quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Da falta de respostas

Paolo Scarano



se o teu silêncio grita
por que o poema cala?

se teus olhos
se fazem rio de lágrimas
por que o poema
não naufraga?


© Ademir Antonio Bacca
do livro “O grito por dentro das palavras”

Capítulo V - A morte anuncida do pai imortal



A mãe é eterna, o pai é imortal.

- Filho, você que tem experiências na vida, me ajude.
- O que passa, pai?
- Me leve, lá.
- Lá onde?
- Lá, às putas.
- Como diz?
- É que eu nunca fui às meninas, nem sei como é. Lá em Luar-do-Chão não há.
   Nem acreditava no que escutava. Depois, me veio o riso, incontível. O que sucedia naquela velha cabeça? Será que a viuvez lhe descera aos órgãos? Olhei o meu pai ali, no meio da sala, com calças de pijama e camisola interior, parecia ser ele o órfão da casa. E me pesou, pela primeira vez, o tamanho da solidão daquele homem. Senti um remorso por não ter notado antes aquela sombra derrubando meu velho.
- Às putas, pai?
- Sim. Me conduza lá onde elas se mostram todas despeladas. E me explique como se faz.
 - Mas há doenças, isso tudo. Os tempos são outros, pai.
 (...)
   Fulano Malta não se resignava. Não aceitei prolongar o assunto e fechei a porta. A noite me escondeu, a salvo da conversa.
   Esperava que fosse assunto passado. Na noite seguinte, porém, a mesma requerência. Ele insistiu, já com chantagem. Se eu não o orientasse nessa excursão, ele iria por sua conta e dano. A discussão azedou, até que lhe gritei:
   - Devia ter vergonha pai, ser eu, seu filho, a deitar-lhe juízo.
   Não respondeu. Com vigor se levantou e abriu uma gaveta. As duas mãos esgravataram as entranhas do armário, rosto desviado em outra atenção. Os gestos bruscos se desenhavam às cegas. O tom era grave quando falou:
- Veja esses papéis.

   Atirou tudo para cima da mesa. Recolhi os documentos e, gelado, fui tomando conhecimento: ali se escrevia a morte dele. Em letra apressada se rabiscava o prognóstico médico: lhe cabiam quando muito uns escassos dias de vida.
- Quem escreveu isto? - a voz me estremeceu.
- Foi o Amílcar Mascarenha, esse que é muitíssimo doutor.
   Deixei-me abater na cadeira, os papéis me sobrando dos dedos. Aquelas folhas pareciam crescer, já não se via nada senão os gatafunhos mal desenhados do médico.
O chão do mundo todo rabiscado em sentença fúnebre. A letra do indiano me travava a voz quando quis falar. Tive que repetir:
- Amanhã, pai, amanhã vamos.
- Promete?
Abanei a cabeça e saí. Na noite seguinte, meu velho estava de fato e gravata, tinha-se esfregado com pétalas de chimunha-munhuane, essas florzinhas que cercam as casas suburbanas. Sacudi algumas folhas que tinham ficado presas na sua barba.
- Estou de mais bonito?
- De mais, pai. Se eu fosse mulher...
Levei-o pela avenida, cruzamos luzes, semáforos, anúncios. Eu seguia atrás, tímido, quase medroso. Finalmente, na desiluminada esquina lá estava ela. O vestido reluzente lhe marcava as saliências, convidando aos tresvarios. O velhote deu uns passos tímidos em direção à moça. E logo se trepadeirou nela.
   Fiquei ali, um tempo, como se receasse nunca mais o ver. Depois regressei a casa. O velho reapareceu, pela madrugada, feliz de cantar. E nas outras madrugadas também.
  
   E semanas passaram. No desfiar do tempo, o pai repetindo as noturnas excursões, nessa felicidade que é, de uma só vez, ter o mundo todo dentro de nós. Se havia lição, o velho aprendeu-a num abrir de olhos e fechar de ziper. Já não necessitava conselho. Noite após noite, lá estava ele, pontualíssimo, espreitando a porta.
E saindo assim que o escuro ganhava espessura.
   Pior que as prostitutas, porém: começou a desaparecer dinheiro de casa. Custava-me aceitar, mas só podia ser obra de meu pai. Ele passara a roubar, e já não era apenas dinheiro. Desapareciam bens, recordações de sentimento. Quando evaporaram as pequenas heranças de minha falecida mãe eu me desabri, severo:
   - Acabou, pai. O senhor vai sair desta casa, já amanhã.
   Ele não deu luta. Arrumou as suas coisas numa mala e pediu para ficar apenas aquela última noite. A madrugada já se anunciava quando escutei ruídos na cozinha.
Era meu velho, debruçado no lavatório. Parecia aflito, respirava mal, uma baba lhe escorria pelo pescoço.
- Estou morrendo, meu filho.
Amparei-o para o sofá da sala. Ali ficou, num fiorrapo.
   - Amanhã vou-me embora - suspirou. A mão na garganta parecia ajudar o trânsito dos ares. - Amanhã saio, me deixe só respirar um pouco.
   Ficamos os dois em silêncio. Um frio me percorria como se antevisse o velório. Depois, com voz ainda gemente, ele falou:
- Sabe o que foi o melhor disto?
- As miúdas?
- O melhor disto tudo foi você.

- Como eu?
- Foi ter andado consigo aí pelas vidas. Parecíamos quase manos, sabe? Nestes dias, não fui pai, nem tive idade nenhuma. Entende?
   Depois, adormeceu. A manhã já ia alta e eu ainda ali, cabeceirando o meu velho pai. Espreitei a cidade pela janela entreaberta. Lá fora, a vida desfilava, impávida.
Injustiça é o mundo prosseguir assim mesmo quando desaparece quem mais amamos. Será que em Luar-do-Chão alguém adivinharia o estado de meu pai?
   Foi quando, entre a multidão, notei que passava o Doutor Mascarenha. Lá ia ele sobraçando sua inevitável pasta preta. Saí, correndo pelas ruas. Quando o interceptei pedi-lhe explicação sobre o diagnóstico que destinara em meu pai.
- Diagnóstico? Qual diagnóstico?
- O senhor não previu a morte do meu velho?
- Mas que morte? Ele está melhor que nós ambos juntos.
   Nem sabia se era estar contente aquele bater no meu peito. Acelerei o regresso a casa. Já adivinhava o que me iria esperar. Nada. Era nada o que me aguardava.
Meu pai já havia saído. A porta aberta, definitiva. E apenas um rasto desse perfume que ele usava quando se incursionava pelas noitadas.
        Ainda hoje aquela porta se conservava assim: aberta. Como se, desse modo, houvesse menos obstáculo para que meu pai regressasse.


Mia Couto
Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

Cântico da estrada aberta

© Gulyaev Yury



A pé, coração alegre, sigo em direção da estrada aberta,
Sadio, livre, o mundo a minha frente,
O longo caminho marrom a minha frente conduz-me para onde acho que convém.
Daqui para frente, já não peço boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,
Daqui para a frente, não mais me queixarei, não mais adiarei, nada mais necessitarei,
Porei fim às lamentações interiores, bibliotecas, críticas lamurientas,
Forte e contente, sigo em direção da estrada aberta.
A terra é suficiente para mim,
Não desejo que as constelações estejam próximas,
Sei que elas estão muito bem onde se situam,
Sei que elas bastam aos que lhes pertencem.

