quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Virgínia Woolf, Um teto todo seu

... Enquanto ponderava, eu tinha estado inconscientemente traçando, em meu desânimo, em meu desespero, um quadro, no lugar em que, como meu vizinho, deveria estar escrevendo uma conclusão. Estivera desenhando um rosto, um corpo. Eram o rosto e o corpo do professor Von X., empenhado em escrever sua obra monumental intitulada A inferioridade mental, moral e física do sexo femininoEle não era, em meu desenho, um homem atraente para as mulheres. Era de compleição pesada; tinha uma grande papada; para contrabalançar, olhos muito pequenos e rosto muito vermelho. Sua expressão sugeria que estava trabalhando sob alguma emoção que o fazia, ao escrever, espetar a caneta no papel como se estivesse matando algum inseto nocivo, mas, mesmo depois de tê-lo matado, isso não o satisfazia; precisava continuar a matá-lo; e ainda assim, persistia alguma causa para a raiva e a irritação. Seria sua esposa?, indaguei a mim mesma, examinando meu desenho. Estaria ela apaixonada por um oficial da cavalaria? Seria o oficial da cavalaria esbelto e elegante e coberto de astracã? Teria ele sido alvo, em seu berço — para adotar a teoria freudiana —, do riso de alguma menina bonita? Pois nem em seu berço, pensei, o professor não poderia ter sido uma criança atraente. Qualquer que fosse a razão, o professor ganhara uma aparência muito zangada e muito feia em meu esboço, enquanto escrevia seu grande livro sobre a inferioridade mental, moral e física das mulheres. Desenhar figuras é uma forma ociosa de concluir uma manhã de trabalho improfícuo. Entretanto, é em nosso ócio, nos nossos sonhos, que a verdade submersa às vezes vem à tona. Um exercício muito elementar de psicologia, que não deve ser honrado com o nome de psicanálise, mostrou-me, ao examinar meu caderno de anotações, que o esboço do professor zangado fora feito com raiva. A raiva se apossara de meu lápis, enquanto eu sonhava. Mas o que estaria a raiva fazendo ali? Interesse, confusão, divertimento, tédio — todas essas emoções eu conseguia rastrear e nomear à medida que se sucediam por toda a manhã. A raiva, a serpente negra, estivera emboscada entre elas? Sim, dizia o esboço, estivem. Ele me remeteu evidentemente àquele livro, àquela frase que havia despertado o Demônio: a afirmação do professor sobre a  inferioridade mental, moral e física das mulheres. Meu coração tinha dado um salto. As faces inflamaram-se. Eu enrubescera  de raiva. Por tolo que fosse, não havia nisso nada de especialmente notável. Não gostamos que nos digam que somos por natureza inferiores a um homenzinho — olhei para o estudante a meu lado — que respira com dificuldade, usa uma gravata comprada pronta e não se barbeia há duas semanas. A gente tem certas vaidade tolas. É apenas a natureza humana, refleti, e comecei a rabiscar rodas de carroça e círculos sobre o rosto do professor enraivecido até ele se parecer com uma moita queimando ou um cometa flamejante — de qualquer modo, uma aparição sem aspecto ou  significação humanos. O professor, agora, não era mais que um feixe de madeira ardendo no topo do Hampstead Heath. Logo minha própria raiva foi explicada e desfeita, mas restou a curiosidade. Como explicar a raiva dos catedráticos? Por que estariam zangados? Sim, pois, quando se tratava de analisar a impressão deixada por esses livros, havia sempre um elemento de calor. Esse calor assumia muitas formas; mostrava-se na sátira, no sentimento, na curiosidade, na reprovação. Mas havia um outro elemento muitas vezes presente e que não podia ser imediatamente identificado. Raiva, denominei-o. Mas era uma raiva que se tornara secreta e se misturara com todo tipo de outras emoções. A julgar por seus efeitos singulares, era uma raiva disfarçada e complexa, não raiva simples e franca.

