terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Jean-Paul Sartre, A náusea




SEXTA-FEIRA

Três horas. Três horas é sempre tarde ou cedo para aquilo que queremos fazer. Um momento do dia, bem particular. Hoje, então, é intolerável. Um sol frio branqueia a poeira dos vidros. Um céu pálido, mesclado de branco. De manhã, os regatos estavam gelados. Estou perto do calorífero, a fazer uma digestão pesada; sei de antemão que o dia está perdido. Não farei nada que preste, exceto, talvez, à noitinha. É por causa do sol que apura vagamente umas brumas brancas, sujas, suspensas no ar por cima das obras; que entra pelo meu quarto, muito louro, muito pálido, e me expõe, em cima da mesa, quatro reflexos baços, e falsos. O meu cachimbo é duma madeira sarapintada de verniz dourado que começa por atrair os olhos com uma aparência de alegria: atentamos nela, e o verniz derrete-se; fica apenas um  grande rasto desmaiado sobre um pedaço de pau. E é assim com tudo, até com as minhas mãos. Quando está sol, como agora, o que eu devia fazer era ir-me deitar. O pior é que dormi como um bruto a noite passada e não tenho sono. Gostei tanto do céu de ontem, um céu estreito, negro de chuva, que vinha encostar-se aos vidros, como um rosto ridículo e comovente! Este sol que está não é ridículo, antes pelo contrário. O que me agrada nele é sobretudo a claridade que desce sobre os ferros oxidados das obras sobre as tábuas podres da paliçada, luz avara e modesta semelhante ao olhar que se deita, depois duma noite sem dormir, às decisões tomadas no  entusiasmo da véspera,  às páginas escritas sem emendas, duma só penada. Os quatro cafés do Boulevard Victor-Noir, que brilham de noite, ao lado uns dos outros, e que são muito mais do que simples cafés - aquários, barcos, estrelas ou grandes olhos brancos, perderam a sua graça ambígua. Um dia ideal para fazer um exame interior: esta claridade fria que o sol projeta, como uma sentença sem indulgência, sobre as criaturas, entra em mim pelos olhos, estou iluminado, por dentro, por uma luz depauperante. Bastar-me-ia um quarto de hora, tenho a certeza, para chegar ao asco supremo por mim próprio.


Jean-Paul Sartre, A náusea