sábado, 12 de janeiro de 2013

A fotografia

Paolo Scarano



Enquanto trabalhava, diante da tela encostada à parede, a mulher sentia na nuca a emanação do olhar que vinha da fotografia. Sabia que era uma bobagem, aquilo. Mas não podia evitar.

Tentou concentrar-se. Precisava terminar a tela em duas semanas. Era uma encomenda. Mas naquela manhã estava especialmente dispersiva, o pensamento esvoaçando o tempo todo, indo às vezes parar na foto que pusera num canto da sala, sobre a cômoda. Era uma foto de seu marido, só que tirada mais de vinte anos antes, quando eles ainda não se conheciam.

Suspirou. Pousou o pincel sobre a palheta que deixara descansando numa mesinha toda suja de tinta e limpou os dedos no pano embebido em solvente. Estava quase negro, de tão sujo. Sorriu. Se o preto é a ausência de cor e o branco é que é a soma de todas as cores, então esse paninho é uma contradição, pensou. Já levou tantas camadas de tinta, e de tantas cores, que se transformou nesse pedaço de tecido encardido. Mas não conseguia trocar. Sentia uma estranha ternura por ele. Sentia ternura pelos tubos de tinta, pelos vidros, pincéis, era capaz de ter pelos objetos mais apreço que por algumas pessoas. Talvez por isso tivesse estabelecido aquela estranha relação com a fotografia, desde que decidira colocá-la sobre a cômoda.

Esfregou com força as mãos no paninho escuro, tentando resistir à tentação de se virar e olhar a foto. Não queria. Não agora. Iria perturbá-la demais.

Caminhou até a varanda e observou os pés de fícus que, em três grandes vasos, assemelhavam-se cada vez mais a verdadeiras árvores, com os troncos encorpando-se e as folhas viçosas, como se as plantas crescessem no chão. Era uma varanda privilegiada, a sua. Até mesmo um ninho de passarinho surgira outro dia, por entre as folhagens. Lá estava ela, divagando de novo, deixando a mente flanar enquanto deveria estar concentrada, trabalhando. Precisava voltar à tela. Terminar o quadro o quanto antes.

Virou-se e encontrou na sala. Mas, nesse instante, aconteceu o que temia. Seus olhos se dirigiram, como se  tivessem vontade própria, para a fotografia. O marido ainda jovem, de braços cruzados. Sob a manga arregaçada do suéter, surgia um antebraço másculo, estriado de veias. E desse, as mãos viris. O rosto trazia um sorriso debochado, uma expressão de escárnio, marcas de uma vida dissoluta – na qual ela não tomara parte.

Fora sobretudo aquele olhar que a impressionara ao encontrar a fotografia dentro de uma caixa, onde por muitos anos ficara esquecida. Um olhar que desconhecia. Aquele rosto, aquele, da foto, ela nunca vira. Era outro homem. Não apenas mais jovem, mas movido por uma força cruel, deliciosamente cruel. E ela não se perdoava por ter perdido esse passado de loucura. Queria ter estado lá. Nem que fosse apenas uma vez.

Caminhou até perto da cômoda, os olhos fixos na foto, e parou, esfregando os braços. Sentia crescer dentro de si uma chama, um rubor. Não era o marido que queria. Era aquele ser dissolvido no passado, que a olhava como se a devorasse. Estava apaixonada por um homem que não existia mais.


Heloísa Seixas
fonte:http://heloisaseixas.com.br