segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Porta Secreta

vicente romero


Vou te passar um motivo que te faça como fez em mim, a nossa alegria alegria. O grande sopro que veio pelo mel de todos os segredos, pelo som de todos os brinquedos, um canto leve que leve a gente para outro lugar transparente, que em tudo reluz a boa e forte imagem que chega.

uma calçada cheia de lixo,
refugos que vou atirando para trás
por cima dos ombros,
chegarei um tempo, minha gente,
nessa minha viagem para trás,
onde falarei com velhinhos que estavam
nos rubros campos de batalha
e eles me disseram que o súbito silêncio...
era a Voz de Deus.


Para saber da passagem e qual a ponte a me atravessar, que próxima vinda me chega no corte das atrações em dia?

Um magneto espesso, um solenóide aparente, os átomos bulindo, como eu diria: no gosto do fino cálculo.

Descer da solidão, é se jogar no teu abismo. Naquela sensação de tiro e queda, um pulo no carnaval de cada um. A sensação das procuras e dos desejos. O saciar qualquer vontade, qualquer coisa que provoque fagias no teu denso mistério de homem. Teu curioso olho em flerte com o desafio.


por detrás das montanhas,
quando vens cada ciclo,
me estremeço de veias,
fico mudo de pleno
ano-luz amarela
que derrete os minerais,
que amolece os animais
curandeira das trevas,
pastorinha do cais,
que recebo em teus raios
no alimento das sombras
que chegaram relâmpagos
entre olhos de pedras
cavalgaram teu dorso
nos umbigos da terra
nos rochedos que rompem
ante um raio mais forte,
os sons das guitarras,
faíscas da vida.


Um torvelinho louco que nos levou em pouco tempo para o ventre dos abismos, nunca verá o brilho que engana os olhares curiosos dos nossos inimigos. E o milagre dos venenos que trouxeram todo o ardor do fogo nos ouvindo e nos livrando do que antes fora um barco salvador.


os portões do éden vão se abrir
e os quatro cavaleiros armados
de carabinas e armaduras medievais
vão invadir os templos sagrados
e espalharão sede nas campinas
nem as ervas sobreviverão,
por mais daninhas que sejam,
nem os peixes e nem os caçotes
suportarão o peso das águas.
mas as serpentes tentarão reagir,
lançando fogo sobre o metal vil,
laçando bichos já estrangulados
pela ação corrosiva dessa erosão,
os holofotes do pequeno dragão,
um fusco-pálido mais brancoso,
poderá iluminar no céu.
um para-quedas com uma cruz vermelha
e os ossos brancos do pirata negro
na abordagem da ilha do sossego.


Qual é a mais estranha e distante percepção que uma projeção humana pode ser lançada no universo do seu raciocínio lógico e ilógico?

O desconhecido sempre existirá. Porque o vocábulo exprime exatamente o que não pode ser definido como um conhecimento tátil ou teórico de alguma coisa dura, etérea ou regiões avançáveis. O sentido literal não é absoluto no "conhecido" e no "desconhecido' Maniqueísmo valor aplicado. As luzes acendem-se e apagam-se no cérebro do homem, deixando-o fantoche das suas emoções, e comandos da sua vontade.


esteja eu perto ou longe,
mantenha sempre nos olhos
a minha imagem que eu me tranformo
em olhar e em coração para embalar
essa lembrança
e desprender suas luzes na madrugada
todos que foram empalhados,
não mais estaremos calados
como bichos alados que voam
no silêncio da sua própria solidão,
de quem souber imantar
a vela mais que fulgas
o tempo para na curva e manda um beijo
para a filha da chuva
correio da noite
vai amanhecer
e a manga da foice,
se clara se vê.
se foi ante-ontem,
espero que contem
quem foi sem morrer

tua porta, tão larga
vive aberta em silêncio,
pois só treme nos gonzos
quando rangem os seus dentes.

mas quem for lá cruzá-la,
vai viver seus momentos,
pois é lá que habitam
todos os sexos dos anjos
e os chocalhos da cobra
no olhar do sertão


Essa porta tem um ferro transparente como seda e uma rigidez tão sólida quanto a inocência das crianças. Ela vem de outros movimentos, de outros murmúrios, de outros paradigmas que não esses que são corrompidos desde que se coagularam nessa dimensão escabrosa do novo pensamento mundial.