(Até aqui transporto os meus antigos e deliciosos fardos, transporto-os - homens e mulheres - , transporto-os para onde quer que eu vá.
Juro ser para mim impossível libertar-me deles,
Estou deles saturado, e em troca, eu os saturo.)

Tu, estrada por onde entro e olho em redor, creio que não sejas tu quando aqui está,
Creio que existem muitas coisas invisíveis.
, os enfermos, os analfabetos não são repudiados;
O parto, a procura apressada do médico, o indigente andarilho, o bêbado cambaleante, o bando de operários com suas gargalhadas,
O jovem em fuga, a carruagem dos abastados, o almofadinha, o par em fuga para o casamento,
O mercador madrugando, o carro fúnebre, o movimento de mudanças na cidade,
Eles passam, também eu, todas as coisas passam, ninguém pode ser interditado,
Ninguém que não seja aceito, ninguém que não seja querido por mim.

Tu, ar que me ajudas com alento para que eu fale!
Vós, objetos que convocais da difusão meus intentos, dando-lhes forma!
Tu, ó luz que me envolves, e a todas as coisas em tuas ondas delicadas e equânimes!
Vós, veredas esbatidas, nas irregulares depressões à margem dos caminhos!
Creio que preservais, latentes, existências invisíveis, e sois tão queridos para mim.
Vós, avenidas embandeiradas das cidades! vós, guarnições laterais! vós, navios distantes!
Vós, casas enfileiradas! vós, fachadas cheias de janelas! vós, tetos!
Vós, terraços e entradas! Vós cumeeiras e grades de ferro!
Vós, janelas cujos vidros transparentes permitiram ver tantas coisas!
Vós, portas e degraus ascendentes! vós, pisoteados cruzamentos!
De tudo quanto tenha tocado em vós, creio que conservastes algo em vós, e agora quereis comunicar-me o mesmo secretamente,
Dos vivos e mortos povoastes vossas impassíveis superfícies, e os espíritos deles se agradariam de ser evidentes e amáveis a mim.

A terra expandindo-se à direita e à esquerda,
O quadro vivo, cada aspecto com sua melhor luz,
A música vibrando onde á solicitada, e cessando onde não é desejada,
E a alegre voz da estrada aberta, o alegre e suave sentimento da estrada.
Ó via principal por sobre a qual caminho, tu me dizes: Não me abandones!
Tu me dizes: Não te aventures, pois se me deixares, estarás perdido!
Tu me dizes: Já estou preparada, bem pisada e jamais recusada, adere a mim!
Ó estrada aberta, respondo-lhe que não temo deixar-te, embora amando-te,
Tu me exprimes melhor do que posso eu exprimir-me,
Serás para mim mais do que meu poema.

Penso que os feitos heróicos foram todos concebidos sob o céu aberto, e também todos os poemas livres.
Penso que poderia fazer uma parada aqui e operar milagres,
Penso que gostarei de tudo quanto encontrar pela estrada,
Penso que todos quantos eu vir, devem ser felizes.

Desta hora em diante, ordeno a mim mesmo que me liberte de limites e linhas imaginárias,
E, como meu próprio senhor total e absoluto, caminharei para onde eu quiser,
Ouvindo os outros, considerando bem o que eles dizem,
Parando, investigando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, porém com irrecusável vontade,
Despindo-me dos embaraços que me poderiam entravar.
Sorvo grandes tragos de espaço,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul também me pertencem.

Sou mais extenso, melhor mesmo do que pensava,
Não sabia que em mim havia tanta bondade.

Tudo parece belo para mim,
Posso repetir a homens e a mulheres, pois tanto bem tendes feito a mim que eu gostaria de fazer o mesmo a vós,
Recolherei para mim mesmo e para vós, quando caminhar,
Disseminarei a mim mesmo entre homens e mulheres quando caminhar,
Espalharei uma nova alegria e rudeza entre eles,
E se alguém me negar, não me preocupará isso,
Pois quem quer que me aceite será abençoado e me abençoará.(...)

Vamos! Quem quer que sejais, vinde peregrinar comigo!
Peregrinando comigo, encontrareis o que jamais se cansa,
A terra jamais se cansa, a terra é rude, quieta, incompreensível a princípio, a Natureza é rude e incompreensível a princípio,
Não vos desencorajeis, persisti, pois existem coisas divinas muito ocultas,
Asseguro-vos que existem coisas divinas mais belas do que as palavras podem descrever.
Vamos! não devemos parar por aqui,
Por mais doces que sejam estas coisas armazenadas, por mais conveniente que esta morada pareça, não podemos deter-nos aqui;
Por mais seguro que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas, aqui não devemos ancorar;
Por mais acolhedora que seja a hospitalidade em nosso redor, é permitido a nós recebê-la por um lapso de tempo.

Vamos! os estimulantes serão maiores,
Navegaremos pelos ínvios mares selvagens,
Iremos para onde os ventos sopram, e as ondas se arremessam, e o veleiro yankee se acelera sob velas soltas.
Vamos! com poder e liberdade, a terra e os elementos,
Saúde, altivez, jovialidade, auto-estima, curiosidade;
Vamos! para além de todas as formas!
Para além de vossas fórmulas, ó sacerdotes materialistas com olhos de morcego.
O cadáver putrefato bloqueia a passagem - não muito longe aguarda o sepultamento.

Vamos! antes, porém, tomai o aviso!
Aquele que comigo segue necessita do melhor sangue, músculos, resistência,
Ninguém se atreva a acompanhar-me, mulher ou homem, se não trouxer consigo coragem e saúde,
Não chegueis aqui, se já tiverdes gasto o melhor de vós mesmos,
Somente podem vir aqueles que venham com o corpo saudável, e resoluto,
Nem os enfermos, nem os alcoólatras, nem os deteriorados terão acesso aqui.

Eu mesmo e os meus não convenceremos com argumentos, símiles, rimas,
Nós nos convenceremos apenas com a nossa presença.

Ouvi! serei honesto convosco,
Pois eu não ofereço os velhos e refinados prêmios, mas ofereço novas e árduas recompensas,
Estes são os dias que vos sobrevirão:
Não acumulareis aquilo que se chama riqueza,
Dissipareis com generosa mão tudo quanto conseguirdes ou ganhardes

Apenas chegados à cidade para a qual tenhais sido destinados, dificilmente instalar-vos-ei satisfatoriamente, antes que sejais convocados por irresistível partida,
Tratareis com risos irônicos e zombarias aqueles que permanecem por detrás de vós:
Sejam quais forem os acenos de amor que receberdes, somente respondereis com apaixonados beijos de despedida,
Não permitireis o controle por parte daqueles que estendem suas astutas mãos para vós.


Walt Whitman

Fetichismo


Fabrizio R.

Sou fetichista, adoro tudo
que é teu: a página marcada
de um livro; o sono de veludo
da tua lânguida almofada;
um cravo esplêndido e vermelho
que morre; a vida singular
que tu puseste em cada espelho,
ao sortilégio de um olhar;

aquele acorde,aquela escala
que do teu piano andou suspensa
na ressonância desta sala;
a tua lâmpada; a presença
imperativa de um perfume:
o teu chapéu... - tudo afinal
que vem de ti,que te resume,
tem seu prestígio emocional!

