segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Victor Nizovtsev



"Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo -  acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo... "

 Nietzsche



* Meu especial agradecimento aos seguidores e demais visitantes que por aqui passaram 
Boas festas! Feliz ano novo!


 "Não eras uma boa professora, posso agora dizer-te; não contemplavas a lentidão do raciocínio alheio, a modorra mental em que a maioria dos alunos se habituara a viver. Fazias tremendos saltos epistemológicos e quem não te entendesse ficava riscado. Eras de uma agilidade mental sem complacência.
Confesso que muitas vezes eu próprio não te entendia, mas entendia pelo menos que não valia a pena dizer-te. Nem tu serias capaz de explicar esses saltos; voavas sobre as matérias como um pardal atrevido, numa ambição de águia absoluta. Sim, eras um pardal convencido de ser águia. Não te zangues. Todos nós saltamos de galho em galho como pardais, poucos ousam o voo picado das águias. Faz-me falta essa tua ousadia, no deserto da noite que agora atravesso. Fazes-me falta. Sou professor de mentirosos amadores, não posso mentir-te."


Inês Pedrosa, Fazes-me falta

Happy New Year




Mira, no pido mucho,
solamente tu mano, tenerla
como un sapito que duerme así contento.
Necesito esa puerta que me dabas
para entrar a tu mundo, ese trocito
de azúcar verde, de redondo alegre.
¿No me prestás tu mano en esta noche
de fìn de año de lechuzas roncas?
No puedes, por razones técnicas.
Entonces la tramo en el aire, urdiendo cada dedo,
el durazno sedoso de la palma
y el dorso, ese país de azules árboles.
Asì la tomo y la sostengo,
como si de ello dependiera
muchísimo del mundo,
la sucesión de las cuatro estaciones,
el canto de los gallos, el amor de los hombres. 


Julio Cortázar
Você sabe que há jesuítas que não aceitam negros na comunidade? Ah, como eles são limpos, não? Por isso, minha filha, é preciso pensar em outros apóstolos porque muitos cuspiram na face do Cristo. Aqui, na minha cidade, eu encontrei um jesuíta na farmácia. Na frente da farmácia, você pode ver, temos a capela e o colégio. Você já viu a capela? Olha, é enorme, com vitrais enormes. Quanto custa o metro quadrado de vitral? É, velha, custa o olho. Eu disse para o jesuíta: o senhor pode me explicar por que se constróem templos assim como o seu templo? Assim como? Assim grande e assim caro. Ahn, para louvar O Senhor. É... é... mas o Senhor está farto de besteiradas, O Senhor quer muitas escolinhas, muita comidinha para as criancinhas, O Senhor quer menos burrice, mais limpeza, O Senhor quer sacerdotes limpos (pois é, eu vim comprar um desodorante, minha senhora) limpos, mas não basta desodorizar as vossas fundas axilas (minha senhora, por favor)) é preciso desodorizar a mente de muitos jesuítas, ouviu? (A senhora quer um calmante?) Você sabe que na Índia, em algumas aldeias, as criancinhas de seis anos vão para os bordéis? Olha, você sabe também que se elas não fossem para os bordéis e não morressem logo depois, deformadas, elas morreriam de qualquer jeito, de fome? Aqui, quero dizer, lá, no nordeste (ai, o nordeste, meu Deus) é assim: o homem bate na porta: como vai dona, bom dia, vim fazer uma visitinha. A mãe das menininhas que estão dentro da casa, manda o homem entrar. O homem toma um cafezinho, fala no tempo, disfarça, depois a mãe das menininhas também disfarça e diz que precisa sair. Sai. Aí o homem fica lá, trepa nas menininhas e deixa um dinheiro para a barriga de amanhã.


Hilda Hilst

Décima elegia


Só na velhice o vento não ressuscita.
A água dos olhos entra na surdez da neve
e escuta a oração do estômago, dos rins, do pulmão. 

O sono desce com a marcha dos ratos no assoalho.
Tudo foi julgado e devemos durar nas escolhas.

Só na velhice os grilos denunciam o meio-dia.
O exílio é na carne.

Esmorece o esforço de conciliar a verdade 
com a realidade.
A neblina nos enterra vivos.

Só na velhice o pó atravessa a parede da brasa,
o riso atravessa o osso.
Deciframos a descendência do vinho.

Os segredos não são contados 
porque ninguém quer ouvi-los.
O lume raso do aposento é apanhado pela ave
a pousar o bule das penas na estante do mar. 

Só na velhice acomodo a bagagem nos bolsos do casaco.
O suspiro é mais audível que o clamor. 

Recusamos o excesso, basta uma escova e uma toalha.

Só na velhice os músculos são armas engatilhadas. 
O nome passa a me carregar.

É penoso subir os andares da voz, 
nos abrigamos no térreo de um assobio.
Pedimos desculpa às cadeiras e licença ao pão.

O ódio esquece sua vingança.
Amamos o que não temos.

Só na velhice digo bom-dia e recebo
a resposta de noite.
Convém dispor da cautela e se despedir aos poucos.

Só na velhice quantos sofrem à toa
para narrar em detalhes seu sofrimento. 

O pesadelo impõe dois turnos de trabalho.
Investigo-me a ponto de ser meu inimigo.

Sustentamos o atrito com o céu, plagiando 
com as pálpebras o vôo anzolado, céreo, das borboletas.

Só na velhice há o receio em folhear edições raras
e rasgar uma página gasta do manuseio. 
Embalo a espuma como um neto.

Confundimos a ordem do sinal da cruz. 
O luto não é trégua e descanso, mas a pior luta.

Só na velhice a forma está na força do sopro.
Respeito Lázaro, que a custo de um milagre
faleceu duas vezes.

O medo é de dormir na luz.
Lamento ter sido indiscreto
com minha dor e discreto com minha alegria. 

Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem. 

Envelheci,
tenho muita infância pela frente


Fabrício Carpinejar

domingo, 30 de dezembro de 2012

Amor

Mariska Karto


Um poema, dizes, em que
o amor se exprima, tudo
resumindo em palavras.

Mas o que fica
nas palavras
daquilo que se viveu?

Um pó de sílabas,
o ritmo pobre da
gramática, rimas sem nexo...


Nuno Júdice


Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma ideia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou. Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? Ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.


Clarice Lispector




"A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos."

Trecho da Peça VIVER SEM TEMPOS MORTOS, inspirada na correspondência de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, com Fernanda Montenegro




O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.
Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.
E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.



Carlos Drummond de Andrade

Poema do falso amor

Mark Arian - Romantic Realist painter


O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro

É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro falso. A diferença
Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?

Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isto faz crer que todo amor é falso

Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso!
Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor!


