terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Na Ponta da Língua

ennio montariello


o desejo na ponta da língua
não de falar-me
ter-te
na ponta da língua
não de te falar
percorrer-te
na ponta da língua
ser-te
certeira flecha

o amor (ah, este inconfundível mistério)
se apronta
na ponta da língua

vadia aponta
a língua vazia
e busca na boca
(alheia)
o gosto que
te recheia

e quer lábios
e se contorce
dentro da boca
(própria)
como em autobeijo
querendo
penetrar na boca
(alheia)

e se despede
como quem se despe
como quem pede
ar
sem fôlego
sem coragem
só couraça
coração sem


Frederico Barbosa

Lembrança

 Yuri Yarosh.

Lembro o pudor da paisagem
e a fanfarra de perfumes
que o claro clarim dos lírios
abria nas madrugadas.
Lembro o susto dos insetos
na castidade das águas,
e as asas do pó fugindo
atrás da luz desnudada.
Lembro a fala dos caminhos
ao longo dos passos cegos,
e os ventos enovelados
na cabeleira das nuvens.
Lembro o bulício da palha
quando pisavas a tarde,
os olhos cheios de folhas
e as mãos repletas de ninhos.
Lembro a noite dos meus olhos
sem luas no seu silêncio,
quando ficavas na sombra
e a sombra ficava estrela.
Lembro a palavra parada
na flor adiada da boca,
e lembro o beijo retido
ao gesto alado de adeuses.


Guilherme de Almeida, “O Anjo de Sal”, 1951

O amor celebrado

M. S Garmach


Quando era criança, assistia a filmes e novelas românticas e pensava: será que um dia escutarei “eu te amo” de alguém? É bem verdade que ouvia todo dia da minha mãe, mas não era do mesmo jeito que o Francisco Cuoco dizia para a Regina Duarte. Eu sonhava com o “eu te amo” apaixonado, dito por um homem lindo, e com a voz um pouco trêmula, para deixar a emoção mais evidente. Será que era invenção do cinema e da tevê, ou essas coisas poderiam acontecer mesmo? Era esperar para ver.

Passou o tempo. Cresci, ouvi e retribuí. Clichê? Que seja, mas não há quem não se emocione ao escutar e ao dizer, ao menos nas primeiras vezes, em pleno encantamento da relação, quando a declaração ainda é fresca, pungente, verdadeira, a confirmação de algo estupendo que se está experimentando, um sentimento por fim alcançado e que se almeja eterno. Depois ele entra no circuito automático, vira aquele “te amo” dito nos finais dos telefonemas, como se fosse um “câmbio, desligo”.

O tempo seguiu passando, e me encontro aqui, agora, descobrindo que há outro tipo de “te amo” a ser escutado e falado, diferente dos que acontecem entre pais e filhos e entre os amantes em relacionamentos vigentes. É quando o “te amo” já não é dito para firmar um compromisso, para manter alguém a par das nossas intenções ou para experimentar uma cena de novela. O “te amo” da maturidade vem desvinculado de qualquer mensagem nas entrelinhas, não possui nenhum caráter de amarração e tampouco expectativa de ouvir de volta um “eu também”. Ele é singular. Estou falando do amor declarado não só quando amamos com romantismo, mas também de outra forma.

A experiência tem se dado do seguinte modo: tenho dito “eu te amo” para amigas e amigos, e escutado deles também. Uma declaração bissexual e polígama, que resgata esse sentimento das garras da adequação. Volta a ser o amor primitivo, verdadeiro, sem nenhuma simbologia, puro afeto real. Amor por pessoas que não conheci ontem num bar, e sim por quem já tenho uma história de vida compartilhada. Amor manifestado espontaneamente àqueles que não me exigem explicações, que apoiam minhas maluquices, que fazem piada dos meus defeitos, que já tiveram acesso ao meu raio-X emocional e sabem exatamente o que levo dentro – e eu, do mesmo jeito, tudo igual em relação a eles. Mais do que nos amamos – nos sabemos.

É um “eu te amo” que cabe ser dito inclusive aos ex-amores, ao menos aos que nos marcaram profundamente, aos que nos auxiliaram na composição do que nos tornamos, e que mesmo nos tendo feito sofrer, foram fundamentais na caminhada rumo ao que somos hoje. E indo perigosamente mais longe: esse ex-amor pode ainda ser seu marido e sua mulher, mesmo já não fazendo seu coração saltar da boca. Pelo trajeto percorrido, e por ter alcançado o posto de um amigo mais que especial, merece uma declaração igualmente comovida.

É quando o “eu te amo” deixa de ser sedução para virar celebração.


Martha Medeiros
Jornal de Santa Catarina, 15.06.2013

Meditação à beira de um poema



Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira,
constelada,
os botões,
alguns já com o rosa-pálido
espiando entre as sépalas,
joias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
Maravilhosas faziam-se
as cíclicas, perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro.

 Adélia Prado, in "Oráculos de maio", 2007 

Leonardo da Vinci



Há um pressentimento feliz
Não há bom senso entre as paredes
de uma emoção dilatada até à própria sedução.
Ao comprido da vida, encena-se um bailado lento
e decalca-se, sobre a fantasia,
um aceno que redime culpas
e traz, pela tardinha,
um vento favorável à adolescência do corpo.
Há um pressentimento feliz
na concha das mãos perturbadas de afeto.


Graça Pires, Conjugar afectos, 1997

Aos pais e educadores


Escrevi sobre príncipes e sapos, sobre borboletas e lagartas, sobre o Leonardo e a IBM, sobre campos selvagens e monoculturas... Tudo aparentemente tão diferente. E no entanto - não sei se vocês perceberam - eu falei o tempo todo sobre uma mesma coisa. Fiz, com estas crônicas, aquilo que os músicos gostam de fazer: variações sobre um único tema. Meu tema? O corpo: o meu corpo, o seu corpo, o corpo do seu filho ou de sua filha, o corpo do seu aluno. O corpo é o lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo inteiro. Como na terra moram adormecidos os campos e suas mil formas de beleza, e também as monótonas e previsíveis monoculturas; como na lagarta mora adormecida uma borboleta, e na borboleta, uma lagarta; como nos sapos moram príncipes e nos príncipes moram sapos; como em obedientes funcionários que fazem o que deles se pede moram Leonardos que voam pelos espaços sem fim dos sonhos.