Qualquer que seja a razão, todos esses livros, pensei, inspecionando a pilha sobre a escrivaninha, são imprestáveis para meus fins. Quer dizer, eram imprestáveis cientificamente, embora, em termos humanos, estivessem repletos de ensinamentos, interesse, tédio e fatos muito curiosos sobre os hábitos das ilhoas de Fiji. Tinham sido escritos à rubra luz da emoção, e não à branca luz da verdade. Portanto, deviam ser devolvidos à mesa central e repostos cada qual no próprio alvéolo do imenso favo de mel. Tudo o que eu havia recuperado do trabalho daquela manhã fora o dado sobre a raiva. Os professores — assim eu os tinha agrupado — estavam enraivecidos. Mas por quê?, perguntei a mim mesma depois de devolver os livros, por quê?, repeti, de pé sob a colunata, entre os pombos e as canoas pré-históricas, por que estariam zangados? E, formulando para mim mesma essa pergunta, fui-me afastando à procura de um local onde almoçar. Qual é a natureza real do que, por ora, chamo de raiva deles?, indaguei. Aí estava um quebra-cabeça que duraria todo o tempo que se leva para ser servido num pequeno restaurante das proximidades do Museu Britânico. Algum freguês anterior tinha deixado a edição do meio-dia do jornal vespertino sobre uma cadeira e, enquanto esperava ser atendida, comecei displicentemente a ler as manchetes. Uma manchete de tipos muito grandes atravessava a página. Alguém marcara um grande tento na África do Sul. Manchetes menores anunciavam que Sir Austen Chamberlain estava em Genebra. Um cutelo com fios de cabelo humano fora encontrado num porão. O senhor juiz. . . tecera comentários no Tribunal de Divórcios sobre o descaramento das mulheres. Espalhadas por todo o jornal vinham outras notícias. Uma atriz de cinema fora lançada de um pico na Califórnia e deixada suspensa no ar. O tempo ia ficar nublado. O mais transitório dos visitantes deste planeta, pensei, que apanhasse esse  jornal não poderia deixar de perceber, mesmo a partir desse testemunho disperso, que a Inglaterra está sob o domínio de um patriarcado. Ninguém de posse de suas faculdades poderia deixar de detectar a dominação do professor. Dele eram o poder, o dinheiro e a influência. Era ele o proprietário do jornal e seu redator e redator-assistente. Ele era o ministro do Exterior e o juiz. Era o jogador de críquete, era o proprietário dos cavalos de corrida e dos iates. Era o diretor da empresa que paga duzentos por cento a seus acionistas. Deixava milhões para instituições de caridade e universidades que ele mesmo dirigia. Ele suspendia a atriz de cinema no ar. Ele irá determinar se os fios de cabelo no cutelo são humanos; é ele quem irá absolver ou condenar o assassino, e enforcá-lo ou dar-lhe a liberdade. Com exceção da neblina, ele parecia controlar tudo. E mesmo assim, estava com raiva. Eu sabia que ele estava com raiva devido a esse sinal. Quando li o que escreveu sobre as mulheres, pensei não no que ele dizia, mas nele mesmo. Quando um argumentador argumenta desapaixonadamente, pensa apenas na argumentação, e o leitor não consegue deixar de pensar também no argumento. Se ele tivesse escrito imparcialmente sobre as mulheres, se tivesse usado provas inquestionáveis para estabelecer sua argumentação e não tivesse demonstrado sinal algum de desejar que o resultado fosse uma coisa e não outra, ninguém teria ficado com raiva também. Ter-se-ia aceitado o fato, como se aceita o fato de que a ervilha é verde e o canário, amarelo. Pois que seja assim, eu teria dito. Mas eu ficara com raiva porque ele estava com raiva. E, no entanto, parecia absurdo, pensei, virando as páginas do jornal vespertino, que um homem com todo esse poder ficasse enraivecido. Ou será que a raiva, indaguei-me, é de algum modo o duende familiar que acompanha o poder? Os ricos, por exemplo, estão sempre zangados por suspeitarem que os pobres querem apoderar-se de sua riqueza. Os professores ou patriarcas, como talvez fosse mais exato chamá-los, talvez estivessem zangados em parte por essa razão, mas em parte por outra situada de modo um pouco menos óbvio na superfície. É possível que não estivessem em absoluto "com raiva"; de fato, muitas vezes, talvez fossem enaltecedores, dedicados e exemplares nas relações da vida privada. Possivelmente, quando o professor insistia com ênfase demais na inferioridade das mulheres, não estava preocupado com a inferioridade delas, mas