E este contato voluptuoso
com tanta coisa evocativa
é tão sensual, tão delicioso
para minha alma sensitiva,
que espero, cheio de ansiedade,
cada momento em que te vais,
e chego mesmo a ter vontade
de que não voltes nunca mais!


 Guilherme de Almeida

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.

Monique Fandozzi 



Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. 
Sentir tudo de todas as maneiras. 
Sentir tudo excessivamente, 
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas 
E toda a realidade é um excesso, uma violência, 
Uma alucinação extraordinariamente nítida 
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas, 
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas 
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos. 

Quanto mais eu sinta, 
quanto mais eu sinta como várias pessoas, 
Quanto mais personalidade eu tiver, 
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver, 
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas, 
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento, 
Estiver, sentir, viver, for, 
Mais possuirei a existência total do universo, 
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora. 
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for, 
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo, 
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco. 

Cada alma é uma escada para Deus, 
Cada alma é um corredor-Universo para Deus, 
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo 
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno. 

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito, 

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos 
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho 
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo! 
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande, 
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam 

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos 
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra. 
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso. 
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume 
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso, 

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça. 

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço 
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva! 
Mãe verde e florida todos os anos recente, 
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal, 
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis 
Num rito anterior a todas as significações, 
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales! 
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões, 
Grande voz acordando em cataratas e mares, 
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança, 
Em cio de vegetação e florescência rompendo 
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso 
A tua própria vontade transtornadora e eterna! 
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados, 
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones, 
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar, 
Que perturba as próprias estações e confunde 
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos! 

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino! 
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima 
Volteia serpenteando, ficando como um anel 
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas, 
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso. 
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente 
Meu coração a ti aberto! 
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático, 
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos, 
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre, 

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito 
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço, 
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une 
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim 
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo, 
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira 
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas, 
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos. 

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo. 
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão, 
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo 
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos 
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais. 

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima, 
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo 
De chamas explosivas buscando Deus e queimando 
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica, 
A minha inteligência limitadora e gelada. 

Sou uma grande máquina movida por grandes correias 
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores, 
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis, 
E nunca parece chegar ao tambor donde parte... 

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito 
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si, 
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes, 
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço 
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus. 

Dentro de mim estão presos e atados ao chao 
Todos os movimentos que compõem o universo, 
A fúria minuciosa e dos átomos, 
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos, 
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam, 

A chuva com pedras atiradas de catapultas 
De enormes exércitos de anões escondidos no céu. 

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio 
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma. 
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode, 
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode, 
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge, 
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida, 
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes, 
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos, 
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções! 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterônimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Meu poema II

José Royo



meu poema
andou no fio da navalha,
voou em trapézios precários
e resistiu enquanto pode

falou quando deixaram
e também quando não se podia falar
e sangrou quando foi inevitável

meu poema
foi cúmplice de olhares
e de tantas palavras
ditas entre lençóis

se entregou a gestos de ternura
e foi violento quando provocado

meu poema
já foi tudo e foi nada

hoje ele só quer se perder
no balaio das tuas palavras


© Ademir Antonio Bacca
do livro “O grito por dentro das palavras”

Amar-te




Amar-te é suave, tanto mais suave quanto mais amadureço, mas a luta dos nossos sentidos jamais abranda.

Amar-te é sentir-me feiticeiro na floresta do teu corpo, tão "cantabile" e tão obscuro, que nunca mais acaba.

Amar-te é perder-me nos tuas planícies e nos teus jardins subterrâneos — ou são ilhas encostadas ao silêncio dos céus?

Amar-te, entre tantas coisas mais, é participar num diálogo entre a música, os perfumes, as cores e os líquidos que, desejando-me, me transformam. O rosa-pálido do princípio não é menos excitante do que o vermelho-framboesa de quando, enfim, nos estendemos e repousamos.

Amar-te é elevar do chão escuro a tua vertigem e desejar que das minhas nuvens altas arranques uma só tua, incendida.

Amar-te é beber na tua língua um fruto silencioso.

Amar-te é ouvir nas tuas palavras o brilho do vinho.

Amar-te é regressar ao seio túmido de quando nasci.

Amar-te é ouvir-te dizer “ó meu deus” quando, dentro um do outro, explodimos!

Amar-te é desejar a fusão, numa só mulher, da esposa e da mãe, da terra e da amante, do mar e do nosso prazer infinito.


Casimiro de Brito


A paixão da sua vida


Amava a morte. Mas não era correspondido.

Tomou veneno. Atirou-se de pontes. Aspirou gás. Sempre ela o rejeitava, recusando-lhe o abraço.

Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a morte, enciumada, estourou-lhe o coração.



Conto em letras garrafais


Todos os dias esvaziava uma garrafa, colocava dentro sua mensagem, e a entregava ao mar.

Nunca recebeu resposta.

Mas tornou-se alcoólatra.



Marina Colasanti


Testamento

Paul Kelley


O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!


Manuel Bandeira

domingo, 24 de fevereiro de 2013

ennio_montariello


mesmo
na idade
de virar
eu mesmo

ainda
confundo
felicidade
com este
nervosismo


Paulo Leminski

Noite e dia

Alexander Sheversky


não me agradam
essas coisas que despertam
barulho, susto, água fria
tudo na minha cara
mais nenhum sonho por perto

não me agradam
essas coisas que adormecem
vazio, escuro, calmaria
tudo que lembra morte
quando nada mais dá certo

não me agradam
essas coisas sem poesia
uma noite só noite
um dia só dia


Alice Ruiz
Anne Stegg

Desde sempre parece que ele fora proposto a pássaro.
Mas não tinha preparatórios de uma árvore
Pra merecer no seu corpo ternuras de gorjeios.
Ninguém de nós, na verdade, tinha força de fonte.
Ninguém era início de nada.
A gente pintava nas pedras a voz.
E o que dava santidade às nossas palavras era a canção do ver!
Trabalho nobre aliás mas sem explicação
Tal como costurar sem agulha e sem pano.
Na verdade na verdade
Os passarinhos que botavam primavera nas palavras.


Manoel de Barros

E é a tua sombra, e é e se desfaz

tamara-de-lempicka


E é a tua sombra, e é e se desfaz,
se faz raiz e grão
no que te tenho aqui.
O dedo de penumbra que me dás
aumenta a minha mão
e tem-me em ti.

Chocalha agora a tarde nas coleiras
de ovelhas indiferentes;
tudo com elas fica, e as oliveiras,
não vistas, mas presentes.
Abafo-me com isto; ao seu calor
o nosso sangue é um e amadurece.
Boa-noite, meu amor.
Boa-noite, que amanhece.


Pedro Tamen

Zofia Bogusz Art





 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Companheiros



quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não levo
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço


Mia Couto
Joanna Kustra 

Tenho tanto sentimento 
Que é freqüente persuadir-me 
De que sou sentimental, 
Mas reconheço, ao medir-me, 
Que tudo isso é pensamento, 
Que não senti afinal.  
Temos, todos que vivemos, 
Uma vida que é vivida 
E outra vida que é pensada, 
E a única vida que temos 
É essa que é dividida 
Entre a verdadeira e a errada.  
Qual porém é a verdadeira 
E qual errada, ninguém 
Nos saberá explicar; 
E vivemos de maneira 
Que a vida que a gente tem 
É a que tem que pensar.  