Dante Milano

It's a book

Lázaro




é tempo de simulares a ressurreição

ergue-te da eternidade dos astros
escava nas veias três dias mortos
o sonho
e no fundo do espelho respira alegria
sobre o rosto escuro como um mingrólio
acende-te
na humidade sonolenta das mãos
finge a vida
mesmo que permaneças morto
bebe
a perene memória das imagens

levanta-te de mim lázaro
como se fosses água ainda turva
sublima-te com o delicado fulgor da respiração
e não regresses mais à desolação da terra
nem ao contínuo movimento falso
do coração


Al Berto, in "O Medo"

sábado, 29 de dezembro de 2012

Franz Kafka, A metamorfose

Jogar a coberta para o lado foi bem simples; ele precisou apenas inspirar um pouco e ela caiu sozinha. Mas os passos seguintes se mostraram difíceis, sobretudo porque ele estava incomumente largo. Teria necessitado fazer uso dos braços e das pernas, a fim de se levantar; ao invés delas, no entanto, ele possuía apenas várias perninhas, que se movimentavam sem parar em todas as direções e que ele, além de tudo, não conseguia dominar. Quando queria dobrar uma delas, a mesma era a primeira a se esticar; quando enfim lograva fazer o que intencionava com a referida perna, todas as outras trabalhavam, como se fossem livres, na maior e mais dolorosa das agitações:. “Apenas não ficar debalde na cama”, disse Gregor a si mesmo.

Primeiro quis sair da cama com a parte inferior de seu corpo, mas essa parte inferior, que ele aliás ainda não havia visto e a respeito da qual sequer conseguia ter uma ideia um pouco mais precisa, mostrou-se demasiado difícil de ser movimentada; a coisa ia bem devagar; e quando ele, enfim, de um modo quase selvagem e juntando todas as suas forças, jogou-se à frente sem tomar precauções, acabou escolhendo a direção errada e bateu com violência aos pés da cama; a dor ardente que sentiu ensinou-lhe que justamente a parte inferior de seu corpo de momento talvez fosse a mais sensível.

Por causa disso tentou tirar da cama primeiro a parte superior de seu corpo e virou a cabeça com cautela em direção à beira do leito. Conseguiu fazê-lo com facilidade, e apesar de sua largura e de seu peso, sua massa corporal acabava seguindo os movimentos da cabeça. Mas quando enfim segurava a cabeça para fora da cama, ao ar livre, teve medo de seguir indo adiante desse jeito, pois se acabasse por deixar-se cair ao chão dessa maneira, teria de acontecer um milagre para que a cabeça não resultasse machucada. E ele não poderia perder os sentidos justo agora, a nenhum preço; melhor seria ficar na cama.

Porém quando – depois de passar pelas mesmas dificuldades – voltou a estar, suspirando, na mesma posição de antes, tornando a ver suas perninhas se moverem e lutarem umas contra as outras, talvez ainda mais nervosas do que antes, não encontrando possibilidades de botar ordem e tranquilidade nessa arbitrariedade, tornou a dizer para si mesmo que era impossível continuar na cama e que o mais racional seria sacrificar tudo – ainda que a esperança que restasse fosse mínima – para enfim se livrar da cama. Mas ao mesmo tempo não deixou de lembrar de vez em quando, no intervalo dos movimentos, que reflexões calmas, inclusive as mais calmas, ainda são melhores do que decisões desesperadas. Em tais momentos, direcionava os olhos de modo tão afiado quanto possível à janela, mas lamentavelmente havia pouca confiança e vivacidade a tomar da visão da neblina matinal, que chegava a esconder o outro lado da ruela estreita. “já são sete horas”, disse a si mesmo ao ouvir o despertador bater de novo, “já sete horas e ainda uma neblina dessas”. E por um momentinho permaneceu deitado quieto, respirando bem fraco, como se esperasse do silêncio total a volta das circunstâncias reais e naturais.


Franz Kafka, A metamorfose

Egologia


Netotal


eu sou
mais verde
que você!

viva
o meu ambiente!


Nicolas Behr


Como em tudo, no escrever também tenho uma espécie de receio de ir longe demais. Que será isso? Por que? Retenho-me, como se retivesse as rédeas de um cavalo que pudesse galopar e me levar Deus sabe onde. Eu me guardo. Por que e para quê? Para o que estou eu me poupando? Eu já tive clara consciência disso quando uma vez escrevi:  'é preciso não ter medo de criar'. Por que o medo? Medo de conhecer os limites de minha capacidade? Ou medo do aprendiz de feiticeiro que não sabia como parar? Quem sabe, assim como uma mulher que se guarda intocada para dar-se um dia ao amor, talvez eu queira morrer toda inteira para que Deus me tenha toda.


Clarice Lispector

Dan Brown, O símbolo Perdido




“- Não tenho nenhum interesse em algo tão frívolo quanto o Santo Graal ou o patético debate da humanidade para saber qual versão da história está correta. Discussões inúteis sobre a semântica da fé não me interessam nem um pouco. São perguntas que só se respondem com a  morte.”


Dan Brown, O símbolo Perdido
 Ivano Cheli




Tu, desgraçado, - quem és?

Destino é o dos homens livres,
que tem caminhos nos pés,
- os que exaltam seus pecados,
e por ninguém são julgados
em toscos bancos de réus!


J.G. de Araújo Jorge

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

James Joyce, Ulisses



Stephen se levantou e se encaminhou para o parapeito. Apoiando-se nele olhou para a água embaixo e para o barco-correio desafogando a entrada da enseada de Kingstown.

- Nossa mãe toda-poderosa! - disse Mulligan.

Ele voltou abruptamente do mar para o rosto de Stephen seus olhos cinzentos inquisitivos.

- A tia acha que você matou a sua mãe - disse ele. - É por isso que ela não quer me deixar ter nada a ver com você.

- Alguém a matou - disse Stephen sombriamente.

- Que droga, Kinch, você podia ter se ajoelhado quando sua mãe agonizante pediu - disse Buck Mulligan. - Eu sou hiperbóreo tanto quanto você. Mas pensar em sua mãe rogando no seu último suspiro que você se ajoelhasse e rezasse por ela. E você recusou. Existe alguma coisa sinistra em você...

Ele se interrompeu e passou espuma de novo ligeiramente na face. Um sorriso tolerante crispou seus lábios.

- Mas um mímico encantador! - murmurou consigo mesmo. - Kinch, o mais encantador de todos os mímicos!

Seriamente e em silêncio ele fez a barba com tranqüilidade e cuidado.

Stephen, com o cotovelo repousando no granito pontudo, encostou a palma abaixo da sobrancelha e olhou para a extremidade da manga de seu casaco preto lustroso que começava a puir. Uma dor, que ainda não era a dor do amor, agitou seu coração. Silenciosamente, em sonho, ela viera até ele após a sua morte, seu corpo gasto dentro de largas roupas tumulares marrons, exalando um odor de cera e pau-rosa, seu sopro, que se curvara sobre ele, mudo, reprovador, um fraco odor de cinzas molhadas. Através do punho puído ele viu o mar saudado como uma grande e doce mãe pela voz bem alimentada ao seu lado. A orla da baía e o horizonte continham uma massa líquida verde opaca. Uma tigela de porcelana ficara ao lado do leito de morte dela contendo a bile que parecia uma lesma verde arrancada de seu fígado apodrecido em seus ataques de vômito e de altos gemidos.

James Joyce, Ulisses

Vossa Formosa

Kemal Kamil 


Vossa formosa juventude Ieda,  
Vossa felicidade pensativa, 
Vosso modo de olhar a quem vos olha,  
            Vosso não conhecer-vos —
Tudo quanto vós sois, que vos semelha  
À vida universal que vos esquece  
Dá carinho de amor a quem vos ama  
            Por serdes não lembrando

Quanta igual mocidade a eterna praia  
De Cronos, pai injusto da justiça,  
Ondas, quebrou, deixando à só memória  
            Um branco som de 'spuma. 