Tudo adormecido. O que vai acordar é aquilo que a Palavra vai chamar. As palavras são entidades mágicas, potências feiticeiras, poderes bruxos que despertam os mundos que jazem dentro dos nossos corpos, num estado de hibernação, como sonhos. Nossos corpos são feitos de palavras. Assim, podemos ser príncipes ou sapos, borboletas ou lagartas, campos selvagens ou monoculturas, Leonardos ou monótonos funcionários. Diferentes dos corpos dos animais, que nascem prontos ao fim de um processo biológico, os nossos corpos, ao nascer, são um caos grávido de possibilidades, à espera da Palavra que fará emergir, do seu silêncio, aquilo que ela invocou. Um infinito e silencioso teclado que poderá tocar dissonâncias sem sentido, sambas de uma nota só, ou sonatas e suas incontáveis variações.

A este processo mágico pelo qual a Palavra desperta os mundos adormecidos se dá o nome de educação. Educadores são todos aqueles que têm este poder. Por isto que a educação me fascina. Hoje o que fascina é o poder dos técnicos, que sabem o segredo das transformações da matéria em artefatos. Poucos se dão conta de que fascínio muito maior se encontra no poder da Palavra para fazer as metamorfoses do corpo. É no lugar onde a Palavra faz amor com o corpo que começam os mundos. Por isto que compartilho da opinião de Hermann Hesse, que dizia que entre os problemas da cultura moderna a escola era o único que levava a sério.

Mas é preciso não ter ilusões. A Palavra tanto pode invocar príncipes quanto sapos, tanto pode acordar borboletas quanto lagartas. E eu não estou sozinho na minha suspeita de que muito do que se chama educação é, na verdade, feitiçaria, magia negra. O próprio Hesse tinha amargas lembranças de suas experiências de escola. “Em mim a escola destruiu muita coisa”, ele diz. “E conheço poucas personalidades importantes a que não tenha ocorrido o mesmo. Na escola só aprendi duas coisas: latim e mentiras.” Lichtenberg tinha suspeitas semelhantes em relação às escolas. “Atualmente procura-se divulgar a sabedoria por toda a parte: quem sabe se daqui a poucos séculos não haverá universidades destinadas a restabelecer a antiga ignorância? Parece absurdo? Fernando Pessoa explica: “Procuro despir-me do que aprendi,/ Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,/ E raspar a tinta com que pintaram os sentidos,/ Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,/ Desembrulhar-me e ser eu...” Será isto? Que a educação pode ser um feitiço para nos fazer esquecer quem somos, a fim de sermos recriados à imagem e semelhança de um Outro? O que me faz lembrar um
mural de Orozco, pintor mexicano que passou anos ensinando sua arte num college norte-americano. Foi certamente inspirado pelo que via acontecendo diariamente com os moços que frequentavam as melhores (notem bem, eu disse “melhores”...) escolas que pintou A Formatura: um professor, alto, magro, cadavérico, verde, entrega ao seu discípulo, também alto, magro, cadavérico, verde, a prova final do seu saber: o diploma, um feto morto, dentro de um tubo de ensaio. Se isto for verdade, se o que o processo educativo faz não é despertar e fazer brotar os universos selvagens que moram em nós, mas antes espalhar herbicidas para depois plantar as sementes da monocultura (afinal de contas, cada corpo deve ser útil socialmente...) que um Outro ali semeia, então o caminho da verdade exige um esquecimento: é preciso esquecer-se do aprendido, a fim de se poder lembrar daquilo que o conhecimento enterrou. “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?”, pergunta T. S. Eliot. “Onde está o conhecimento que perdemos na informação?” Penso que este é o sentido do parágrafo perturbador com que Roland Barthes termina sua aula inaugural como professor do College de France: “Desejo, agora, deixar-me levar pela força de toda a vida realmente viva: o esquecimento. Há uma idade em que se ensina o que se sabe. Em seguida vem uma outra em que se ensina o que se não sabe. Chega, talvez agora, a idade de uma outra experiência: aquela de desaprender, de fazer trabalhar as transformações imprevisíveis que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas e das crenças por que se passou.A miséria da educação não aparece onde ela é pior. Sua miséria se revela justamente onde ela é excelente, competente. Pois, quando é que dizemos que ela é excelente? Justamente ali onde ela consegue, com competência, administrar a qualidade dos corpos que ela deseja transformar. E que transformação é esta que se deseja? Quem dá a resposta de maneira mais clara e direta é Clark Kerr, presidente da Universidade de Berkeley, durante a crise estudantil que a agitou no início dos anos 60. Estas são as suas palavras: “A universidade é uma fábrica para a produção de conhecimento e de técnicos a serviço das muitas burocracias da sociedade”. Coisa que Nietzsche havia percebido muito antes, o que indica que esta tendência da educação não é coisa nova. “O que as escolas superiores na Alemanha realmente realizam é um treinamento brutal, com o objetivo de preparar vastos números de jovens, com a menor perda possível de tempo, para se tornarem usáveis e abusáveis a serviço do governo.”

Não importa o nome que se dê a este Outro, para quem as crianças e jovens são moldados. Não importa o retorno econômico que se possa obter ao fim deste processo. Permanece um fato fundamental: que ele só se
realiza ao preço da morte dos universos que um dia viveram, como possibilidades adormecidas no corpo das crianças: todo Leonardo deve se transformar em funcionário, toda borboleta deve se transformar numa lagarta, todo campo selvagem deve se transformar em monocultura. Não é de se admirar, portanto, que as pessoas passem as suas vidas com a estranha sensação de que não era bem aquilo que desejavam. Elas foram alguma coisa diferente dos seus sonhos, e esta traição as condenou à infelicidade. Só lhes resta então compreender a verdade das palavras de Paulo Leminski: “Ai daqueles que não morderam o sonho e de cuja loucura nem mesmo a morte os redimirá.”