com sua própria superioridade. Era isso que ele estava protegendo de modo um tanto exaltado e com excessiva ênfase, pois era para ele uma joia do mais raro valor. A vida, para ambos os sexos — e olhei para eles a abrirem caminho, às cotoveladas, pela calçada —, é árdua, difícil, uma luta perpétua. Ela exige coragem e força gigantescas. Mais que tudo, talvez, sendo, como somos, criaturas da ilusão, ela exige autoconfiança. Sem a autoconfiança, somos como bebês no berço. E como podemos gerar essa qualidade imponderável, e apesar disso tão inestimável, da maneira mais rápida? Pensando que as outras pessoas são inferiores a nós mesmos. Sentindo que temos alguma superioridade inata — pode ser riqueza ou posição social, um nariz afilado ou o retrato de um avô pintado por Romney —, pois não há limite para os patéticos recursos da imaginação humana. . . sobre as outras pessoas. Daí a enorme importância para um patriarca que tem que conquistar, que tem que dominar, de sentir que um grande número de pessoas, a rigor, metade da raça humana lhe é por natureza inferior. De fato, essa deve ser uma das principais fontes de seu poder. Mas deixem-me voltar o foco dessa observação para a vida real, pensei. Será que ela ajuda a explicar alguns daqueles quebracabeças psicológicos que se observam à margem da vida cotidiana? Será que explica meu assombro do outro dia, quando Z, um sujeito extremamente humano, o mais despretensioso dos homens, pegando um livro de Rebecca West e lendo-lhe um trecho, exclamou: "Essa rematada feminista! Ela diz que os homens são esnobes!"? A exclamação, para mim tão surpreendente — pois por que seria a srta. West uma rematada feminista, por fazer uma afirmação possivelmente verdadeira, se bem que pouco elogiosa, sobre o sexo oposto? —, não era simplesmente o brado da vaidade ferida: era um protesto contra alguma violação de seu poder de acreditar em si mesmo. Em todos esses séculos, as mulheres têm servido de espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho natural. Sem esse poder, a Terra provavelmente ainda seria pântano e selva. As glórias de todas as nossas guerras seriam desconhecidas. Estaríamos ainda rabiscando os contornos de cervos em restos de ossos de carneiro e trocando lascas de sílex por peles de carneiro ou outro qualquer ornamento singelo que agradasse a nosso gosto não sofisticado. Super-Homens e Dedos do Destino jamais teriam existido. O czar e o cáiser nunca teriam portado ou perdido coroas. Qualquer que seja seu emprego nas sociedade civilizadas, os espelhos são essenciais a toda ação violenta e heroica. Eis por que tanto Napoleão quanto Mussolini insistem tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, não fossem elas inferiores, eles deixariam de engrandecer-se. Isso serve para explicar, em parte, a indispensável necessidade que as mulheres tão freqüentemente representam para os homens. E serve para explicar quanto se inquietam ante a crítica que elas lhes fazem, como é impossível para a mulher dizer-lhes que esse livro é ruim, esse quadro é fraco, ou seja lá o que for, sem magoar muito mais e despertar muito mais raiva do  que um homem formulando a mesma crítica. É que, quando ela começa a falar a verdade, o vulto no espelho encolhe, sua aptidão para a vida diminui. Como pode ele continuar a proferir julgamentos, civilizar nativos, fazer leis, escrever livros, arrumar-se todo e deitar falação nos banquetes, se não puder se ver no café da manhã e ao jantar com pelo menos o dobro do seu tamanho real? Assim refleti eu, esfarelando o pão e mexendo o café e olhando vez por outra para as pessoas na rua. A visão no espelho é de suprema importância, pois insufla vitalidade, estimula o sistema nervoso. Retirem-na, e o homem pode morrer, como o viciado em drogas privado de sua cocaína. Sob o feitiço dessa ilusão, pensei, olhando para fora da janela, metade das pessoas na calçada segue para o trabalho. Elas põem chapéus e casacos pela manhã sob sua agradável luminosidade. Começam o dia confiantes, revigoradas, acreditando-se desejadas no chá da sra. Smith; dizem a si mesmas, ao entrarem na sala: Sou superior à metade das pessoas aqui, e é assim que falam, com aquela autoconfiança e aquela auto-segurança de tão profundas conseqüências na vida pública e que conduziram a atitudes tão curiosas à margem da própria vontade.


Virgínia Woolf, Um teto todo seu