Fernando Pessoa

A Serenata

Sergey Kondrashov 



Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natal como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?


Adélia Prado 

Mar de Menina

Solve-Sundsbo


Havia um mar, 
e ali brotava uma ilha 
povoada de lobos e de pensamentos. 
Havia um fundo escuro e belo 
onde os náufragos dançavam com sereias. 
Havia ansiedade e abraço. 
Havia âncora e vaguidão. 

Brinquei com peixes e anjos, 
fui menina e fui rainha, 
acompanhada e largada, 
sempre a meia altura 
do chão. 

A vida um barco, remos ou ventos, 
tudo real e tudo 
ilusão.


Lya Luft
In Para não dizer adeus, 2005
Amor de...

Para o Lico, sem dor

Fica parado à porta e eu nem vejo, estou de costas fazendo coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o céu pela janela. Fica parado à porta uma porção de tempo, e eu nem vejo, mas dura pouco. Em seguida algum toque quente como um olhar fixo começa a me queimar a nuca, então abandono o que eu estou fazendo, seja o que for, e não sei bem se me volto lenta ou rapidamente, para surpreendê-lo no momento exato de baixar os olhos e afastar a mão apoiada na parede, como se recém chegasse e não estivesse parado ali uma porção de tempo, olhando. Sei que está azul, ou verde, ou branco, talvez os três juntos, talvez outros ainda, talvez nenhum: mas me volto rápida ou lentamente, e nesse movimento qualquer coisa que tenho entre as mãos cai ao chão, e antes de dizermos qualquer coisa há a necessidade quase milenar de curvar-se para apanhar o objeto caído, um livro, um cigarro, provavelmente um estrela. E só depois ou durante o tempo em que vêm subindo no ar as mãos douradas segurando essa coisa qualquer é que nos olhamos e começa a entrar no mar sem medo antigo, e pela primeira vez a água não parece fria nem escura, nem arde nos olhos quando mergulho. Mergulho fundo para voltar em seguida à tona, mas não consigo, qualquer coisa como algas ou raízes ou peixes ou mesmo estrelas me prendem a esse fundo de fogo claro. E me debato sem vontade, sabendo que além da superfície há um dia esmaecido, que ainda é outono e um pajem caminha num parque qualquer, todas as tardes com um livro ou uma folha nas mãos douradas e sozinhas. Mas é azul à minha volta, e embora me doa esse azul entrando pelos sentidos, é ali que quero ficar agora, naquele fundo claro de fogo, com algas de madrepérola aprisionando meus tornozelos, alguns tesouros além, navios piratas, ouros, terras, sereias.

Faço um movimento brusco e venho à tona como se voltasse a mim, e vou saindo lentamente do azul, sento na areia áspera e fico olhando a superfície que volta a ser polida e fria como vidro. Antigo medo, que me encara com olhos que guardam algas de madrepérola no claro fogo do fundo, e que recusa me matar de azul, porque talvez eu não suportasse, e não posso morrer porque é preciso, ainda, sacudir a areia da roupa branca e estender a mão para o livro, cigarro ou estrela que sobe em outras mãos douradas. E sorrir, então, e dizer bom-dia, boa-tarde, talvez boa-noite, e convidar a sentar, como se costuma nessas situações, e explicar sempre que não há muito onde sentar, e espalhar cinzeiros, fechar a porta, escolher rapidamente um disco lento e abandonar a coisa que estivesse fazendo para sentar no canto oposto da cama, talvez cruzar as pernas, acender um cigarro, abrir um livro, olhar uma estrela e falar ouvir durante horas coisas duras e inúteis, e de repente me perceber novamente deslizando para um mar aberto feito boca, convite na esquina, veludo atrás de vidraça, e não ceder porque não seria de esperar que eu cedesse agora, nessas situações, embora me consuma, e penso. Então sorrir e afastar com delicadeza as inúteis durezas até que nos aproximemos das tardes no parque, e era sempre outono. E de repente como girar numa roda louca que jogo de novo eu mesmo neste mesmo parque, com este mesmo livro ou esta mesma folha onde vou desenhando devagar uma estrela enquanto o cigarro queima em fogo claro, e depois ler ou ficar à toa olhando os verdes fumando à espera que um pajem passe de mãos sozinhas que faça encher de encantos as algas de madrepérola me seguram pelos pulsos e eu não resisto e já não importam os parques os pajens as folhas os livros os cigarros as estrelas as guitarras a loucura dos líquidos derramados sobre o tapete que tudo absorve há dezesseis anos: apenas essas algas nos meus pulsos e os tesouros as sereias os reis com suas capas de arminho os atlantes os castelos e parques sem adolescentes sem folhas nem livros em árvores sem esperas e bancos despidos de inscrições parques verdes de paz e uma coisa grita pouco abaixo do meu centro escuro mas eu a trato como o lenhador à serpente entanguida eu a levo para casa preparo fogo e alimento e abro as janelas e portas para voltar correndo às algas de madrepérola que agora se afrouxam e me soltam lentamente para me abandonar outra vez na mesma praia de areia seca olhando esse mar frio que se recusa a me matar de azul e me dói exatamente como se eu fosse um menino pobre a quem se mostrassem um doce da janela de um carro em alta velocidade. Vou escrevendo poemas como Anchieta pelo corrimão branco da escada e abro uma porta escura para a rua cheia de cotovelos, dentes rangendo, hesitações, temores, diplomas e [ilegível]. Depois volto devagar por um caminho que já não consigo decifrar, e me perco em labirintos pela sala vazia, ligodesligo ingridbogarthumphreybergmann e o leite escorre pela minha garganta seca de areia, de água salgada, de ar rarefeito, e tento novamente descobrir tesouros escondidos pelos cantos, como ninhos de Páscoa, e tento reescrever poemas desfeitos pelo vento no corrimão branco, e tudo de repente se fecha em torno de mim como uma bola cheia de espinhos, mas sorrio, contido, e dou as costas para a porta e depois volto a fazer coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o céu pela janela. E não espero que outra vez um toque quente como um olhar fixo me queime a nuca e me voltar para encontrar um valete de paus, de mãos estendidas para esse objeto qualquer caído há pouco, um livro, um cigarro, provavelmente um estrela.

Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Caminho que não escolhi





Dois caminhos no bosque encontrei
Percorrer os dois claramente não podia
Caminhante só, longamente hesitei
E olhei para um, até onde a vista via
Até onde curvava e se desvanecia 

Então segui pelo outro, decidido e crente
Talvez fosse mesmo a melhor opção,
Porque tinha mais relva e era mais atraente;
Apesar de a natureza e o tempo indiferente,
Terem deixado ambos em igual condição,

E nessa manhã iguais estavam os dois
Cobertos de folhas ainda por pisar.
Oh, adiei o primeiro caminho para depois!
E apesar de saber que um leva a dois,
Duvidei se algum dia deveria voltar.