Rubem Alves (Correio Popular, 13/08/1991)

Constância do deserto

ennio montariello


Em praias de indiferença
navega meu coração.
Venho desde a adolescência
na mesma navegação.
Por que mar de tanta ausência,
e areias brancas de tão
despovoada inconsistência,
de penúria e de aflição?

(Triste saudade que pensa
entre resposta e a intenção!)
Números de grande urgência
gritam pela exatidão:
mas a areia branca e imensa
toda é desagregação!

Em praias de indiferença
navega meu coração.
Impossível, permanência.
Impossível, direção.
E assim por toda a existência
navegar, navegarão
os que têm por toda ciência
desencanto e devoção.


Cecília Meireles, in: Mar Absoluto

Eduardo e a vida sadia


Seu Marciano tornou-se sócio do clube, o filho praticava natação. 
— Por que você não joga basquete? — sugeria Letícia — Natação é tão sem graça...
Porque natação não depende de ninguém, só de mim.
Em seis meses era o melhor nadador de sua categoria, e ameaçava já o recorde dos adultos. Uma espécie diferente de emoção — a de poder contar consigo mesmo, e de se saber, numa competição, antecipadamente vencedor. Os entendidos sacudiam a cabeça, admirados:
— Quem diria, esse menino...
Era uma espécie de êxtase: fazer de simples prova de natação, a que ninguém o obrigava, uma disputa em que parecia empenhar o destino, fazer da arrancada final uma luta contra o cansaço, em que a vida parecia querer prolongar-se além de si mesma.
Dia de competição. As luzes da piscina acesas, as arquibancadas cheias. Ambiente de expectativa, medo, alegria, excitação. Alto-falantes comandando ordens, convocando nadadores, apostas, previsões, torcida, gritaria. Nada da paz quase bucólica da piscina da torcida, gritaria. Nada da paz quase bucólica da piscina nos dias de treino — o rigor e a monotonia dos exercícios, de manhã e de tarde, o longo, lento e meticuloso esforço durante meses e meses, para ganhar décimos de segundo na luta contra o cronômetro. Refugiado no vestiário, enrolado em cobertor, Eduardo aguardava o momento de sua prova, ouvindo, lá fora, os aplausos da multidão. Logo chegaria a sua vez. Chico, o roupeiro, aparecia para dar-lhe a notícia da competição.   — Estamos ganhando. Daqui a pouco é você.
Encolhido num canto, o nadador mal ouvia as palavras do preto. Sua emoção se traduzia em longos bocejos, o medo era quase náusea, a expectativa era uma ilusória, persistente e irresistível vontade de urinar. A multidão voltava a aplaudir lá fora. —Daqui a pouco é você”.
Nunca saía do vestiário antes da hora de nadar.
— Quanto está a água hoje? — perguntava ao roupeiro. Era o único nadador que não interrompia os treinos no inverno, sozinho, a água gelada, a piscina fechada aos sócios. Tudo importava: a temperatura da água, a raia que lhe caberia, as condições do adversário. Já o tinha sob controle, sabia o que deveria fazer desde a saída — sabia que deveria esquecê-lo tão logo começasse a nadar, esquecer a assistência, nadar apenas contra o cronômetro — a menor quebra do ritmo necessário significaria um décimo de segundo a menos, talvez — significaria a derrota. Nadar era difícil, ficava cada vez mais difícil... Onde quer que surgisse um recordista, logo surgia outro para abaixar-lhe o recorde. — Estamos ganhando. Daqui a pouco é você.
Encolhido num canto, o nadador mal ouvia as palavras do preto. Sua emoção se traduzia em longos bocejos, o medo era quase náusea, a expectativa era uma ilusória, persistente e irresistível vontade de
urinar. A multidão voltava a aplaudir lá fora. — “Daqui a pouco é você”.
Nunca saía do vestiário antes da hora de nadar.
— Quanto está a água hoje? — perguntava ao roupeiro. Era o único nadador que não interrompia os treinos no inverno, sozinho, a água gelada, a piscina fechada aos sócios. Tudo importava: a temperatura da água, a raia que lhe caberia, as condições do adversário. Já o tinha sob controle, sabia o que deveria fazer desde a saída — sabia que deveria esquecê-lo tão logo começasse a nadar, esquecer a assistência, nadar apenas contra o cronômetro — a menor quebra do ritmo necessário significaria um décimo de segundo a menos, talvez — significaria a derrota. Nadar era difícil, ficava cada vez mais difícil... Onde quer que surgisse um recordista, logo surgia outro para abaixar-lhe o recorde. Ignorar tudo, concentrar-se. Vontade de dormir, de desistir, fugir, sair correndo, esquecer aquele suplício. Medo. Os outros também se sentiriam assim, fragilizados pela emoção, sucumbidos pela espera?
Munira-se de alguns minutos de descanso e solidão, curtidos em agonia no vestiário — era a sua reserva. Ali fora, os nervos se esbandalhariam ante o que o aguardava — que viesse imediatamente. 
— Mostra a essa gente, Eduardo.
— É pra valer!
— Capricha, menino.
— Está bem, está bem...
Deslumbrado pela luz dos refletores, desprotegido e nu, ia caminhando para o sacrifício. Era como se o mundo interrompesse o seu giro e se equilibrasse, oscilante, debaixo dos pés. Nada mais existia senão a fatalidade, da qual agora não poderia fugir. Os homens se dividiam em duas espécies: os que nadam e os que veem os outros nadar; os que já nadaram e os que ainda vão nadar; os que vencem e os que perdem.
— Eduardo Marciano!
Apresentava-se.
— Raia quatro.
A seu lado, o adversário mais temido. A assistência os identificava, à borda da piscina, prorrompia em gritos. Um fotógrafo se aproximava, o flash explodia, iluminando por um instante o rosto juvenil dos nadadores, envelhecidos pela emoção, como num palco. 
— Concorrentes a postos! — comandava o alto-falante. — Para a saída!
Mafra, o treinador, ditava-lhe rapidamente as últimas instruções:
— Rodrigo vai forçar para você nos primeiros cinquenta. Deixe ele ir. Olhe o ritmo. Nade sozinho.
Subia vagarosamente a banqueta, relaxava o corpo. Curvado, ficava à espera, sem olhar para os lados. A superfície da água ia-se amansando, depois da agitação da última prova. Raios de luz dos refletores submersos dançavam lentos, verberando nos azulejos e dando uma limpidez fantástica ao verde-azul da piscina.
— Atenção!
O apito do juiz. A multidão silenciava, de súbito, e não se ouvia um só ruído, como se algo de terrível estivesse para acontecer. Os nadadores se imobilizavam, crispados nas suas banquetas, aguardando
o tiro de saída. O juiz erguia o revólver, o dedo se contraía no gatilho.
— Oh! — fazia a assistência. Um dos concorrentes armara o salto, mas dera saída em falso. Um desastre para o nadador, seus nervos não resistiriam.
— Atenção!
Ouvia-se novo apito do juiz. Outra vez a assistência silenciava, em suspenso, e os nadadores se enrijeciam como estátuas, curvados e tensos. Um tiro, e todos se atiravam para a frente, a água se estilhaçava.