Ricardo Reis 

Poema


SVETLANA VALUEVA



Senhora de muito espanto,
vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer
que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.

Senhora de muito espanto,
sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.

Eu vim para te mostrar
que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.

Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.

Um dia perdi teu corpo
nas cores do mapa-múndi.


Carlos Pena Filho 

He And She

Svetlana Platitsina


When he came in, she was there.
When she looked at him,
he smiled. There were lights
in time's wave breaking
on an eternal shore.

Seated at table -
no need for the fracture
of the room's silence; noiselessly
they conversed. Thoughts mingling
were lit up, gold
particles in the mind's stream.

Were there currents between them?
Why, when he thought darkly,
would the nerves play
at her lips' brim? What was the heart's depth?
There were fathoms in her,
too, and sometimes he crossed
them and landed and was not repulsed.


 R. S. Thomas 

A quem interessar possa


Eu não tenho culpa. Não fui eu quem fez as coisas ficarem assim desse jeito que não entendo, que não entenderia nunca. Você também não tem culpa, vou chamá-lo de você porque ninguém nunca ficará sabendo, nem era preciso, a culpa é de todos e não é de ninguém. Não sei quem foi que fez o mundo assim horrível às vezes, quando ainda valia a pena eu ficava horas pensando que podia voltar tudo a ser como antes muito antes dos edifícios dos bancos da fuligem dos automóveis das fábricas das letras de câmbio e então quem sabe podia tudo ser de outra forma depois de pensar nisso eu ficava alegre quem sabe quem sabe um dia aconteceria mas depois pensava também que não ia adiantar nada e tudo começaria a ficar igual de novo no momento que um homem qualquer resolvesse trocar duas pedras por um pedaço de madeira porque a madeira valia mais e de repente outra vez iam existir essas coisas duras que vejo da janela na televisão no cinema na rua em mim mesmo e que eu ia como sempre sair caminhando sem saber aonde ir sem saber onde parar onde pôr as mãos os olhos e ia me dar aquela coisa escura no coração e eu ia chorar chorar durante muito tempo sem ninguém ver é verdade tenho pena de mim e sou fraco nunca antes uma coisa nem ninguém me doeu tanto como eu mesmo me doo agora mas ao menos nesse agora eu quero ser como eu sou e como nunca fui e nunca seria se continuasse me entende eu não conseguiria não você não me entendeu nem entende nem entenderia você nem sequer soube sabe saberá amanhã você vai ler esta carta e nem vai saber que você poderia ser você mesmo e ainda que soubesse você não poderia fazer nada nem ninguém eu já não acredito nessas coisas por isso eu não te disse compreende talvez se eu não tivesse visto de repente o que vi não sei no momento em que a gente vê uma coisa ela se torna irreversível inconfundível porque há um momento do irremediável como existem os momentos anteriores de passar adiante tentando arrancar o espinho da carne há o momento em que o irremediável se torna tangível eu sei disso não queria demonstrar que li algumas coisas e até aprendi a lidar um pouco com as palavras apesar de que a gente nunca aprende mas aprende dentro dos limites do possível acho não quero me valorizar não sou nada e agora sei disso eu só queria ter tido uma vida completa elas eram horríveis mas não quero falar nisso podia falar de quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não tivesse visto nunca mais porque de repente vi outra vez e outra e outra e enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces não me importo de ser vulgar não me importa o lugar-comum dizer o que outros já disseram não tenho mais nada a resguardar um momento à beira de não ser eu não sou mais tudo se revelou tão inútil à medida em que o tempo passava tudo caía num espaço enorme amar esse espaço enorme entre mim e você mas não se culpe deixa eu falar como se você não soubesse não se culpe por favor não se culpe ainda que esse som na campainha fosse gerada pelos teus dedos eu não atenderia eu me recuso a ser salvo e é tão estranho o entorpecimento começa pelos pés aquela noite eu ainda esperava quase digo sem querer teu nome digo ou escrevo não tem importância vou escrevendo e falando ao mesmo tempo com o gravador ligado é estranho me desculpa saí correndo no parque e me joguei na água gelada de agosto invadi sem ter direito a névoa dos canteiros destaquei meu corpo contra a madrugada esmaguei flores não nascidas apertei meu peito na laje fria do cimento a névoa e eu o parque e eu a madrugada e eu costurado na noite cerzido no escuro porque me dissolvia à medida em que me integrava no ser do parque e me desintegrava de mim mesmo preenchendo espaços aqueles enormes espaços brancos terrivelmente brancos e você não teve olhos para ver que o parque era você a água você a névoa você a madrugada você as flores você os canteiros você o cimento você não teve mãos para mim só aquela ternura distraída a mesma dos edifícios e das ruas mas eles me desesperavam você me desesperava eu não quero falar nelas mas elas estão na minha cabeça como os meus cabelos e as vejo a todo instante cantando aquela canção de morte a minha carne dilacerada e eu ridículo queria ter uma vida completa você não se parecia com Denise tinha os olhos de mangaba madura os mesmos que tive um dia e perdi não sei onde não sei por que e de repente voltavam em você nos cabelos finos muito finos finos como cabelos finos minto que me bastaria tocá-los para que tudo fosse outra vez mas não toquei eu não tocaria nunca na carne viva e livre eles me rotularam me analisaram jogaram mil complexos em cima de mim problemas introjeções fugas neuroses recalques traumas e eu só queria uma coisa limpa verde como uma folha de malva aquela mesmo que existiu ao lado do telhado carcomido do poço e da paineira mas onde me buscava só havia sombra eu me julgava demoníaco mas não pense que estou disfarçando e pensando como-eu-sou-bonzinho-porque-ninguém-me-ama eu me achava envilecido me sentia sórdido humilhado uma faixa de treva crescia em mim feito um câncer a minha carne lacerada estou dentro dessa carne lacerada que anda e fala inútil a carne conjunta das xifópagas e o vento um vento que batia nos ciprestes e me levava embora por sobre os telhados as cisternas as varandas os sobrados os porões os jardins o campo o campo e o lago e a fazenda e o mar eu quero me chamar Mar você dizia e ria e ríamos porque era absurdo alguém querer se chamar Mar ah mar amar e você dizia coisas tolas como quando o vento bater no trigo te lembrarás da cor dos meus cabelos você não vai muito além desses príncipes pequenos suas palavras todas não tenho culpa não tenho culpa eram de quem pedia cativa-me eu já não conseguiria bem lento eu não conseguiria eu não sei mais inventar. a não ser coisas sangrentas como esta a minha maneira de ser um momento à beira de não mais ser não me permite um invento que seja apenas um entrecaminho para um outro e outro invento mesmo a destruição tem que ser final e inteira qualquer coisa tem que ser a última uma era inteira e a outra nascia da cintura e existia só da cintura para cima como um ipsilone mole esponjosa uma carne vil uma carne preparada por toda uma estrutura de guerras epidemias pestes ódios quedas eu me sentia culpado ao vê-las assim nosso podre sangue a humanidade inteira nelas que não riam e cantavam aquela sombria canção de morte brutalmente doce elas cantavam e minhas costas doíam como se eu sozinho as sustentasse e não uma à outra mas eu eu com este sangue apodrecido que assassina crianças de fome droga adolescentes bombardeia cidades e também você e todos nós grudados indissoluvelmente grudados nojentos mas me recuso a continuar ninguém sofrerá por mim sem mim chorar ninguém entende nem precisa nem você nem eu o anel que tu me deste sobre a folha que me contém sem compreender sem compreender que você carrega toda uma culpa milenar e imperdoável a História como concreto sobre os teusmeusnossos ombros Cristo sobre nossos ombros todas as cruzes do mundo e as fogueiras da inquisição e os judeus mortos e as torturas e as juntas militares e a prostituição e doenças e bares e drogas e rios podres e todos os loucos bêbados suicidas desesperados sobre os teus meus nossos ombros leves os teus porque não sabes sim sim eu tenho culpa não é de ninguém esse desgosto de lâmina nas entranhas não é de ninguém esse sangue espantado e esse cosmos incompreensível sobre nossas cabeças não posso ser salvo por ninguém vivo e os mortos não existem a fita está acabando começo a ficar tonto a dormência chegou quem sabe ao coração talvez eu pudesse eu soubesse eu devesse eu quisesse quem sabe mas não chore nem compreenda te digo enfim que o silêncio e o que sobra sempre como em García Lorca solo resta el silêncio un ondulado silêncio os espaço de tempo a nos situar fragmentados no tempoespaçoagora não sei onde fiquei onde estive onde andei nada compreendi desta travessia cega a mesma névoa do parque outra vez a mesma dor de não ser visto elas gritam sua canção de morte este sangue nojento escorrendo dos meus pulsos sobre a cama o assoalho os lençóis a sacada a rua a cidade os trilhos o trigo as estradas o mar o mundo o espaço os astronautas navegando por meu sangue em direção a Netuno e rindo não não quebres nunca os teus invólucros as tuas formas passa
Lentamente a mão do anel que eu te dei e era vidro depois ri ri muito ri bêbado ri louco ri ate te surpreenderes com a tua não dor até te surpreenderes com não me ver nunca mais e com a desimportância absoluta de não me ver nunca mais e com minha mão nos teus cabelos distante invisível intocada no vento
Perdida a minha mão de espuma abrindo de leve esta porta assim:

Caio Fernando Abreu
(In "O Inventário do Ir-remediável")

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Steven Tyler

Marguerite Duras, O Amante

Um dia, eu já tinha bastante idade, no saguão de um lugar público, um homem se aproximou de mim. Apresentou-se e disse: "Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando jovem; venho lhe dizer que, por mim, eu a acho agora ainda mais bonita do que quando jovem; gostava menos do seu rosto de moça do que do rosto que você tem agora, devastado".

Penso com frequência nessa imagem que sou a única a ver e que nunca mencionei a ninguém. Ela continua lá, no mesmo silêncio, fascinante. Entre todas as imagens de mim mesma, é a que me agrada, nela me reconheço, com ela me encanto.

Muito cedo foi tarde demais em minha vida. Aos dezoito anos já era tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto. Aos dezoito envelheci. Não sei se isso acontece com todo mundo, nunca perguntei. Acho que me falaram dessa arremetida do tempo que às vezes nos atinge quando atravessamos as idades mais jovens, as mais celebradas da vida. Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi ganhar meus traços, uma a um, mudar a relação que existia entre eles, aumentar os olhos, entristecer o olhar, marcar mais a boca, imprimir profundas gretas na testa. Ao invés de me assustar, acompanhei a evolução desse envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, um dia ele diminuiria o ritmo e retomaria seu curso normal. As pessoas que me haviam conhecido, aos dezessete anos, quando estive na França, ficaram impressionadas ao me rever dois anos depois, aos dezenove. Eu conservei aquele novo rosto. Foi o meu rosto. Claro, ele continuou a envelhecer, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, a pele sulcada. Ele não decaiu como certos rostos de traços finos; manteve os mesmos contornos, mas sua matéria se destruiu. Tenho um rosto destruído.

Permitam-me dizer, tenho quinze anos e meio.
Uma balsa desliza sobre o Mekong.
A imagem permanece durante toda a travessia do rio.
Tenho quinze anos e meio, esse país não tem estações, vivemos numa estação só, quente, monótona; vivemos na longa zona quente da terra, sem primavera, sem renovação.

Estou num pensionato público em Saigon. Como e durmo nesse pensionato, mas vou às aulas fora, no liceu francês. Minha mãe, professora, quer que a filha faça o secundário. O que você precisa é do secundário. O que era suficiente para ela não é mais para a menina. O secundário e depois prestar concurso para ser professora de matemática. Sempre ouvi essa ladainha, dese meus primeiros anos de escola. Nunca pensei em escapar ao concurso para o magistério, ficava feliz que ela esperasse isso. Sempre vi minha mãe imaginar a cada dia seu futuro e o de seus filhos. Um dia, ela não pôde mais imaginar futuros grandiosos para os filhos, e então imaginou outros, futuros truncados, mas ainda assim eles cumpriam sua função, ocupavam-lhe o tempo. Lembro os cursos de contabilidade para meu irmão mais moço. A escola por correspondência, todos os anos, todas as séries. Temos de recuperar, dizia minha mãe. Aquilo durava três dias, nunca quatro, nunca. Deixava-se a escola por correspondência quando ela era transferida de posto. Recomeçava-se no novo posto. Minha mãe resistiu por dez anos. Não adiantou nada. Meu irmão mais moço tornou-se um pequeno contador em Saigon. Não existia escola de engenharia na colônia, e a isso devemos a partida de meu irmão mais velho para a França. Durante alguns anos, ele ali ficou para fazer engenharia. Não fez. Minha mãe certamente não se iludia. Mas não tinha escolha, precisava separar esse filho dos outros dois. Durante alguns anos ele deixou de fazer parte da família. Foi em sua ausência que a mãe comprou a concessão. Terrível aventura, mas para nós, os filhos que restavam, menos terrível do que seria a presença do assassino das crianças da noite, da noite do caçador.

Disseram-me muitas vezes que foi o sol forte demais durante toda a infância. Não acreditei nisso. Disseram-me também que foi a reflexão em que a miséria mergulhava as crianças. Mas não, não foi isso. As crianças-velhas da fome endêmica, sim, mas nós não, nós não passávamos fome, éramos crianças brancas, sentíamos vergonha, vendíamos nossos móveis, mas não passávamos fome, tínhamos um criadinho e comíamos, verdade que apenas de vez em quando, porcarias, aves do mangue, pequenos jacarés, mas essas porcarias eram preparadas por um criado, servidas por ele, e às vezes também recusávamos, permitíamo-nos esse luxo de não querer comer. Não, aconteceu alguma coisa quando eu tinha dezoito anos que fez surgir esse rosto. Devia ser à noite. Eu não tinha medo de mim, tinha medo de Deus. De dia eu tinha menos medo, e a morte parecia menos pesada. Mas ela não me deixava. Eu queria matar meu irmão mais velho, queria matá-lo, ter razão contra ele uma vez, pelo menos uma única vez, e vê-lo morrer. Era para retirar da frente de minha mãe o objeto de seu amor, esse filho, puni-la por amá-lo tanto, tão mal, e sobretudo para salvar meu irmão mais moço, achava eu, meu irmãozinho, minha criança, da vida vivida por esse irmão mais velho sobre a sua, desse véu negro sobre o dia, dessa lei representada por ele, decretada por ele, um ser humano, e que era uma lei animal, e que a cada instante de cada dia disseminava o medo na vida de meu irmão pequeno, medo que certa vez atingiu seu coração e o levou à morte.

