segunda-feira, 30 de julho de 2012

Maravilhoso Mundo ANIMAL!



















Fabrizia Milia


Para os livros, cujo perfume
de campo e verniz fascinava
meus olhos e meu pensamento,
não tenho tempo.

Para a flor, o linho, a ramagem,
a cor, que me arrastavam como
por um bosque múrmuro e denso,
não tenho tempo.

Nem para o mar, nem para as nuvens,
nem para a estrela que adorava
não tenho, não tenho, não tenho
não tenho tempo.

Canta o pássaro inútil ritmo,
os homens passam como sombras,
e o mundo é um largo e doido vento.
Não tenho tempo.

Longe, sozinha, arrebatada,
entro no circulo secreto
e a mim mesma não me pertenço.
Não tenho tempo.

Oh, tantas coisas, tantas coisas
que a alma servira com delicia...
(São nebulosas de silencio...)
Não tenho tempo.

Lagrimas detidas – meus olhos.
Sofro, porem já não batalho
entre saudade e esquecimento.
Não tenho tempo.

Aonde me levam? Que destino
governa a delirante vida?
Nem hei de morrer como penso.
Não tenho tempo.

Tão longe esforço, e tão penoso
- e agora fechado o horizonte.
Ó vida, inefável momento,
- não tenho tempo... 


Cecília Meireles
In: Poesia Completa

Tristeza do Infinito

Bruno Dayan 



Anda em mim, soturnamente,
uma tristeza ociosa,
sem objetivo, latente,
vaga, indecisa, medrosa.
Como ave torva e sem rumo,
ondula, vagueia, oscila
e sobe em nuvens de fumo
e na minh'alma se asila.

Uma tristeza que eu, mudo,
fico nela meditando
e meditando, por tudo
e em toda a parte sonhando.

Tristeza de não sei donde,
de não sei quando nem como...
flor mortal, que dentro esconde
sementes de um mago pomo.

Dessas tristezas incertas,
esparsas, indefinidas...
como almas vagas, desertas
no rumo eterno das vidas.

Tristeza sem causa forte,
diversa de outras tristezas,
nem da vida nem da morte
gerada nas correntezas...

Tristeza de outros espaços,
de outros céus, de outras esferas,
de outros límpidos abraços,
de outras castas primaveras.

Dessas tristezas que vagam
com volúpias tão sombrias
que as nossas almas alagam
de estranhas melancolias.

Dessas tristezas sem fundo,
sem origens prolongadas,
sem saudades deste mundo,
sem noites, sem alvoradas.

Que principiam no sonho
e acabam na Realidade,
através do mar tristonho
desta absurda Imensidade.

Certa tristeza indizível,
abstrata, como se fosse
a grande alma do Sensível
magoada, mística, doce.

Ah! tristeza imponderável,
abismo, mistério, aflito,
torturante, formidável...
ah! tristeza do Infinito!


Cruz e Souza

Ó poesia - quanto te pedi

Steve Vaccariello


Ó poesia - quanto te pedi!
Terra de ninguém é onde eu vivo
E não sei quem sou - eu que não morri
Quando o rei foi morto e o reino dividido.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Lena Fed



I had no time to Hate -
  Because
  The Grave would hinder Me -
  And Life was not so
  Ample I
  Could finish - Enmity -

  Nor had I time to Love -
  But since
  Some Industry must be -
  The little Toil of Love -
  I thought
  Be large enough for Me -

***

  Para o Ódio nunca tive –
Tempo –
pois que a Morte espreita –
E a vida nunca foi
tanta
Que uma Aversão se acabasse.

Nem tempo tive de Amar –
Ocupar-me
Era preciso –
Do amor o simples Trabalho –
Como achei –
Que Me bastava.


Emily Dickinson

Allegeance

Fabrizio R.



Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima?
 
Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L'espace qu'il parcourt est ma fidélité. Il dessine l'espoir et léger l'éconduit. Il est prépondérant sans qu'il y prenne part.
 
Je vis au fond de lui comme une épave heureuse. A son insu, ma solitude est son trésor. Dans le grand méridien où s'inscrit son essor, ma liberté le creuse.
 
Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima et l'éclaire de loin pour qu'il ne tombe pas?
 
René Char

*****

Observância
 
Nas ruas da cidade está o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, qualquer um pode falar-lhe. Ele já não se lembra; quem ao certo o amou?
 
Procura o seu par no desejo dos olhares. O espaço que percorre é a minha fidelidade. Ele desenha a esperança e ligeiro despede-a. Ele é preponderante sem tomar parte em nada.
 
Vivo no fundo de si como um destroço feliz. Sem que ele saiba, a minha solidão é o seu tesouro. No grande meridiano onde inscreve o seu curso, é a minha liberdade que o escava.
 
Nas ruas da cidade está o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, qualquer um pode falar-lhe. Ele já não se lembra; quem ao certo o amou e o ilumina de longe para que não caia?