Contarei isto com um suspiro sentido
Com lugares e anos de vida cumprida:
Dois caminhos encontrei e o escolhido
Foi do bosque o menos percorrido
E isso fez toda a diferença na vida.

*

The Road not taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I -
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


Robert Frost

Um vendaval

Nikola Borissov Photography

O velho ia caminhando, encurvado, como se batido pelo vento – mas não havia vento, ainda. Havia, ao contrário, uma grande quietude na calçada da Avenida Atlântica àquela hora. Quietude do mar, que se espraiava em silêncio sobre a areia. Quietude do ar, que pairava pesado no fim de tarde. Quietude das pessoas passando mudas, como se esperassem a tempestade que – todos sabiam – cairia a qualquer momento.
Já quase anoitecia, mas o velho estava de óculos escuros, que usava para esconder os olhos cegos. Vestia uma roupa alinhada, perfeitamente limpa e passada, sapatos lustrados com afinco, e trazia no braço direito uma pulseira de ouro. Era também o braço direito que segurava a bengala, o castão envolto com firmeza na mão fechada, com dedos formando grossos nós.
Era curioso que saísse só, e tão tarde, e numa tarde com promessa de chuva. Mas ele nem parecia importar-se. Na verdade, nem parecia cego, tal a desenvoltura com que se movimentava, agitando a bengala de um lado a outro, a farejar o caminho. Ninguém o vira atravessar a rua, mas, uma vez na calçada, andava muito à vontade, como se não temesse nada. E havia em seu rosto uma expressão de tamanha felicidade que, não fosse pela curvatura das costas, dir-se-ia que a qualquer instante ele começaria a dançar.
Mas de repente parou.
E por um instante permaneceu imóvel, as costas agora quase eretas, o cenho franzido, as narinas em alerta. Quem o visse de longe poderia pensar que estava assustado, que fora talvez atingido por uma lufada de vento, primeiro sinal da ventania que se anunciava. Mas não. Os primeiros sopros do vento ainda rugiam sobre o mar, muito além da curva protetora de Copacabana. O que fora, então? O que o fizera parar assim, como se fulminado?
Era, na verdade, um vendaval. Um vendaval sem vento, aquilo que o atingira. Uma lufada poderosa, que o fizera estancar os gestos, o coração batendo como louco, a garganta apertada.
Seus olhos adormecidos nem viam a mulher jovem, de pernas longas e porte esguio, que estava parada a poucos metros dele, olhando a praia. Ele jamais viria a saber quem ela era, nem por que estava ali. Tampouco saberia a razão de seu olhar perdido, da mão que segurava com força a lata de cerveja. Mas de uma coisa o velho sabia: ali estava o vendaval. Porque, fosse quem fosse, a moça usava um perfume. O mesmo perfume da mulher que ele amara um dia – muito tempo atrás.


