quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Erótico




Em torno, havia a noite de verão, morna e suave. Uma brisa mínima soprava por entre os coqueiros e amendoeiras, trazendo o cheiro do mar. No deque, as ripas de madeira escura estavam mornas, guardando ainda um pouco do sol. Dali, de onde eles estavam, na pequena amurada de madeira, era possível ver a sombra do mar, lá embaixo. Havia pouco movimento em torno. Apenas algumas mesas do restaurante estavam ocupadas, suas toalhas brancas caindo ao chão como fantasmas adormecidos. E havia, também, pouca luz. Além da luminosidade natural da noite, apenas os tocheiros de jardim, com suas chamas tremeluzentes, incertas.
A mulher pousou as duas mãos na balaustrada de madeira e respirou fundo, fechando os olhos. Sentiu o perfume das amendoeiras, mesclado ao odor mais forte que vinha do mar. “Cheiro de florestas menstruadas”. Quis sorrir ante a lembrança da frase de Nelson Rodrigues, que sempre a fascinara, mas mordeu o lábio, invadida por um desejo súbito, selvagem. Porque nesse instante, ainda de olhos fechados, sentiu o calor da mão do homem deslizando em torno de sua cintura pela primeira vez – a primeira vez, após tão longa espera.
Manteve-se imóvel, ainda por um momento, olhos cada vez mais apertados, lábios também, toda ela resistindo àquele toque, o prenúncio da loucura. Mas sabia que era uma resistência vã. Ela própria tecera a noite com os fios da sedução. Vestira o vestido preto de seda, cujo decote deixava-lhe os ombros nus, e enfeitara o colo com seu mais belo colar, de coral vermelho. Preparara-se para aquela entrega.
E logo sucumbiu.
Abrindo os olhos, virou-se, as mãos ainda cravadas na madeira, como num último pedido de socorro. Encontrou os olhos dele, faiscando à luz das tochas. Virou-se mais, com a lentidão da tortura, o sangue incendiado por aquelas mãos que – as duas – a enlaçavam agora com mais firmeza, puxando-a. E deixou-se ir.
Deslizou as mãos pelos braços dele em direção aos ombros, ao pescoço, prendendo-as ali como ervas daninhas. Não havia volta, mais. Nem arrependimento. Rendida, entreabriu os lábios e ergueu o rosto, à espera. E foi assim, entre prazer e dor, que recebeu o beijo proibido, sentindo cravadas na nuca as pontas irregulares das contas de coral – como coroa de espinhos.


Heloísa Seixas