domingo, 29 de julho de 2012

As horas nuas


1

Entro no quarto escuro, não acendo a luz, quero o escuro.Tropeço no macio, desabo em cima dessa coisa, ah! meu Pai. A mania da Dionísia largar as trouxas de roupa suja no meio do caminho. Está bem, querida, roupa que eu sujei e que você vai lavar, reconheço, você trabalha muito, não existe devoção igual mas agora dá licença? Eu queria ficar assim quietinha com a minha garrafa, Ô! delícia beber sem testemunhas, algodoada no chão feito o astronauta no es­paço, a nave desligada, tudo desligado. Invisível. O que já é uma proeza num planeta habitado por gente visível demais,gente tão solicitante, olha meu cabelo! olha o meu sapato! Olha aqui o meu rabo! E pode acontecer que às vezes a gente não tem vontade de ver rabo nenhum. Licença, Diú, não leve a mal mas vou ficar um pouco por aqui mesmo, bestando no espaço. Seguindo leve nessa ór­bita espiralada até pousar de novo no planeta azul. Acho mansa essa palavra, pousar. Mas tem que ser espaçonave,imagine se aquele avião pousou, está claro que comecei a gritar, Estamos caindo! Por favor, minha senhora, fique calma, pediu a comissária de bordo me agarrando com seus dedinhos de ferro e fazendo aquela cara suave. Tenho ódio de comissária de bordo, todas fingidas, Me larga! Já estava em prantos quando ela me entregou suavíssima nas mãos da amiguinha fotógrafa, clique! clique! Pouso péssimo, pose pior ainda, clique! A atriz Rosa Ambrósio é carregada para fora do avião completamente embriagada. Primeira página. Ou segunda, en­fim, não interessa. Um jornal que só se referia ao meu nome com palavras maravilhosas, ele me amava. O Douglas. Pai desse chefete rancoroso que herdou a empresa. O querido Douglas. Éramos jovens e só os jovens se encaram com o riso secreto que ninguém entende, testemunhas um do outro, é apenas isso, me via nele como num espelho. Posso começar assim as minhas memórias: Quando nos olháva­mos eu via minha beleza refletida nos seus olhos. Bebo devagar. O pano baixa devagar. Desconfio que essa ideia narcisista já andou numa peça, eu sabia o nome da peça, enfim, milhares de pessoas banais já falaram nessa banalidade. Um dia eu fico na praia. Mas fui verdadeira. As­sumi minhas curtas verdades, assumi as mentiras compri­díssimas, assumi fantasias, sonhos — como sonhei e como sonho ainda! Principalmente assumi o meu medo. Tudo somado, um longo plano de evasão fragmentado em fugas miúdas. Diárias. Que foram se multiplicando, não leio mais jornais, desliguei a Tv com suas desgraças em primeiríssima mão, crimes humanos e desumanos, catástrofes e calamidades naturais e provocadas, Ah! um cansaço. Por que ficar sabendo tudo se não posso fazer nada? Posso dar água aos flagelados ressequidos? dar uma toalha de rosto aos inun­dados? Hein?!... As tragédias se enredando sem trégua. Não tenho culpa se tomei horror pelo horror conformado. A mi­séria paciente. Minha mulher, doutor, mais o meu filho com barraco e tudo. Nem o cachorro salvou, sumiu no meio da água, do barro... A Dinamarca envia caixotes de vacinas, o Papa pede a Deus em português. Lá do alto do palanque os políticos filhos da puta exigem providências, Meus irmãos, meus irmãozinhos! E os irmãozinhos continuam morrendo como moscas, Ah! querido Gregório, perdão, mas não su­porto mais tanta miséria, merda! Fui batizada, catequizada, conscientizada e tudo isso para ter a certeza de que não sou Deus e mesmo que fosse. Estou ciente, e daí? Não, não adianta se revoltar, Gregório se revoltou, partiu para o confronto e acabou cassado, dependurado, torturado. Sua linda cabeça pensante levando choque, porrada. Atingido no que tinha de mais precioso. Ferido para sempre.
Tive homens, até que não foram muitos mas tive. Tudo so­mado, ficaram esses dois, Gregório. E Diogo. Sem falar naque­la lembrança tão esgarçada, verdade ou invenção? Miguel. Naquela altura não sei o que podia fazer senão beber,Gregório já tinha ido embora, acho mórbido dizer que ele morreu, ele foi embora e pronto. Diogo, esse foi embora andando. E de mal comigo, é tão antiquado dizer, ficou de mal. Ficou de bem. O cravo brigou com a Rosa, eu cantava na escola. Preciso aproveitar essa ideia nas minhas memórias, acho deslumbrante ver o Bem e o Mal — com letra maiúscula — confundidos numa coisa só, cozinhando no mesmo caldeirão. Quando deviam estar como o inocente par de bibelôs gêmeos na vitrine da mamãe, lembra? Dois gordos menininhos de cabelos encaracolados, cada qual na sua pe­dra, o cestinho de morangos no colo e o sorriso. Enfeitan­do a mesma prateleira, Deus do lado direito e o Diabo por perto com sua sedução sem intenção. Sem malícia. Quando falei com Diogo sobre o que representavam para mim os bi­belôs gêmeos, ele me respondeu aos berros — ouvia jazz, o som altíssimo — que o menininho era um só, dois eram os chifres apontando por entre os caracóis. Diogo, meu amor, fico me perguntando por onde você andará, onde? Jovem e lúcido, uma lucidez assim causticante, eu me embrulhava em tanta coisa e não sabia como sair dos embrulhos, O que eu devo fazer? perguntei tantas vezes.Ele ficava me olhando com aquela sua ironia meio divertida e, ao mesmo tempo, afetuosa. Okey, falei no tempo e vejo agora que com ele eu tinha o tempo diante de mim. O tem­po diante de mim. Dizia que eu era uma burguesa alienada. Poderia ter dito, uma burguesa assumida porque nunca neguei minha condição. Tantos espelhos. Mas só agora me vejo, uma frágil mulher cheia de carências e aparências,dobrando o Cabo da Boa Esperança, já nem sei que cabo é esse, era a mamãe que falava nisso mas deve ter alguma relação com a velhice, Ô! meu Pai, que palavra desprezível. Prefiro falar em madureza. Idade da madureza. Enfim, não tem importância, cumpri minha vocação, fiz o que pude. Ao contrário de Cordélia, pobrezinha. Minha filha, minha filha! eu gritei do alto do penhasco, era uma tragédia grega e meus vestidos despedaçados na ventania. Que­riam que eu descesse do pedestal, pronto, desci, estou aqui no chão. Fecho os olhos e vejo minha filha passar boiando no rio do supérfluo, da espuma, cheguei a pensar que fosse ficar uma tenista, ganhou aí umas taças. E não aconteceu nada, zero. Depois se ligou em astronomia, Gregório e ela falavam horas seguidas sobre os astros, fiquei radiante, a mesma vocação do pai, mecânica celeste! Zero. Mas não é hipócrita como o Diogo que usa belos ternos de tweed, o melhor uísque, o melhor carro e tudo com aquele ar desleixado de quem não dá a menor atenção a essas frivolidades. O Diogo dos blues e dos sapatos italianos. Depois do sexo, me emprenhava pelo ouvido com suas fumaças intelectuais,Oh! la busca de nuestra identidad cultural!
Bebo em homenagem a la busca. Diogo, Diogo. Diante da morte de Gregório ele ficou mais convencional do que eu e chamou correndo um padre progressista, por que aquele padre? Gregório não acreditava em padres e vem um padre de jeans. Encomendou o corpo do meu amado, Amado sim!, com tanta pressa. Deixou a moto lá fora, devia estar com medo que a levassem, uma tristeza. Quem teve a ideia de chamar esse padre? eu perguntei e o Diogo desconver­sou, também não acredita em nada e de repente. Lembro da noite em que ficamos juntos e livres porque Gregório viajou com Cordélia, os feriados numa chácara.Bebemos, fizemos um amor lindo, dormi em estado de feli­cidade para acordar num susto, com Diogo em prantos e me pedindo que lesse os Mandamentos da Igreja. Era madrugada,eu estava no apartamento dele, mas onde ia achar agora um Catecismo com os Mandamentos da Igreja? Tentei dizer isso e ele chorando sem parar, era porre, tudo bem. Mas já vi que a antiga fé ressurge inteira quando ele fica criança de novo. Fácil de entender, a mãezinha levava o menino para os preparatórios da Primeira Comunhão, mas com que for­ça essa coisa da infância às vezes reaparece. Diogo Torqua­to Nave, meu secretário, eu apresentava. E os homens e as mulheres olhavam para ele com respeito porque a beleza exige respeito.
Bombons, gracejos, flores. Foi me conquistando sem pressa, encomendação do corpo e conquista de mulher madura tem que ser devagar, ouviu, padre? Se possível, com certo romantismo, ele sentiu meu constrangimento, esta brutal diferença de idade, eu disse brutal?
Abro os braços, crucificada na roupa suja que espalhei pelo chão. O braço direito é o do Bem mas o outro, o pobre braço gauche. Os bibelôs gêmeos com seus morangos. Ou cerejas? Ah! que lúcida eu fico quando bebo, encho a boca, encho o peito e digo que a confusão vem de longe, Sodoma e Gomorra, hein?! Com o Anjo fugindo espavorido da popu­lação desenfreada, atirando pedras nele. E o Papa-­Anjo lá em San Francisco tentando explicar aos gays. Aids. E daí? A delícia da vida sem delícias, também esta você quer me ti­rar? Eu ficaria com os que atiraram pedras ou com os outros que se ajoelharam? Não sei. Sempre que tenho que escolher me vem esta aflição, detesto escolher.

Lygia Fagundes Telles, As horas nuas

Inconfidentes





Toda vez que um justo grita,
Um carrasco vem calar.
Quem não presta fica vivo
Quem é bom mandam matar.
Foi trabalhar para todos
E vejam o que lhe acontece:
Daqueles a quem servia,
Já nem um mais o conhece.
Quando a desgraça é profunda,
Que amigo se compadece?
Foi trabalhar para todos
Mas por ele quem trabalha?
Tombado fica seu corpo
Nesta esquisita batalha.
Suas ações e seu nome,
Por onde a glória os espalha?
Por aqui passava um homem
(e como o povo se ria!)
Que reformava este mundo
De cima da montaria.
Por aqui passava um homem
(e como o povo se ria!)
Ele na frente falava
E atrás a sorte corria.
Por aqui passava um homem
(e como o povo se ria!)
Liberdade, ainda que tarde,
Nos prometia.


Cecília Meireles

Balada de la piedra que llora

Arantza Sestayo


la muerte se muere de risa pero la vida
se muere de llanto pero la muerte pero la vida
pero nada nada nada


Alejandra Pizarnik
Roman_Frances



O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um — tem o mel da granadilha agreste,

Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro — voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel — a que se chama — crenças —,
Vive do aroma — que se diz — amor. —


Castro Alves

Olhar

hiroshi chang


O que vejo
me atravessa
como ao ar
a ave.

o que eu vejo passa
através de mim
quase fica
atrás de mim.

o que eu vejo
- a montanha por exemplo banhada de sol
- me ocupa.

e sou apenas
essa rude pedra iluminada
ou quase

se não fora
saber que a vejo.


Ferreira Gullar

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Patricia Cornwell, IL Fattore Scarpetta

imagem: Fabrizio R.