Escrevi muito sobre essas pessoas da minha família, mas enquanto ainda estavam vivas, a mãe e os irmãos, e escrevi sobre eles, sobre essas coisas, sem chegar diretamente até elas.

A história da minha vida não existe. Nunca há um centro. Nem caminho, nem linha. Há vastos lugares em que é de se crer que houvesse alguém, não é possível que não houvesse  ninguém. A história de uma minúscula parte de minha juventude, já a escrevi mais ou menos, enfim, quero dizer, dei-a a perceber; falo justamente dessa parte, a da travessia do rio.  O que faço aqui é diferente, e parecido. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam esclarecidos. Aqui falo dos períodos encobertos dessa mesma juventude, de certos fatos, certos sentimentos, certos acontecimentos que enterrei. Comecei a escrever num meio que me impelia fortemente ao pudor. Escrever para eles ainda era moral. Escrever, agora, é muitas vezes como se não fosse mais nada. Às vezes sei disso: que a partir do momento em que não é mais, todas as coisas confundidas, irá ao sabor da vaidade e do vento, escrever não é nada. Que a partir do momento em que não é, a cada vez, todas as coisas confundidas numa só por essência indefinível, escrever não é nada senão publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião, vejo que todos os campos estão abertos, que não haveria mais muros, que a escrita não teria mais onde se esconder, onde ser feita, onde ser lida, que sua inconveniência fundamental não seria mais respeitada, mas não vou muito além.


Agora vejo que desde muito jovem, desde os dezoito, quinze anos, tive aquele rosto premonitório deste outro que depois adquiri com o álcool na meia-idade. O álcool cumpriu a função que Deus não cumprira, ele também teve a função de me matar, de matar. Esse rosto alcoólico me veio antes do álcool. O álcool só veio confirmá-lo. Havia em mim o lugar para ele, soube disso como os outros, mas, curiosamente, antes da hora. Assim como havia em mim o lugar do desejo. Aos quinze anos, eu tinha o rosto do gozo  e não conhecia o gozo. Via-se muito bem esse rosto. Até minha mãe devia vê-lo. Meus irmãos viam. Tudo começou desse jeito para mim, por esse rosto visionário, extenuado, esses olhos pisados antes do tempo, antes da experiência.

Quinze anos e meio. É a travessia do rio.
 Quando volto a Saigon, sinto-me em viagem, principalmente quando pego o ônibus. E naquela manhã peguei o ônibus em Sadec, onde minha mãe é diretora da escola feminina. É o fim das férias escolares, não lembro bem quais. Fui passá-las na pequena residência funcional de minha mãe. E nesse dia estou voltando a Saigon, ao pensionato. O ônibus para os nativos saiu da praça do mercado de Sadec. Como de hábito, minha mãe me acompanhou e me confiou ao motorista, ela sempre me confia aos motoristas de ônibus de Saigon, para o casso de um acidente, um incêndio, um estupro, um ataque de piratas, uma pane fatal da balsa. Como de hábito, o motorista me colocou na frente, perto dele, no lugar reservado aos passageiros brancos.

É no curso dessa viagem que a imagem teria sido destacada, subtraída ao conjunto. Poderia ter existido, poderiam ter tirado uma foto, como qualquer outra, outro lugar, em outras circunstâncias. Mas não tiraram. O objeto era miúdo demais para tanto.  Quem iria pensar nisso? Ela só poderia ter sido tirada se fosse possível prever a importância daquele acontecimento em minha vida, aquela travessia do rio. Ora, enquanto esta ocorria, até mesmo sua existência era ainda ignorada. Só Deus a conhecia. É por isso que essa imagem, e não podia ser de outra forma, não existe. Foi omitida. Foi esquecida. Não foi destacada, subtraída ao conjunto. É a essa falta de ter sido registrada que ela deve sua virtude, a de representar um absoluto, de ser justamente a sua autora.

É, portanto, durante a travessia da balsa de um braço do Mekong entre Vinhlong e Sadec, na grande planície de lodo e arroz ao sul da Cochinchina,  a planície dos Pássaros.

Desço do ônibus. Vou até a murada. Olho o rio. Às vezes minha mãe me diz que nunca, em toda a minha vida, voltarei a ver rios tão belos, tão grandes, tão selvagens, o Mekong e seus braços que descem para os oceanos, esses territórios de água que vão desaparecer nas cavidades dos oceanos. Na planura a perder de vista, esses rios correm velozes, deslizam como se a terra se inclinasse.

Sempre desço do ônibus quando estamos na balsa, à noite também, porque sempre tenho medo, medo de que os cabos cedam, que sejamos arrastados para o mar. Na terrível correnteza vejo o último momento de minha vida. A correnteza é tão forte que arrastaria tudo, até pedras, uma catedral, uma cidade. Há uma tempestade que sopra no interior do rio. Um vento que se debate.


Marguerite Duras, O Amante

Metáfora dentro


jia lu



o bom poema
é o que arranca
a pele

(apele não
eu disse a pele)

o bom poema
nem sempre é
lindo

... bueno
já expliquei

(vou indo)



 lau siqueira

Contra o Tempo



Corro contra o tempo pra te ver
Eu vivo louco por querer você
 morro de saudade a culpa é sua

Bares, ruas, estradas, desertos, luas
Que atravesso em noites nuas
 só me levam pra onde está você

O vento que sopra meu rosto cega
Só o seu calor me leva
 de uma estrela pra lembrança sua


O que sou, onde vou, tudo em vão
Tempo de silêncio e solidão 
O mundo gira sempre em seu sentido
E tem a cor do seu vestido azul
todo acaso finda em seu sorriso nu

Na madrugada uma balada soul
Um som assim meio rock n' roll
 só me serve pra lembrar você

Qualquer canção que eu faça tem sua cara
Rima rica, jóia rara
 tempestade louca no Saara

O que sou, onde vou, tudo em vão
Tempo de silêncio e solidão. 