Heloísa Seixas

Jean-Paul Sartre, A Náusea

 Levanto-me, mexo-me sob esta luz pálida; vejo-a resvalar pelas minhas mãos e pelas mangas do meu casaco: não se imagina a que ponto ela me causa aversão. Bocejo. Acendo o candeeiro que está em cima da mesa: talvez a sua luz possa sobrepor-se à do dia. Não pode: o candeeiro mal consegue formar, à roda da base, uma poça desprezível. Apago; levanto-me. Na parede há um 
buraco branco, o espelho. É uma ratoeira. Sei que vou lá cair. Já está. A coisa cinzenta acaba de surgir no espelho. Aproximo-me e olho para ela; já não posso desviar-me. É o reflexo da minha cara. Muitas vezes, nestes dias, perdidos, fico a contemplá-lo. Não percebo nada desta cara. As dos outros têm um sentido. A minha, não. Nem posso decidir se é bonita ou feia. Acho que é feia, porque me disseram. Mas não é propriedade que me salte à vista. A bem dizer, até me surpreende que se lhe possam atribuir qualidades desse gênero, como se se chamasse bonito ou feio a um bocado de terra ou a um bloco de rocha. Há, todavia, uma coisa cuja vista dá prazer; por cima das regiões moles das faces, acima da testa: é esta bela labareda vermelha que me doura o crânio, são os meus cabelos. Isto sim, é agradável de se ver. É, pelo menos, uma cor nítida: estou contente por ser ruivo. Ali está ela, no espelho, salta aos olhos, irradia fogo. Muita sorte tenho eu: se a minha testa suportasse uma dessas cabeleiras sem brilho que não chegam a decidir-se entre castanho e louro, a minha expressão perder-se-ia no vago, dar-me-ia vertigens. O meu olhar desce lentamente, com enfado, por esta testa, por estas faces: não encontra nada de firme, afoga-se. Evidentemente, aquilo é um nariz, aquilo são uns olhos, aquilo uma boca, mas nada disso tem sentido, nem sequer expressão humana. Todavia, Anny e Vélines achavam que eu tinha um ar de vivacidade; devo estar habituado demais à minha cara. A minha tia Bigeois dizia-me, quando eu era pequeno: «Se olhares muito tempo para o espelho, acabas por ver um macaco.» Olhei muito, muito tempo, com certeza: o que lá vejo está muito abaixo do macaco, na fronteira do mundo vegetal, ao nível dos pólipos. Tem vida, não digo que não; mas não é nessa vida que Anny pensava: noto na imagem do espelho uns leves estremeções, vejo uma carne desenxabida que se distende e palpita com abandono. Os olhos, principalmente, de tão perto, são horríveis. São uma coisa vítrea, mole, cega, orlada de vermelho; parecem escamas de peixe. Amparo-me, com todo o meu peso, à moldura de faiança, aproximo a minha cara do espelho até lhe tocar. Os olhos, o nariz e a boca desaparecem: já nada resta humano. Rugas escuras de ambos os lados do inchaço febril dos lábios, gretas, montículos. Uma sedosa penugem branca corre sobre os grandes declives das bochechas; dois pêlos saem das narinas: é uma carta geológica em relevo. E, apesar de tudo, este mundo lunar é-me familiar. Não posso dizer que lhe reconheça os pormenores. Mas o conjunto produz-me uma impressão de coisa já vista que me entorpece: resvalo lentamente para o sono. Tento reagir: uma sensação viva e brusca libertar-me-ia. Espalmo a mão esquerda na face, puxo pela pele; desenha-se no espelho uma careta. Uma metade inteira do meu rosto cede, o lado esquerdo da boca torce-se e incha, destapando um dente, a órbita abre-se sobre um globo branco, sobre uma carne cor-de-rosa e ensanguentada. Não é o que eu procurava: nada de forte, nada de novo; tudo doce, indeciso, já visto! Estou prestes a adormecer de olhos abertos; já a cara cresce, cresce no espelho, torna-se um imenso halo pálido a boiar na luz...
O que me faz acordar bruscamente é que estou a perder o equilíbrio. Dou por mim a cavalo numa cadeira, de frente para trás, ainda estonteado. Os outros homens terão tanta dificuldade como eu em julgar o seu rosto? Parece-me que vejo o meu, como sinto o corpo, numa sensação surda e orgânica. E os outros? (...)  As pessoas que vivem em sociedade aprenderam a ver-se, nos espelhos, tal como aparecem aos seus amigos. Eu não tenho amigos: será por isso que a minha carne é tão nua? Dir-se-ia - sim, dir-se-ia a natureza sem os homens. Perdi o gosto pelo trabalho; já não posso fazer nada, senão esperar a noite. Cinco e meia, Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. E, desta vez, é diferente: deu-me num café. Os cafés eram até aqui o meu único refúgio, porque estão sempre cheios de gente e bem iluminados: já nem isso me resta; quando estiver encurralado no meu quarto, já não terei para onde ir. Vinha com ideias de ir para o quarto com a patroa, mas, mal tinha empurrado a porta, Madeleine, a criada, gritou-me: «A patroa não está cá, foi dar umas voltas que tinha a dar.» Senti uma viva decepção no sexo, um longo cocegar desagradável. Ao mesmo tempo, sentia a camisa roçar-me contra a ponta dos mamilos, e era cercado, arrastado, por um lento turbilhão colorido, um turbilhão de névoa, de luzes no fumo, nos espelhos, com os assentos que brilhavam ao fundo; e não via porque é que aquilo se passava ali, nem porque se passava assim. Estava no limiar da porta, hesitava; depois produziu-se um remoinho, uma sombra passou no teto, e senti-me empurrado para diante. Era como se flutuasse, estava encadeado pelas brumas luminosas que, vindas de todos os lados, me penetravam ao mesmo tempo. Madeleine aproximou-se a boiar, despiu-me o sobretudo, e notei que ela tinha arrepiado os cabelos para trás e posto brincos: não a reconhecia. Olhava-lhe para as grandes bochechas que se chegavam cada vez mais para as orelhas. Na covinha das bochechas, abaixo das maçãs do rosto, havia duas manchas cor-de-rosa, bem isoladas, com ar de se aborrecerem no meio daquela carne pobre. As bochechas deslocavam-se, chegavam-se para as orelhas, e Madeleine sorria: «Sr. Antoine, que é que toma?»
Então a Náusea acometeu-me, deixei-me cair no assento, nem sequer já sabia onde estava; via as cores girarem lentamente à minha volta, tinha vontade de vomitar. E aqui está: desde então que a Náusea não me deixa; a Náusea apossou-se de mim.
Paguei. Madeleine levou-me o pires. O meu copo esmaga contra o mármore uma poça de cerveja amarela, onde flutua uma bolha. O assento está desencaixado, no sítio em que me sentei, e sou obrigado, para não escorregar, a fincar as solas dos sapatos no chão, com força. Está frio. À minha direita, uns sujeitos jogam as cartas sobre um pano de lã. Não os vi, ao entrar; senti simplesmente que estava ali uma trouxa morna, meio sobre o assento, meio sobre a mesa do fundo, com pares de braços a agitar-se. Pouco depois, Madelaine levou-lhe as cartas, o pano e as fichas numa tigela de madeira. São três ou cinco, não sei, não tenho coragem para os olhar. Partiu-se uma mola dentro de mim: posso mover os olhos, mas não a cabeça. A minha cabeça está mole, elástica, dir-se-ia que me assenta no pescoço, sem estar presa; se a virar,  deixo-a cair.
Mesmo assim, ouço uma respiração curta, e vejo, de vez em quando, com o ratinho do olho, um clarão rubicundo coberto de pelos brancos. É a mão de alguém. Quando a patroa não está, é o primo que toma o lugar dela ao balcão. Chama-se Adolphe. Comecei a olhar para ele quando me ia sentar, e continuei, porque não podia virar a cabeça. Está em camisa, com suspensórios cor de malva; tem as mangas arregaçadas até acima do cotovelo Os suspensórios destacam-se mal da camisa azul; estão apegados, enterrados no azul, mas a sua humildade é falsa: na verdade, não se deixam passar despercebidos; irritam-me com a sua obstinação de carneiros, como se, destinados a chegar ao roxo, tivessem parado a meio sem abandonar as suas pretensões. Tem-se vontade de lhes dizer: «Vá lá, façam-se roxos, e não se fale mais nisso.» Mas não, ficam na incerteza, teimando num esforço que não levam até ao fim. Aí às vezes, o azul que os cerca desbota sobre eles, e encobre-os inteiramente: fico um instante sem  os ver. Mas é uma onda apenas; depressa o azul desmaia aqui e além, e vejo reaparecer uns ilhéus duma cor de malva, hesitante, que se dilatam, se reúnem e reconstituem os suspensórios. O primo Adolphe não tem olhos: as suas pálpebras, empapuçadas e reviradas à beira, mal deixam ver a esclerótica. Sorri com um ar sonolento; de vez em quando, assopra, gane e agita-se debilmente como um cão a sonhar. A sua camisa de algodão azul sobressai alegremente do fundo cor de chocolate que é a parede. Também isso me faz náuseas. Ou antes: é isso a Náusea. A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.


Jean-Paul Sartre, A Náusea

Quem quer que seja você a segurar agora a minha mão

Helen Cottle



Quem quer que seja você a segurar agora a minha mão,
sem uma coisa tudo será inútil,
dou-lhe um honesto aviso antes que você me tente mais,
não sou o que você supôs, mas muito diferente.

Quem é aquele que deseja se tornar meu seguidor?
Quem se apresentaria como candidato às minhas afeições?

O caminho é suspeito, o resultado incerto, talvez destrutivo,
você teria de desistir de tudo o mais, eu sozinho haveria de ser seu estandarte único e exclusivo,
seu noviciado seria pois longo e exaustivo,
toda a teoria passada da sua vida e toda a conformidade com as vidas ao seu redor teriam de ser abandonadas,
assim me deixe agora antes que se complique mais, tire a mão dos meus ombros,
me largue e siga o seu próprio caminho.

Ou então furtivamente em alguma floresta, para tentar apenas,
ou atrás de uma rocha ao ar livre
(pois em nenhum quarto coberto de nenhuma casa eu emerjo, nem em companhia,
e nas bibliotecas permaneço como quem é mudo, ou parvo, ou não nascido, ou morto),
mas muito possivelmente com você numa colina alta, primeiro vigiando por milhas em volta para que ninguém se aproxime sem avisar,
ou possivelmente com você a velejar no mar, ou numa praia do mar ou numa ilha sossegada,
aqui eu permito que você coloque seus lábios sobre os meus,
com o beijo prolongado do camarada ou o beijo do recém-casado,
pois sou o recém-casado e sou o camarada.

Ou, se você quiser, metendo-me entre suas roupas,
onde poderei sentir os soluços do seu coração ou repousar sobre o seu quadril,
carregue-me quando for através das terras e dos mares;
pois apenas tocar você assim é o bastante, é o melhor,
e tocando você assim eu adormeceria em silêncio e seria carregado eternamente.

Mas examinando estas folhas você se arrisca,
pois a estas folhas e a mim você não entenderá,
elas o eludirão no princípio e mais ainda depois, eu certamente o eludirei,
mesmo quando você pensar que me apanhou de modo inquestionável, cuidado!,
você logo verá que lhe escapei.

Pois não é pelo que coloquei neste livro que o escrevi,
nem é pela leitura dele que você o ganhará,
nem são esses que me admiram e me elogiam com jactância aqueles que me conhecem melhor,
nem são os candidatos ao meu amor (a não ser no máximo alguns poucos) os que sairão vitoriosos,
nem meus poemas farão apenas bem, eles também farão mal, talvez até mais,
pois tudo é inútil sem aquilo que você poderá suspeitar em muitas ocasiões sem compreender, aquilo que sugeri;
assim me deixe e siga o seu próprio caminho.