1

Pedaços de tecido cerebral se agarravam como fiapos de lã cinza molhados às mangas do jaleco da dra. Kay Scarpetta, cuja frente estava salpicada de sangue. Serras zumbiam, água escorria e pó de osso flutuava no ar como se fosse farinha. Três mesas estavam ocupadas. havia mais corpos a caminho. Era terça-feira, dia 1º de janeiro, o primeiro dia do novo ano.
Scarpetta não ia precisar apressar o departamento de toxicologia para saber que seu paciente havia bebido antes de puxar o gatilho da espingarda com o dedo do pé. No instante em que ela abrira o homem, detectara o cheiro pútrido e pungente que o álcool exala ao ser absorvido pelo corpo. Quando Scarpetta estava fazendo sua residência em patologia forense muitos anos antes, ela costumava se perguntar se um passeio pelo necrotério assustaria alguém que bebia demais a ponto de fazer com que largasse o vício. Se ela lhe mostrasse uma cabeça aberta como se fosse um ovo quente e deixasse que a pessoa sentisse o cheiro do champanhe num corpo morto, talvez passasse a pedir só perrier. Ah, se fosse assim tão fácil. Ela viu o subchefe do departamento, Jack Fielding, erguer o lustroso bloco de órgãos de dentro da cavidade torácica de uma estudante universitária que fora assaltada num caixa eletrônico e levara um tiro, e esperou pela explosão dele. Durante a reunião de funcionários daquela manhã, Fielding comentara, indignado, que a vítima tinha a mesma idade de sua filha, e que ambas eram campeãs de corrida e estudavam medicina. Nada de bom acontecia quando ele levava um caso para o lado pessoal.
“A gente não afia mais os bisturis?”, gritou Fielding.
A lâmina oscilante de uma serra uivou, enquanto o assistente do necrotério abria um crânio e respondia, também aos gritos: “parece que eu estou à toa?”.
Fielding atirou o bisturi de volta no carrinho com um estrondo. “Como é que eu posso trabalhar nesta porra de lugar?”
“Pelo amor de deus, alguém dê um Xanax ou alguma coisa assim para esse cara.” O assistente do necrotério arrancou o tampo do crânio com um cinzel.
Scarpetta colocou um pulmão sobre uma balança, usando uma caneta eletrônica para anotar o peso num palmtop. Não havia uma caneta esferográfica, prancha ou folha de papel à vista. Quando ela subisse, só teria que passar para seu computador o que escrevera ou desenhara. Mas a tecnologia não tinha como ajudar com seu fluxo de pensamentos, e ela ainda os ditava após ter terminado tudo e tirado as luvas. Seu consultório era como o de um médico-legista moderno, acrescido daquilo que ela considerava essencial num mundo que não reconhecia mais, no qual o público acreditava em qualquer coisa “forense” que via na Tv e a violência não era um problema social, mas uma guerra.
Scarpetta começou a dividir o pulmão, notando que ele tinha o formato típico, com uma pleura visceral de superfície regular e lustrosa, e um parênquima atelectásico vermelho-claro. Havia uma quantidade mínima de espuma rósea. Não havia nenhuma outra lesão visível a olho nu, e a parte vascular do pulmão estava normal. Ela fez uma pausa quando seu assistente administrativo, Bryce, apareceu, com um olhar em seu rosto jovem que misturava desdém e repulsa. Ele não tinha nojo do que acontecia ali, só ficava ofendido pelos mesmos motivos que qualquer um poderia ficar. Bryce pegou diversas toalhas de papel de um porta-toalhas. Cobrindo a mão, ele pegou o fone de um aparelho preto preso à parede, onde o botão de uma das linhas estava piscando.
“Benton, você ainda está aí?”, ele disse ao telefone. “Ela está bem aqui,segurando uma faca enorme. Imagino que já tenha anunciado os pratos do dia. A aluna da tufts é a pior, a vida dela não valeu nem duzentas pratas. O cara era dos Bloods ou dos crips, um merdinha desses de gangue, você precisa vê-lo no vídeo da câmera de segurança. Está em todos os canais. Jack não devia estar nesse caso. Mas alguém me pergunta alguma coisa? Ele está quase tendo um aneurisma. E o suicídio, é. O cara voltou do Iraque sem nenhum arranhão. Ele está ótimo. Tenha um Feliz natal e uma boa vida.”
Scarpetta tirou sua proteção de rosto. Ela arrancou as luvas manchadas de sangue e atirou-as numa lata de lixo hospitalar vermelho vivo. Lavou as mãos numa pia funda de aço.
“O tempo está ruim aqui dentro e lá fora”, tagarelou Bryce para Benton,que não gostava de tagarelar. “A casa está cheia e ainda por cima Jack está deprimido e irritado, já mencionei isso? Acho que a gente devia ter uma conversa séria com ele. Quem sabe obrigá-lo a passar um fim de semana naquele hospital de Harvard onde você trabalha? Podemos ir todos como se fôssemos uma família, pedir um desconto...” Scarpetta pegou o fone das mãos dele, removeu as toalhas de papel e atirou-as no lixo.
“Pare de implicar com Jack”, ela disse para Bryce.
“Acho que ele está tomando esteroides de novo, e é por isso que anda tão rabugento.”
Scarpetta virou as costas para ele e para todo o resto.
“O que houve?”, ela disse para Benton.
Eles haviam se falado de manhã. Se Benton estava ligando de novo poucas horas mais tarde, enquanto ela estava na sala de autópsia, não devia ser coisa boa.
“Acho que temos um problema.”
Benton dissera a mesma coisa na noite anterior, assim que ela chegara em casa vinda da cena do crime que ocorrera diante do caixa eletrônico e o encontrara vestindo o casaco, a caminho do aeroporto Logan para pegar um voo. A polícia de nova York tinha um problema e precisava dele imediatamente.
“Jaime Berger perguntou se você poderia vir para cá”, acrescentou Benton.
Ouvir o nome daquela mulher sempre deixava Scarpetta tensa, causava-lhe um aperto no peito que não tinha nada a ver com a promotora de Nova York em si. Berger sempre estaria ligada a um passado que Scarpetta preferia esquecer.
“Quanto antes, melhor”, disse Benton. “Quem sabe o voo da uma da manhã ?
Eram quase dez horas da noite no relógio da parede. Scarpetta teria que terminar aquele exame, tomar um banho e trocar de roupa, e queria passar em casa antes. Comida, ela pensou. Mozarela feita em casa, sopa de grão-de-bico, almôndegas, pão. O que mais? A ricota com manjericão fresco que Benton adorava colocar na pizza feita em casa. Ela preparara tudo aquilo e um pouco mais no dia anterior, sem ter ideia de que estava prestes a passar a virada do ano sozinha. Não teria nada para comer no apartamento deles em nova York. Quando Benton estava sozinho, em geral pedia comida por telefone.
“Venha direto para o Bellevue”, ele disse. “Pode deixar as malas no meu escritório. Estou com sua maleta de cena do crime pronta, esperando por você.”