Rita Ribeiro

Maarten Boffe






quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

André Malraux, A Condição Humana

"Mas, enquanto se liberta da sua vida", pensava ela, "outros Katows são queimados nas fornalhas, outros Kyros..."
O olhar de Gisors, como se tivesse seguido o gesto de esquecimento, perdeu-se ao longe: pra lá da estrada, os mil ruídos de trabalho do porto pareciam voltar com as vagas para o mar resplendente. Correspondiam ao deslumbramento da primavera japonesa com o esforço dos homens, com os navios, os elevadores, os automóveis, a multidão ativa. May pensava na carta de Pei: era no trabalho enérgico desencadeado por toda a terra russa, na vontade de uma multidão para quem esse trabalho se fizera vida, que se tinham refugiado os seus mortos. O céu raiava nos esboços dos pinheiros como sol; o vento que inclinava molemente os ramos deslizou-lhes sobre os corpos estendidos. Pareceu a Gisors que esse vento passava através dele como um rio, como o próprio tempo, e, pela primeira vez, a ideia de que passava por ele o tempo que o aproximava da morte não o separou do mundo, antes o ligou a este num acordo sereno. Fitava o amontoado de guindastes ao fundo da cidade, os paquetes e os barcos no mar, as manchas humanas na estrada. "Todos sofrem", pensou, "e cada um sofre porque pensa. No fundo, o espírito só pensa o homem no eterno, e a consciência da vida só pode ser angústia. Não se deve pensar a vida com o espírito, mas com o ópio. Quantos sofrimentos dispersos nesta luz desapareceriam, se desaparecesse o pensamento..." Liberto de tudo, mesmo de ser homem, acariciava com reconhecimento o cano do cachimbo, contemplando a agitação de todos esses seres desconhecidos que caminhavam para a morte ao deslumbrante sol, cada um acariciando no mais secreto de si o seu parasita assassino. "Todos os homens são loucos", pensou ainda, "mas que é um destino humano senão uma vida de esforços para unir esse louco e o Universo?..." Tornou a ver Ferral, iluminado pela lâmpada baixa, na noite cheia de bruma, ouvindo: "Todo homem sonha ser deus..."
Cinquenta sirenas ao mesmo tempo invadiram o ar; aquele dia era véspera de festa, e o trabalho acabava. Antes de qualquer mudança no porto, homens minúsculos atingiram, como batedores, o caminho direito que levava à cidade, e em breve a multidão enchia-o, longínqua e negra, num barulho de buzina: patrões e operários largavam ao mesmo tempo o trabalho. Vinha como ao assalto, com o grande movimento inquieto de toda multidão contemplada a distância. Gisors vira a corrida dos animais para as fontes, ao cair da noite:  um, algum, todos precipitados para a água por uma força caída com as trevas; na sua recordação, o ópio dava à corrida cósmica uma harmonia selvagem, e os homens perdidos no longínquo barulho dos socos pareciam-lhe todos doidos separados do Universo, cujo coração, batendo algures, no alto, na luz palpitante, agarrava-os e atirava-os para a solidão, como os grãos de uma colheita desconhecida. Ligeiras, muito altas, as nuvens passavam por cima dos pinheiros sombrios e sumiam-se pouco a pouco no céu; e pareceu-lhe que um dos seus grupos, aquele precisamente, exprimia os homens que conhecera ou amara, e que estavam mortos. A humanidade era espessa e pesada, pesada de carne, de sangue, de sofrimento, eternamente colada a si mesma como tudo o que morre; mas mesmo o sangue, mesmo a morte sumiam lá longe na luz, como a música na noite silenciosa: pensou na de Kama, e a dor humana pareceu-lhe subir e perder-se como o próprio canto da terra; na paz tremente, e escondida nele como o coração, a dor possuída fechava lentamente os braços inumanos.
- Fuma muito? - repetiu ela.
Já lho perguntara, mas ele não atinha ouvido. O seu olhar voltou à sala:
- Julga que não adivinho o que pensa, e julga que eu não o sei melhor que você? Julga mesmo que me não seria fácil perguntar-lhe com que direito me condena?
Olhou-a:
- Não deseja ter um filho?
Ela não respondeu: esse desejo sempre fervoroso parecia-lhe agora uma traição. Mas olhava com espanto aquele rosto sereno. Voltava na verdade do fundo da morte, estranho como um dos cadáveres das valas comuns. Na repressão que caíra sobre a China esgotada, na angústia ou na esperança do povo, a ação de Kyo continuava incrustada como as inscrições dos impérios primitivos nas gargantas dos rios. Mas mesmo a velha China que esses poucos homens tinham atirado sem retorno às trevas, com um estrondo de avalancha, não estava mais apagada do mundo que o sentido da vida de Kyo do rosto do pai. Ele continuou:
- A única coisa que eu amava foi-me tirada, não é verdade? e quer que eu permaneça o mesmo. Julga que o meu amor não valeu o que vale o seu para você, cuja vida nem sequer mudou?
- Como não muda o corpo de um vivo que se torna um morto...
Ele pegou-lhe na mão.
- Conhece a frase: "São precisos nove meses para fazer um homem, e um só dia para o matar". Nós soubemo-lo tanto quanto se pode saber, um e outro... May, ouça: não são precisos nove meses, são precisos cinquenta anos para fazer um homem, cinquenta anos de sacrifício, de vontade, de... de tanta coisa! E quando esse homem está feito, quando nada mais há nele da infância, nem da adolescência, quando, verdadeiramente, ele é um homem, nada mais resta senão morrer.
Ela fitava aterrada; ele olhava as nuvens:
- Amei Kyo como poucos homens amam os filhos, bem sabe...
Continuava a segurar-lhe a mão, chegou-a para si, tomou-lha nas suas:
- Ouça-me: temos de amar os vivos, e não os mortos.
- Eu não vou a Moscou para amar.
Ele contemplava a a baía magnífica, cheia de sol. Ela retirara a mão.
No caminho da vingança, May encontra-se a vida...
- Não é uma razão para a chamar.
Ela levantou-se, estendeu-lhe a mão em sinal de adeus. Mas ele segurou-lhe o rosto entre as palmas das mãos e beijou-lho. Kyo beijara-a assim, no último dia, exatamente assim, e nunca mais quaisquer mãos lhe tinham agarrado a cabeça.
- Agora já não choro - disse ela, com um orgulho triste.


André Malraux, A Condição Humana

Vai Alta no Céu

 


Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
alba luna



 Mas o outro lado, do qual escapei mal e mal, tornou-se sagrado e a ninguém conto meu segredo. Parece-me que em sonho fiz no outro lado um juramento, pacto de sangue. Ninguém saberá de nada: o que sei é tão volátil e quase inexistente que fica entre mim e eu.
Sou um dos fracos? fraca que foi tomada por ritmo incessante e doido? se eu fosse sólida e forte nem ao menos teria ouvido o ritmo? Não encontro resposta: souÉ isto apenas o que me vem da vida. Mas sou o quê? a resposta é apenas: sou o quê. embora às vezes grite: não quero mais ser eu!! mas eu me grudo a mim e inextricavelmente forma-se uma tessitura de vida.
Quem me acompanha que me acompanhe: a caminhada é longa, é sofrida mas é vivida. Porque agora te falo a sério: não estou brincando com palavras. Encarno-me nas frases voluptuosas e ininteligíveis que se enovelam para além das palavras. E um silêncio se evola sutil do entrechoque das frases.
Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a o que salva então é escrever distraidamente.


Clarice Lispector



A flor
Sonha 
Com pólens 
e estames

e acorda 
toda 
molhadinha


Nicolas Behr

Bento XVI e as ameaças contra a humanidade

O papa Bento XVI disse que o casamento homossexual “ameaça o futuro da humanidade”.

Eu pensava que o que o ameaçava eram as guerras (muitas delas étnicas ou religiosas), a fome, a miséria econômica, a desigualdade e as injustiças sociais, a violência, o tráfico de drogas e de armas, a corrupção, o crime organizado, as ditaduras de todo tipo, a supressão das liberdades em diferentes países, os genocídios, a poluição ambiental, a destruição das florestas, as epidemias… Porém o papa, mesmo ciente de todos esses males e consciente de que sua instituição – a Igreja Católica Apostólica Romana – contribuiu com muitos deles ao longo da história ocidental,  disse que a humanidade é ameaçada pelo fato de dois homens ou duas mulheres se amarem e, por isso, decidirem construir um projeto de vida comum e obter o reconhecimento legal dessa união para gozar de direitos já garantidos aos heterossexuais.