Quebrou vários recordes, foi ao Rio e a São Paulo competir com os maiores nadadores nacionais. Vivia para a natação: dormia cedo,  alimentava-se bem, fazia ginástica. O pai começou a preocupar-se:
— Você não está exagerando? De que lhe serve tanto esforço...
— Seus estudos — dizia a mãe.


Fernando Sabino, O Encontro marcado
anatoly piatkevich


O som desta paixão esgota a seiva
Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;
O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.
O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.


Mário Faustino,  O homem e sua hora e outros poemas. 
São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Passeio


1

Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.

E me sabendo quilha castigada de partidas
Não quis meu canto em leveza e brando
Mas para o vosso ouvido o verso breve
Persistirá cantando.
Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.

Serão leves as límpidas paredes
Onde descansareis vosso caminho?
Terra, tua leveza em minha mão.
Um aroma te suspende e vens a mim
Numas manhãs à procura de águas.
E ainda revestida de vaidades, te sei.
Eu mesma, sendo argila escolhida
Revesti de sombra a minha verdade.


2

Lenta será minha voz e sua longa canção.
Lentamente se adensam essas águas
Porque um todo de terra em mim se alarga.

E de constância e singeleza tanta,
Meus mortos hoje sobre um chão de linhos
Por algum tempo guardarão meu ritmo
Nos ouvidos da terra. De granito.

Pude aclarar a sombras nos oiteiros
E aquecer num sopro o vento da tarde.
Mas não vereis ainda meus prodígios
Porque haverá lideiras neste outono
E vossos olhos estarão por lá
Desocupados do sono, extremados
Para uma só visão num só caminho.


3

Quisera descansar as mãos
Como se houvesse outro destino em mim.
E castigar as falas, alimárias
Vindas de um outro mundo que não sei.
Fazê-las repetir suas longas árias
Até que a morte silencie as mandíbulas
Claras.


4

Caminho. E a verdade
É que vejo alguns portais
E entre as grades uns pássaros a leste.
Não sabem de seus passos os meus pés
Nem de mim mesma sei

Mas tantas timidizes se esvaíram
E este meu corpo agora não as tem.

E atravessando os mármores e os muros
Como se fossem mais muros de vento,
Passeio nos jazigos
E um cordeiro de pedra eu apascento.


5

Também nos claros, na manhã mais plena,
A retina ferida nesse vôo que passa além do verde,
É sempre a morte o sopro de um poema.
Entre uma pausa e outra ela ressurge
Ilharga de sol. Ah, diante do efêmero
Hei de cantar mais alto, sem o freio
De uns cantares longínquos, assustados.


6

As aves eram brancas e corriam na brancura das lajes.
As aves eram tantas e sabiam do seu corpo de ave.

Esguias e vorazes consumiam
Os corpos que eram aves menos ágeis.
E as garras assombradas dividiam
As espessuras ínfimas da carne.

Na plumagem umas gotas de sangue
Dos corpos devorados se entrevia.
Mas da vida e do sangue não sabiam
As aves que eram tantas sobre as lajes.

O ritual sincopado das gargantas
Tinha o ruído oco de umas águas
Deitadas bem de leve em algum cântaro.
Todo o espaço se enchia desse canto
E atraía umas aves, outras tantas.

A face do meu Deus iluminou-se.
E sendo Um só, é múltiplo Seu rosto.
É uno em seus opostos, água e fogo
Têm a mesma matéria noutro rosto.
Alegrou-Se meu Deus.
Dessa morte que é vida, Se contenta.


7

O Deus de que vos falo
Não é um Deus de afagos.
É mudo. Está só. E sabe
Da grandeza do homem
(Da vileza também)
E no tempo contempla
O ser que assim se fez.

É mesmo difícil ser Deus.
As coisas O comovem.
Mas não da comoção
Que vos é familiar:
Essa que vos inunda os olhos
Quando o canto da infância
Se refaz.

A comoção divina
Não tem nome.
O nascimento, a morte
O martírio do heroi
Vossas crianças claras
Sob a a laje,
Vossas mães
No vazio das horas.

E podeis amá-Lo
Se eu vos disser serena
Sem cuidados,
Que a comoção divina
Contemplando se faz?



8

Vereis um outro tempo estranho ao vosso.
Tempo presente mas sempre um tempo só,
Onipresente.

A dimensão das ilhas eu não sei.
Será como pensardes ou como é
Vossa própria e secreta dimensão.
Às vezes pareciam infinitas
De larguras extremas e tão longas
Que o olhar desistia do horizonte
E sondava: ervas, água
Minúcias onde o tato se alegrava
Insetos, transparências delicadas
Tentando o voo quase sempre incerto.

O peito era maior que o céu aberto.
Parávamos. E sabeis
Que o que contenta mais o peito inquieto
É olhar ao redor como quem vê
e silenciar também como quem ama.

Éramos muitos? Ah, sim.
Eramos muitos em mim.
O perigo maior de conviver era o perigo de todos.
Nosso Deus era um Todo inalterável, mudo
E mesmo assim mantido. Nosso pranto
Continuadamente sem ouvido
Porque não é missão da divindade
Testemunhar o pranto e o regozijo.