Scarpetta mal conseguia ouvi-lo devido ao raspar ritmado de um bisturi sendo afiado com movimentos longos e agressivos. O apito do interfone soou. Em cima do balcão, a televisão com a imagem da câmera de segurança mostrou um braço coberto por uma manga escura de camisa emergindo da janela do motorista de uma van branca, no momento em que o funcionário de um serviço de entrega apertava o botão.
“Alguém pode abrir?”, pediu Scarpetta, falando o mais alto que podia.
No andar reservado a prisioneiros do moderno Centro Hospitalar Bellevue, o fio delicado do fone de ouvido de Benton o conectava a sua esposa, que se encontrava a cerca de duzentos e cinquenta quilômetros de distância.
Ele explicou que, no fim da noite anterior, um homem fora internado na unidade de psiquiatria forense. “Berger quer que você examine os ferimentos dele.”
“Ele foi acusado de quê?”, perguntou Scarpetta.
Ao fundo, Benton podia ouvir as vozes indistintas, o barulho do necrotério — ou o que ele ironicamente chamava de “local de desconstrução”.
“De nada, por enquanto”, ele disse. “Uma pessoa foi morta ontem à noite. De uma forma incomum.”
Benton bateu na tecla da seta para baixo, fazendo subir o que estava na tela de seu computador.
“Você quer dizer que não há mandado judicial para o exame?” Respondeu na velocidade do som. “Ainda não. Mas ele precisa ser examinado agora.”
“Ele já devia ter sido examinado. No minuto que foi internado. Se havia alguma prova vestigial em seu corpo, a essa altura provavelmente ela já está contaminada ou perdida.”
Benton continuava batendo na seta para baixo, relendo o que estava na tela, perguntando-se como faria para abordar o assunto com ela. Pelo tom de voz de Scarpetta, percebeu que ela ainda não sabia de nada e rezou para que ninguém lhe contasse antes dele. Benton achava bom o fato de que Lucy Farinelli, a sobrinha de Scarpetta, tivesse acatado a vontade dele e o deixasse lidar com aquilo. Não que ele estivesse indo muito bem até ali.
Jaime Berger parecera estritamente profissional quando ligara para Benton alguns minutos antes e, pelo que ele deduzira, ela ainda não sabia da fofoca maldosa que estava circulando pela internet. Benton não sabia bem por que não dissera nada para ela quando tivera a chance. Mas não dissera, e deveria ter dito. Deveria ter sido honesto com Berger há muito tempo. Deveria ter explicado tudo para ela quase seis meses antes. “Os ferimentos dele são superficiais”, disse Benton para Scarpetta. “Ele está em isolamento, se recusa a falar, se recusa a cooperar, a não ser que você venha. Berger não quer que ninguém o coaja a fazer nada, e decidiu que o exame podia esperar até que você chegasse. Como é o que ele quer...”
“Desde quando o que o prisioneiro quer importa?”
“Relações públicas, motivos políticos... e ele não é um prisioneiro, não que alguém seja considerado um prisioneiro depois que é internado aqui. Eles são pacientes.” Benton achou seu discurso incoerente, como se estivesse saindo da boca de outra pessoa. “Como eu disse, ele não foi acusado de crime nenhum. Não tem mandado. Não tem nada. É basicamente uma internação civil. Nós não podemos obrigá-lo a ficar aqui pelo mínimo de setenta e duas horas, porque ele não assinou um formulário de consentimento e, como eu disse, não foi acusado de nenhum crime, pelo menos não por enquanto. Talvez isso mude depois que você o examinar. Mas, neste momento, ele pode ir embora quando quiser.”
“Você está esperando que eu encontre alguma coisa que vai dar à polícia evidência suficiente para acusá-lo de assassinato? E o que você quis dizer quando falou que ele não assinou... espere aí. Esse paciente se internou numa ala para prisioneiros com a condição de poder sair a hora que quiser?”
“Eu explico melhor quando você chegar. Não estou esperando que você encontre nada. Sem expectativas, Kay. Só estou pedindo que venha, pois é uma situação muito complicada. E Berger quer muito que você venha.”
“Apesar da possibilidade do prisioneiro já ter ido embora quando eu chegar.”
Benton detectou a pergunta que ela não ia fazer. Ele não estava agindo como o psicólogo forense imperturbável que Scarpetta conhecia havia vinte anos, mas ela não ia mencionar isso. Ela estava no necrotério, e não estava sozinha. Não ia perguntar que diabos havia com ele.
Benton disse: “Ele definitivamente não vai embora antes de você chegar”.
Eu não entendi por que ele está aí.” Ela não ia deixar aquilo passar.
“Não temos certeza. Resumindo: quando a polícia chegou, ele insistiu em ser trazido para o Bellevue...” “Qual o nome dele?”
“Oscar Bane. Ele disse que não ia permitir que qualquer outra pessoa além de mim fizesse a avaliação psicológica. Então fui chamado e, como você sabe, vim imediatamente para Nova York. Ele tem medo de médicos. Tem ataques de pânico.”
“Como ele sabia quem você era?”
“Ele sabe quem você é.”
“Ele sabe quem eu sou?”
“A polícia ficou com as roupas dele, mas ele diz que, se quiserem coletar qualquer prova física — e não há mandado judicial, como eu continuo enfatizando —, é você que terá que fazer. Estávamos esperando que ele se acalmasse, que concordasse em deixar que um médico local o examinasse. Impossível. Ele está mais determinado do que nunca. Diz que tem pavor de médicos. Tem odinofobia, disabiliofobia.”
“Ele tem medo de dor e de tirar a roupa?”
“E caliginefobia. Medo de mulheres bonitas.”
“Entendo. Por isso ele vai se sentir bem comigo.”
“Essa parte era para ser engraçada. Ele acha você linda e definitivamente não tem medo de você. Sou eu que devia estar com medo.”
Era verdade. Benton não queria que ela fosse para o hospital. Não queria nem que ela fosse para nova York naquele momento.
“Deixe-me ver se eu entendi. Jaime Berger quer que eu vá para aí no meio de uma tempestade de neve e examine um paciente que está numa ala para prisioneiros, mas que não foi acusado de nenhum crime...”
“Se você conseguir sair de Boston, vai ver que o tempo está ótimo aqui. Só está frio.” Benton olhou pela janela e viu um mundo todo cinza.
“Preciso terminar de examinar meu sargento da reserva do exército que morreu no Iraque, mas só descobriu quando chegou em casa. Vejo você no meio da tarde”, ela disse.
“Bom voo. Eu te amo.”
Benton desligou e voltou a bater na seta para baixo e depois na seta para cima, lendo e relendo, como se, com a leitura contínua, a coluna de fofocas deixasse de ser tão ofensiva, tão feia, tão odiosa. “Palavras não me atingem”, dizia Scarpetta sempre. Talvez isso fosse verdade no colégio, mas não na vida adulta. Palavras podiam machucar. Muito. Que tipo de monstro escreveria algo assim? Como ele descobrira?
Benton pegou o telefone.