Zé Ramalho


Llena con tu sol el vacío de tus noches…
Llena con tu silencio el vacío de tus palabras.

Alejandra Pizarnik

domingo, 15 de novembro de 2009

Peder Mork Monsted

Na ribeira deste rio 
Ou na ribeira daquele 
Passam meus dias a fio. 
Nada me impede, me impele, 
Me dá calor ou dá frio.

Vou vendo o que o rio faz 
Quando o rio não faz nada. 
Vejo os rastros que ele traz, 
Numa sequência arrastada, 
Do que ficou para trás.

Vou vendo e vou meditando, 
Não bem no rio que passa 
Mas só no que estou pensando, 
Porque o bem dele é que faça 
Eu não ver que vai passando.

Vou na ribeira do rio 
Que está aqui ou ali, 
E do seu curso me fio, 
Porque, se o vi ou não vi. 
Ele passa e eu confio.


Fernando Pessoa


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Edmund Blair Leighton

“Os homens se casam porque estão cansados e as mulheres, por curiosidade. Os dois se decepcionam.”

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray

Dor elegante

aldo balding

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser minha última obra


Paulo Leminski
(in: la vie en close , p. 284)

O Leito Conjugal - (2)


Se, em nossa sociedade, a possessão da mesma mulher por dois homens foi considerada criminosa é porque religião e hipocrisia quiseram ver no amor nódoa, vergonha, ato dúbio executado nas trevas. Mas, por que não considerar o amor – o que, para mim, todo homem digno desse nome deve fazê-lo – como o mais elevado mistério humano? Não tenhais, pois, a ilusão de poluir u’a mulher, injuriá-la, sujar-vos vós mesmos possuindo-a, e então, vos sentireis mais próximos, pela comunidade de vosso amor. [...] – Nada ficou do antigo edifício social que nossos pais conheceram. E é preciso que, neste que se forma sobre entulhos, se procure purificar os costumes, não os restingindo pela hipocrisia, mas penetrando-os de maior franqueza, mais ar, mais liberdade. A moral individual vai substituir a moral comum. No futuro será apenas à sua consciência que cada um dará o direito de julgar seus atos. Vejo nascer um novo amor, reabilitado, livre do último estigma da maldição lançada contra a primeira mulher. Um amor que estreitará os laços comuns, amor isento de ódio, amor que nos fará, efêmeras criaturas humanas, sentir estremecer em nós a levedura misteriosa da mais alta humanidade. [...] Agirei à minha vontade, consoante o meu sonho, e veremos se tereis a força de seguir-me. Se falharmos, outros virão depois de nós. De qualquer maneira, porém, em dia que se aproxima, a mulher será igual ao homem no amor; e este sentimento que nos enobrece, nos faz criadores, será retirado definitamnte da lama, do ludibrio onde o mantinham até aqui.
E, tendo lançado sobre eles um último olhar e lido a sua ternura e o próprio domínio, saiu da sala, o coração transbordando do tumulto de seus amores ameaçados, que já agora aligeirava um sopro de juvenil e audaz esperança.


Nicolas Ségur



Ahora sé por qué estoy enamorada. Por su silencio. Su silencio es la presencia de las cosas en vez de su representación imaginaria.

Alejandra Pizarnik

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Elogio do pecado

Antonio Tordesillas 


Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza
você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa
Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

Bruna Lombardi

A espantosa realidade das cousas

Michael James Smith

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.


Basta existir para se ser completo.


Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.


Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.


Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.


Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.


Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.


Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.


Alberto Caeiro

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vladimir Volegov 


A verdade é amor — escrevi um dia. Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista. Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em. razão ou mesmo em inteligência. Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. E só o consente, se o amar. Porque mesmo a verdade dos outros — a política, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la talvez no ódio, que é a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade.

Vergílio Ferreira,"Pensar"