O que esperais de um Deus?
Ele espera dos homens que O mantenham vivo.

E os verdes, os azuis, o chumbo delicado
De umas tardes, a pureza das aves
Os peixes de verniz
Na abertura mais funda de umas águas.


9

Em silêncio plantávamos nas ilhas
Se a noite era de lua prolongada.
Plantava-se na terra mais sagrada
Junto às colinas
Porque era ali que os mortos repousavam.
Ah, desamor, nosso tempo perdido
Nossa morte.

Não levávamos rosas como vós
Nem falávamos como falais
Imprudentes, o passo descuidado
E muita vez contente
De caminhar tão vivo na manhã
Sobre o chão dos ausentes.

O corpo se fechava
À entrada dos portais.
A mão direita resguardava o plexo
E só para plantar
Se abria em novo gesto.


10

Com esse caminhar que em sonho se percebe
Ou como um corpo pesado sob as águas
Movimento pausado, movimento leve
Ave maior em voo compassado

Os cavalos da ilha se moviam
Nas grandes areais ensolarados.

O que era corpo em mim, só descansava.
O que não era
Vencia aquele espaço que nos separava.


11

Cavalo, halo de memória, guardo-te no peito
Sobre esta grande artéria
Fonte de vida e alento que sustenta
Amor de madurez e adolescência 

Cantando-te sou teu corpo e tua nudez.
E ombro a ombro seguimos a alameda
Casco de dor num caminho de sol
E labareda, indivisível água
Obrigando-me a ver o que tu vês.


12

Brando, o tempo escorria nos vitrais.
Brando meu passo, nos azulejos claros
Do terraço. O pássaro.

Ah, tempo de fúria sem tempo para contemplar!
Tantas vezes na tarde caminhei nos terraços
Nos pátios
E havia sempre uma limpeza rara nas muradas, na terra.


13

As faces encostadas nos vitrais
e através, as figuras e o jardim
E era tanta a vontade de ver mais
Que uma névoa descia sobre mim

E o que eu queria ver, via jamais.
O cheiro quase rubro dos jasmins
Redobrava meu pranto de ais
Nessa tarde de luz nos seus confins.

Voltou-se o amigo e olhou minha tristeza.
Eu só te vejo a ti. Antes não visse.
Imaginaste a tarde. Ela não existe.

Mas seu rosto era pleno de beleza
E por isso deixei que me mentisse
antes que só por mim ficasse triste.


14

E através dos vitrais as faces duras
contemplavam a tarde no jardim.
O movimento leve das figuras
Caía sobre a tarde e sobre mim.

E no passeio as leves criaturas
Aspiravam o cheiro do jasmim.
vistas de longe pareciam puras
Na claridade de uma tarde assim.

Mas o amigo voltou-se e viu meu pranto.
"É sempre a mesma noite na tua face.
Enquanto choras há lá fora um canto

que de chorees tanto não o sabes.
Bem sei que a noite é imóvel na tua face.
e não te peço alegria. Mas tu ardes."


15

De delicadezas me construo. Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver alem dos outros.
Tenho tido essee olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.


16

E a que se fez criança, tece a rosa.
E a criança também, uma mulher
Contida de silêncio e de memória,
Espera o plenilúnio e elabora
Uma saga de sol.


17

Se possível se fizer o merecê-las
Peço-te dálias, senhor, altas e austeras
Como convém a mim vivendo em estupor.
Dirás que me concedes a cássia ferrugínea
Araucária excelsa, mais sombra e mais altura
Como convém a mim, vivendo nas planuras,

Mas peço-te dálias. De frêmito contínuo
Calcinadas de vento, como convém a mim
Aturdida de amor e pensamento.
Verás. É  dávida melhor. E se possível
Uma de rubro cerne. De parca simetria.
Vendo-a, verei a mim mesma cada dia.


18

A descansada precisão da folha.
O que o olhar adivinha
Sob a mínima extensão.
E a gravidade da flor
Irrompendo de suas claras paredes.
Em tudo o estigma de amor de uma só mão.
Em mim. de um lado, uma garra de fogo
gigantesca, pronta para ferir
E de um gesto agudo incendiar-vos,
e de outro lado a minha outra mão
Amena. Larga


19

Um claro-escuro de sol nos meus cantares
Porque tem sido assim a alma do homem.
Enfeitamos as coisas aparentes
Dando ternura e nome. Em aflição
Deitamos a semente
E ficamos à espera de um verão.
Em fogo se refaz o amor de sempre.

A palavra não basta para o canto.
Nem é o canto de amor essa constante
Aragem de umas praias que escolheis.
Nas ilhas um mormaço, conjeturas,
Vizinhança de chuva, mortos, vivos
Rememorando a tarde em viuvez.


20

De um exílio passado entre a montanha e a ilha
Vendo o não ser da rocha e a extensão da praia.
De um esperar contínuo de navios e quilhas
Revendo a morte e o nascimento de umas vagas.
De assim tocar as coisas minuciosa e lenta
E nem mesmo na dor chegar a compreendê-las.
De saber o cavalo na montanha. E reclusa

Traduzir a dimensão aérea do seu flanco.
De amar como quem morre o que se fez poeta
E entender tão pouco seu corpo sob a pedra.
E de ter visto um dia uma criança velha
Cantando uma canção, desesperando,
É que não sei de mim. Corpo de terra.


21

Naquela casa azul e avarandada
As mulheres fiavam como irmãs.
Se eram de um mesmo pai as maduradas,
A que foi mãe, amou. Memórias vãs.

De todas em amor o pai cuida
Repartindo suas terras e suas lãs.
E a que pariu em dor, a mais amada
Vigia sob a terra as tecelãs.

Se ao longo do meu rio, nos arrozais,
Avistardes a casa e as mulheres
(Dedos de azul em luz em luz sobre o tear)

Que o passo seja breve. E muito mais
É dizer-vos que tecem malmequeres
E em vão se aquecem sob o vosso olhar.