Scarpetta prestava pouca atenção em Bryce enquanto ele a levava de carro ao aeroporto internacional Logan. Ele falava sem parar nisso ou naquilo desde que a pegara em casa.
Basicamente, Bryce estava reclamando do dr. Jack Fielding, dizendo para ela mais uma vez que uma pessoa voltar ao passado era como um cachorro comer o próprio vômito. Ou como a mulher de Ló, que olhou para trás e virou uma estátua de sal. As analogias bíblicas de Bryce eram infindáveis, irritantes e nada tinham a ver com suas crenças religiosas, se é que ele tinha alguma, mas eram pérolas que haviam sobrado de um trabalho da faculdade que ele fizera sobre a Bíblia como literatura.
O que seu assistente administrativo estava tentando dizer era que não se deve contratar pessoas do seu passado. Fielding era do passado de Scarpetta. Ele tinha problemas, mas quem não tem? Quando ela aceitara aquele cargo em Boston e começara a procurar por um subchefe de departamento, perguntara-se o que Fielding andaria fazendo, encontrara-o e descobrira que ele não estava fazendo muita coisa.
A opinião de Benton fora estranhamente anódina, chegando até a ser condescendente, o que fazia mais sentido para Scarpetta agora. Ele dissera que ela estava procurando estabilidade, e que muitas vezes as pessoas caminham para trás em vez de para a frente quando estão passando por mudanças demais. Sentir vontade de contratar alguém que ela conhecia desde o início da carreira era compreensível, dissera Benton. Mas o perigo de olhar para trás era que só víamos o que queríamos ver, ele acrescentara. Víamos o que fazia com que nos sentíssemos seguros.
O que Benton escolhera ignorar era por que scarpetta precisava se sentir segura. Seu marido não quisera nem tocar no assunto de como ela realmente se sentia em relação à vida doméstica que levava com ele, que era tão caótica e dissonante quanto sempre fora. Desde que o relacionamento deles começara, há mais de quinze anos, com um caso extraconjugal, os dois jamais haviam morado no mesmo lugar, jamais haviam conhecido o significado da convivência diária — até o verão anterior. O casamento fora uma cerimônia muito simples, no jardim atrás da casa de Scarpetta em Charleston, na carolina do sul, onde ela acabara de abrir um consultório próprio que então fora forçada a fechar.
Depois eles se mudaram para Belmont, Massachusetts, para ficar perto do hospital psiquiátrico onde Benton trabalhava, o Mclean, e perto da cidade de Watertown, onde scarpetta aceitara trabalhar como médica-legista chefe da região nordeste do estado. Como a cidade não era longe de nova York,ela achou ótima ideia os dois aceitarem o convite da Faculdade John Jay de criminal para serem professores visitantes, o que incluía oferecer consultoria de graça à polícia de nova York, ao Departamento Médico legal da cidade e a unidades de psiquiatria forense como aquela de Bellevue.
“... Eu sei que esse não é o tipo de coisa que você lê e que talvez nem considere isso preocupante mas, mesmo correndo o risco de lhe irritar, preciso comentar.” A voz de Bryce penetrou os pensamentos de Scarpetta.
Ela disse: “O que não é preocupante?”.
“Ah, não precisa prestar atenção em mim. Estou só aqui, falando sozinho.”
“Desculpe. Volte a fita.”
“Eu não disse nada depois da reunião dos funcionários porque não quis tirar sua atenção de toda a merda que estava acontecendo esta manhã. Achei que era melhor esperar você acabar e aí a gente poderia ter um tête-à-tête com a porta fechada. E, como ninguém disse nada para mim, acho que eles não viram. O que é bom, certo? Como se Jack já não estivesse irritado o suficiente esta manhã. Bom, mas ele sempre está irritado, e é por isso que tem eczemas e alopecia. e, vem cá, você viu aquela ferida atrás da orelha direita dele? Passar o natal com a família. É maravilhoso para os nervos.”
“Quantas xícaras de café você tomou hoje?”
“Por que o problema é sempre comigo? Sou só o mensageiro. Você fica viajando até que aquilo que estou tentando dizer atinge a massa crítica, e aí bum! Sou o vilão, adeus mensageiro. Se você for passar mais de uma noite em Nova York, por favor, me diga para eu pedir o serviço de roaming no celular. Devo marcar algumas aulas com aquele personal trainer que você gosta tanto? Qual o nome dele?”
Bryce pensou, colocando um dos dedos sobre os lábios.
“Kit”, ele mesmo respondeu. “Quem sabe um dia desses, quando você precisar do seu fiel trabalhador em Nova York, ele possa dar um jeito em mim. Estou com um pneuzinho.”
Bryce apertou a própria cintura.
“Mas ouvi dizer que depois dos trinta só a lipo dá jeito”, ele disse. “Posso falar a verdade?” Bryce olhou para Scarpetta, com as mãos gesticulando tanto que pareciam estar vivas e não fazer parte de seu corpo.
“Procurei o cara na internet”, ele confessou. “Fico espantado que Benton o deixe chegar perto de você. Ele lembra aquele ator, como é o nome dele, que fez Queer as Folk? o jogador de futebol americano... Ele tinha um hummer e era completamente homofóbico até ficar com Emmett, que todo mundo dizia ser a minha cara, ou o contrário, já que ele é famoso e eu não. Bom, você nunca deve ter visto essa série.”
Scarpetta disse: “não culpe o mensageiro por quê? E, por favor, mantenha pelo menos uma das mãos no volante, já que a gente está atravessando uma tempestade. Quantos refis você pegou no Starbucks esta manhã? Vi dois copos de isopor na sua mesa. Espero que não sejam desta manhã. Lembra nossa conversa sobre cafeína? Sobre como ela é uma droga e por isso vicia?”.
“É tudo sobre você”, continuou Bryce. “O que eu nunca vi antes. É muito esquisito. Em geral é mais de um famoso, entende? Porque, seja quem for o colunista, ele vaga pela cidade que nem um agente secreto canalha e esmerdeia várias celebridades ao mesmo tempo. Há pouco tempo foi Bloomberg e... ai, ai, como é mesmo o nome dela? Aquela modelo que vive sendo presa por atirar coisas nos outros? Bom, dessa vez ela é que foi atirada... para fora do Elaine’s por dizer algo obsceno para Charlie Rose. Não, espere aí. Foi Barbara Walters? Não. Estou confundindo com alguma coisa que eu vi no The View. Acho que a tal fulana, a modelo, estava correndo atrás daquele cantor o American Idol. Não, ele estava na Ellen, não no Elaine’s. E não era Clay Aiken nem Kelly Clarkson. Quem é o outro? O tiVo está me matando. Parece que o controle vai mudando de canal sem você encostar em nada. Isso já aconteceu com você?”
A neve parecia um enxame de mosquitos batendo no para-brisa, e os limpadores eram hipnóticos, mas inúteis. O trânsito estava lento, porém andava, e o aeroporto Logan estava a poucos minutos de distância. “Bryce?”, disse Scarpetta, no tom que usava quando queria mandá-lo calar a boca e responder sua pergunta. “O que é preocupante?”
“Aquele site de fofocas nojento. Quem Ver na Metrópole.
Ela já vira anúncios do site nos ônibus e no teto dos táxis de Nova York e sabia que o colunista anônimo era conhecido por ser perverso. Diziam que ele podia ser tanto um zé-ninguém quanto um jornalista que ganhara o prêmio Pulitzer e que se divertia horrores espalhando fofocas mesquinhas e ganhando dinheiro com isso. “Po-dre”, disse Bryce. “Bom, eu sei que é para ser podre mesmo, mas isso é podre abaixo da cintura. Não que eu leia essas porcarias. Mas você está no meu alerta do google, por motivos óbvios. Tem uma foto também, que é o pior. Você não saiu bem nela.”