Walt Whitman
(Tradução de Renato Suttana)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

The Rolling Stones - No Expectations

Que é - simpatia

 Daniel Del Orfano Painting 



Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.

Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.

Simpatia - meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'agosto
É o que m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é quase amor!


Casimiro de Abreu

Talvez sonhasse, quando a vi

Alaya Gadeh- Photographer


Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a... Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de súplicas, feria...

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilusões! sonhos meus! íeis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando...


Olavo Bilac
Christos Magganas



Vaga, no azul amplo solta, 
Vai uma nuvem errando. 
O meu passado não volta. 
Não é o que estou chorando.  
O que choro é diferente. 
Entra mais na alma da alma. 
Mas como, no céu sem gente, 
A nuvem flutua calma.  
E isto lembra uma tristeza 
E a lembrança é que entristece, 
Dou à saudade a riqueza 
De emoção que a hora tece.  
Mas, em verdade, o que chora 
Na minha amarga ansiedade 
Mais alto que a nuvem mora, 
Está para além da saudade.  
Não sei o que é nem consinto 
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto 
Dor que a minha alma tem.  


Fernando Pessoa

Marguerite Duras, O amante

O homem elegante desceu da limusine, ele fuma um cigarro inglês. Olha a jovem com chapéu masculino e sapatos durados. Aproxima-se devagar. Visivelmente intimidado. De início não sorri. De início oferece um cigarro a ela. A mão treme. Há essa diferença de raça, ele não é branco, ele deve superá-la, por isso treme. Ela lhe diz que não fuma, não, obrigada. Não diz mais  nada, não diz me deixe em paz. Ele sente menos medo. E diz que parece estar sonhando. Ela não responde. Não vale a pena responder, o que responderia? Ela espera. Ele pergunta: mas de onde você é? Ela diz que é filha da diretora da escola feminina de Sadec. Ele pensa um pouco e depois diz que ouviu falar dessa senhora, a mãe, de sua falta de sorte com aquela concessão que teria comprado no Camboja, não é isso? Sim, é isso.

Ele repete que á absolutamente extraordinário encontrá-la nessa balsa. De manhã tão cedo, uma jovem linda como ela, você não imagina, é muito inesperado, uma jovem branca num ônibus nativo.
Diz que o chapéu lhe cai bem, muito bem mesmo, que é... original... um chapéu de homem, por que não? Ela é tão bonita, pode se permitir qualquer coisa.

Ela olha para ele. Pergunta quem ele é. Ele diz que está voltando de Paris, onde fez seus estudos, que também mora em Sadec, justamente junto ao rio, o casarão com os grandes terraços e as balaustradas de cerâmica azul. Ela pergunta o que ele é. Ele diz que é chinês, que sua família vem do norte da China, de Fu-Chuen. Você me permitiria conduzi-la à sua casa em Saigon? Ela concorda. Ele diz ao motorista para pegar as bagagens da jovem no ônibus e colocá-las no carro preto.

Chinês. Ele pertence a essa minoria financeira de origem chinesa que possui todos os imóveis populares da colônia. É aquele que atravessava o Mekong naquele dia em direção a Saigon.

Ela entra no carro preto. A porta se fecha. Uma leve aflição vem de repente, um cansaço, a luz sobre o rio que se embaça, mas levemente. Um ensurdecimento muito tênue também, uma névoa, por tudo.

Nunca mais farei a viagem no ônibus dos nativos. A partir de agora, terei uma limusine para ir ao liceu e para me levar de volta ao pensionato. Jantarei nos lugares mais elegantes da cidade. E estarei ali sempre lamentando tudo o que faço, tudo o que deixo, tudo o que pego, bom ou ruim, o ônibus, o motorista do ônibus, com quem eu dava risada, as velhas mascando bétel nos assentos traseiros, as crianças sobre os bagageiros, a família de Sadec, o horror da família de Sadec, seu silêncio genial.

Ele falava. Dizia que sentia falta de Paris, das adoráveis parisienses, das farras, das orgias, ah, de lá, de lá, da Coupole, da Rotonde, já eu prefiro a Rotonde, das casas noturnas, dessa vida “fabulosa” que ele tinha levado durante doisa nos. Ela escutava, atenta às informações de seu discurso que remetiam à riqueza, que pudessem dar uma indicação da quantidade de milhões. Ele continuava a contar. A mãe havia morrido, era filho único. Só lhe restava o pai, o dono do dinheiro. Mas, sabe como é, ele está preso ao cachimbo de ópio na frente do rio faz dez anos, administra a fortuna de sua cama de campanha. Ela diz que entende.

O pai não permitirá o casamento do filho com a pequena prostituta branca do posto de Sadec.

A imagem começa bem antes que ele aborde a menina branca perto da amurada, no momento em que desce da limusine preta, quando começa a se aproximar dela, e ela sabe, ela sabe, que ele está com medo.

Desde o primeiro momento ela sabe alguma coisa assim, quer dizer, que ele está em suas mãos. E que, portanto, outros também, além dele, poderiam ficar em suas mãos caso surgisse a ocasião. Ela também sabe uma outra coisa, que agora certamente chegou o momento em que não pode mais escapar a certas obrigações para consigo mesma. E ela também sabe, nesse dia, que a mãe não pode saber de nada daquilo, nem os irmãos. Desde que entrou no carro preto, ela soube, está afastada dessa família pela primeira vez e para sempre. Doravante eles não devem mais saber o que acontecerá com ela. Não importa que a peguem, que a levem, que a maltratem, que a corrompam, eles não devem mais saber. Nem a mãe, nem os irmãos. Doravante será este o destino deles. É hora de chorar na limusine preta.

A menina agora terá de enfrentar aquele homem, o primeiro, aquele que se apresentou na balsa.

Chegou muito rápido esse dia, uma quinta-feira. Ele veio todos dias buscá-la no liceu para levá-la ao pensionato. E depois uma vez, uma quinta-feira à tarde, ele veio ao pensionato. E a levou no carro preto.

É Cholen. Fica do outro lado dos bulevares que ligam o bairro chinês ao centro de Saigon, essas grandes ruas de tipo americano recortadas pelos bondes, pelos riquixás, pelos ônibus. É o começo da tarde. Ela escapou ao passeio obrigatório das jovens do pensionato.

É um cômodo no sul da cidade. Moderno, parece mobiliado às pressas, com móveis que se pretendem modern style. Ele diz: não escolhi os móveis. O estúdio está escuro, ela não pede que abra as persianas. Não tem um sentimento muito definido, não sente ódio nem repugnância, então sem dúvida ali já existe desejo. Ela desconhece o desejo. Concordou em vir quando ele a convidou na tarde anterior. Está onde deve estar, deslocada. Sente um leve medo. De fato, parece que isso deve corresponder não só ao que ela espera, mas ao que deveria acontecer exatamente no seu caso. Ela está muito atenta ao exterior das coisas, à luz, ao vozerio da cidade em que está imerso o quarto. Ele, por sua vez, treme. Olha-a de início como que esperando que ela fale, mas ela não fala. Então ele também não se mexe, não a despe, diz que a ama feito loco, diz baixinho. Depois fica quieto. Ela não responde. Poderia responder que não o ama. Não diz nada. De repente ela sabe, ali, naquele instante, ela sabe que ele não a conhece, que nunca a conhecerá, que não tem como conhecer tanta perversidade. E fazer tantos e tantos rodeios para alcançá-la, ele jamais conseguirá. Cabe a ela saber. Ela sabe. A partir da ignorância dele, ela sabe de repente: ele lhe agradava já na balsa. Ele lhe agrada, a coisa dependia somente dela.