22

Se a chuva continua, se nos ares
apodrece a romã e o mamoeiro
Deita-te leve sobre os teus linhares
E na mulher semeia o teu herdeiro.
Há de voltar o sol nos teus pomares
e assim terás um tempo o sol e o filho.
Deita-te. Nosso tempo de amar tem seus findares
E os frutos antecedem teu idílio.


Hilda Hilst
Livro: Exercícios, Editora Globo, São Paulo, 2002, p. 45-68
Imagens: Anatoly Piatkevich

For a Poet



I have wrapped my dreams in a silken cloth,
And laid them away in a box of gold;
Where long will cling the lips of the moth,
I have wrapped my dreams in a silken cloth;
I hide no hate, I am not even wroth
Who found earth's breath so keen and cold;
I have wrapped my dreams in a silken cloth,
And laid them away in a box of gold.


Countee Cullen

No Soy de Aqui



Me gusta el mar y la mujer cuando llora 
las golondrinas y las malas señoras 
saltar balcones y abrir las ventanas 
y las muchachas en abril
Me gusta el vino tanto como las flores 
y los amantes, pero no los señores 
me encanta ser amigo de los ladrones 
y las canciones en francés
No soy de aquí, ni soy de allá 
no tengo edad, ni porvenir 
y ser feliz es mi color 
de identidad
Me gusta estar tirado siempre en la arena 
y en bicicleta perseguir a Manuela 
y todo el tiempo para ver las estrellas 
con la María en el trigal
No soy de aquí, ni soy de allá 
no tengo edad, ni porvenir 
y ser feliz es mi color 
de identidad


Facundo Cabral
 F - Nete 


Chovem duas chuvas:
de água e de jasmins
por estes jardins
de flores e nuvens.

Sobem dois perfumes
por estes jardins
de flores e nuvens.

Sobem dois perfumes
por estes jardins:
de terra e jasmins,
de flores e chuvas.

E os jasmins são chuvas
e as chuvas, jasmins,
por estes jardins
de perfume e nuvens.  


Cecília Meireles
Metal Rosicler (1960)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

An He


O leitor é quem está escrevendo o livro. Ler é um ato criativo. E há poucas pessoas que sabem ler. Ler não é um ato passivo como quando a gente vê novela. Os livros que eu gosto de ler são os livros que exigem muito de mim. Daí eu estou a pensar se os livros em vez de ter o nome do escritor, deviam ter o nome do leitor na capa. Ele é quem de fato escreve o livro. Quem começa a ler um livro bom sempre desconhece coisas acerca de si mesmo. Livros extraordinariamente simples são os mais complexos.


António Lobo Antunes
Ennio Montariello


Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa! que filha de Deus!
Tão pálida… ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma…
De noite, aos serenos, a areia é tão fria…
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia…
Não corras assim…
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor,
Teus seios palpitam – a brisa os roçou,
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou…
Não corras assim…
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou,
Sentou-se na praia, sozinha no chão,
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!

Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia…
O seio gelou?…
Não durmas assim!
O pálida fria,
Tem pena de mim!

Dormia: – na fronte que níveo suar…
Que mão regelada no lânguido peito…
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não era mais frio seu gélido leito!
Nem um ressonar…
Não durmas assim…
O pálida fria,
Tem pena de mim!

Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão…
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estátua sem vida,
Tem pena de mim!

E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim…
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu…
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas águas do mar
Não durmas assim…
Não morras, donzela,
Espera por mim!

Álvares de Azevedo

sábado, 11 de janeiro de 2014

Valentin Rekunenko

  
Como captar da vida
o que rápido, foge
entre dúvidas? Como
reter o que, mal surge,
já se desfaz: é sombra,
algo vago, já neutro,
réstia pálida, eco
de nada, de ninguém?
Um minuto se esboça,
rútilo se sonha,
ardente se anuncia.
Onde? Quando? Quem sabe?
Sempre se sabe tarde,
sem mais onde, nem quando


Emílio Moura, in: Itinerário poético

Um beijo

Pamela Whyman


Um minuto o nosso beijo
Um só minuto; no entanto
Nesse minuto de beijo
Quantos segundos de espanto!
Quantas mães e esposas loucas
Pelo drama de um momento
Quantos milhares de bocas
Uivando de sofrimento!
Quantas crianças nascendo
Para morrer em seguida
Quanta carne se rompendo
Quanta morte pela vida!
Quantos adeuses efêmeros
Tornados o último adeus
Quantas tíbias, quantos fêmures
Quanta loucura de Deus!
Que mundo de mal-amadas
Com as esperanças perdidas
Que cardume de afogadas
Que pomar de suicidas!
Que mar de entranhas correndo
De corpos desfalecidos
Que choque de trens horrendo
Quantos mortos e feridos!
Que dízima de doentes
Recebendo a extrema-unção
Quanto sangue derramado
Dentro do meu coração!
Quanto cadáver sozinho
Em mesa de necrotério
Quanta morte sem carinho
Quanto canhenho funéreo!
Que plantel de prisioneiros
Tendo as unhas arrancadas
Quantos beijos derradeiros
Quantos mortos nas estradas!
Que safra de uxoricidas
A bala, a punhal, a mão
Quantas mulheres batidas
Quantos dentes pelo chão!
Que monte de nascituros
Atirados nos baldios
Quantos fetos nos monturos
Quanta placenta nos rios!
Quantos mortos pela frente
Quantos mortos à traição
Quantos mortos de repente
Quantos mortos sem razão!
Quanto câncer sub-reptício
Cujo amanhã será tarde
Quanta tara, quanto vício
Quanto enfarte do miocárdio
Quanto medo, quanto pranto
Quanta paixão, quanto luto!...
Tudo isso pelo encanto
Desse beijo de um minuto:
Desse beijo de um minuto
Mas que cria, em seu transporte
De um minuto, a eternidade
E a vida, de tanta morte.


Vinícius de Moraes

Sou um estrangeiro nesse mundo



Sou um estrangeiro nesse mundo

Sou um estrangeiro, e há na vida do estrangeiro uma solidão pesada e um isolamento doloroso. Sou assim levado a pensar sempre numa pátria encantada que não conheço, e a
sonhar com os sortilégios de uma terra longínqua que nunca visitei.