2

 Benton se recostou na cadeira de seu escritório, olhando para os tijolos vermelhos e feios que via pela janela, iluminados pela luz oblíqua de inverno.
“Você está com voz de resfriada”, ele disse ao telefone.
“Estou me sentindo um pouco mal hoje. Por isso só retornei agora. Não me pergunte o que fizemos ontem à noite para merecer isso. Gerald não sai da cama. E não é por um bom motivo”, disse a dra. Thomas.
Ela trabalhava com Benton no Mclean. E também era sua psiquiatra. Não havia nada de estranho nisso. A dra.Thomas nascera na região oeste da Virgínia, um lugar remoto cheio de minas de carvão, e gostava de dizer: “Os hospitais são mais incestuosos que os caipiras”. Os médicos tratavam uns dos outros, assim como da família e dos amigos uns dos outros. E trepavam uns com os outros, mas de preferência não com a família e com os amigos uns dos outros. De vez em quando, casavam-se. A dra. Thomas se casara com um radiologista do Mclean que examinara a sobrinha de Scarpetta, Lucy, no laboratório de neuroimagem onde ficava o escritório de Benton. A médica sabia de praticamente cada detalhe da vida de Benton. Ela fora a primeira pessoa em quem ele pensara alguns meses antes, quando se dera conta de que precisava conversar com alguém.
“Você entrou no link que eu mandei?”, perguntou Benton.
“Entrei, e a principal pergunta é: com quem você está mais preocupado?
Acho que pode ser com você mesmo. O que acha?”
“Acho que isso faria de mim uma pessoa incrivelmente egoísta”, disse.
“É normal se sentir guampudo, humilhado”, disse a dra. Thomas.
“Esqueci que você foi uma atriz shakespeariana numa vida pregressa”, ele respondeu. “Não consigo me lembrar da última vez em que ouvi alguém se referir a outra pessoa como guampudo, e o termo não se aplica aqui. Kay não fugiu do nosso ninho de amor e caiu nos braços de outro homem. Ela foi agarrada. Se eu fosse me sentir guampudo, teria sido na época em que conteceu. Mas não senti. Estava preocupado demais com ela. Não diga que estou protestando demais, como em Hamlet.”
“Só vou dizer que quando tudo aconteceu não havia plateia”, disse a dra. Thomas. “Talvez tudo se torne mais real agora que todo mundo sabe. Você contou para ela o que está na internet? Ou ela já tinha visto?” “Não contei e tenho certeza que ela não viu. Teria ligado para me avisar. Engraçado como ela é assim.”
“É. Kay e seus heróis frágeis com pés de barro. Por que você não contou para ela?”
“Não era o momento certo.”
“Para você ou para ela?”
“Ela estava no necrotério”, disse Benton. “Preferi esperar e contar pessoalmente.”
“Vamos rever cada detalhe, Benton. Deixe-me adivinhar, você falou com ela de madrugada. Não é o que vocês sempre fazem quando estão longe um do outro?”
“Nós nos falamos de manhã.”
“Então, quando você falou com ela hoje de manhã, já sabia o que estava na internet, pois Lucy ligou para você a que horas?”, perguntou a dra. Thomas. “À uma da manhã, para lhe contar, já que a sobrinha hipomaníaca da sua esposa tem alarmes sonoros no computador, programados para acordá-la como se ela fosse um bombeiro, assim que um de seus motores de busca encontra algo importante no ciberespaço, certo?”
A dra. thomas não estava brincando. Lucy tinha mesmo alarmes que apitavam quando um de seus motores de busca encontrava algo que ela precisava saber.
Benton disse: “Na verdade ela me ligou à meia-noite. Quando essa droga foi postada”. “Mas ela não ligou para Kay.”
“Devo fazer justiça a ela e admitir que não ligou, e que concordou quando eu disse que lidaria com a situação.”
“Mas você não lidou”, disse a dra. thomas. “Então, voltemos a isso. Você falou com Kay hoje de manhã, e àquela altura já sabia há várias horas o que estava na internet? Mas não disse nada. Mesmo assim, não disse nada. Não acho que seja porque quer contar para ela pessoalmente. É uma pena, mas há ma boa chance de ela descobrir por outra pessoa além de você — se é que isso já não aconteceu.”
Benton deu um suspiro fundo e silencioso. Ele comprimiu os lábios e se perguntou quando fora, exatamente, que começara a perder a fé em si mesmo e sua habilidade de interpretar o ambiente à sua volta e reagir de acordo. Desde sempre, possuíra a misteriosa capacidade de avaliar pessoas após vê-las uma vez ou escutar o que diziam por poucos instantes. Scarpetta dizia que era o truque dele. Benton era apresentado a alguém ou ouvia um pedaço de conversa sem querer, e pronto. Ele raramente se enganava.
Mas nem vislumbrara o perigo que estava à espreita daquela vez e ainda não compreendera bem como pôde ter sido tão arrasadoramente obtuso. Benton observara a raiva e a frustração de Pete Marino aumentar ao longo dos anos. Ele sabia muito bem que era questão de tempo até que a fúria de Marino e o ódio que ele sentia dele mesmo transbordassem. Mas Benton não sentira medo daquilo. Não achara que Marino merecia ser temido dessa forma. Talvez jamais houvesse imaginado que Marino tinha um pau. Até que ele virou uma arma.
Olhando para trás, não fazia sentido. Para quase todos os outros, era impossível ignorar o machismo tosco e a volubilidade de Marino, e aquela mistura era o elemento que Benton encontrava com maior frequência nos casos que analisava. A violência sexual, não importava com que catalisador, era o que fazia com que os psicólogos forenses nunca ficassem desempregados.
“Ando fantasiando sobre matar Marino”, disse Benton. “É claro que jamais faria isso. São só fantasias. Muitas fantasias. Eu acreditava que o havia perdoado e sentia orgulho de mim mesmo, muito orgulho de mim mesmo, pela maneira como lidei com isso. Onde ele estaria sem mim? Fiz tanta coisa por ele e agora quero matá-lo. Lucy quer matá-lo. O lembrete desta manhã não ajudou, e agora todo mundo sabe. Isso fez com que tudo acontecesse de novo.”
“Ou talvez com que acontecesse pela primeira vez. Agora, virou realidade para você.”
“Mas já era realidade. Sempre senti que era”, disse Benton.
“Mas é diferente quando você lê sobre isso na internet e sabe que um milhão de pessoas está lendo também. É um nível diferente de realidade. Você finalmente está tendo uma reação emocional. Antes, era intelectual. Por autodefesa, você processou isso na sua cabeça. Acho que você deu um passo muito importante, Benton. E muito desagradável. Lamento por isso.”
“Ele não sabe que Lucy está em nova York e se ela o vir...” Benton interceptou o próprio pensamento. “Bom, isso não trás há muito tempo. Ela não o mataria, fique sabendo.” Benton observou o céu cinzento mudar sutilmente o tom de vermelho dos velhos tijolos que via da janela e, quando se remexeu na cadeira e coçou o queixo, sentiu seu próprio cheiro de homem e a aspereza da barba por fazer que Scarpetta sempre dizia ter a cor da areia. Benton passara a noite inteira acordado, nem saíra do hospital. Precisava de um banho. Precisava fazer a barba. Precisava comer e dormir.
“Às vezes, eu me pego de surpresa”, ele disse. “Quando digo coisas assim sobre Lucy, por exemplo. É literalmente uma reflexão e um lembrete da vida distorcida que eu levo. A única pessoa que jamais quis matar Marino é Kay. Ela ainda acha que tem culpa, não sei como, e isso me deixa com raiva. Com muita raiva, só isso. Evito tocar no assunto com ela, e deve ser por isso que eu não disse nada. A porra do mundo todo está lendo sobre isso na porra da internet. Estou cansado. Passei a noite acordado com uma pessoa sobre quem não posso falar, e que vai ser o maior problema.”
Benton parou de olhar pela janela. Ficou sem olhar para nada.
“Agora, estamos chegando a algum lugar”, disse a dra. Thomas. “Estava me perguntando quando você ia parar de falar bobagens e dizer que é um santo. Você está puto da vida e não é nenhum santo. Não existe santo, aliás.”
“Puto da vida. É, estou puto da vida.”
“Puto com ela.”
“É, estou mesmo”, disse Benton, e admitir aquilo o assustava. “Sei que não é justo. Meu deus, foi ela que saiu machucada. É claro que ela não pediu para isso acontecer. Ela tinha trabalhado com ele por metade da vida, então por que não o deixaria entrar em sua casa quando ele estava bêbado e não pensava direito? É isso que os amigos fazem. Mesmo sabendo o que ele sentia por ela, não foi culpa dela.”
“Ele desejou-a sexualmente no minuto em que a conheceu”, disse a dra. Thomas. “Igualzinho a você. Ele se apaixonou por ela. Assim como você. Eu me pergunto quem terá se apaixonado primeiro? Vocês dois a conheceram mais ou menos na mesma época, não? Em 1990?”
“Ele a desejava... Bom, isso já estava acontecendo havia muito tempo, é verdade. Ele tinha esse sentimento, mas ela evitava o assunto e fazia de tudo para não magoá-lo. Posso sentar aqui e analisar a situação o quanto quiser, mas sinceramente...”
Benton estava olhando pela janela de novo, conversando com os tijolos.
“Ela não podia ter feito nada diferente”, ele disse. “O que ele fez com Kay não foi culpa dela, de jeito nenhum. De muitas maneiras, não foi culpa dele. Marino jamais faria aquilo sóbrio. Nem de longe.” “Você certamente parece convencido disso”, disse a dra. Thomas.
