quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Acorde!

A ORIGEM DA SUA COMIDA!


Deixai-me limpo
O ar dos quartos 
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.

Sophia de Mello Breyner Andresen 

quarta-feira, 4 de novembro de 2009



Amizade. Desenhe o teu riso sobre essa palavra e vejo-te inteira no lugar dela.


Inês Pedrosa, Fazes-me falta

Fragmentos de um evangelho apócrifo



3. Desventurado o pobre de espírito, porque debaixo da terra será o que é agora na terra.

4. Desventurado o que chora, porque possui o hábito miserável do pranto.

5. Ditoso aquele que sabe que o sofrimento não é uma coroa de glória.

6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.

7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a têm.

8. Feliz o que perdoa aos outros e o que perdoa a si mesmo.

9. Bem-aventurados os mansos, porque não condescendem com a discórdia.

10. Bem-aventurados os que não têm fome de justiça, porque sabem que a nossa sorte, adversa ou piedosa, é fruto do acaso, insondável.

11. Bem aventurados os misericordiosos, porque a sua fortuna está na prática da misericórdia e não na esperança de um prémio.

14. Ninguém é o sal da terra, ninguém, em momento nenhum da vida, jamais.

40. Não julgues a árvore pelos frutos, nem o homem por suas obras; podem ser piores ou melhores. (…)

Jorge Luis Borges
Elogio de la Sombra (1969)

Animais. Ame-os!


"Todos os seres vivos tremem diante da violência.
Todos temem a morte, todos amam a vida.
Projete você mesmo em todas as criaturas.
Então, a quem você poderá ferir?
Que mal você poderá fazer?"




Buda

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De manhã escureço




Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em  que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.


Vergílio Ferreira

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A Busca da Felicidade ou do Sofrimento


O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo mundo. Efetivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do mundo que são, exilados na sua própria pátria. Excepto nos momentos fulgurantes da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus atos escapam-lhes noutros atos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas; fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que, ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela termina. Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre.
Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.

Albert Camus, in "O Homem Revoltado"