Sou um estrangeiro para meus parentes e amigos. Quando encontro um deles, penso:
"Quem é ele? Onde o encontrei? Que me une a ele? Por que me aproximo dele e o freqüento?"

Sou um estrangeiro para minha alma. Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu Eu interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, meu outro
Eu estranha o que ouve e vê, e minha alma interroga minha alma. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.

Sou um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me olho num espelho, vejo
no meu rosto algo que minha alma não sente, e percebo nos meus olhos algo que minhas profundezas não reconhecem.

Quando caminho nas ruas da cidade, os meninos me seguem, gritando: "Eis o cego,
demos-lhe um cajado que o ajude." Fujo deles. Mas encontro outro grupo de raparigas que me seguram pelas abas da roupa, dizendo: "É surdo como uma pedra. Enchamos seus ouvidos com canções de amor e desejo." Deixo-as, correndo. Depois, encontro um grupo de homens que me cercam, dizendo: "É mudo como um túmulo, vamos endireitar-lhe a língua." Fujo deles com medo. E encontro um grupo de velhos que apontam para mim com dedos trêmulos, dizendo: "É um louco que perdeu a razão ao freqüentar as fadas e os feiticeiros."

Sou um estrangeiro, e já percorri o mundo do Oriente ao Ocidente sem encontrar minha
terra natal, nem quem me conheça ou se lembre de mim.

Acordo pela manhã, e acho-me prisioneiro num antro escuro, freqüentado por cobras e
insetos. Se sair à luz, a sombra do meu corpo me segue, e as sombras de minha alma ma
precedem, levando-me aonde não sei, oferecendo-me coisas de que não preciso, procurando algo que não entendo. E quando chega a noite, volta para casa e deito-me numa cama feita de plumas de avestruz e de espinhos dos campos.

Idéias estranhas atormentam minha mente, e inclinações diversas, perturbadoras,
alegres, dolorosas, agradáveis. À meia-noite, assaltam-me fantasmas de tempos idos. E almas de nações esquecidas me fitam. Interrogo-as, recebendo por toda a resposta um sorriso. Quando procuro segura-las, fogem de mim e desvanecem-se como fumaça.

Sou um estrangeiro neste mundo. Sou um estrangeiro, e não há no mundo quem conheça uma única palavra do idioma da minha alma.

Caminho pela selva inabitada, e vejo os rios correrem e subirem do fundo do vale ao
cume da montanha. E vejo as árvores desnudas se cobrirem de folhas, e florirem, e frutificarem, e perderem suas folhas num só minuto. Depois, suas ramas caem no chão e se transformam em cobras pintalgadas.

E as aves do céu voam, pousam, cantam gorjeiam e depois param, abrem as asas e
viram mulheres nuas, de cabelo solto e pescoços esticados. E olham para mim com
sensualidade. E estendem suas mãos brancas e perfumadas. Mas, de repente, estremecem e somem como nuvens, deixando o eco de risos irônicos.

Sou um estrangeiro neste mundo.

Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em verso, e em versos o que a vida
põe em prosa. Por isto, permanecerei um estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para minha pátria...

Gibran Khalil

Torre azul



é preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
é preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto mar perdida.
é preciso construir uma torre...
é preciso construir um túnel...
é preciso morrer de puro,
puro amor!


Mário Quintana,  Baú de espantos. Rio de Janeiro: Globo, 1986.
 Ralph Heimans

Um livro é como um ninho. Faz-se
entrelaçando palavras, raminhos
de fala, pedacinhos de canto e de
sabedoria. Com a destreza
e o êxtase
da luz.

O poeta habita o livro. A casa
de versos. Nela come e dorme e sofre
com as palavras. Mas também se comove
e se diverte. Com elas saúda
as mãos, os olhos, a vida
do leitor.


Joaquim Pessoa, in Guardar o fogo

Nossa vida

Pat Erickson


Nada substitui a nossa vida. Por mais pequena que seja, ainda é a nossa vida.

Escrevemos "nossa vida" e já sentimos orgulho. Tente.

A falta de confiança nos leva à inveja.

As enquetes e testes das revistas femininas sempre pretendem dizer que a nossa trajetória está errada, da necessidade de modificar logo o relacionamento antes que seja tarde, esquentar a intimidade, aquecer os jogos do casal, viajar e exigir caprichos e cuidados de nosso parceiro.

Ninguém nos dá motivos para permanecer do jeito que somos, percebeu?

Há um interminável apelo a mudar o cabelo, mudar de roupa, mudar de marido, mudar de esposa, mudar de casa, mudar de hábitos, mudar de personalidade.

Se a relação não dá certo, é que faltou se transformar. A rotina invariavelmente é a culpada. O sexo decaiu porque você não aprendeu dança do ventre. Seu par se interessou por colega de profissão porque você não ampliou o repertório de posições sexuais. Não manteve o casamento porque não trocou o cardápio à base do feijão, arroz e massa e não investiu nas iguarias afrodisíacas da Tailândia.

É sempre alguma coisa que não foi feita, criando uma culpa invejosa, a ponto da esposa ou do marido concluir: “Todo mundo faz, menos eu”.

Somos condenados a procurar “o tempero” do relacionamento enquanto deixamos a comida queimar. Leia-se tempero tudo o que não se realiza. Nosso modo de puxar conversa é equivocado. Nosso modo de brigar não é o ideal. Nosso modo de lidar com os filhos complica a independência amorosa.

Se estamos felizes, estamos desinformados. Há uma exigência para se atualizar com dicas e truques, sob a ameaça de que a concorrência (solteiros e solteiras) está preparada.

Não há saída. A paranoia se infiltra na paz ou na guerra. Alimentamos uma permanente insatisfação, uma rejeição premeditada. E cobramos de nossa companhia uma perfeição impossível.

A impressão é que deveríamos estar em outro lugar, em outra biografia, que alguém roubou a nossa história e desfalcou nossos prazeres.

O problema que identificamos é simples: não damos valor para aquilo que somos, para as próprias experiências do casamento. Não cuidamos do que temos.