Ela lhe diz: preferiria que você não me amasse. Mesmo que você me ame, gostaria que fizesse como costuma fazer com as mulheres. Ele a olha espantado, e pergunta: é o que você quer? Ela diz que sim. Foi ali naquele quarto que ele começou a sofrer pela primeira vez, não mente mais sobre esse ponto. Ele lhe diz que já sabe que ela nunca o amará. Ela o deixa falar. Primeiro ela diz que não sabe. Depois o deixa falar.

Ele diz que está só, atrozmente só com esse amor que sente por ela. Ela diz que também está só. Não diz com quê. Ele diz: você me seguiu até aqui como teria seguido qualquer um. Ela responde que não pode saber, que nunca tinha seguido ninguém até um quarto. Ela diz que não quer que ele fale com ela, o que quer é que ele faça como costuma fazer com as mulheres que leva à sua garçonnière. Ela lhe suplica que faça assim.

Ele arranca o vestido, joga-o, arranca a calcinha de algodão branco e a leva nua assim até a cama. E então se vira para o outro lado e chora. Ela, lenta, paciente, torna a trazê-lo para perto de si e começa a despi-lo. De olhos fechados, ela o despe. Lentamente. Ele quer fazer gestos para ajudá-la. Ela lhe pede que não se mexa. Deixe. Ela diz que quer fazer ela mesma. Ela faz. Ela o despe. Quando ela pede, ele muda o corpo de lugar na cama, mas pouco, levemente, como para não a despertar.

A pele é de uma suavidade suntuosa. O corpo. O corpo é magro, sem força, sem músculos, podia ser de um doente, de um convalescente, ele é imberbe, sem virilidade a não ser a do sexo, é muito frágil, parece estar à mercê de um insulto, sofrendo. Ela não o olha no rosto. Não o olha. Ela o toca. Toca a suavidade do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a desconhecida novidade. Ele geme, chora. Sente um amor abominável.

E chorando ele faz. Primeiro vem a dor. E então, depois que essa dor é acolhida, ela é transformada, lentamente arrancada, arrastada para o gozo, abraçada a esse gozo.
O mar, sem forma, simplesmente incomparável.


Marguerite Duras, O amante

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Red Hot Chili Peppers - Otherside

Luz de lanterna, sopro de vento

 Dimitar Variysky


Tendo o marido partido para a guerra, na primeira noite da sua ausência a mulher acendeu uma lanterna e pendurou-a do lado de fora da casa. "Para trazê-lo de volta," murmurou. E foi dormir.

Mas, ao abrir a porta na manhã seguinte, deparou-se com a lanterna apagada. "Foi o vento da madrugada," pensou olhando para o alto como se pudesse vê-lo soprar.

À noite, antes de deitar, novamente acendeu a lanterna que, a distância deveria indicar ao seu homem o caminho de casa.

Ventou de madrugada. Mas era tão tarde e ela estava tão cansada que nada ouviu, nem o farfalhar das árvores, nem o gemido das frestas, nem o ranger das argolas da lanterna. E de manhã surpreendeu-se ao encontrar a luz apagada.

Naquela noite, antes de acender a lanterna, demorou-se estudando o céu límpido, as claras estrelas. "Na certa não ventará," disse em voz alta, quase dando uma ordem. E encostou a chama do fósforo no pavio.

Se ventou ou não, ela não saberia dizer. Mas antes que o dia raiasse não havia mais nenhuma luz, a casa desaparecia nas trevas.

Assim foi durante muitos e muitos dias, a mulher sem nunca desistir acendendo a lanterna que o vento, com igual constância apagava.

Talvez meses tivessem passado quando num entardecer, ao acender a lanterna, a mulher viu ao longe recortada contra a luz que lanhava em sangue o horizonte, a silhueta escura de um homem a cavalo. Um homem a cavalo que galopava na sua direção.

Aos poucos, apertando os olhos para ver melhor, distinguiu a lança erguida ao lado da sela, os duros contornos da couraça. Era um soldado que vinha. Seu coração hesitou entre o medo e a esperança. O fôlego se reteve por instantes entre lábios abertos. E já podia ouvir os cascos batendo sobre a terra, quando começou a sorrir. Era seu marido que vinha.

Apeou o marido. Mas só com um braço rodeou-lhe os ombros. A outra mão pousou na empunhadura da espada. Nem fez menção de encaminhar-se para a casa.

Que não se iludisse. A guerra não havia acabado. Sequer havia acabado a batalha que deixara pela manhã. Coberto de poeira e sangue, ainda assim não havia vindo para ficar. "Vim porque a luz que você acende à noite não me deixa dormir," disse-lhe quase ríspido. "Brilha por trás das minhas pálpebras fechadas, como se me chamasse. "Só de madrugada depois que o vento sopra posso adormecer."

A mulher nada disse. Nada pediu. Encostou a mão no peito do marido, mas o coração dele parecia distante, protegido pelo couro da couraça.

"Deixe-me fazer o que tem de ser feito, mulher," disse sem beijá-la. De um sopro apagou a lanterna. Montou a cavalo, partiu. Adensavam-se as sombras, e ela não pode sequer vê-lo afastar-se contra o céu.

A partir daquela noite, a mulher não acendeu mais nenhuma luz. Nem mesmo a vela dentro de casa, não fosse a chama acender-se por trás das pálpebras do marido.

No escuro, as noites se consumiam rápidas. E com elas carregavam os dias, que a mulher nem contava. Sem saber ao certo quanto tempo havia passado, ela sabia porém que era tanto.

E, passado , num final de tarde em que a soleira da porta despedia-se da última luz no horizonte, viu desenhar-se lá longe a silhueta de um homem. Um homem à pé que caminhava na sua direção. Protegeu os olhos com a mão para ver melhor e aos poucos, porque o homem avançava devagar, começou a distinguir a cabeça baixa, o contorno dos ombros cansados. Contorno doce, sem couraça, retendo o sorriso nos lábios - tantos homens haviam passado sem que nenhum fosse o que ela esperava. Ainda não podia ver-lhe o rosto, oculto entre a barba e o chapéu, quando deu o primeiro passo e correu ao seu encontro, liberando o coração. Era seu marido que voltava da guerra.

Não precisou perguntar-lhe se havia vindo para ficar. Caminharam até a casa. Já iam entrar. Quando ele se reteve. Sem pressa voltou-se, e, embora a noite ainda não tivesse chegado, acendeu a lanterna. Só entrou com a mulher. E fechou a porta.


Marina Colasanti, In: Um Espinho de Marfim e outras histórias. Porto Alegre: L&PM. p. 39,1999.