Via Crucis do Corpo)

Maria das Dores se assustou. Mas se assustou de fato.
Começou pela menstruação que não veio. Isso a surpreendeu porque ela era muito regular.
Passaram-se mais de dois meses e nada. Foi a uma ginecologista. Esta diagnosticou uma evidente gravidez.
— Não pode ser! gritou Maria das Dores.
— Por quê? a senhora não é casada?
— Sou, mas sou virgem, meu marido nunca me tocou. Primeiro porque ele é homem paciente, segundo porque já é meio impotente.
A ginecologista tentou argumentar:
— Quem sabe se a senhora em alguma noite…
— Nunca! mas nunca mesmo!
— Então, concluiu a ginecologista, não sei como explicar. A senhora já está no fim do terceiro mês.
Maria das Dores saiu do consultório toda tonta. Teve que parar num restaurante e tomar um café. Para conseguir entender.
O que é que estava lhe acontecendo? Grande angústia tomou-a. Mas saiu do restaurante mais calma.
Na rua, de volta para casa, comprou um casaquinho para o bebê. Azul, pois tinha certeza que seria menino. Que nome lhe daria? Só podia lhe dar um nome: Jesus.
Em casa encontrou o marido lendo jornal e de chinelos. Contou-lhe o que acontecia. O homem se assustou:
— Então eu sou São José?
— É, foi a resposta lacônica. Caíram ambos em grande meditação.
Maria das Dores mandou a empregada comprar as vitaminas que a ginecologista receitara. Eram para o benefício de seu filho.
Filho divino. Ela fora escolhida por Deus para dar ao mundo o novo Messias.
Comprou o berço azul. Começou a tricotar casaquinhos e a fazer fraldas macias.
Enquanto isso a barriga crescia. O feto era dinâmico: dava-lhe violentos pontapés. Às vezes ela chamava São José para pôr a mão na sua barriga e sentir o filho vivendo com força.
São José então ficava com os olhos molhados de lágrimas. Tratava-se de um Jesus vigoroso. Ela se sentia toda iluminada.
A uma amiga mais íntima Maria das Dores contou a história abismante. A amiga também se assustou:
— Maria das Dores, mas que destino privilegiado você tem!
— Privilegiado, sim, suspirou Maria das Dores. Mas que posso fazer para que meu filho não siga a via crucis?
— Reze, aconselhou a amiga, reze muito.
E Maria das Dores começou a acreditar em milagres. Uma vez julgou ver de pé ao seu lado a Virgem Maria que lhe sorria. Outra vez ela mesma fez o milagre: o marido estava com uma ferida aberta na perna, Maria das Dores beijou a ferida. No dia seguinte nem marca havia.
Fazia frio, era mês de julho. Em outubro nasceria a criança.
Mas onde encontrar um estábulo? Só se fosse para uma fazenda do interior de Minas Gerais. Então resolveu ir à fazenda da tia Mininha.
O que lhe preocupava é que a criança não nasceria em vinte e cinco de dezembro.
Ia à igreja todos os dias e, mesmo barriguda, ficava horas ajoelhada. Como madrinha do filho escolhera a Virgem Maria. E para padrinho o Cristo.
E assim foi se passando o tempo. Maria das Dores engordara brutalmente e tinha desejos estranhos. Como o de comer uvas geladas. São José foi com ela para a fazenda. E lá fazia seus trabalhos de marcenaria.
Um dia Maria das Dores empanturrou-se demais — vomitou muito e chorou. E pensou: começou a via crucis de meu sagrado filho.
Mas parecia-lhe que se desse à criança o nome de Jesus, ele seria, quando homem, crucificado. Era melhor dar-lhe o nome de Emmanuel. Nome simples. Nome bom.
Esperava Emmanuel sentada debaixo de uma jabuticabeira. E pensava:
Quando chegar a hora, não vou gritar, vou só dizer: ai Jesus!
E comia jabuticabas. Empanturrava-se a mãe de Jesus.
A tia — a par de tudo — preparava o quarto com cortinas azuis. O estábulo estava ali, com seu cheiro bom de estrume e suas vacas.
De noite Maria das Dores olhava para o céu estrelado à procura da estrela-guia.
Quem seriam os três reis magos? Quem lhe traria incenso e mirra?
Dava longos passeios porque a médica lhe recomendara caminhar muito. São José deixara crescer a barba grisalha e os longos cabelos chegavam-lhe aos ombros.
Era difícil esperar. O tempo não passava. A tia fazia-lhes, para o café da manhã, brevidades que se desmanchavam na boca. E o frio deixava-lhes as mãos vermelhas e duras.
De noite acendiam a lareira e ficavam sentados ali a se esquentarem. São José arranjava para si um cajado. E, como não mudava de roupa, tinha um cheiro sufocante.
Sua túnica era de estopa. Ele tomava vinho junto da lareira. Maria das Dores tomava grosso leite branco, com o terço na mão.
De manhã bem cedo ia espiar as vacas no estábulo. As vacas mugiam. Maria das Dores sorria-lhes. Todos humildes: vacas e mulher. Maria das Dores a ponto de chorar. Ajeitava as palhas no chão, preparando lugar onde se deitar quando chegasse a hora. A hora da iluminação.
São José, com seu cajado ia meditar na montanha. (...) E a criança nada de nascer.
Até que numa noite, às três horas da madrugada, Maria das Dores sentiu a primeira dor. Acendeu a lamparina, acordou São José, acordou a tia. Vestiram-se. E com um archote iluminando-lhes o caminho, dirigiram-se através das árvores para o estábulo. Uma grossa estrela faiscava no céu negro.
As vacas, acordadas, ficaram inquietas, começaram a mugir.
Daí a pouco nova dor. Maria das Dores mordeu a própria mão para não gritar. E não amanhecia.
São José tremia de frio. Maria das Dores, deitada na palha, sob um cobertor, aguardava.
Então veio uma dor forte demais. Ai Jesus, gemeu Maria das Dores. Ai Jesus, pareciam mugir as vacas.
As estrelas no céu.
Então aconteceu.
Nasceu Emmanuel.
E o estábulo pareceu iluminar-se todo.
Era um forte e belo menino que deu um berro na madrugada.
São José cortou o cordão umbilical. E a mãe sorria. A tia chorava.
Não se sabe se essa criança teve que passar pela via crucis. Todos passam.

Clarice Lispector

quinta-feira, 24 de maio de 2012



Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.


rui costa