Benton desviou o olhar da janela e voltou-se para o que estava na tela de seu computador. Depois olhou para a janela de novo, como se o céu frio e plúmbeo fosse uma mensagem para ele, uma metáfora. Removeu um clipe de papel de um artigo de revista que estava revisando e grampeou as páginas, subitamente furioso. A sociedade americana de psicologia provavelmente não ia aceitar mais uma droga de artigo científico sobre reações emocionais a membros de exogrupos. Alguém de Princeton acabara de publicar mais ou menos a mesma porcaria que Benton estava prestes a oferecer. Ele desdobrou o clipe. O desafio era transformá-lo numa linha reta sem deixar nenhuma dobrinha. No fim, eles sempre acabavam arrebentando.
"Logo eu, tão irracional”, ele disse. “Tão fora do ar. E eu fui, mesmo. Desde o início. Irracional em relação a tudo, e estou prestes a pagar por isso.”
“Você está prestes a pagar por isso porque outras pessoas sabem o que seu amigo Pete Marino fez com ela?”
“Ele não é meu amigo.”
“Achei que era. Achei que você achava que era”, disse a dra. Thomas.
“Nunca socializamos. Não temos nada em comum. Jogar boliche, ir pescar, andar de moto, ver jogo de futebol americano e beber cerveja. Bom, cerveja não. Não mais. É Marino que faz isso. Não eu. Agora que estou parando para pensar, não me lembro de jamais ter saído para jantar com ele, só nós dois. Nem uma vez em vinte anos. Não temos nada em comum. Nunca vamos ter nada em comum.”
“Ele não é de uma família elitista da Nova Inglaterra? Nunca fez pós-graduação, nunca ajudou o FBI a traçar perfis de criminosos? Não é professor da Faculdade de Medicina de Harvard? É isso que você quer dizer?”
“Não estou tentando ser esnobe”, disse Benton.
“Parece-me que vocês dois têm Kay em comum.”
“Não desse jeito. Nunca chegou a esse ponto.”
“Até onde precisava ter chegado?”
“Kay me disse que nunca chegou a esse ponto. Ele fez outras coisas.
Quando ela finalmente tirou a roupa na minha frente eu pude ver o que ele fez. Kay deu desculpas durante alguns dias. Mentiu. Eu sabia muito bem que ela não tinha fechado a porta da garagem em cima dos pulsos.” Benton se lembrou dos hematomas como nuvens carregadas, com o formato exato que teriam após alguém prender as mãos dela atrás de seu corpo e segurá-la contra a parede. Ela não oferecera qualquer explicação quando Benton finalmente vira seus seios. Ninguém jamais fizera nada parecido com ela antes, e ele jamais vira algo assim a não ser nos casos em que trabalhava. Benton sentou na cama e ficou olhando para ela, sentindo como se um cretino monstruoso tivesse mutilado as asas de uma pomba ou lacerado a pele delicada de uma criança. Ele imaginara Marino tentando devorá-la.
“Você já teve ciúmes de Marino?” A voz da dra. Thomas soou distante enquanto Benton pensava nas chagas de que não queria se lembrar.
Ele respondeu quase sem perceber: “o que é ruim, eu acho, é que eu sempre fui mais ou menos indiferente a ele”.
“Ele já passou muito mais tempo com Kay que você”, disse a dra. Thomas. “Isso poderia fazer com que algumas pessoas tivessem ciúmes. Se sentissem ameaçadas.”
“Kay jamais sentiu atração por ele. Não teria sentido nem se ele fosse o último homem do planeta.” “Acho que não vamos saber a resposta a essa pergunta até que só haja eles dois no planeta. e, nesse caso, eu e você ainda assim não saberemos.”
“Eu deveria tê-la protegido melhor”, disse Benton. “Isso é uma coisa que eu sei fazer. Proteger as pessoas. Aquelas que eu amo, a mim mesmo, pessoas que eu não conheço. Enfim, não importa. Sou especialista nisso, ou já estaria morto há muito tempo. Muita gente estaria.”
“Sim, James Bond, mas você não estava em casa naquela noite. Estava aqui.”
As palavras da dra. Thomas tiveram o mesmo efeito que um soco. Benton suportou em silêncio, mal conseguindo respirar. Ele mexeu no clipe de papel, entortando e desentortando, até que ele quebrou.
“Você se culpa, Benton?”
“Já falamos disso. E eu não dormi nada esta noite”, ele respondeu.
“É, já falamos de muitos fatos e muitas possibilidades. Por exemplo,você nunca se deu a chance de sentir o insulto pessoal que foi o que Marino fez com Kay, com quem você rapidamente se casou depois. Talvez rapidamente demais? Porque você sentiu que tinha que manter tudo estruturado, principalmente porque não a protegeu, não impediu aquilo de acontecer. É bem parecido com o que acontece quando você cuida de um caso criminal. Você assume o comando da investigação, cuida de tudo, controla cada detalhe, mantém tudo a uma distância segura de sua psique. Mas essas regras não se aplicam à nossa vida pessoal. Você me disse que fantasia sobre matar Marino, e nas nossas últimas conversas falamos sobre o que você chama de sua reação sexual em relação a Kay, embora ela não necessariamente esteja consciente disso, certo? Assim como não está consciente de que você está encarando outras mulheres de uma maneira que lhe perturba. Isso ainda é verdade?”
“É normal os homens se sentirem atraídos e não fazerem nada.”
“Só os homens fazem isso?”, Perguntou a dra. Thomas.
“Você entendeu o que eu quis dizer.”
“Do que Kay tem consciência?”
“Estou tentando ser um bom marido”, disse Benton. “Amo Kay. Estou apaixonado por ela.”
“Está com medo de ter um caso? De trair?”
“Não. De jeito nenhum. Eu jamais faria isso.”
“Não. Não. Nunca. Você traiu Connie. Largou-a para ficar com Kay. Mas isso já faz muito tempo, não?”
“Nunca amei ninguém tanto quanto amo Kay”, disse Benton. “Eu jamais me perdoaria.”
“Minha pergunta é se você tem completa confiança em si mesmo.”
“Não sei.”
“Você tem completa confiança nela? Ela é muito bonita e agora deve ter muitos fãs por causa da CNN. Uma mulher atraente e poderosa pode escolher o homem que quiser. E o personal trainer dela? Você já disse que não aguenta pensar nele colocando as mãos nela.”
“Fico feliz por ela estar se cuidando, e um personal trainer é uma coisa boa. Impede que as pessoas se machuquem, principalmente se nunca tiverem feito musculação antes e não tiverem mais vinte anos de idade.”
“Pelo que eu me lembro, ele se chama Kit.”
Benton não gostava de Kit. Ele sempre encontrava desculpas para não usar a academia que havia no condomínio deles se Scarpetta estivesse se exercitando com Kit. A dra. Thomas disse: “a verdade é que, não importa se você confia ou não em Kay, isso não vai mudar o comportamento dela. É ela que controla isso, não você. Estou mais interessada em saber se você confia em si mesmo”.
“Não sei por que você insiste nisso”, disse Benton.
“Desde que vocês se casaram, seus padrões sexuais mudaram. Pelo menos foi isso que você me disse na primeira vez em que nós conversamos. Você arruma desculpas para não fazer sexo quando a oportunidade aparece, e depois tem vontade no momento em que, aspas, não deve. De novo, foi você quem me disse. Ainda é verdade?”
“Provavelmente”, disse Benton.
“Essa é uma maneira de se vingar dela.”
“Não estou me vingando dela por causa de Marino. Jesus Cristo. Ela não fez nada de errado”, Benton tentou não soar furioso.
“Não”, disse a dra. Thomas. “Acho mais provável que você esteja se vingando dela por ser sua esposa. Você não quer uma esposa. Nunca quis, e não foi por isso que você se apaixonou. Você se apaixonou por uma mulher poderosa, não por uma esposa. Tem desejo sexual por Kay Scarpetta, não por uma esposa.” “Ela é Kay Scarpetta e também é minha esposa. Na verdade, de muitas maneiras, ela é mais poderosa agora do que jamais foi.”
“Não somos nós aqui que precisamos ser convencidos disso, Benton.”
A dra. Thomas sempre dava a Benton um tratamento especial, ou seja, era mais agressiva e confrontadora com ele do que com seus outros pacientes. Ela e Benton tinham uma característica em comum que ia além do elo terapêutico que os ligava. Um compreendia como o outro processava informação, e a dra. Thomas sabia muito bem como ver através da camuflagem linguística. Negação, evasão e comunicação passiva simplesmente não eram opções. Longas sessões de análise em que o psiquiatra ficava olhando em silêncio para o paciente e esperando que ele começasse a falar do que estava lhe incomodando não iam acontecer. Um minuto de vácuo e ela provocaria Benton como fizera da última vez: “Você veio até aqui para que eu admirasse sua gravata hermès? Ou está com alguma coisa na cabeça? Acho que a gente deve continuar de onde parou da última vez. Como anda sua libido?”.
“E Marino?”, perguntou a dra. Thomas. “Você vai conversar com ele?”
“Provavelmente não”, disse Benton.
“Bom, parece que você tem muita gente com quem não conversar, e eu vou deixá-lo com minha excêntrica teoria de que, em algum nível, tudo o que fazemos é intencional. Por isso é extremamente importante desenterrar nossas intenções antes que elas nos enterrem. Gerald está me esperando. Temos umas coisinhas para resolver. Vamos dar um jantar hoje à noite, o que é a última coisa de que estamos precisando.”
Era a maneira dela de dizer “chega”. Benton precisava pensar em tudo o que fora dito.
Ele se levantou da cadeira e ficou de pé diante da janela de seu escritório, observando aquela tarde de inverno cor de chumbo. Dezenove andares para baixo, o jardim do hospital estava repleto de plantas mortas e a fonte de concreto, seca.

