terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Poema sétimo




Das raízes, das rochas, das ruínas,
irrompe o acaso como um pássaro. A noite
seduz o poema e a sua carne matutina
iluminada de feridas.
É frágil, tão frágil, o fascínio das palavras,
ternura branca que afaga a língua dos amantes
e transforma os beijos em facas, silêncios, ossos,
e por vezes num vento fatigado.

Antes do amor, a minha pele quer compreender
a liberdade.

O meu amor quer saber como nele
se movem as estrelas quando canta.

Cantar,
arder na música, arder toda uma vida,
desenhar o amanhã como um cão
um leitor, um prodígio.

Digo-te o que nunca quis dizer-te: que amo
o frio que se esconde no fogo, 
que amo a cegueira do olhar e a mentira
que corrói o corpo da beleza. E que amo todos
os pseudónimos do vento, toda a melancolia,
e toda a amargura do riso.

Sei que o melhor da claridade são as grutas da sombra,
que o melhor da morte é a paixão pela vida.

Dentro de uma criança nascem todas as palavras
do mundo. A rosa, e tudo o que provêm
da sua boca púrpura. O medo, e as sílabas fechadas
como algemas. E o que não diz a fala tumultuosa
do rio. E a pele lúcida da água. E o nunca
celebrado aniversário
do primeiro poema.

Roubam-me da imaginação outros
frutos, outras horas. Ninguém canta
o idioma das pálpebras, o duro ofício de existir.
Acordo e tudo é outra coisa. Como se
acordar fosse golpear os flancos
do futuro.

Roubam-me a paisagem, a terra molhada,
roubam-me todos os répteis que abrem a boca ao sol
da fala. Toda a consciência de uma alegria penetrando
o corpo umedecido de uma mulher jovem,
palavra jovem florindo no útero
incansável do poema.

A vida do poeta
tem todas as causas
e todos os nomes.


Joaquim Pessoa