Desejamos um armário novo, não apenas uma roupa. Não queremos menos. É tudo ou nada.

Não enxergamos as delicadas novidades dentro dos hábitos. Subestimamos as variações da correnteza diária. Ganhar uma nova peça é poder arrumar as antigas, reencontrar combinações e reavivar acessórios.

A ambição enfraquece os significativos e discretos avanços.

Cansei da futilização do amor. Amor é essencial, é tão importante quanto o orçamento doméstico ou pagar as contas. Amor é economia. É cuidar com elogio para evitar a falência. É zelar pelo patrimônio das palavras para ter o que lembrar e falar.

A mulher fica a responsável por compreender e salvar a relação. É uma infantilização do homem. Em vez de chamar para a cumplicidade, a mulher aproveita e fortalece o preconceito, antecipando que ele não se dispõe a debater os rumos da casa, que não gosta do assunto, que nem vale a pena, que terminará por debochar e chamar de ridículo. Será que não é teimosia? Ou preguiça para rebater as discordâncias? Será que não é apenas a vontade de decidir sozinha?

Talvez não seja o homem que boicota a intimidade, mas a mulher que não tolera o retrabalho de uma segunda opinião.

Um exemplo é quando o marido decide ajudar nas tarefas domésticas, após longa insistência da esposa. Ele vai limpar o fogão. Fica uma hora passando esponja, areando, procurando brilho metálico. Quando termina, a esposa não perde a chance de mostrar que ele é incompetente para aquilo:

- Você está confundindo o fogão com carro? Não sabe limpar.

Finalmente, quando seu parceiro atende seu chamado, em vez de animá-lo a prosseguir em novas oportunidades, trata de castigá-lo como um filho desobediente. Uma hipótese é que a mulher tem dificuldade de repartir as atividades porque as coisas não serão feitas como ela costuma arrumar. É óbvio que não. Então, ela ordena:

- Deixa que eu faço.

“Deixa que eu faço” é o equivalente a concluir “Você não serve para nada”. E ele não se candidatará a atividade novamente para evitar humilhações. O homem terá que cozinhar mal para cozinhar bem, terá que lavar superficialmente as roupas para entender a arte da espuma, terá que varrer pelo centro até localizar as sujeiras dos cantos.

O que não acontece é suportar o período de adaptação do voluntário. Ansiamos que acerte de primeira, e sem vacilação. A esposa pretende que ele colabore, porém não pretende perder tempo ensinando.

Esqueça o conto de fadas por um momento. Encontrar alguém é fazer por merecer, não é deixar que o relacionamento se faça sozinho.

Localizar o par ideal é fácil, difícil é suportá-lo.

Vem a convivência e estraga a telepatia do início: ele tem mania de palitar os dentes, ela usa calcinha cor de pele; ele ama a solidão mais que a própria vida, ela deseja filhos; ele toma cerveja, ela é adepta do suco natural; ele joga futebol, ela consulta a cartomante; ele sonha em montar negócio próprio, ela idealiza meditar em centro budista; ele espera assistir corridas em Interlagos, ela torce para um dia ver o grupo de balé Bolshoi.

Por um tempo, durante a paixão, acreditamos ter encontrado o perfil sonhado. Mas paixão é férias, amor é trabalho.

Amar é se esforçar o dobro para permanecer junto: como conciliar as vontades? Como organizar as doutrinas? Como parar de adivinhar o desenlace futuro?

Para fazer um matambre recheado, precisamos de linha de costura; para assar o peixe na brasa, dependemos de papel alumínio; para a longa vida do motor, só trocando o óleo a cada cinco mil quilômetros.

É mais feliz quem compreende que estar triste é parte natural da vida. E quem compreende essa simplicidade, não precisa mais vencer sempre.

A vida exige ciência. A ciência de conviver nada tem a ver com truques visuais: meia-calça de seda, cinta-liga, cueca boxer branca. Os efeitos especiais ajudam a formar um clima agradável, entretanto, não garantem o desempenho emocional.

A ciência de conviver depende da coragem, isso sim. Coragem de defender o amor. A coragem é o verdadeiro ingrediente secreto, a pimenta dedo-de-moça do acarajé, o leite condensado do brigadeiro.

Salgado, doce, coragem.

É quando não importa mais quem colocou a bola em campo: todos podem jogar.

É quando não tem diferença nenhuma definir quem errou, mas quem se prontifica a consertar.

É quando o senso de justiça cede lugar ao apelo da união.

É quando o ímpeto de estar bem juntos supera a ansiedade de dominar e ter razão.

É quando a insegurança larga a intolerância e entende o improviso e a limitação de cada um.

É quando a coragem aparece. Porque saberemos que dependeremos para sempre daquela pessoa para assumir a própria individualidade. Amar, portanto, não é mudar, é se aceitar.

Amamos para que o outro nos ajude a não apagar aquilo que somos. É certo que esqueceremos um dia, entraremos em desvalia, desconheceremos nosso tamanho, mas o outro nos lembrará do que já foi feito e do que necessita ser feito.

Amamos para que a nossa vida nos seja devolvida de repente. O marido ou a esposa é a chave reserva de nossa memória. Nosso backup.

Melhor do que confiança no relacionamento é coragem.

Coragem para aceitar alguém de volta. Coragem para perdoar o erro e a fraqueza. Coragem para assumir o que o coração anseia, apesar da aparência e dos outros.

Coragem é reconhecer o medo e seguir adiante mesmo assim.


Fabrício Carpinejar

O suicida




Não restará na noite uma estrela.
Não restará a noite.
Morrerei, e comigo a soma
do intolerável universo.
Apagarei as pirâmides, as medalhas,
os continentes e os rostos.
Apagarei a acumulação do passado.
Transformarei em pó a história, em pó o pó.
Estou mirando o último poente.
Ouço o último pássaro.
Deixo o nada a ninguém.


 Jorge Luis Borges

Fazer amor com a poesia


 Ouka Fukui


Deito-me com as palavras
beijo a boca dos poemas
quando a razão desvaria

Manipulo a linguagem
tomo a nudez dos meus versos
faço amor com a poesia


Maria Teresa Horta