 Patricia Cornwell, Scarpetta
Título original: Il Fattore Scarpetta
Tradução: Julia Romeu


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Madrigal

Adolfo Valente




Aquela enorme frieza
Não entristeça ninguém...
Ela estende o seu desdém
À sua própria beleza:

Quando, solta do vestido,
Sai da frescura do banho,
O seu cabelo castanho,
Esse cabelo comprido,

Que frio, que desconsolo!
Deixa ficar-se pendente,
Em vez de feito em serpente
Ir enroscar-se-lhe ao colo!


Camilo Pessanha

Discurso aos infiéis



Por que chorar de saudade,
se me resta o longo mar sonoro e vário,
a flor perfeita, a estrela certa,
e a canção que o pássaro vai bordando no
vento?

Por que chorar de saudade,
se me resta um jardim de palavras,
e os bosques do eco
e estes caminhos da memória me pertencem?


Por que chorar pelo que me levais,
se é maior o que fica:
se a sombra em que vos recordo é mais bela
que o vosso vulto,
se em vós morreis e em mim ressuscitais?

É melhor não ficar jamais com quem nos
ama.
O amor é um compromisso de grandeza,
o amor é uma vigília incansável
e aparentemente vã.



Passai, parti, deixai-me, vós que, no entanto,
parecestes um momento mais adoráveis
que o mar, que a flor, que a estrela
que a canção que um frágil pássaro vai
bordando no vento...

Éreis o vento, apenas.


Cecília Meireles

Ode sobre uma urna grega






Ode on a grecian urn


I

Thou still unravish’d bride of quietness,
   Thou foster-child of silence and slow time,
Sylvan historian, who canst thus express
   A flowery tale more sweetly than our rhyme:
What leaf-fring’d legend haunts about thy shape
   Of deities or mortals, or of both,
      In Tempe or the dales of Arcady?
What men or gods are these? What maidens loth?
   What mad pursuit? What struggle to escape?
      What pipes and timbrels? What wild ecstasy?

II

Heard melodies are sweet, but those unheard
   Are sweeter; therefore, ye soft pipes, play on;
Not to the sensual ear, but, more endear'd,
   Pipe to the spirit ditties of no tone:
Fair youth, beneath the trees, thou canst not leave
   Thy song, nor ever can those trees be bare;
      Bold lover, never, never canst thou kiss
Though winning near the goal — yet, do not grieve;
   She cannot fade, though thou hast not thy bliss,
      For ever wilt thou love, and she be fair!

III

Ah, happy, happy boughs! that cannot shed
   Your leaves, nor ever bid the Spring adieu;
And, happy melodist, unwearied,
   For ever piping songs for ever new;
More happy love! more happy, happy love!
   For ever warm and still to be enjoy’d,
      For ever panting, and for ever young;
All breathing human passion far above,
   That leaves a heart high-sorrowful and cloy’d,
      A burning forehead, and a parching tongue.

IV

Who are these coming to the sacrifice?
   To what green altar, O mysterious priest,
Lead’st thou that heifer lowing at the skies,
   And all her silken flanks with garlands drest?
What little town by river or sea shore,
   Or mountain-built with peaceful citadel,
      Is emptied of this folk, this pious morn?
And, little town, thy streets for evermore
   Will silent be; and not a soul to tell
      Why thou art desolate, can e’er return.

V

O Attic shape! Fair attitude! with brede
   Of marble men and maidens overwrought,
With forest branches and the trodden weed;
   Thou, silent form, dost tease us out of thought
As doth eternity: Cold Pastoral!
   When old age shall this generation waste,
      Thou shalt remain, in midst of other woe
Than ours, a friend to man, to whom thou say’st,
   «Beauty is truth, truth beauty,» —  that is all
Ye know on earth, and all ye need to know.


***

I

Inviolada noiva de quietude e paz,
   Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
   Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
   De homens ou divindades, para sempre errantes.
      Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
   Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
      Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?

II

A música seduz. Mas ainda é mais cara
   Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
   O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
   A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
      Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
   Se não chegas ao fim, ela também não muda,
      É sempre jovem e a amarás eternamente.

III

Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
   Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
   Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
   Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
      Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
   Que deixa o coração desconsolado e exausto,
      A fronte incendiada e língua ressequida.

IV

Quem são esses chegando para o sacrifício?
   Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
   De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
   Ou no alto da colina foi despovoar
      Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
   Em tuas ruas, e ninguém virá contar
      Por que razão estás abandonada e triste.

V

Ática forma! Altivo porte! em tua trama
   Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
   Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
   Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
      Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
   "A beleza é a verdade, a verdade a beleza"
      — É tudo o que há para saber, e nada mais.


John Keats
 Tradução: Augusto de Campos

A la espera de la oscuridad




Ese instante que no se olvida
Tan vacío devuelto por las sombras
Tan vacío rechazado por los relojes
Ese pobre instante adoptado por mi ternura
Desnudo desnudo de sangre de alas
Sin ojos para recordar angustias de antaño
Sin labios para recoger el zumo de las violencias
perdidas en el canto de los helados campanarios.

Ampáralo niña ciega de alma
Ponle tus cabellos escarchados por el fuego
Abrázalo pequeña estatua de terror.
Señálale el mundo convulsionado a tus pies
A tus pies donde mueren las golondrinas
Tiritantes de pavor frente al futuro
Dile que los suspiros del mar
Humedecen las únicas palabras
Por las que vale vivir.

Pero ese instante sudoroso de nada
Acurrucado en la cueva del destino
Sin manos para decir nunca
Sin manos para regalar mariposas
A los niños muertos



Alejandra Pizarnik

Ensinamento




Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.


Adélia Prado

domingo, 22 de julho de 2012

Scorpius




...La poesía es como el viento,
o como el fuego, o como el mar.
Hace vibrar árboles, ropas,
abrasa espigas, hojas secas,
acuna en su oleaje
los objetos que duermen en la playa...


José Hierro

Os Perfumes



A L.
O sândalo é o perfume das mulheres
de Istambul, e das huris do profeta; como
as borboletas, que se alimentam do
mel, a mulher do Oriente vive com as
gotas dessa essência divina.
José de Alencar


O perfume é o invólucro invisível,
Que encerra as formas da mulher bonita.
Bem como a salamandra em chamas vive,
Entre perfumes a sultana habita.

Escrínio aveludado onde se guarda
— Colar de pedras — a beleza esquiva,
Espécie de crisálida, onde mora
A borboleta dos salões — a Diva.

Alma das flores — quando as flores morrem,
Os perfumes emigram para as belas,
Trocam lábios de virgens — por boninas,
Trocam lírios — por seios de donzelas!

E ali — silfos travessos, traiçoeiros
Voam cantando em lânguido compasso
Ocultos nesses cálices macios
Das covinhas de um rosto ou dum regaço.

Vós, que não entendeis a lenda oculta,
A linguagem mimosa dos aromas,
De Madalena a urna olhais apenas
Como um primor de orientais redomas

E não vedes que ali na mirra e nardo
Vai toda a crença da Judia loura...
E que o óleo, que lava os pés do Cristo,
É uma reza também da pecadora.

Por mim eu sei que há confidências ternas,
Um poema saudoso, angustiado,
Se uma rosa de há muito emurchecida,
Rola acaso de um livro abandonado.

O espírito talvez dos tempos idos
Desperta ali como invisível nume...
E o poeta murmura suspirando:
"Bem me lembro... era este o seu perfume!"

E que segredo não revela acaso
De uma mulher a predileta essência?
Ora o cheiro é lascivo e provocante!
Ora casto, infantil, como a inocência!

Ora propala os sensuais anseios
D’alcova de Ninon ou Margarida,
Ora o mistério divinal do leito,
Onde sonha Cecília adormecida.

Aqui, na magnólia de Celuta
Lambe a solta madeixa, que se estira.
Unge o bronze do dorso da caboc’la,
E o mármore do corpo da Hetaira.

É que o perfume denuncia o espírito
Que sob as formas feminis palpita...
Pois como a salamandra em chamas vive,
Entre perfumes a mulher habita.


Castro Alves