O amor e a felicidade como ameaças contra a humanidade: foi o que afirmou Bento XVI.

O amor, uma ameaça?!

Dentre todos os desatinos do papa, este foi o que mais me chocou. Talvez porque sua afirmação estapafúrdia e anacrônica tenha violado diretamente a minha dignidade humana de homossexual assumido e orgulhoso de minha orientação sexual e de minha formação científica (sim, porque a afirmação de Bento XVI parte da crença absurda de que o casamento civil igualitário vai transformar todos os homens e mulheres em homossexuais e vai impedir que todas as mulheres da Terra recorram às técnicas de reprodução artificial).

Ora, o amor, como a fé, é inexplicável:  sente-se ou não. Não há dicionário que possa defini-lo; só o poeta pode dizer alguma coisa a respeito — fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente — mas para entendê-lo é preciso sentir tudo aquilo que o papa, os cardeais, os bispos e os padres, pelas regras do trabalho que escolheram desde jovens, são proibidos de sentir – seja por outro homem, seja por uma mulher.

Talvez por isso eles não entendem.

Mas o amor nunca poderia ser uma ameaça para a humanidade; antes, sim, uma salvação para os seus piores males, um antídoto contra os venenos que a intoxicam, uma vacina contra as doenças que a afligem. O papa está errado de cabo a rabo. Ele não entendeu nada mesmo.

Contudo, mesmo não entendendo, ele deveria ter um pouco de responsabilidade. Suas palavras têm poder, influência, entram na cabeça e no coração de milhões de pessoas no mundo inteiro. Ele poderia usá-las para fazer o bem. Em vez de dedicar tanto tempo e esforço a injuriar os homossexuais — eu confesso que não consigo entender o porquê dessa obsessão que ele tem com a gente — o papa poderia se colocar na luta contra os verdadeiros males que ameaçam, sim, a humanidade. Esses que matam milhões, que arruínam vidas, que condenam povos inteiros.

Bento XVI não pode continuar difundindo o ódio e o preconceito contra os gays. Ele não pode dizer que nós, só por amarmos, só por reclamarmos que o nosso amor seja respeitado e reconhecido, somos “uma ameaça”. Aliás, porque esse tipo de frases têm uma história. “Os judeus são a nossa desgraça!” (“Die Juden sind unser Unglück!”), disse o historiador Heinrich von Treitschke, e essa desgraçada expressão, publicada na revista alemã Der Sturmer e logo usada como lema pelos nazistas, deu no que deu. Nós, homossexuais, também sabemos disso: o nosso destino na Alemanha nazista, onde Bento XVI passou sua juventude, era o mesmo dos judeus, só que em vez da estrela de Davi, o que nos identificava nos campos de concentração era o triângulo rosa.

A tragédia do nazismo deveria ter servido para aprender que o outro, o diferente, não é uma ameaça, nem uma desgraça, nem o inimigo. E nós, homossexuais, não ameaçamos ninguém. O nosso amor é tão belo e saudável como o de qualquer um. E merecemos o mesmo respeito e os mesmos direitos que qualquer um.

Da mesma maneira que acontece agora com o “casamento gay”, o casamento entre negros e brancos — chamado, na época, “casamento inter-racial” — já foi considerado “antinatural e contrário à lei de Deus” e uma ameaça contra a civilização. Numa sentença de 1966, um tribunal de Virgínia que convalidou sua proibição usou estas palavras: “Deus todo-poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e as colocou em continentes separados. O fato de Ele tê-las separado demonstra que Ele não tinha a intenção de que as raças se misturassem”. O casamento entre alemães “da raça ária” e judeus também foi proibido por Hitler. Até os evangélicos tiveram o direito ao casamento negado em muitos países durante muito tempo, porque eram, também, uma ameaça para a Igreja católica. Parece que alguns pastores não se lembram, mas foi assim.

Na Argentina, que em 2010 aprovou o casamento igualitário, a primeira grande reforma ao Código Civil, no século XIX, foi impulsionada pela demanda dos protestantes, que reclamavam o direito a se casar. Vários casais não católicos se apresentaram na Justiça, como agora fazem os homossexuais. Quando o país aprovou a lei de criação do Registro Civil e, depois, o matrimônio civil, em 1888, houve graves enfrentamentos entre o governo argentino e a Igreja Católica, que incluíram a quebra das relações diplomáticas com o Vaticano. No Senado, um dos opositores ao matrimônio civil disse que, a partir de sua aprovação, perdida a “santidade” do matrimônio, a família deixaria de existir. A lei foi chamada de “obra-mestra da sabedoria satânica” por monsenhor Mamerto Esquiú, quem disse sobre os governantes argentinos da época que “amamentam-se dos peitos da grande prostituta, a Revolução Francesa”. Todas a predições apocalípticas que foram feitas contra a lei de matrimônio civil, no entanto, não se cumpriram. Anunciaram, garantiram que o mundo ia se acabar…  mas o mundo não se acabou.

Passou-se mais de um século, mas as discussões são as mesmas. Os argumentos são os mesmos. E o papa Bento XVI continua sem entender. Não entende, tampouco, que o casamento civil e o casamento religioso são duas instituições diferentes. O casamento civil está regulamentado pelo Código Civil, que pode ser modificado pelo Congresso, já o casamento religioso depende das leis de cada igreja: por exemplo, o casamento católico é diferente do casamento judeu.

O casamento religioso é feito na igreja, templo, mesquita ou terreiro; o civil, no cartório. Para celebrar o casamento religioso na Igreja católica, os noivos devem ser batizados ou fazer um juramento supletório do batismo e devem realizar um curso prévio na igreja – o que não é necessário para o casamento civil, que pode ser celebrado por pessoas de qualquer religião ou por ateus. O casamento religioso, na maioria das igrejas cristãs, é indissolúvel – já o civil admite o divórcio.

Em conseqüência, uma pessoa pode se casar na Igreja apenas uma vez na vida, mas pode casar quantas vezes quiser no cartório, desde que seja divorciada. O casamento religioso, para que produza efeitos jurídicos, deve ser registrado no cartório – os efeitos jurídicos do casamento civil são imediatos. E essas são apenas algumas das muitas diferenças que existem entre o casamento civil e o religioso…
O que nós, homossexuais, reclamamos é o direito ao casamento civil. O projeto de emenda constitucional (PEC) que estou impulsionando no Congresso não mexe em nada com casamento religioso, cujos efeitos jurídicos são reconhecidos no art. 226 § 2 da Constituição, que se manterá inalterado. Meu projeto legaliza o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, mas nada diz sobre o casamento religioso. Da mesma maneira que o Estado não deve interferir na liberdade religiosa, as religiões não devem interferir no direito civil. Este último é uma instituição laica, que deve atender por igual as necessidades daqueles e daquelas que acreditam em Deus — em qualquer Deus ou em vários Deuses — e também daqueles e daquelas que não acreditam.

Chegará o dia no qual uma criança irá à biblioteca da escola para procurar, nos livros de história, alguma explicação sobre um fato surpreendente que o professor comentou em sala de aula: “Até o início do século 21, o casamento entre dois homens ou duas mulheres não era permitido”. Para o nosso pequeno cidadão, essa antiga proibição resultará tão absurda como hoje nos resulta a proibição do casamento entre negros e brancos, ou do voto feminino. E se ele descobrir, na biblioteca, que houve um dia em que um papa disse que o casamento gay ameaçava a humanidade, provavelmente sentirá a mesma repulsa que nós sentimos ao lermos a desgraçada frase de von Treitschke.

Bento XVI deveria pensar se ele quer passar à história dessa maneira. Ainda está em tempo.

Tomara que algum dia ele seja capaz de entender e aceitar o amor — qualquer maneira de amor e de amar — e fazer aquilo que Jesus Cristo pregava: “Amarás ao próximo como a ti mesmo”.


Jean Wyllys
Deputado Federal. Jornalista e escritor baiano. Professor universitário. Colunista da revista Carta Capital.

Je T'aime BB!

A ingaia ciência

Federica Erra


A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estrela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.


Carlos Drummond de Andrade 
Brita Seifert




Na fonte, a água da cisterna corre
como o tempo que te percorre. Entras
nessa água para respirar os instantes
que te faltam; e é como se um rio
parasse para que o atravesses, sabendo
o que te espera na outra margem. Então,
os teus pés descalços pisam as pedras
amaciadas pelos invernos; e sobes
até aos primeiros arbustos, para
descobrires que o rio voltou a correr,
e os teus instantes se desfizeram como
o pólen das vidas que por ti passaram.


Nuno Júdice


"Chegamos. Tenho medo. Um pequeno vestíbulo. Depois a rocha, um lugar para o meu corpo. Olho pela última vez a claridade da minha aldeia. Queria tanto ficar nesse chão inundado de sol, queria até...ser um animal, se não fosse possível ser eu mesmo, queria agarrar-me a túnica das mulheres feito uma criancinha, olho para o sul, para o norte, para todos os lados, ah, Bendito, tudo em mim não quer morrer! Agora sei como estou preso a esse todo que sou, aspiro, duas, três golfadas distendem o meu peito, seguro os ombros
de Marta e grito: Marta, Marta, ainda não estou pronto para ficar na treva, ainda tenho tanto amor, ainda tenho mãos para trabalhar a terra, toca-me, vê como essa carne é viva, olha-me, Marta, eu que sou tão você, olha-me, eu que amo a tua força, os teus pés colados à terra, a tua lucidez. É inútil. O meu corpo foi depositado no seu lugar. Estou acima dele, a uma pequena distância. Pairo sobre ele.
(...) Rolam a pedra. Fecham a entrada. Tudo está terminado. Pronuncio vagarosamente: bendito sejas Tu, Deus grande, valoroso e terrível, bendito sejas Tu, Eterno."

**


" Oh, Lázaro, filhinho, eu também acreditava Nele como tu. Muitos acreditavam Nele. Os mais humildes acreditavam Nele. E só posso te dizer que todos os que acreditavam Nele morriam mais depressa do que os outros. E não penses que morriam de morte serena, afável – se é que se pode usar tais termos para a morte – o que eu quero dizer é que nenhum cristão morria simplesmente. Morriam cuspidos,
pisados, arrancavam-lhes os olhos, a língua. Lembro-me de um  cristão que carregava o crucifixo e gritava como tu: está vivo! Ele está vivo! Sabes o que fizeram? Pregaram-lhe o crucifixo na carne
delicada do peito e urraram: se Ele está vivo, por que não faz alguma coisa por nós? Se Ele está vivo, por que alimenta o ódio, o grito, a solidão dentro de cada um de nós? Se Ele está vivo, por que não nos
dá esperança? O sangue do homem salpicava-lhes as caras, e o coitado só repetia esta palavra: a cruz! A cruz! Aí foram tomados de fúria: ouviram? O porco quer nos legar a cruz! Como se não nos
bastasse a vida! E pisotearam-no até a morte. Muitos morreram de uma forma muito mais cruel do que essa."


Hilda Hilst

Uma hora para a loucura e a alegria

Edouard Bisson



Uma hora para a loucura e a alegria! Ó furiosos! Oh, não me confinem!
(O que é isto que me liberta assim nas tempestades?
Que significam meus gritos em meio aos relâmpagos e aos ventos rugidores?)

Oh, beber os delírios místicos mais fundamente que qualquer outro homem!
Ó dolências selvagens e ternas! (Recomendo-as a vocês, minhas crianças,
Dou-as a vocês, como razões, ó noivo e noiva!)

Oh, me entregar a vocês, quem quer que sejam vocês, e vocês se entregarem a mim, num desafio ao mundo!
Oh, retornar ao Paraíso! Ó acanhados e femininos!
Oh, puxar vocês para mim, e plantar em vocês pela primeira vez os lábios de um homem decidido.

Oh, o quebra-cabeça, o nó de três voltas, o poço fundo e escuro – tudo isso a se desatar e a se iluminar!
Oh, precipitar-me onde finalmente haverá espaço e ar o bastante!
Ser absolvido de laços e convenções prévias, eu dos meus e vocês dos seus!
Encontrar uma nova relação – desinteressada – com o que há de melhor na Natureza!
Tirar da boca a mordaça!
Ter hoje ou todos os dias o sentimento de que sou suficiente como sou!

Oh, qualquer coisa ainda não experimentada! Qualquer coisa em transe!
Escapar totalmente aos grilhões e âncoras dos outros!
Libertar-me! Amar livremente! Arremeter perigosa e imprudentemente!
Cortejar a destruição com zombarias e convites!
Ascender, galgar os céus do amor que foi indicado para mim!
Subir até lá com minha alma inebriada!
Perder-me, se preciso for!
Alimentar o resto da vida com uma hora de completude e liberdade!
Com uma hora breve de loucura e alegria.


Walt Whitman

domingo, 23 de dezembro de 2012




Furtava as cores de todas as paisagens
que colhia.
Um dia morreu
e um arco-íris bebia
seus olhos.


Antonio Brasileiro
MaXu


 A amiga com quem fui feliz chega a casa, despe o traje de seduzir, dobra-o cuidadosamente. veste o fato de treino, liga a televisão e pedala na bicicleta de ginástica durante meia hora. Tantas vezes lhe pedi que comprasse uma bicicleta a sério e fosse pedalar no jardim. Ou que tentasse fechar as portas de mansinho, em vez de bater com elas e de me acordar sem querer. Ou que não cantarolasse enquanto eu ouvia as notícias. Ria-se, insistia. Creio que julgava que esses pormenores lhe conferiam um valor distintivo. Ou talvez a ira que estes hábitos me causavam fosse para ela um despertar de sensualidade. Sempre que a minha irritação atingia o rubro, ela desatava a rir, e o riso suavizava-me. Nada do que eu fizesse ou dissesse podia afastá-la de mim - era essa a sua força, uma força maligna que me instigava os limites.
Não duramos um mês de solidão. Em tribo, a minha vontade de esventrar aquele amor inoxidável dormia num casulo sem tempo.
Acreditei que na amizade encontraria o sabor mítico da correspondência absoluta, a felicidade sincrônica com que o amor apenas brinca. Mas também a amizade se mostrou vulnerável ao tédio e à decepção. Tudo o que tocamos se desfazDepois fica-nos o vício da decomposição, o perfume intoxicante das coisas mortas. Pode-se dormir no ombro de alguém uma vida inteira e morar noutros corpos, que nunca se tocaram. O sonho.


Inês Pedrosa, Fazes-me falta